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Conclusões de Miami
Por José Nilton Dalcim
5 de abril de 2021 às 15:58

Hora de passar a régua nestes dez dias bem movimentados nos dois torneios realizados no lento piso sintético de Miami. Vou colocar em tópicos para tentar reduzir ao máximo o tamanho do texto e focar nas conclusões mais relevantes.

Justiça no masculino
– É incorreto dizer que a nova geração não aproveitou bem a ausência do Big 3 em Miami. As quartas de final tinham sete jogadores com no máximo 25 anos e a decisão foi a quinta mais jovem em 35 edições de torneio, a de menor soma de idades desde Murray-Djokovic em 2009.
– A decisão totalmente inesperada entre Hurkacz e Sinner reforçou ainda mais essa renovação. A maioria esperava o título do jovem italiano, que marcaria um recorde de precocidade em Masters 1000, mas o polonês mereceu mais. De suas seis vitórias, cinco foram sobre cabeças de chave, duas diante de top 10 e quatro em cima de ‘next gen’, ainda que ele próprio tenha acabado de completar 24 anos.
– Sinner estava badalado demais, com entrevistas e perfis dos mais variados publicados na imprensa internacional. A própria ATP divulgou entrevista muito interessante do treinador Riccardo Piatti, explicando seu trabalho para moldar a parte emocional e competitiva do pupilo.
– O italiano teve 6/5 e saque para fechar o primeiro set, o que teria boa chance de mudar a história da partida, mas falhou justamente na parte mental e daí em diante foi um passeio do polonês. SInner só voltou a jogar bem parte final do segundo set, mas já era um tanto tarde.
– Pela contabilidade geral do torneio, Hurkacz foi o campeão justo, a meu ver. É bem curioso que, com 1,96m, ele se mexa tão bem na base, a ponto de conseguir fugir para bater forehand mesmo sem recuar tanto da linha de base. E isso não é fácil de se fazer contra bolas pesadas de Sinner ou Rublev. Também sacou melhor e variou com subidas espertas à rede, onde se vira muito bem, justamente o que faltaram tanto ao italiano quanto ao russo.
– Com o avanço dos dois no ranking, o top 25 desta segunda-feira tem 12 jogadores com até 25 anos. Mas como o congelamento dos pontos tem dado distorções relevantes, melhor é ver a classificação da temporada: os únicos ‘trintões’ do top 10 são Djokovic e Bautista, enquanto Rublev, Tsitsipas e Hurkacz aparecem entre os cinco primeiros. Sinner é 7º e a sensação Korda, o 15º.
– Zverev e Karatsev foram as decepções. O alemão vinha do título de Acapulco, meteu 6/1 em Ruusuvuori e aí desandou. Karatsev entrou cheio de holofotes e foi atropelado por Korda, sinal claro que terá de aprender a conviver com o favoritismo repentino.

Feminino animado
– O título feminino terminou em ótimas mãos, ainda que a final tenha ficado apagada com a torção de pé de Andreescu. Mas convenhamos: a australiana dava um show de técnica e tática até então, misturando incrivelmente bem efeito, velocidade e altura da bola, algo depois enaltecido pela canadense.
– Barty calou os críticos na hora certa, já que sua liderança no ranking vinha sendo questionada. Vamos lembrar que ela não jogou nada por 12 meses inteiros. Soma agora 10 títulos na jovem carreira e pela primeira vez defendeu um troféu.
– Andreescu por seu lado fez um torneio muito exigente, tanto na parte física como mental, e mostrou o quanto o circuito feminino perdeu por sua prolongada ausência. Garantiu que a lesão não foi séria e que terá chance de voltar com tudo no saibro.
– A reentrada de Barty e Andreescu só ajuda os torneios femininos, que contam com Osaka, Halep, Kenin, Sabalenka, Muguruza e Azarenka, todas de grande potencial. Miami foi recheado de ótimos jogos e ainda destacou o tênis versátil de Sakkari. É um grande momento para as meninas.
– Por fim, Stefani deu mais um passo à frente, lutou por um título de grande peso e avançou no ranking. A perspectiva que me parece essencial é notar que a paulistana tem apenas 23 anos e muito pouco tempo na elite do calendário, onde tudo é muito mais competitivo e difícil. Ela e Carter estão agora em quarto no ranking da temporada e podem sonhar com o Finals.

E, é claro, existe uma pergunta muito pertinente no ar: o quanto esses personagens de Miami poderão brilhar no saibro? É o tema perfeito para o próximo post.

