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O novo velho Federer
Por José Nilton Dalcim
1 de julho de 2021 às 19:03

Depois de tantos jogos irregulares e estranhos, enfim surgiu um novo Roger Federer. Ou melhor, o velho Federer. Abusado, agressivo, determinado, chegando firme em bolas difíceis, backhand mais calibrado e o dom nato para jogar na grama. Será que agora vai?

O primeiro set contra Richard Gasquet não foi grande coisa, é verdade. Muita ‘madeirada’, golpes presos e cuidado excessivo em tentar se manter nos pontos. Mas depois de ganhar o tiebreak, o suíço se soltou e aí passou a jogar bem mais próximo daquele tenista tão temido sobre o piso natural do tênis. Fez dois belos sets, o backhand ficou muito mais sólido, as devoluções ganharam peso e, talvez o mais importante de tudo, ele saiu sorrindo e claramente feliz por ter evoluído.

É cedo ainda para otimismos exagerados, porque vem agora um desafio real: o canhoto Cameron Norrie. O britânico não é um favorito ao título, porém ganhou ritmo e confiança em Queen’s. Aliás, vem mostrando um tênis confiável desde o saibro, com boas campanhas em Estoril, Roma, Lyon e Roland Garros. E ainda terá obviamente a torcida, que não vai tentar empurrar Federer como de costume.

Se voltar a jogar bem, Federer ganha então favoritismo contra Lorenzo Sonego ou James Duckworth para um possível e já aguardado duelo diante de Daniil Medvedev nas quartas. O russo no entanto também tem desafios. Fez outra bela apresentação contra o garoto Carlos Alcaraz com um cardápio bem completo de golpes, e cruzará agora com Marin Cilic, aí sim um autêntico jogador de grama. O vice de 2017 não vive seus melhores dias, mas é adepto de um tênis rápido, saque forçado e pontos curtos, e num dia inspirado é osso duro nessa superfície. E não se pode descartar o estilo kamikaze do cazaque Alexander Bublik, adversário de Hubert Hurkacz.

O ‘fator Kyrgios’
O aparecimento de Nick Kyrgios em Wimbledon criou um ‘fator surpresa’ no outro quadrante da chave inferior. Mostrou-se fisicamente bem após a maratona da véspera e venceu Gianluca Mager com 90% de seriedade. Tentou é claro seus malabarismos e me diverti muito no ponto final do tiebreak do primeiro set, quando fingiu que ia dar um saque por baixo, o que levou o italiano a dar um passo à frente, e aí disparou um foguete. Para concluir, pediu ‘conselho’ a uma torcedora. O público britânico o adora e até mesmo voluntários da organização o aplaudiam com euforia após pontos bonitos.

Muito interessante o duelo que fará no sábado contra o embalado Felix Aliassime, que o venceu na grama de Queen’s dois anos atrás. O canadense anda sacando muito e é bem firme da base, o que exigirá muito mais de Kyrgios, incluindo seu humor. Melhor ainda, quem vencer pode muito bem ser o adversário de Alexander Zverev, que para mim tem favoritismo contra Taylor Fritz. O alemão só tem uma oitavas em Wimbledon e economizou muita energia nos dois primeiros jogos.

Outro candidato sério a essa vaga na semi é Matteo Berrettini. Depois de pegar o canhoto e paciente Guido Pella na estreia, passou pelo saque pesado e jogo agressivo de Van de Zandschulp e achou soluções para tudo. Precisa de cuidado com Aljaz Bedene, que já jogou como britânico e gosta da grama. Adiante, estão Jordan Thompson e Illya Ivashka.

Mais surpresas no feminino
A chave das meninas era sabidamente um campo fértil para novidades e surpresas e o complemento da segunda rodada justificou isso, com a queda de mais dois nomes importantes. Elina Svitolina parou em Magda Linette num dia pouco inspirado e Victoria Azarenka caiu diante do tênis muito competente de Sorana Cirstea. Vamos analisar os diferentes quadrantes, que estão bem curiosos.

Ashleigh Barty e Barbora Krejcikova caminham para o confronto direto já nas oitavas e quem vencer pode dar um grande salto rumo à decisão, já que o quadrante anexo é onde está agora Cirstea e aparece o jogo pesado de Jelena Ostapenko. Grande ‘zebra’ desse setor é Emma Raducanu, britânica de apenas 18 anos e atual 338ª do ranking, que fica lá atrás buscando linhas.

Não há um nome realmente favorito no outro quadrante. A campeã de 2018 Angelique Kerber vem é verdade embalada, mas quase se enrolou com a saibrista Sara Sorribes. De qualquer forma, gostaria de ver um embate com Coco Gauff nas oitavas. A jovem americana tem um estilo bem propício para Wimbledon e talvez por isso surja inesperadamente como a terceira mais bem cotada nas bolsas de apostas londrinas. Esse lado também tem Anastasia Pavlyuchenkova, a vice de Paris, que precisa ficar esperta no sábado contra Karolina Muchova.

