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Djokovic aperta na luta para ser o maior
Por José Nilton Dalcim
14 de julho de 2019 às 21:39

Vencer Wimbledon é o maior sonho da maciça maioria dos tenistas do circuito. Imagine então ganhar uma final salvando dois match-points com o adversário sacando, e levantar três troféus no Club em cima de Roger Federer. Como tem sido hábito, Novak Djokovic se encheu de feitos extraordinários neste domingo de tanta emoção em Wimbledon. Chegou ao pentacampeonato, igualando-se a Bjorn Borg. Garantiu justo lugar entre os grandes que já pisaram a quadra de grama.

Quando Federer chegou ao 40-15 no 8/7 do quinto set e perdeu os dois match-points, veio à minha cabeça situação bem semelhante, embora menos importante, na semi do US Open de 2011. Então, Djokovic também salvou os dois match-points com o suíço no saque, o primeiro deles com uma devolução que ficou antológica. A diferença é que naquela ocasião Roger saiu totalmente de jogo. Agora ainda se manteve firme, tendo até uma nova oportunidade de quebra antes do tiebreak do 24º game.

O que decidiu o jogo, a meu ver, foi a postura de cada tenista nos três tiebreaks. Vale lembrar, aliás, que Djokovic já havia vencido dois desempates no duelo mais recente de Paris-Bercy. Neste domingo, obteve quebra logo no terceiro ou quarto lance de todos os desempates, abrindo sempre 3-0 ou 3-1. Obrigou o adversário a correr atrás do placar e se aplicou ferrenhamente em fazer Federer jogar o tempo inteiro, induzindo a erros. Recordista de tiebreaks vencidos no tênis profissional, o suíço não teve a postura ofensiva recomendada.

Djoko jamais perdeu um quinto set para o rival em quatro ocasiões. É dono de um poder mental incomum, encontrando soluções corretas nas situação mais apertadas. Neste longo duelo de 5 horas, viveu um ‘apagão’ no segundo set e voltou a se achar, retomando o plano de jogo que pretendia prender ao máximo o oponente no fundo de quadra. Sofreu como era de se esperar com os slices. Talvez pudesse ter sido um pouco mais agressivo – fez 40 winners a menos e se arriscou na rede apenas 36 vezes em mais de 400 pontos disputados – e isso lhe custou sete quebras de serviço. A famosa ‘vitória nos detalhes’ cai como uma luva nesta maratona.

Federer sempre disse que uma de suas grandes qualidades é esquecer rapidamente o que passou, mas tenho dúvidas se a chance perdida do 9º Wimbledon e do 21º Grand Slam será assim apagada de imediato. Qualquer ‘domingueiro’ que já perdeu uma partida com match-point sabe o quanto isso mexe com a cabeça. O que dirá então ver um título de tamanha envergadura escapar entre os dedos, ainda mais na reta final da carreira. Como bem disse Serena Williams no sábado, nesta altura cada vez parece a última.

Existem atenuantes motivadores, e sem dúvida o principal deles é como o suíço se manteve com pernas ao longo do extenso jogo, vencendo com empenho físico algumas longas trocas de bola lá no final do quinto set. Mostrar-se competitivo contra um adversário tão qualificado, no ápice de sua forma e seis anos mais jovem, é sinal evidente de que ainda há oportunidades pela frente. A pergunta que só Roger poderá responder é o quanto o fardo dessa amarga derrota irá pesar.

Com quatro dos últimos cinco Slam conquistados no espaço de 12 meses, numa reviravolta completa e exemplar de sua carreira, Djokovic não poderá estar mais motivado para o US Open, onde também defenderá o título dentro de seis semanas. O 16º troféu de Slam reduz novamente a distância para os 18 de Rafael Nadal e principalmente para os 20 de Federer, o que abre perspectivas reais de se lutar por esse recorde já em 2020. Temporada em que também poderá superar a marca do suíço na quantidade de semanas na liderança do ranking.

A briga para ser o maior de todos nunca esteve tão aberta para o sérvio.