Djokovic coloca um pé e meio na final
Por José Nilton Dalcim
16 de fevereiro de 2021 às 12:58

Mais uma vez, Novak Djokovic provou como forte é sua parte mental. Sem treinar por conta da contusão, foi obrigado a adotar padrões menos ortodoxos, ficou atrás do placar por três vezes mas ainda assim conseguiu barrar Alexander Zverev em quatro sets intensamente brigados. Avançou pela 9ª vez às semifinais do Australian Open para enfrentar o debutante Aslam Karatsev. E uma má notícia para o russo: sempre que atingiu a penúltima rodada no Melbourne Park, Nole levou o título.

A batalha contra Zverev foi muito emocional. Djoko claramente entrou sem o ritmo ideal, entregando o saque numa dupla falta e optando por pontos muito curtos. Demorou também para achar a melhor forma de devolver o saque afiado do alemão, mas assim que conseguiu fazer o adversário pensar mais arrancou a quebra e o empate. Fez 2-0 e sacou com 4-3 no tiebreak, porém os erros ainda eram muitos. Somou 21 e viu Zverev jogar bem no finalzinho.

Nessa altura, no entanto, Djoko já estava muito mais firme com o saque, um elemento que foi crucial na sua virada, especialmente nos tão famosos pontos importantes. Aproveitou uma pequena queda de intensidade de Zverev para atropelar no segundo set. O alemão então cometeu talvez seu erro capital na partida. Dominou totalmente o início do terceiro set, abriu 4/1 e 0-30 diante de um sérvio que havia acabado de destruir a raquete e estava tão perdido que tentou um saque-voleio desesperador. Zverev devolveu longe e daí em diante entrou em parafuso, perdendo cinco games consecutivos com as primeiras duplas faltas devastadoras.

Mudou radicalmente de postura e diminuiu os riscos no começo do quarto set, quando outra vez Djokovic vivia intensos altos e baixos. Sascha abriu 3/0 e teve três break-points para ampliar. Aí os méritos foram todos do sérvio, que sacou com maestria e recuperou a quebra em seguida, na gangorra mental do adversário. Longe de seus melhores dias, Djoko ainda teria de lutar para se salvar no 3/4 e no 5/6, incluindo set-point, sempre na base do saque forçado e preciso. O novo tiebreak foi igualmente parelho e tenso, com única vantagem obtida por Djoko no 7-6 depois de outra subida completamente equivocada de Zverev à rede. Aliás, seu desempenho foi pífio nos poucos voleios que tentou.

A vida do número 1 não tem sido fácil. Sua única vitória em sets diretos foi lá na estreia. O esforço lhe dá como recompensa um adversário sem currículo nas semifinais. Karatsev, de 27 anos, é apenas o quinto quali a ir tão longe num Slam e o primeiro em 20 anos. Depois de surpreender Schwartzman e Aliassime com assustadora eficiência nas bolas retas que somaram seguidos winners, eliminou mais um cabeça, Grigor Dimitrov, que se arrastou em quadra nos dois últimos sets com problemas nas costas.

Número 114 do ranking, Karatsev curiosamente se torna o jogador de mais baixo ranking numa semi de Slam desde Goran Ivanisevic, em Wimbledon-2001, o treinador atual de Djoko, que então era 125º e conquistaria um dos títulos mais surpreendentes do tênis profissional moderno.

O próprio Karatsev, no entanto, já se queixa de falta de pernas. Depois de furar o quali em Doha, ele ficou impedido de treinar por duas semanas por viajar num avião contaminado. Embora seus três primeiros jogos tenham sido mais rápidos, ele fez 9 sets nas últimas rodadas. De qualquer forma, seu esforço já o levará ao 42º posto do ranking e o fará embolsar US$ 662 mil, mais de tudo que havia ganhado na carreira até hoje.

Magnífica Serena
Na sua melhor exibição talvez desde o 23º título de Grand Slam, em 2017, Serena Williams barrou Simona Halep e está de volta à semi da Austrália depois desses quatro anos. No duelo franco de fundo de quadra, a norte-americana de admiráveis 39 anos marcou 24 winners contra 9, mas também 33 erros diante de 19.

Além da conhecida coragem para arriscar em pontos fundamentais, voltou a chamar a atenção a qualidade defensiva de Serena e sua capacidade em brigar com Halep em pontos mais longos, tendo feito os mesmos 16 pontos que a romena em lances com mais de cinco trocas e, mais notável ainda, ganhado 14 dos 20 em que houve mais de nove rebatidas.

