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Hora de sonhar alto
Por José Nilton Dalcim
19 de junho de 2022 às 20:13

Beatriz Haddad Maia e sua canhota poderosa já registraram seu lugar entre os maiores tenistas brasileiros da Era Profissional. Tem agora os mesmos dois títulos de WTA de Niege Dias e Teliana Pereira, soma quatro de duplas como Cláudia Monteiro e só perde por um de Patrícia Medrado e atinge o maior ranking entre as meninas, igualando Maria Esther Bueno. Claro que qualquer comparação com Estherzinha é fútil, porém sempre uma referência agradável.

O extremamente animador é que Bia está em franca ascensão. Melhorou muito o físico, mostra golpes bem agressivos e compactos, a confiança cresce a cada semana e grande vitória. A campanha em Birmingham incluiu vitórias sobre duas campeãs de Wimbledon, a de Nottingham marcou outro triunfo em cima de uma top 5. O duelo de força pura e pernas firmes contra Simona Halep encheu os olhos. Fazia tempo que eu não ficava tão nervoso.

Grama obviamente não pode ser o piso predileto, porque praticamente inexiste no Brasil e mesmo em nível internacional está limitada a três ou quatro semanas de competições, então há pouco sentido em se preparar especificamente para isso. No entanto, certos estilos combinam e se adaptam bem com a superfície natural do tênis e esse é o caso desta paulistana de 26 anos e 1,85m. Como relembrou dias atrás, Petra Kvitova sempre foi seu espelho. Que continue assim.

Falta agora campanha de peso num Grand Slam, categoria em que soma seis vitórias porém nunca passou da segunda rodada, incluindo Wimbledon de 2017 e 2019. Depois de tanto sucesso nestas duas últimas semanas, cresce a expectativa não apenas aqui, mas também lá fora. Há muitos analistas falando que vale ficar de olho nela, e concordo plenamente. É hora de sonhar alto.

Como cabeça 24 do Slam londrino, Bia evita cruzar numa eventual terceira rodada com uma das oito principais favoritas, mas a rigor isso não facilita muita coisa porque entre 9 e 16 estão nomes de muito respeito no piso, como Emma Raducanu, Coco Gauff, Jelena Ostapenko, Leylah Fernandez e Belinda Bencic. Abre no entanto chance de cruzar com Garbiñe Muguruza, a quem venceu lá mesmo.

Só precisamos torcer para que venha um sorteio favorável para as duas primeiras partidas porque o equilibrado e imprevisível circuito feminino possui jogadoras bem perigosas que estarão soltas na chave, como Shuai Zhang, Alison van Uytvanck, Clara Tauson e Bianca Andreescu para ficar em poucos exemplos.

Por isso, fica a inevitável pergunta: Bia não deveria dar uma pausa e pular Eastbourne? Além de ter uma estreia duríssima contra Kaia Kanepi, aquela que a venceu batendo tudo em Roland Garros, existe sempre o risco de uma contusão ou sequelas das inevitáveis dores no quadril e coxa que a grama provoca a cada jogo. Se a ideia é manter o embalo e não deixar a parceira na mão, quem sabe entrar somente nas duplas. Bia afirmou neste domingo que não é momento de descanso. Resta respeitar e torcer.

E mais

  • Ainda que os olhos estejam sobre Djokovic e Nadal, Wimbledon ganhou corpo com os resultados dos preparatórios masculinos para a grama. Matteo Berrettini voltou totalmente em forma – e acho que ainda pode jogar melhor -, Hubert Hurkacz fez uma notável campanha em Halle jogando um tênis extremamente competitivo e Nick Kyrgios se mostrou menos fanfarrista e mais focado, o que o torna sempre um grande perigo nesse piso.
  • A decepção por outro lado fica ainda com Stefanos Tsitsipas, ainda que o grego tenha perdido para gente grande como Kyrgios e Andy Murray. Alguém tão versátil, com backhand simples e saque respeitável, tem que fazer mais na grama.
  • Berrettini ganhou quatro de cinco finais que já disputou sobre a grama, com única derrota na final de Wimbledon do ano passado. Hurkacz ergueu o quinto troféu sem jamais ser vice, feito que iguala Alcaraz e Enqvist e fica atrás só de Gulbis e Klizan.
  • Daniil Medvedev, é bom lembrar, perdeu as cinco finais que disputou desde o título do US Open e agora tem 13-12 na carreira.
  • Oscar Otte fez duas semifinais, voleia muito e foi ótima surpresa. Nada bom cruzar com ele nas primeiras rodadas de Wimbledon. Aliás, também estarão soltos na chave Kyrgios, Murray, Bublik, Ivashka, Vesely, Gasquet e Paire.
  • Ótimas atuações de Ons Jabeur em Berlim. Sobe para o terceiro lugar do ranking e pode torcer agora para ficar bem longe de Iga Swiatek na chave. Bencic se machucou e, caso se recupere, é outra que pode sonhar grande. Raducanu, a grande estrela britânica, não jogará Eastbourne e corre contra o tempo para estar inteira até Wimbledon.
Chegou a vez de Raonic?
Por José Nilton Dalcim
25 de janeiro de 2016 às 13:14

O caminho a percorrer ainda é longo, com dois adversários potencialmente mais experientes do que ele. Mas, depois de eliminar Stan Wawrinka em partida exigente, o horizonte parece ter se aberto para que Milos Raonic, que completou 25 anos há menos de um mês, faça enfim sua primeira final de Grand Slam.

