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Projeto criança
Por José Nilton Dalcim
30 de setembro de 2019 às 20:36

Estudos indicam que apenas 4,3% das crianças entre 6 a 12 anos jogam tênis com regularidade – número praticamente estagnado na última década – e que acabam abandonando a raquete antes de completar 11 anos, com menos de dois anos de prática. E por que não há tantos garotos nas quadras? A ideia geral é que o tênis permanece um esporte de elite e ter aulas ou bater bola ainda está limitado a quem pode pagar.

Não, não estou falando do Brasil, mas dos Estados Unidos.

Esses dados fazem parte de uma série de pesquisas que mapearam as dificuldades de crescimento do tênis por lá, tomando por base o longo período em que os norte-americanos estão sem um campeão de Grand Slam – o último foi Andy Roddick em 2003 – e na dificuldade de as meninas repetirem o sucesso das irmãs Williams. A única exceção foi Sloane Stephens, que venceu o US Open de 2017.

Os analistas concluem o óbvio: há uma crise de falta de atividade física na população. E isso só piora para o tênis. O custo anual de uma família para manter um pequeno na quadra é de US$ 1.200 – irrisórios R$ 4.800 reais se comparados à realidade brasileira -, o que no entanto é três vezes mais do que o basquete, por exemplo. Observou-se que muitas crianças sequer estão expostas ao tênis por lá, porque não têm proximidade com uma quadra, com uma raquete ou ao menos com pessoas jogando.

Boa parte desses estudos foram bancados pela Associação das Indústrias de Esporte e Fitness. Que inveja. O Brasil não tem um único censo do tamanho do tênis, trabalhando há décadas com dados empíricos e, muitas vezes, superestimados. Não sabemos quantos jogadores, professores, quadras ou meros admiradores o nosso tênis tem. E talvez isso explique a dificuldade cada vez maior de se vender o produto.

Estrangeirismo
O tênis norte-americano sofre também de uma invasão de jogadores de fora, que cada vez procuram mais academias e universidades locais como oportunidade de progredir e fazer intercâmbio. Em 2013, nada menos do que a metade dos participantes do NCAA – o circuito universitário tão importante no país – eram estrangeiros.

Aliás, essa realidade está clara no próprio circuito profissional, onde meninas como Maria Sharapova e Naomi Osaka ganharam Grand Slam ou rapazes como Kei Nishikori e Kevin Anderson atingiram o top 10. Todos eles foram basicamente criados dentro do sistema norte-americano, e muitos desde muito pequenos.

Coco Gauff surgiu como luz no fim do túnel. Aos 15 anos, entrou em Wimbledon deste ano e chegou nas oitavas de final. Foi ao US Open e também passou duas rodadas. Já tem 32 vitórias de primeiro nível no circuito e está perto de chegar ao top 100.

Novo enfoque
Há pouco tempo, perguntaram a Andre Agassi por que o tênis masculino norte-americano parou no tempo e ele enfatizou que a saída era colocar raquetes em mãos de mais crianças. “Temos 300 milhões de habitantes e não criamos um sistema que ofereça oportunidades para surgir um talento, que possa ganhar um Slam de novo”.

A USTA enfim deu ouvidos e lançou o programa chamado ‘Net Generation Aces’. O mais interessante é que a procura não está focada em golpes ou resultados, mas em identificar os juvenis entre 13 e 17 anos que tenham “poder de influenciar suas comunidades”, tendo como pilares “respeito, responsabilidade, esforço, trabalho em equipe e ética”. Isso é absolutamente espetacular.

Os primeiros escolhidos, por exemplo, se destacam pela inovação. Um deles colocou para funcionar um sistema online de cadastramento de jogadores e de torneios regionais que multiplicou rapidamente os competidores, enquanto outro investe num trabalho de reciclagem que já chegou a 35 mil bolas, todas usadas em programas mais carentes.

Não menos interessante é que o Net Generation Aces não está estritamente focado no tênis em si, mas em formar uma nova geração que seja estimulada à prática de esportes, qualquer que seja. Outro estudo, publicado pela Health Affairs, mostra que crianças fisicamente ativas economizarão bilhões de dólares em custos médicos ou na perda de produtividade ao longo de sua vida adulta.

Microfone indiscreto
Não bastassem a falta de educação de Nick Kyrgios, os casos de doping e as punições por aposta, o tênis profissional se vê pela terceira vez envolto com polêmicas envolvendo a arbitragem. Desta vez, e talvez mais grave, foi a captura de diálogos um tanto libidinosos do renomado árbitro italiano Gianluca Moscarella com uma pegadora de bola e, no mesmo jogo, dando uma chamada no português Pedro Sousa por estar demorando demais para ganhar uma partida que o oficial considerava “fácil”.

Nos áudios captados – todos os jogos de nível challenger são agora transmitidos pela ATP -, Moscarella diz que a boleira é “espetacular” e “sexy”, pergunta se sente “quente” (impossível não imaginar uma segunda intenção na frase) e depois se flagra um longo diálogo em que ele diz a Sousa para “se manter focado”, “vamos lá, era para ser 6/1 e 6/1, você já perdeu 45 break-points”. Ao menos neste caso, a ATP suspendeu imediatamente o italiano das funções até que a investigação termine.