Sua tarefa para o eventual oitavo título em Melbourne ainda é hercúlea e provavelmente teria de incluir vitórias sobre as três líderes do ranking. O próximo e enorme desafio é Naomi Osaka, que não apenas lidera por 2 a 1 nos confrontos como também adora um jogo ofensivo e é 16 anos mais jovem. Passou com facilidade pela taiwanesa Su-Wei Hsieh e ainda tem o invejável histórico de jamais ter perdido um título de Grand Slam depois de atingir as quartas de final, o que já fez uma vez em Melbourne e duas no US Open.

Os últimos semifinalistas
O quadro dos postulantes aos título de simples serão definidos a partir das 21h desta terça-feira. Começa com a esperança local e número 1 do mundo Ashleigh Barty, que tenta segunda vitória sobre a tcheca Karolina Muchova. O duelo norte-americano entre Jennifer Brady e Jessica Pegula acontece a seguir. Apesar do ranking bem inferior, a 61ª do mundo Pegula venceu os dois duelos diante da atual 24ª.

Os russos Daniil Medvedev e Andrey Rublev jogam à 1h já da quarta-feira. Os dois se enfrentam desde a infância, mas no circuito Medvedev ganhou os quatro cruzamentos oficiais. Se repetir a vitória, será o novo número 3 do ranking.

Por fim, às 5h30, Rafael Nadal tem ampla vantagem no histórico diante de Stefanos Tsitsipas, com 6 vitórias em 7 confrontos. O único sucesso do grego foi no saibro de Madri, em 2019, e depois disso ele já perdeu quatro consecutivas.

Vale também sua torcida por Bruno Soares e o escocês Jamie Murray. Serão favoritos à 1h diante de Marcelo Arevalo e Matwe Middelkoop por mais uma semifinal no Melbourne Park, onde foram campeões em 2016.

E mais
– Rei dos tiebreaks em 2020, Djoko está menos eficiente neste começo de temporada, tendo vencido 4 dos 7 disputados.
– O sérvio soma agora 39 semis de Slam, atrás somente das 46 de Federer. Foi também sua 80ª vitória no Australian Open, seu melhor Slam nesse quesito.
– Durante a pandemia, Karatsev jogou torneios amistosos em Miami e ganhou 28 de 30 jogos. Em seguida, venceu dois challengers e iniciou 2021 confiante.
– Esta será a terceira vez na Era Aberta que a Rússia tem dois nomes nas semis masculinas de um Slam (US Open de 2001 e 2006 foram as outras).
– Serena disputará uma semi de Slam pela 40ª vez na carreira e buscará a 34ª final, o que igualaria o recorde absoluto de Chris Evert.
– Aumentou a chance de o público voltar na quinta-feira, quando acontecerão as semis femininas e Djoko x Karatsev. Tudo depende de não surgirem novos casos até quarta em Melbourne.

Nadal tira dúvidas
Por José Nilton Dalcim
15 de fevereiro de 2021 às 11:21

Com uma atuação empolgante, em que o saque funcionou e os golpes de base estiveram sempre muito agressivos, Rafael Nadal se colocou novamente na condição de fortíssimo candidato a mais uma final do Australian Open ao dominar Fabio Fognini na madrugada.

Aliviado, o espanhol afirmou pouco depois que a infiltração feita nas costas deu o resultado esperado e ele se sentiu bem mais à vontade, conseguindo enfim treinar com mais empenho. E isso se viu em quadra, onde tomou postura ofensiva o tempo todo e raramente deixou o sempre perigoso italiano à vontade.

É bem verdade que Fognini decepcionou pelas oportunidades perdidas no segundo set. Abriu 4/2 com saque, mas aí fez um festival de escolhas mal feitas. Além de perder dois serviços seguidos em que foi extremamente ansioso, ainda desperdiçou um 0-40. Aí não houve ânimo que sobrevivesse diante de um Rafa cada vez mais confiante.

A reação no início da segunda semana era tudo que o número 2 do mundo precisava. Por isso, entra com favoritismo natural para encarar a juventude e versatilidade de Stefanos Tsitsipas. O grego nem precisou ir à quadra devido ao estiramento abdominal de Matteo Berrettini, como era esperado. Nadal possui histórico amplamente positivo, de 6 a 1, todas vitórias na quadra dura. E revelou que prefere até jogar de tarde para aproveitar melhor a velocidade do piso. Segurem o Touro.