A façanha de Halep
Confiança foi a chave para Simona Halep conseguir uma verdadeira façanha na Quadra Central no sábado. Não pela vitória em si sobre a multicampeã Serena Williams, mas pela forma com que dominou a partida do começo ao fim, uma postura que mesclou determinação de correr atrás de todas as bolas com a coragem de tomar a iniciativa dos pontos.

Não é fácil encarar uma adversária com histórico tão vasto em Wimbledon e, mais ainda, entrar em quadra com retrospecto de nove derrotas em dez tentativas. Halep no entanto teve atitude positiva o tempo inteiro e talvez lá no fundo apostasse que a proximidade do recorde de Slam iria novamente afetar o emocional da norte-americana.

A definição da romena foi precisa e preciosa: aprendeu com cada derrota que já sofreu, tanto em finais de Slam como no circuito, e acreditou que poderia mudar seu destino. Apenas para lembrar, Halep ficou com três vices, dois em Paris e outro em Melbourne, até finalmente ganhar Roland Garros no ano passado. Agora, adicionou Wimbledon, um feito que ela admitiu não ter passado por sua cabeça, ao menos para este ano.

Serena não deu desculpas e creditou tudo na conta de Halep. Afirmou estar fisicamente bem e saber que a cabeça não tem suportado a pressão. Acha que a falta de títulos no circuito dificulta a missão nos Slam, mas ao mesmo tempo que o joelho não suporta um calendário mais apertado. Uma encruzilhada. E, como diria o poeta Mick Jagger, o tempo não espera por ninguém.

Os nervos entre Serena e a história
Por José Nilton Dalcim
11 de julho de 2019 às 13:55

Serena Williams chegou um tanto desacreditada em Wimbledon. Sua apresentação em Roland Garros, tão fora de forma, se somou à ausência nos torneios preparatórios na grama. Para complicar, fez uma estreia enferrujada. Mas Serena é Serena, ainda mais na grama. Subiu de produção a cada jogo e deu um show na semifinal desta quinta-feira.

Coloca-se assim pela terceira vez em 12 meses na condição de alcançar o tão sonhado 24º troféu de Grand Slam, o que a igualaria à recordista amadora-profissional Margaret Court. Seu imenso retrospecto positivo sobre a adversária de sábado, a romena Simona Halep, que fará sua primeira final em Wimbledon, é o bastante para lhe dar todo o favoritismo: 9 vitórias em 10, sendo 5 consecutivas.

No entanto, isso não basta. Sua maior adversária será ela mesma. Serena também era ampla favorita sobre Angelique Kerber na final de Wimbledon de 2018, com 6-2 nos confrontos, e foi barrada pela qualidade defensiva da alemã. Chance ainda maior veio no US Open dois meses depois em cima da inexperiente e fã Naomi Osaka, e aí mostrou um destempero emocional chocante.

A exibição diante de Barbora Strycova resgatou aquela jogadora agressiva, tranquila e consciente de sua superioridade técnica. Disparou 27 winners diante de 8 da tcheca, a mais velha tenista a chegar a sua primeira semi de Slam na fase profissional. E com apenas 10 erros, tirou a marca de Martina Navratilova de 25 anos e agora é a mais velha a decidir um Slam, aos 37 anos e 291 dias.

Halep no entanto não é uma principiante em grandes decisões. E foi prazeroso ver como tomou a iniciativa para cima de Elina Svitolina, com uma aplicação tática ferrenha na busca constante pelas paralelas, algo nada fácil de se fazer numa quadra de grama e num jogo de tal importância. Deixou a ucraniana num papel que já vimos seu namorado Gael Monfils fazer tantas vezes, limitada às defesas excessivas.

A romena sabe que tem uma fraqueza, o segundo serviço, que sempre foi explorada por Serena. Assim, terá de se precaver disso e novamente investir nas paralelas e deixadinhas que funcionaram tão bem contra Svitolina. A tarefa é dura, mas jamais impossível.

Um olhar nas semis masculinas
Wimbledon verá nesta sexta-feira o mais velho quadro de semifinalista da Era Aberta: somam 134 anos, 23 a mais que a marca anterior, a de Roland Garros de 1968. Também é o segundo ano seguido que o torneio tem apenas ‘trintões’ na semi (a soma de 2018 foi de 128 anos).