Moscarella é árbitro de nível semelhante ao de Mohamed Lahyani, suspenso por descer da cadeira para “motivar” Kyrgios no US Open do ano passado, e de Damián Steiner, que teve contrato rompido com a ATP por ter dado entrevistas não autorizadas, um caso aliás ainda mal explicado.

Quem quiser conferir os áudios, clique aqui

Será que agora vai, Serena?
Por José Nilton Dalcim
6 de setembro de 2019 às 00:38

Serena Williams não desiste. Ainda bem.

Pela quarta vez nos últimos 15 meses, ela se deu a oportunidade de tentar o 24º troféu de Grand Slam para enfim se igualar a Margaret Court, o que já escapou duas vezes em Wimbledon e outra lá mesmo no US Open naquela terrível final do ano passado. Tão pertinho dos 38 anos, que completará em três semanas, ela lutou contra a forma física, o descrédito, seu destempero, e chegou lá de novo. Será que agora finalmente vai conseguir?

Ao atropelar uma irreconhecível Elina Svitolina na noite desta quinta-feira, Serena repete a final do US Open de exatos 20 anos atrás, e acrescenta outra façanha à incrível carreira, agora a tenista que marcou a maior distância entre a primeira e a mais recente final de Grand Slam da Era Aberta.

Aliás, também se transforma na profissional mais velha a ser finalista de um Slam, aos 37 anos e 347 dias. Ela, que detém o recorde de campeã de maior idade na Austrália, Roland Garros e Wimbledon, pode retomar o posto também no US Open, superada que foi por Flavia Pennetta em 2015.

Há muita coisa esperando por Serena às 17 horas de sábado. Terá a chance também de superar duas marcas incríveis de Chris Evert, com quem divide seis títulos em Nova York e agora 101 vitórias. Gostem ou não de Serena, é preciso reconhecer seu notável espírito competitivo. Em uma temporada confusa em que soma apenas 30 partidas, alcança a 33ª final em 73 Slam disputados. Um dado curioso levantado pela WTA lembra que ela só perdeu três finais em Flushing Meadows, as de 2001, 2011 e 2018. Nas duas primeiras, levou o título na edição seguinte.

A pergunta que fica é como reagirá Serena ao encarar pelo segundo ano seguido uma novata na decisão. Ela também tinha a experiência e a torcida a favor quando viu a fã Naomi Osaka pela frente há 12 meses e fez aquele papelão. Embora um desafio desse porte seja novidade para a adolescente Bianca Andreescu, que sequer havia nascido quando Serena ganhou seu primeiro US Open, em 1999, a canadense tem personalidade distinta da tímida Osaka. É impulsiva, expansiva e já ganhou um título em cima de Serena poucos dias atrás, em Toronto, se bem que a norte-americana abandonou após meros quatro games.

Tarefa completamente distinta à de Williams, Andreescu sobreviveu a uma tensa semifinal nesta noite diante da suíça Belinda Bencic. Só o primeiro set durou quase 70 minutos, e as oportunidades foram divididas. Escapou de várias situações delicadas com a frieza e coragem que assombraram o circuito desde sua arrancada, em março. E foi buscar um segundo set que parecido perdido. É exatamente isso o que se espera dela. Garra, golpes pesados, saque audacioso, boa mão para deixadas e voleios… Andreescu faz um pouco de tudo e faz tudo muito bem. Talvez só o dolorido joelho esquerdo seja um fator de preocupação.

Em sua primeira chave principal do US Open – jogou e perdeu no quali do ano passado -, Bibi é a terceira tenista de seu país, e a segunda mulher, a atingir a final de um Slam, repetindo Eugénie Bouchard e Milos Raonic. Também não deixa de ser curioso que supere Denis Shapovalov e Felix Aliassime, esperanças bem mais badaladas do jovem tênis canadense.

Fato notável, este é apenas seu quarto Slam da curtíssima carreira e, se vencer, irá igualar a façanha de outra prodígio, Monica Seles, que também disputou apenas quatro antes de faturar Roland Garros em 1990, com a diferença que a então iugoslava tinha meros 16 anos.

Para a história
– Três dos últimos quatro títulos femininos do US Open foram vencidos por tenistas que marcaram seu primeiro troféu de Slam: Flavia Pennetta (2015), Sloane Stephens (2017) e Naomi Osaka (2018).
– Qualquer que seja a campeã deste sábado, o circuito feminino novamente terá quatro diferentes vencedoras de Slam em 2019, já que Osaka levou Melbourne, Ash Barty ganhou Paris e Simona Halep, Wimbledon. Essa diversidade repete 2017 e 2018. Nunca isso havia acontecido entre as mulheres por três temporadas seguidas.