Duelo russo confirmado
Com roteiros um tanto diferentes, Daniil Medvedev e Andrey Rublev farão o aguardado duelo russo entre amigos. Enquanto Medvedev mesclou ataques e defesas oportunas diante de um empenhado Mackenzie McDonald, seu compatriota chegou a estar 3/5 atrás de Casper Ruud no segundo set antes de reagir e fazer 2 sets a 0. Aí o norueguês desistiu também com contusão abdominal.

Medvedev e Rublev ganharam a ATP Cup e estão invictos na temporada, mas o Urso ganhou todos os quatro duelos oficiais entre eles sem jamais perder set, todas na quadra sintética. Assim, é o candidato natural à semi, meta que Rublev ainda almeja num Slam. Para ratificar a condição de jogador que mais evoluiu nos últimos tempos, Rublev faz quartas pelo terceiro Slam seguido e tem uma outra passagem no US Open de 2017.

Já Medvedev marca sua maior campanha fora de Flushing Meadows, onde foi vice em 2019 e semi no ano passado. E tem uma super motivação a mais: vitória sobre Rublev o levará a assumir pela primeira vez o 3º posto do ranking, rebaixando Dominic Thiem.

Barty continua sonho australiano
Apesar da longa parada e da lesão na coxa esquerda, Ashleigh Barty continua a jogar muito bem e repete as quartas do Slam caseiro dos três últimos anos.

Passou sem sustos por Shelby Rogers, segue sem perder set e encara a tcheca Karolina Muchova, 27ª do ranking, que fez uma bela e dura partida contra  a belga Elise Mertens. A australiana venceu o único duelo anterior contra Muchova, mas ainda não poderá contar com a torcida, que continua afastada pelo menos até as semifinais de quinta-feira.

A outra vaga nas quartas será norte-americana, já que Jennifer Brady, 24ª do ranking, e Jessica Pegula, apenas 61ª, aproveitaram realmente o piso sintético mais veloz e tiraram Donna Vekic e Elina Svitolina, em dois jogos muito bem disputados.

Começam as quartas
Vale perder o sono na primeira parte das quartas de final de simples do Australian Open. Naomi Osaka joga às 22h30 com largo favoritismo sobre Su-Wei Hsieh. A japonesa nunca perdeu quartas, semi ou final de Slam nas três vezes que chegou lá.

No começo da madrugada, Grigor Dimitrov tenta espantar a ‘zebra’ Aslam Karatsev e repetir semi de 2017, além de saltar para o 11º lugar do ranking. O abusado russo vai exigir todo seu poder defensivo e o slice deve ser arma essencial para o búlgaro.

Simona Halep e Serena Williams entram às 5h para um jogo interessantíssimo, o primeiro que fazem desde que a romena atropelou Serena na final de Wimbledon de 2019. A norte-americana leva 9 a 2 no geral e terá de ser eficiente no seu estilo ofensivo já que Halep é excepcional nos contragolpes.

Em seguida, Novak Djokovic tenta mostrar que está totalmente recuperado diante de Alexander Zverev, a quem enfrentou três semanas atrás na mesma Rod Laver e ganhou com grande dificuldade. Mais do que nunca, o alemão terá de sacar bem e deve arriscar subidas à rede para não ficar só nas trocas. O sérvio tem 5 a 2 no histórico e deve experimentar as deixadinhas com maior frequência.

E mais
– Não foi fácil, mas Soares e Murray conseguiram virar em cima de Bolelli e González e avançaram para as quartas, onde serão favoritos diante de Arevalo e Middlekoop. Faltou entrosamento para Melo e Tecau. O mineiro devolveu muito bem, mas não foi o bastante para superar Dodig/Polasek.
– Apesar do único título em 2009, o Australian Open é o segundo Slam em que Rafa tem mais quartas (13) e vitórias (69).
– Pela primeira vez na Era Aberta, existem três russos nas quartas de Melbourne. Em Slam, isso já havia acontecido no US Open-2006 e Paris-2007.
– O tênis australiano não vê títulos no seu Open desde Chris O´Neil em 1978 e Mark Edmondson, em 1976.
– Seis dos atuais top 10 estão nas quartas do Australian Open e assim nada muda por enquanto nessa faixa, ainda mais com o congelamento da defesa de pontos. Só Dimitrov ameaça tirar postos de Schwartzman e Berrettini.
– Barty está garantida na liderança quaisquer que sejam os resultados daqui em diante.