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Túnel do tempo
Por José Nilton Dalcim
4 de maio de 2022 às 18:26

Novak Djokovic e Andy Murray se cruzaram 36 vezes no circuito, mas apenas uma desde a vitória histórica do escocês em novembro de 2016 que lhe deu o título do Finals e o merecido número 1 do ranking. Eles faziam então a sétima decisão seguida e Nole ganhou em fevereiro de 2017 em Dubai, em emocionantes três sets.

Depois de tantas idas e vindas na vida de Murray, que chegou a anunciar aposentadoria, parecia que os dois nunca mais se cruzariam no circuito, mas eis que os dois antigos rivais dos tempos juvenis irão se reencontrar no jogo mais interessante das oitavas de final do Masters 1000 de Madri.

Como bem salientou, com a firmeza e a honestidade que lhe são peculiares, Andy não acredita em chance de vitória, que poderia amortizar o duro placar de 25 a 11 em favor de Djoko. “Ele é o número 1 e eu tenho um quadril de metal”, sintetizou.

Murray nem deveria estar jogando no saibro, mas mudou de ideia e aceitou convite dos organizadores. Aí fez duas belíssimas apresentações, diante de Dominic Thiem e Denis Shapovalov, e afirma que reencontrar Nole é ótima oportunidade para sentir em que nível está seu tênis. Destacou a movimentação muito superior, que enriqueceu sua conhecida capacidade defensiva.

Para aumentar o favoritismo do sérvio, Djokovic fez sua melhor apresentação da temporada diante do ‘freguês’ Gael Monfils, recuperando no saibro veloz da Caixa Mágica boa parte de seu grande poder ofensivo. Além disso, mostrou pernas ágeis, saque contundente e golpes soltos, bem diferente do que vimos em Monte Carlo e Belgrado. Certamente, apresentação firme contra Murray contribuirá com a confiança tendo em vista um muito provável duelo contra Rafa Nadal ou Carlos Alcaraz na semifinal.

No retorno ao circuito e no primeiro jogo sobre a terra batida em 10 meses, Nadal esbanjou qualidade diante do bom Miomir Kecmanovic. O sérvio de 22 anos sofreu no começo a habitual dificuldade de quem enfrenta Rafa pela primeira vez sobre o saibro, mas depois ficou sólido e encarou o espanhol em alto nível. Agora, Nadal reencontra David Goffin, contra quem tem 4 a 2 no geral e 4 a 0 na terra. O belga está longe dos melhores dias e assim cai como uma luva para quem precisa de ritmo.

Alcaraz por sua vez teve alguns deslizes, pareceu perder o controle da bola em alguns momentos mas no geral foi bem diante do jogo pesado de Nikoloz Basilashvili. O duelo contra Nadal na sexta-feira parece inevitável, ainda que o canhoto Cameron Norrie não possa ser desprezado depois de superar dois adversários bem ofensivos: Soonwoo Kwon e John Isner. Contra a sensação espanhola, perdeu todos os cinco sets disputados na quadra dura.