Djokovic x Bautista
Sérvio lidera por 7 a 3, mas perdeu três dos cinco mais recentes, dois nesta temporada. Nos três que fizeram em melhor de cinco sets, Djoko venceu mas Bautista sempre tirou ao menos um set.

Com vitória em cinco de oito semis desde 2007, sérvio tenta sexta final no torneio, o que igualaria Borg, Connors e Laver, e sua 25ª em Slam.

Espanhol bate reto na bola sem afastar da linha de base, busca índice alto de primeiro saque e tem voleado com mais frequência nesta campanha. Atual 22º, pode ser tenista de mais baixo na final de Wimbledon desde Mark Philippoussis em 2003. A vitória vale lugar no top 10 como 9º colocado.

Nadal x Federer
Espanhol tem 24-15 no geral, 10-3 nos Slam mas 1-2 em Wimbledon. E venceu todas as quatro semis de Slam que disputaram. Os dois são os maiores vitoriosos da temporada, com 37.

Nadal encara o primeiro cabeça na campanha e tenta sexta final, o que também igualaria Borg, Connors e Laver. Em seis semis em Wimbledon, perdeu a primeira no ano passado para Djokovic.

Federer busca 31ª final de Slam e 12ª em Wimbledon. Aos 37 anos e 340, pode ser mais velho finalista de Slam desde Ken Rosewall, que tinha 39 anos e 310 no US Open de 1974. Mesmo tendo perdido dois sets, é o que menos gastou tempo na campanha. Em 12 semis em Wimbledon, só perdeu uma vez, em 2016.

O jogo é uma reedição da histórica final de 2008, uma das melhores partidas do tênis moderno. Hoje, Federer vai menos à rede e depende mais do primeiro saque, enquanto Nadal ficou muito mais agressivo com mudanças no backhand e no serviço.

E mais
– Se der a lógica, será a 22ª vez que o Big dominará uma final de Slam e a 7ª em Wimbledon.
– Esta pode ser a quinta final masculina de Slam totalmente espanhola.
– Dois tenistas de um mesmo país não decidem o torneio desde Sampras-Agassi de 1999.
– Nadal garante o número 2 se vencer. Federer precisará do título para recuperar a vice-liderança.
– Rodada de sexta abre às 9h, com Djoko x Bautista, e em seguida o ‘Fedal’.
– Bruno Soares se despediu das duplas mistas com derrota nas quartas de final ao lado de Nicole Melichar e o Brasil dá adeus a Wimbledon.
– Nota no TenisBrasil mostra os preços absurdos dos poucos ingressos que ainda existiam para as semifinais masculinas: veja aqui.

O grande desafio
Por José Nilton Dalcim
10 de julho de 2019 às 19:57

Roger Federer pode estar diante da maior façanha de sua carreira; Se quiser recuperar o troféu de Wimbledon e erguê-lo por uma impensável nona vez, terá muito provavelmente de derrotar Rafael Nadal e Novak Djokovic. E isso parece especialmente difícil porque tanto o espanhol como o sérvio jogaram até aqui um tênis superior ao do próprio suíço.

Adversário de sexta-feira, num reencontro que não acontecia na Quadra Central desde as três finais consecutivas de 2006 a 2008, Nadal está jogando um tênis tão exuberante que Federer o encheu de elogios. Reconheceu antes de tudo que o espanhol é um tenista muito superior ao de 11 anos atrás e que está longe de ser apenas um jogador de saibro.

Federer no entanto fez seus três melhores sets no torneio diante de Kei Nishikori. Surpreendido no começo por um tênis consistente do japonês, optou por bater mais o backhand e atacar as devoluções. A virada veio quase com naturalidade, ainda que ele tenha desperdiçado muitos break-points por vezes exagerando na força com que batia na bola. Fez um lance defensivo de incrível qualidade, cruzando a quadra de uma ponta à outra para obter a passada de backhand no contrapé a 150 km/h. Os voleios… bem, os voleios do suíço dispensam adjetivos.

