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Traiçoeira grama
Por José Nilton Dalcim
28 de junho de 2021 às 18:01

Por mais que um tenista treine, jogar sobre a grama nas primeiras rodadas sempre é um desafio. O piso começa impecável, mas ao mesmo tempo liso, escorregadio, o que exige adaptações constantes. Até mesmo multicampeões como Novak Djokovic e Petra Kvitova demoram para achar o equilíbrio e por vezes isso custa caro.

Os menos rodados sofrem para entender que é preciso fechar ângulos, ficando perto da linha e correndo em diagonal, assim como tentar usar as bolas mais retas e recorrer a bate-prontos. O deslocamento também precisa ser leve e a antecipação é essencial. Na soma de tudo, fica mais fácil entender como Stefanos Tsitsipas não ganhou set de Frances Tiafoe e por que vários nomes fortes sofreram logo de cara.

Djoko iniciou a defesa do título com pequeno susto, mas era evidente que o garoto canhoto Jack Draper não manteria a consistência. O sérvio achou a devolução, explorou o forehand menos eficiente do adversário e acima de tudo passou a sacar com enorme qualidade. Anotou 25 aces, com um game perfeito de 46 segundos, e acertou 78% do primeiro saque (mais de 80% dos dois sets finais e apenas quatro pontos perdidos após o set inicial). Fez aliás voleios muito exigentes após o saque e terminou com 17 pontos em 22 subidas. Reencontrará Kevin Anderson na quarta-feira, um finalista de Wimbledon que merece respeito mas que não está em ritmo, a ponto de suar muito contra o saibrista Marcelo Barríos.

Tsitsipas foi uma tremenda decepção. Jogou de forma incrivelmente passiva, dando espaço para Tiafoe atacar. À medida que ganhou confiança, o norte-americano de golpes pesados passou a fazer devoluções e contragolpes espetaculares e abocanhou com justiça toda a simpatia do público. Ficou a nítida impressão que o grego não fez a transição correta do saibro para a grama, não apenas técnica como também mental. Em seu quarto Wimbledon, o dono de jogo versátil e completo caiu na primeira rodada pela terceira vez.

Stef pode aproveitar o tempo livre e se inspirar em Andy Murray. Mesmo longe de seus melhores dias, o escocês mostrou no retorno à Central como se joga na grama. Com exceção à reta final da partida, funcionou tudo. Saque, slices, curtas, passos curtos, o essencial bate-pronto e a transição à rede. Depois de fazer 5/0 no terceiro set e ficar tão perto da vitória, vieram os nervos e Murray também mostrou o pior dos erros: esperou Nikoloz Basilashvili errar e isso raramente dá certo nesse piso tão traiçoeiro.

A rodada masculina viu também as quedas dos jovens Jannik Sinner e Alejandro Fokina, o que nem é tão inesperado em termos de grama, mas também a derrota do super-sacador Reilly Opelka para aquele Dominik Koepfer que deu sufoco em Roger Federer no saibro de Paris. O norte-americano disparou 19 aces, mas não salvou um único dos três break-points e jamais ameaçou o serviço adversário. A grama por incrível que pareça não é a praia de Opelka, que só ganhou dois jogos na carreira sobre a superfície. Andrey Rublev e Roberto Bautista perderam sets.

O precoce adeus de Kvitova
Não era de se esperar jogo fácil, mas também não era para derrota. O fato é que Petra Kvitova não se achou em quadra e foi dominada por Sloane Stephens, que ganhou seu sétimo jogo no torneio desde que atingiu as quartas em 2013. A tcheca, que perdeu na sexta-feira para Angelique Kerber na grama alemã, cometeu 20 erros não-forçados, um número gigantesco para este tipo de quadra.

Aryna Sabalenka, Sofia Kenin e Iga Swiatek bateram muito na bola e confirmaram ser boas candidatas a ir longe neste Wimbledon. Sabalenka cravou 48 winners em 17 games. Outro destaque foram os 50 minutos que Garbiñe Muguruza gastou para atropelar Fiona Ferro, 51º do mundo. A francesa ganhou apenas 5 pontos no primeiro set.

Frase do dia
“Sejam gentis com a grama”
Da juíza Eva Asderaki

Caminho aberto para Djoko, chave dura para Federer
Por José Nilton Dalcim
25 de junho de 2021 às 12:16

O sonho nada impossível de conquistar seu terceiro Grand Slam da temporada cresceu para Novak Djokovic depois da formação da chave de Wimbledon. O número 1 do mundo tem teoricamente caminhada muito tranquila até a semifinal, com um ou outro desafio menor até quem sabe chegar no reencontro com Stefanos Tsitsipas.

Curiosamente, a estreia de segunda-feira pode ser o momento mais especial da primeira semana para o sérvio. Ainda que seja totalmente inexperiente em grandes torneios, Jack Draper é britânico e canhoto, o que quer dizer um tenista habituado à grama como mostrou em Queen’s na semana passada, quando venceu Jannik Sinner e Alexander Bublik. Ainda assim, é apenas o 250º do ranking.