E mais

  • Casper Ruud continua a grande decepção desta fase de saibro, seu melhor piso. Agora, perdeu para Dusan Lajovic, que joga direitinho na terra mas não vencia dois jogos seguidos desde agosto! Ele enfrentará Hubert Hurkacz. O polonês fez jogaço contra Alejandro Davidovich. O vencedor pega Djokovic ou Murray nas quartas.
  • O saibro veloz também causou outra surpresa: Daniel Evans. Ele chegou a Madri com apenas 12 vitórias sobre o saibro em toda a carreira, duas delas justamente no torneio do ano passado. Tirou Delbonis e Bautista e desafia Andrey Rublev, que viveu perigosamente na estreia diante de outro britânico, o convidado e promissor Jack Draper.
  • Stefanos Tsitsipas e Grigor Dimitrov duelam pelo segundo torneio seguido. O grego venceu fácil nas oitavas de Barcelona e subiu para 3 a 1 no geral. O búlgaro teve ótima atuação contra Diego Schwartzman.
  • Confronto inédito entre Felix Aliassime e Jannik Sinner. O canadense tem sido um fiasco no saibro – cinco vitórias em cinco torneios – e o italiano tenta repetir quartas de Monte Carlo.
  • Alexander Zverev admitiu no começo da semana que está duro segurar a cabeça com os problemas extra quadra, mas conseguiu virar contra Marin Cilic. Precisa tomar cuidado com Lorenzo Musetti, que vem de duas ótimas vitórias sobre Ivashka e Korda.
  • As esperadas surpresas vieram na chave feminina. Iga Swiatek abandonou em cima da hora e isso abriu tudo. Ons Jabeur merecidamente está na semi e é a única top 10 de pé, com um tênis muito variado. Destruiu Simona Halep com curtinhas e é favorita diante da qualificada Ekaterina Alexandrova.
  • As quedas de Garbine Muguruza, Maria Sakkari e Emma Raducanu abriram as portas para Jessica Pegula e Jil Teichman fazerem a outra semi. A canhota suíça tem a campanha mais destacada, tendo eliminado Kvitova, Fernandez w Rybakina.
Os personagens do saibro europeu
Por José Nilton Dalcim
7 de abril de 2022 às 14:48

Como de hábito, a lentidão de Monte Carlo abre o calendário europeu de saibro no próximo domingo e traz como grande atração o retorno de Novak Djokovic, que enfim fará seu segundo torneio da temporada. Ele tem dois títulos lá, o mais recente em 2015, e portanto espera-se um teste interessante para seu ritmo de jogo. O atual campeão é Stefanos Tsitsipas, mas nem ele ou Alexander Zverev estão em grande momento.

Carlos Alcaraz e Casper Ruud surgem como reais ameaças. O espanhol virou assunto obrigatório – especialistas não fizeram outra coisa nos últimos dias do que especular qual seu limite -, mas terá duas dificuldades. A primeira é justamente lidar com as expectativas, a outra será jogar num piso que exige mais paciência e tira um tanto do seu poder ofensivo. Já o norueguês estará no habitat natural, ainda que goste de um saibro um pouco mais veloz. Andrey Rublev, Felix Aliassime e Jannik Sinner aparecem quase como coadjuvantes no Principado.

Claro que todos gostaríamos de ver logo Djokovic e Rafael Nadal numa mesma chave, o que não acontece desde o histórico Roland Garros do ano passado, mas ao que tudo indica isso ficará para o saibro veloz de Madri, que todos sabemos nunca é uma referência para Roland Garros. O torneio da Caixa Mágica, que trocou de mãos e agora pertence à IMG, promete ser fortíssimo, já que anunciou na terça-feira a inscrição de todos os top 40 – agora à exceção do operado Matteo Berrettini -, além de Stan Wawrinka e Borna Coric, que entraram com ranking protegido.

Antes disso, Nadal deve reaparecer em Barcelona, depois de se recuperar da fratura por estresse na costela. Se for assim, terá companhia de alguns nomes que pesam no saibro, como Tsitsipas, Ruud, Alcaraz, Diego Schwartzman e Pablo Carreño. Ao mesmo tempo, Djoko estará em casa como favorito ao 250 de Belgrado, junto a Rublev, Gael Monfils, Cristian Garin e Fabio Fognini. Dominic Thiem está inscrito, mas virou dúvida depois de contrair covid e pular Monte Carlo, voltando para casa.

A grande notícia para o tênis masculino é que enfim surgem novos nomes com verdadeiro talento sobre o saibro, o que pode trazer maior imprevisibilidade para todos esses deliciosos torneios, tão diferentes entre si. Até Roma chegar, sempre o verdadeiro aquecimento para Paris, ainda poderemos ver o quanto Miomir Kecmanovic, Francisco Cerúndolo, Hugo Gastón ou Sebastian Baez poderão contribuir para o espetáculo.

Algo me diz que estamos diante de uma das mais concorridas temporadas de saibro dos últimos tempos.