Eu já tinha alertado desde Brisbane que o canadense era outro, principalmente porque havia incorporado o jogo de rede frequente e se mostrado menos afobado no fundo de quadra. Foram dois ingredientes essenciais para superar o campeão de 2014, ainda que eu considere que Stan cometeu um grave erro tático nos dois primeiros sets ao ter uma atitude muito passiva, à espera de erros e buracos emocionais do adversário que não vieram.

Curioso mesmo é o fato de que Raonic passou a jogar muito mais na rede depois que Ivan Ljubicic saiu do comando técnico. Ele sempre voleou direitinho, mas era elemento raro no seu jogo, sempre pregado na base, vivendo na base do saque e de forehands forçados. Claro que o serviço continua sendo essencial, porque através dele permite pontos rápidos e muitas bolas no meio da quadra para volear ou definir com o forehand. Aliás, até mesmo o backhand funcionou contra Stan, incluindo duas deixadinhas desconcertantes.

Importante observar que ainda se trata de um estilo de risco, auxiliado neste Australian Open por um piso notadamente mais veloz. Portanto, tende a ser efetivo desde que a confiança se mantenha alta. Raonic tem agora o atlético Gael Monfils pela frente e, pelo que vi os dois jogando, acredito que o canadense enfim ganhará pela primeira vez após duas derrotas. Depois, virá provavelmente Andy Murray e aí ficará muito interessante.

Cabe analisar Murray, porque ele está vivendo um período de intenso desgaste emocional. Revelou depois da boa vitória sobre Bernard Tomic que novamente considerou abandonar Melbourne no meio, agora em função do ataque cardíaco sofrido pelo sogro. Levantou desanimado, só reagiu no meio do dia e avaliou sua conduta em quadra como muito tensa. Ainda assim, teve tênis o bastante para superar o australiano e suas bolas de diferentes efeitos e velocidades.

Mas é evidente que o escocês está chegando perigosamente no limite de sua energia e ter um batalhador David Ferrer pela frente nas quartas de final pode complicar ainda mais. Com a quadra veloz e sua versatilidade de golpes, o cabeça 2 tem o favoritismo para ir à semifinal, porém enfrentar um Raonic de saque a 220 km/h e enorme envergadura à rede exigirá uma concentração e frustrações que talvez Murray não esteja em condições de sustentar por muito tempo.

Quem sabe, por caminhos tortuosos, tenha enfim chegado o grande momento de Milos.

Feminino – Enquanto Vika Azarenka sobra em quadra, duas surpresas agitam a conturbada parte inferior da chave feminina, com duelo entre a chinesa Shuai Zhang e da britânica Johanna Konta por vaga na semi. Tudo está dando certo para Zhang, que veio do quali. Sem ter golpes espetaculares, viu Madison Keys se contundir após um primeiro set tranquilo.

Azarenka mira mais uma final em ritmo de treino. Claro que Angelique Kerber merece respeito e seriedade, porém a canhota jamais venceu em seis confrontos. Não tem grande potência e assim depende muito do que Vika, sempre ofensiva, irá fazer. Se mantiver a regularidade que mostrou até agora, é barbada.

Grande terça – Há tênis para todos os gostos e torcidas nesta madrugada e manhã de terça-feira. Vale ficar acordado. O feminino tem Radwanska x Suárez como aperitivo e depois o clássico Serena x Sharapova. Ainda que a americana seja favorita por conta da extensa série de vitórias, sempre se espera que um dia Maria encerre o jejum que já dura 11 anos. Não vai ser fácil, porque Serena voltou a jogar em alto nível neste Australian Open.

A imprevisível rodada masculina começa à 1h30 com Federer x Berdych, dois jogadores que batem pesado e devem usar o máximo que a quadra veloz da Rod Laver está oferecendo. O suíço ganhou os quatro últimos confrontos, mas perdeu os dois mais recentes em nível Grand Slam, ainda que estejam em passado distante. Parece certo que o saque terá papel fundamental para ver quem comanda antes o ponto.

Às 6h30, Djokovic e Nishikori se reencontram e a expectativa fica por conta da atuação irregular do pentacampeão e das ótimas partidas do sétimo do mundo até agora. Claro que Nole será favorito. Ainda que venha à memória a vitória de Nishikori no US Open de 2014, desde então Djokovic ganhou quatro vezes seguidas. O primeiro set me parece ter grande importância para aumentar ou diminuir a confiança de cada um.