Djokovic pode ainda reencontrar Kevin Anderson, que é um adversário gabaritado na grama mas anda muito fora de ritmo. Nole já ganhou três vezes dele em Wimbledon, incluindo virada de dois sets atrás em 2015. Viriam a seguir  Alejandro Davidovich Fokina, Gael Monfils ou Cristian Garin e nas quartas Andrey Rublev, finalista em Halle no domingo sem dar dois voleios por jogo.

Tsitsipas, diga-se, é incógnita neste Wimbledon. Embora tenha estilo apropriado à grama, só ganhou jogos em 2018, quando chegou nas oitavas e parou em John Isner. Não fez também qualquer preparatório nestas semanas e a trajetória parece mais exigente. Estreia diante de Frances Tiafoe, com prováveis duelos seguintes frente a Vasek Pospisil, Karen Khachanov e oitavas contra Alex de Minaur, Daniel Evans ou os não pré-classificados Sebastian Korda e Feliciano López. Se chegar nas quartas, o canhoto Denis Shapovalov ou os sacadores Pierre Herbert ou Reilly Opelka devem estar ali. Andy Murray ficou nesse quadrante e não acredito que consiga superar qualquer um desses.

Do outro lado da chave, Roger Federer encontrará muita dificuldade para repetir a final de 2019. Mesmo fora de sua melhor forma, será favorito contra Adrian Mannarino e Richard Gasquet antes de cruzar com mais um canhoto, Cameron Norrie, que foi muito bem em Queen’s e já representa perigo. Viria nas oitavas Pablo Carreño ou Lorenzo Sonego, com pequena chance de Sam Querrey surpreender. As oitavas têm muitas alternativas, passando por Daniil Medvedev, Maric Cilic e Grigor Dimitrov ou uma surpresa como Jan-Lennard Struff e Alexander Bublik.

Essa parte inferior da chave também tem Alexander Zverev e Matteo Berrettini. Prevejo dureza para o alemão se Ugo Humbert mantiver o embalo e a ótima adaptação mostrada em Halle, enquanto o italiano pode ter de encarar Isner já na terceira rodada. Ficaram nesse meio Felix Aliassime e Nick Kyrgios. O canadense será o difícil adversário de estreia de Thiago Monteiro e o australiano pegou logo Humbert. Estou achando que nem vai aparecer.

Feminino: desafios para Serena
A chave feminina ficou bem interessante. Sem jogar nada na grama até agora, Ashleigh Barty tem no caminho Johanna Konta e Barbora Krejcikova, a campeã de Paris cujo estilo se encaixa bem nos pisos mais velozes. Bianca Andreescu e Vika Azarenka podem duelar nas oitavas, mas são incógnitas pela parte física. Serena Williams, que à semelhança de Federer aposta todas suas fichas em novo Slam neste Wimbledon, também ficou nesse lado superior e seus desafios são grandes: Angie Kerber na terceira fase, Coco Gauff ou Belinda Bencic nas oitavas e Elina Svitolina ou Anastasia Pavlyuchenkova nas quartas. É um setor com várias meninas correndo por fora, como Amanda Anisimova e a ótima sacadora Camila Giorgi.

Aryna Sabalenka pontua o outro lado e seria empolgante ver um confronto com Maria Sakkari nas oitavas. Para as quartas, Garbiñe Muguruza não está jogando bem, mas seu currículo é muito superior na grama ao de Iga Swiatek e Ons Jabeur. O melhor quadrante no entanto reúne Sofia Kenin, Karolina Pliskova, Petra Kvitova, Alison Riske, Jessica Pegula e sacadoras como Kaia Kanepi, Mona Barthel, Polona Hercog e Danielle Collins, sem falar na experiência de Sloane Stephens e Madison Keys. Não arrisco qualquer palpite.

Não perca
A lista de jogos imperdíveis de primeira rodada é bem grande. No masculino, Djokovic x Draper, Tsitsipas x Tiafoe, Evans x Feliciano, Korda x De Minaur, Shapovalov x Kohlschreiber, Murray x Basilashvili, Karatsev x Chardy, Nishikori x Popyrin, Aliassime x Monteiro, Kyrgios x Humbert, Federer x Mannarino, Querrey x Carreño, Verdasco x Dimitrov e Struff x Medvedev.

Já entre as meninas, Barty x Suarez, Andreescu x Cornet, Svitolina x Van Uytvanck, Pegula x Garcia, Kvitova x Stephens, Collins x Hercog, Muguruza x Ferro e Rybakina x Mladenovic.

A fronteira final
Por José Nilton Dalcim
9 de outubro de 2020 às 19:38

Roland Garros percorreu 13 dias quase tão frios como seu inusitado clima de outuno, mas a emoção maior ficou reservada para a final masculina de domingo. Como era previsível desde o sorteio da chave, Novak Djokovic e Rafael Nadal irão mesmo decidir um histórico título.