Cabeças rolam para alegria de Nadal
Por José Nilton Dalcim
28 de agosto de 2019 às 00:51

O setor de Rafael Nadal na chave do US Open já parecia muito promissor, mas logo na primeira rodada todos os quatro top 10 que poderiam lhe dar algum trabalho se despediram: Dominic Thiem, Stefanos Tsitisipas, Karen Khachanov e Roberto Bautista. Poucas vezes vi um desastre tão maciço num Slam logo de cara.

É verdade que não se poderia esperar muito de Thiem, que confessou ainda sofrer os efeitos da virose contraída em Montréal e ainda pegou o guerreiro Thomas Fabbiano. Além das cãibras já no quarto set, Tsitsipas encarou o embalado Andrey Rublev. O russo também de 21 anos vem numa crescente e já havia feito quartas no US Open de 2017.

Khachanov e Bautista venceram o set inicial e foram perder lá no quinto. O russo jogou de forma um tanto passiva, talvez acreditando que Vasek Pospisil iria se enterrar em seus 61 erros não forçados. Os dois jogaram de forma medrosa o quinto set, com 40% apenas de primeiro saque para o cabeça 9. Algo parecido ocorreu com Bautista, ao permitir que Mikhail Kukushkin tomasse a iniciativa em todo o set decisivo.

O dia só não foi mais trágico porque Alexander Zverev sobreviveu. Claro, num quinto set. Ao menos, ele está com o saldo positivo de quatro vitórias nesse quesito, tendo também vencido 12 dos 18 jogos em que chegou tão longe. Pega agora Frances Tiafoe, que costuma exigir muito do físico dos adversários.

E com tudo isso, Rafa deve ter ido dormir dando risada. Fez uma estreia tranquila, forçou os golpes na clara tentativa de agir de forma ofensiva. Isso lhe custou 30 erros, mas foi um luxo que pôde se permitir diante de um John Millman acuado no fundo de quadra e sem potência para incomodá-lo. Seu adversário será o ex-prodígio Thanasi Kokkinakis, grande sacador de mobilidade frágil.

Estreias tensas
O feminino também viveu emoções e uma surpresa. Toda atenção para o retorno de Naomi Osaka a seu palco maior e ela sentiu a tensão, muito natural. Quando soltou seu jogo pesadíssimo, ao melhor estilo Serena Williams, mostrou que é forte candidata ao bi.

Outra que entrou nervosa foi Simona Halep, mas a explicação era justificável: duas derrotas seguidas na estreia do torneio. Agora, a tendência é se soltar. Ela aliás se inscreveu na chave de mistas ao lado de Horia Tecau.

A noite terminou mal para a torcida da casa, ao ver Sloane Stephens, campeã dois anos atrás, dominada com autoridade assustadora pela russa de 20 anos Anna Kalinskaya, vinda do qualificatório.

Resumo do dia 2
– Nada menos que 10 dos 32 jogos masculinos foram ao quinto set nesta terça-feira. Na véspera, somaram 7. Curiosamente, apenas dois desses quintos sets foram decididos no tiebreak, regra que o US Open utiliza desde 1970.
– Além dos quatro top 10, caíram também os cabeças 18 (Aliassime) e 30 (Edmund). O duelo canadense diante de Shapovalov foi novamente frustrante, já que Felix não jogou nada.
– A mais amarga derrota coube a Tsonga, que venceu os dois primeiros sets e levou a virada de Sandgren em duelo de 4h.
– Chung, hoje apenas 170 do mundo, encarou o quali e voltou a disputar um Slam. É seu quarto US Open e ele jamais perdeu na estreia. A chave é dura: Verdasco agora e quem sabe Nadal na sequência.
– Sabalenka e Azarenka fizeram um animado encontro bielorrusso. Vika venceu o primeiro set, mas a cabeça 9 reagiu, apesar das 13 duplas altas, e mostrou que hoje é muito mais agressiva: 42 a 17 nos winners.
– Muguruza deu azar ao pegar Riske logo de cara – a americana foi quartas em Wimbledon onde tirou até Barty -, mas o fato é que a confiança da espanhola está lá embaixo. Segundo Slam seguido que nem passa da estreia.
– Vale investigação sobre Carla Suárez, que abandonou após oito games jogados com problema no ombro. Tomic perdeu todo seu prêmio em Wimbledon, e olha que terminou a partida.

Destaques
– Italiano de 30 anos e ‘apenas’ 1,73m, Fabbiano consegue segunda vitória sobre top 10 em Slam consecutivos, tendo superado Tsitsipas em Wimbledon. Atual 87º do ranking, ele venceu todas as 5 partidas que chegaram ao quinto set na carreira, 3 delas em 2019.
– Cercada de enorme expectativa e objeto de discussão nas mídias sociais sobre qual quadra deveria estrear, Coco Gauff superou um primeiro set nervoso e conseguiu notável virada em cima da também talentosa Anastasia Potapova. Se passar por Babos, tem grande chance de desafiar Osaka.

Para a história
– Na segunda-feira pós-US Open, Nadal somará a 750ª semana consecutiva dentro do top 10. Estará então 39 atrás do recordista Jimmy Connors.