Feminino se antecipa
O saibro começou para as mulheres bem mais cedo, já que nesta semana acontece o tradicional 500 de Charleston, onde Aryna Sabalenka, Paula Badosa, Karolina Pliskova e Ons Jabeur arriscaram ir atrás do título mesmo com pouco tempo para a transição da quadra dura de Indian Wells e Miami.

Dentro de duas semanas, Iga Swiatek, Maria Sakkari, Barbora Krejcikova se juntam no saibro de Stuttgart e aí a coisa realmente fica boa. A polonesa volta a sua superfície predileta e, no máximo de sua confiança, será favorita ao quarto título seguido. Já a atual campeã de Roland Garros tenta voltar às quadras depois da lesão no cotovelo que a fez também perder a vice-liderança do ranking.

Ausências importantes nessa largada do saibro, Garbiñe Muguruza e Simona Halep devem enfim aparecer em Madri depois de não jogarem Miami por conta de problemas musculares. A espanhola está em baixa neste começo de temporada, sem resultados convincentes e com pouca confiança. Halep ao contrário reencontrou o prazer de jogar e ainda anunciou que passa a ser treinada por Patrick Mouratoglou.

Swiatek, Krejcikova, Badosa e Halep seriam minhas apostas para a fase do saibro. Nessa exata ordem.

E mais

  • Bia Haddad, que está nesta semana atrás top 50 em Bogotá, terá de disputar quali em Madri. O ranking de duplas deve lhe dar vaga direta.
  • Thiago Monteiro foi muito mal nos challengers portugueses e não conseguirá lugar em Roland Garros, tendo de se aventurar no quali. Deve ter companhia de Felipe Meligeni, Laura Pigossi e Carol Meligeni, com alguma chance para Matheus Pucinelli e Thiago Wild.
  • Jo-Wilfried Tsonga vai dar adeus ao circuito em Roland Garros. Um tenista excepcional, mas com físico comprometido há muito tempo. Diz ter enfim cansado de brigar contra o corpo.
  • Vika Azarenka e Elina Svitolina decidiram se retirar por um tempo do circuito e não se sabe quando voltarão. Talvez pulem todo o saibro. Serena Williams deve no máximo se despedir de Paris.
  • Naomi Osaka diz que desta vez vai treinar mesmo no saibro e pode aparecer em Madri.
  • Não ficaria surpreso se Daniil Medvedev só disputasse o Slam francês. Ele nunca gostou do saibro e pode preferir um tratamento cauteloso para a hérnia.
Nem tempo, nem vento derrubam Nadal
Por José Nilton Dalcim
19 de março de 2022 às 23:40

Não foram os aces, o topspin devastador, a capacidade inesgotável de defesa ou os slices maliciosos. Rafael Nadal continua o rei supremo da temporada graças a uma sequência de voleios precisos, intuitivos, corajosos, verdadeiramente mágicos.

Após 3h12 de uma insana batalha contra a juventude e talento de Carlos Alcaraz, a maior parte do tempo sob condições climáticas incompatíveis com um tênis de alto padrão, Rafa sacramentou sua volta ao top 3 do ranking com a 20ª vitória seguida e pode neste domingo somar seu recorde exclusivo de troféus de Grand Slam com o de títulos de Masters 1000, igualando novamente a luta particular com Novak Djokovic em 37.

A expectativa por um duelo equilibrado e decidido nos detalhes se confirmou, mas o vento prejudicou demais os dois jogadores entre o final do primeiro set e o começo do terceiro, tornando muitas disputas em verdadeiras loterias. Na verdade, é elogiável a qualidade que ambos conseguiram ainda fazer lances, muitos sob pressão, diante do vendaval.

Alcaraz raramente sacou bem e isso pesou muito. Teve 2/0 no começo do jogo antes de perder quatro games seguidos, mas ainda empatou no oitavo game antes de sofrer a quebra fatal, num set em que cometeu 23 erros contra 9. Liderou sempre o segundo set a partir do quinto game, porém não conseguia confirmar as quebras obtidas. Nadal usava o máximo de spin para segurar a bola em quadra e tinha dificuldade evidente quando tentava forçar uma paralela, já que a precisão estava muito comprometida pela ventania.