Enquanto o espanhol busca um inimaginável 13º título em 16 participações e o empate com Roger Federer na contabilidade dos Grand Slam, o sérvio pode se tornar o primeiro profissional com ao menos dois troféus em cada Slam e o único a bater Rafa numa final de Paris. Não dá para ser mais eletrizante.

Os números desse duelo são todos gigantes, de estremecer o chão: os atuais líderes do ranking irão se cruzar pela 56ª vez desde que duelaram nas quartas de Roland Garros de 2006, com 29 vitórias do sérvio. Ele também lidera em finais gerais, com 16 a 11. Há empate por 4 em finais de Slam.

Quando se trata de saibro, no entanto, Nadal dá a volta por cima: 17 a 7 no total, incluindo as três mais recentes. Ganhou 6 de 7 em Roland Garros – única derrota foi nas quartas de 2015 – e faturou as duas decisões entre eles, em 2012 e 2014. Com esse domínio, é superior nos confrontos de Slam, com 9 a 6. Não por acaso, Djokovic é quem mais derrotou Rafa em torneios de Slam, mas o inverso também acontece.

É pretensão querer imaginar o que se passa na cabeça tão experiente de jogadores de tais nível e currículo, mas minha impressão é que existe pressão muito maior sobre Nadal. O motivo parece simples: será que haverá uma nova chance tão expressiva de igualar os 20 títulos de Federer?

Essa ansiedade talvez seja menor para Djokovic. Além de estar diante do mega-campeão, para quem uma derrota por qualquer placar seria mais do que aceitável, ele tem ainda um bom tempo pela frente para colecionar troféus de Slam, dentro e fora do saibro.

Então, é razoável dizer que Nadal tem 60% do favoritismo natural, mas que Nole carrega um peso 60% mais leve.

Esforços distintos
As semifinais desta sexta-feira caminhavam para desfechos muito semelhantes, o que reforçaria a imprevisibilidade da final, mas quando o dia acabou vimos Nadal fazer esforço muito menor para derrotar Diego Schwartzman e se manter sem set perdido nas duas semanas, enquanto Djokovic se desgastou fisica e emocionalmente para conter um abusado Stefanos Tsitsipas.

Ao contrário do que eu esperava, Nadal começou defensivo, cauteloso e trocou quebras com o argentino. Mas Peque não repetia a atuação firme de Roma, com um backhand de ataque muito falho. Foi sendo engolido pelo adversário e, cada vez mais solto, Nadal enfim disparou forehands para abrir larga vantagem, além de sacar cada vez melhor. Atrapalhou-se repentinamente com 3/1 no terceiro set, mais trocas de quebra e Schwartzman reagiu. Forçou um tiebreak, em que então sua produtividade foi pífia.

Djokovic sofreu no game inicial e foi só. Muito mais sólido que o grego, precisou salvar um ou outro break-point para chegar a fácil vantagem. Sacou para acabar com a festa no 5/4 e aí tudo mudou. Até então equivocado na ideia de competir com o sérvio nas trocas da base, o grego enfim adotou postura ofensiva, arriscou tudo e de repente virou um leão em quadra.

Enquanto o sérvio se defendia como era possível, Tsitsipas ia para cima. Salvou um caminhão de break-points no quarto set, fez coisas incríveis com o backhand e conseguiu um empate improvável e merecido. Mas o esforço custou o resto de energia que havia e o grego, 11 anos mais jovem, foi quem não tinha pernas no set decisivo. De qualquer forma, exigiu muito de Nole num piso lento e certamente levou uma lição de como se administra uma partida de cinco sets, sobretudo no aspecto mental.

E mais
– Nadal e Djokovic também se aproximam de Federer em quantidade de finais de Slam. Agora Rafa tem 28, uma a mais que Djoko e apenas três atrás do suíço.
– Com 13 decisões em Paris, Nadal tem mais do que Borg (6) e Djokovic (5) juntos. O sérvio igualou Federer, Lendl e Wilander, entre os profissionais.
– O título também valerá a 100ª vitória no torneio para Nadal. Apenas Federer (em dois Slam) e três mulheres (Evert, Navratilova e Serena) já atingiram três dígitos em Slam.
– Este será o 49º duelo entre os dois principais cabeças em finais de Slam na fase profissional e a 10ª em Paris. O número 1 ganhou 25 vezes.
– Sofia Kenin busca às 10h deste sábado seu segundo troféu de Slam aos 21 anos, tentando repetir a campanha notável de Melbourne. Reencontra a polonesa Iga Swiatek, surpresa absoluta do torneio, que a venceu na chave juvenil de Paris há quatro anos.
– O título levará a norte-americana ao inédito terceiro lugar do ranking, superando Naomi Osaka. A polonesa já garantiu o 24º e tentar ir ao 17ª.
– E o tênis brasileiro concorre a mais dois títulos de Roland Garros: Bruno Soares entra em quadra ao lado do croata Mate Pavic depois da final feminina e os garotos Natan Rodrigues e Bruno Oliveira tentam repetir Guga Kuerten e Matheus Pucinelli, que também foram campeões juvenis de duplas em Paris.