O backhand batido e as devoluções agressivas serão chave diante de Nadal. O espanhol no entanto está sacando demais e contra Sam Querrey incluiu mais uma variação de sucesso, com muitos serviços sobre o corpo do grandalhão. Como se esperava, o norte-americano deu trabalho e endureceu o primeiro set, mas ficou difícil viver quase exclusivamente do primeiro saque e pouco a pouco foi dominado pelo espanhol. Voleios curtos, slices e passadas milimétricas complementaram outra atuação vistosa do número 2, com nada menos do que 42 winners.

Não resta dúvida de que o 40º capítulo do ‘Fedal’, e o segundo seguido de Grand Slam, tende a roubar todas as cenas da semifinal de sexta-feira, ainda mais porque parece haver pequeno favoritismo de um lado ou de outro. No entanto, Djokovic e Roberto Bautista também podem dar um belo espetáculo, principalmente se o espanhol se livrar com rapidez do nervosismo natural da inédita presença numa penúltima rodada de Slam e se lembrar das duas vitórias obtidas em 2019 sobre o número 1.

Finalista em cinco das últimas oito edições de Wimbledon, período em que ergueu seus quatro troféus, Djokovic levou um pequeno susto com o grande começo de partida de David Goffin. Solto, leve e determinado, o belga desceu o braço, apertou todos os serviços do sérvio até obter a quebra, abrir 4/3 e 30-0. Aí virou abóbora. Passou 10 games em quadra totalmente perdido,  incapaz de fazer frente ao jogo cada vez mais acelerado do líder do ranking. Djoko atropelou o finalista de Halle dando-se ao luxo de desacelerar no terceiro set.

Bautista joga diferente. Não força tanto o saque e procura sempre um percentual alto para manter o adversário sob pressão. Bate bem mais reto na bola, o que na grama funciona bem, e fica pertinho da linha na procura dos contragolpes. Tem surpreendido em Wimbledon com idas mais frequentes à rede, média superior a 20 por jogo. O duelo contra Guido Pella foi bem divertido, os dois muito empenhados o tempo todo, games longos e chances para os dois lados. Prevaleceu o oportunismo do espanhol, que converteu 4 de 16 break-points, salvando-se em 11 de 13 chances que cedeu.

Em que pese os resultados de Doha e de Miami – houve outra vitória do espanhol nos 10 confrontos, na veloz Xangai em 2016 -, o favoritismo é todo de Djokovic porque possuiu duas grandes habilidades essenciais sobre a grama: saque e devolução.

E mais
– É a 13ª vez que o Big 3 domina as semis de um Slam e a segunda seguida. Antes disso, só haviam se reunido em Roland Garros de 2012.
– Federer se torna primeiro homem na história com 100 vitórias num mesmo Slam e assume o recorde de mais vitórias sobre a grama da Era Aberta, com 186. É ainda o mais velho semi de Slam desde Connors no US Open de 1991, quando tinha 39 anos.
– Djoko iguala as 9 semis de Becker em Wimbledon e chega a 70 vitórias no torneio, que passa a ser seu Slam de maior sucesso (tem 69 no US Open ainda a ser disputado).
– Nadal soma agora 32 semis de Slam e assim o Big 3 pontua a lista (Federer tem 45 e Djoko, 36). Os três também são os únicos a ter pelo menos 50 vitórias em cada Slam.
– É a primeira vez na história de Wimbledon que dois espanhóis estão na semi.
– Bautista retornará a seu recorde pessoal do 13º posto. Se for à final, entrará no top 10.
– Magnífica vitória de Bruno Soares e Nicole Melichar (que jogou muito!) sobre Andy Murray e Serena Williams. Cabeças 1, eles avançaram para as quartas. O escocês sai de certa forma decepcionado com as poucas vitórias com Pierre Herbert e Serena.
– Semis femininas começam às 9h com Elina Svitolina diante de Simona Halep, seguindo-se Serena contra Barbora Strycova. A aposta lógica é Halep x Serena na final de sábado. Seria a primeira da romena no Club e a 11ª da heptacampeã.