O game crucial para Alcaraz foi o quinto do terceiro set, quando viu Nadal salvar três break-points com brilhantismo e o primeiro de seus voleios desconcertantes que viriam. O veterano de 35 anos já era um tenista bem mais agressivo com a melhoria do clima mas encontrava resistência ferrenha no jovem adversário, que mais uma vez lembrou o gigantesco poder defensivo do próprio Nadal. Por fim, com devolução seguida de subida à rede ao melhor estilo ‘chip-and-charge’, Rafa foi a 5/3 para liquidar em seguida, sem qualquer susto.

O duelo espanhol teve paridade nos erros (41 a 35 para Alcaraz), porém os winners foram muito favoráveis ao garoto (39 a 20). No total, foram disputados 35 break-points, uma marca expressiva para um jogo masculino de três sets.

Fritz sobe outro grande degrau
Lembro de ter alertado lá em janeiro de que Taylor Fritz vinha jogando o melhor tênis que eu já havia visto e estar enfim numa final de nível 1000 faz com que o garotão de 24 anos e 1.96m atinja um patamar definitivamente elevado na carreira.

Não teve uma atuação perfeita diante de Andrey Rublev neste sábado por conta de natural instabilidade, mas cravou um resultado muito justo depois de uma excepcional atuação nos cinco ou seis primeiros games e por se manter sólido depois que Rublev passou a jogar um tênis digno de seu currículo. O norte-americano tem todos os golpes, embora é claro que o saque faça muita diferença. O backhand seja agressivo, se vira bem na rede e a movimentação é bem satisfatória para seu tamanho.

A oportunidade neste domingo é para lá de especial. Desde que Andy Roddick ganhou Miami em 2010, apenas outros dois compatriotas conseguiram erguer Masters 1000 e de forma inesperada: Jack Sock em Paris de 2017 e John Isner em Miami de 2018. Fritz garante o mais alto ranking da carreira, o 15º, e a condição de norte-americano mais bem classificado. Um eventual título o levará ao 13º.

Ele porém possui alguns fantasmas a espantar. Em seis finais, perdeu todas na quadra dura – a maior delas o 500 de Acapulco em 2020 – e só venceu mesmo na grama de Eastbourne há quase três anos.

Final feminina decide nova número 2
O tênis feminino certamente terá uma vice-líder inédita no ranking e o nome sairá justamente da final de Indian Wells entre Iga Swiatek e Maria Sakkari. As duas já deixaram para trás Barbora Krejicikova e quem vencer terá chance de tirar ainda mais diferença para a ausente Ashleigh Barty ao longo de Miami.

As pretendentes vivem situações bem distintas e por isso o favoritismo natural cai para a polonesa, que vem do título no 1000 de Doha onde justamente ganhou pela primeira vez em quatro tentativas de Sakkari.

A vitória sobre Simona Halep, que mostrou certa limitação por um desconforto na coxa, teve como principal componente trocas longas e muito equilíbrio emocional, como destacou a própria Iga. Na sua avaliação, o crescimento na quadra dura se dá porque está atuando de forma mais agressiva, porém acima de tudo na escolha dos momentos certos para isso.

Já a grega tem um problema pessoal a resolver, uma vez que, apesar de seu tênis muito competitivo e da ascensão contínua no circuito, ainda lhe faltam títulos. Seu único troféu até hoje, em quatro finais feitas, foi o pequeno 250 de Rabat e em 2019. É verdade que fez semis importantes, como em Roland Garros, US Open e Finals do ano passado, porém seria justamente a falha mental nas rodadas realmente grandes o que atrapalha Maria.

Eis uma chance de ouro para acabar com isso e fazer jus ao número 2, já que tecnicamente a grega é uma tenista bem completa. Foi o que mostrou por exemplo na semi contra a atual campeã Paula Badosa, em que terminou com um placar acachapante de winners (28 a 6) e ainda obteve três quebras no set decisivo com devoluções oportunas.