E mais
– Djokovic reencontra Kudla, a quem venceu duas vezes em 2019, uma delas em Wimbledon, cedendo meros 7 games. Kudla já esteve nas oitavas do torneio em 2015.
– Murray e Evans pegam adversários inéditos: Shapovalov e Korda, ambos na Central. Se vencer, Murray enfim volta ao top 100 e já entre os 90.
– Rublev faz oitavo duelo contra Fognini, o primeiro na grama, e o italiano lidera por 5-2. Na ATP Cup de fevereiro, russo arrasou.
– Serrano, adversária de Sabalenka, é uma das tenistas que mais evoluíram em 2021. Furou o quali tanto de Roland Garros como de Wimbledon. Colombiana tem 19 anos.
– Com a contusão de estreia, Serena deixará o top 15 após Wimbledon.
– O canhoto gaúcho Rafael Matos faz sua estreia em Slam nesta sexta-feira em dupla com Monteiro. Os dois entraram no lugar do machucado Mannarino.
– Kyrgios e Venus são grande atração da chave mista, atuam nesta sexta-feira e podem entrar até na Central.
– E saiu a lista olímpica de simples e duplas; Clique aqui para ver todos os confirmados até agora.

Dolorosas frustrações
Por José Nilton Dalcim
29 de junho de 2021 às 19:17

Foi uma terça-feira triste em Wimbledon. Começou pela atuação tão abaixo da crítica de Roger Federer, prosseguiu com a lamentável contusão do seu adversário Adrian Mannarino que fazia uma grande exibição e foi concluída com as lágrimas da supercampeã Serena Williams, ao complicar a contusão na coxa direita ainda no quarto game com consequente abandono.

O suíço até ganhou o primeiro set, mas só foi mostrar o tênis que se espera dele sobre a grama lá nos games disputados no quarto set. Apertado pelo placar,  enfim mostrou-se efetivamente agressivo, com devoluções arriscadas e melhor exploração do jogo de rede. No resto do tempo, não fez mais do que trocar slices e manter a bola em jogo, o que obviamente agradou Mannarino. O francês não tem grande potência e assim gosta de um jogo cadenciado. Decepcionante.

É verdade que Federer já tinha quebra na frente no quarto set no momento em que Mannarino se desequilibrou e torceu o joelho direito, o que o forçaria a abandonar logo depois já que mal se movia. Uma pena. Não fosse essa incrível falta de sorte, nada garantia que o francês não levasse a vitória num eventual quinto set. O próprio Roger reconheceu que o adversário era o melhor em quadra e só aumentou as dúvidas sobre sua real situação técnica, física e principalmente emocional.

Parece que superar a primeira semana será mesmo sua maior meta, como ele afirmou no sábado. Agora, terá pela frente Richard Gasquet, contra quem tem 12 a 2 e dez anos de ‘fila’, mas se existe um lugar em que Gasquet pode ser perigoso é na grama. E no grau de confiança que Federer está…

A saída de Serena não foi menos chocante. A heptacampeã também apostava suas fichas em Wimbledon para enfim retornar aos troféus de Grand Slam – perdeu as finais de 2018 e 2019 como favorita – mas deve ter se contundido nos treinos. Apesar da coxa enfaixada, tinha 3/1 quando escorregou e torceu o tornozelo da mesma perna. Foi mancando para o atendimento, já com cara de choro, e logo depois teve mesmo de desistir, aí já sem conter as lágrimas. Ao que tudo indica, vai para sua derradeira tentativa do 24º Slam no US Open já que o físico definitivamente não a sustenta mais

E mais
– Outra grande atuação de Medvedev na grama, vingando-se da derrota para Struff de Halle dias atrás. Devem vir agora dois jogos mais fáceis e chegar nas quartas não parece mais tão complicado. Saque forçado, ótima movimentação e bolas retas têm sido seu cardápio, enriquecido com alguns ótimos voleios.
– Zverev, que só tem uma presença em oitavas no torneio, fez o que se esperava diante de um quali. Evans foi muito bem contra López e Shapovalov sofreu com o sempre ardiloso Kohlschreiber, num dos melhores jogos do dia.
– Arsenal repleto, gostei demais da atuação de Korda contra De Minaur, que vinha de título no sábado. Aliás, terceira surpresa americana, repetindo Tiafoe e Stephens.
– Cada vez que vejo Kyrgios jogar bate aquela raiva: por que esse rapaz não leva o tênis a sério? Fora do circuito há quatro meses, fez lances geniais, abusou da improvisação que a grama exige e levou Humbert ao quinto set, suspenso no 3/3. O canhoto francês está super afiado e o jogo até aqui foi muito bom.
– Outro momento emocionante foi a atuação de garra de Carla Suárez diante de Barty. A australiana exibiu todo seu rico tênis, mas a espanhola levou o segundo set e saiu aplaudida por toda a Central, incluindo a número 1.
– A campeã de Roland Garros mostrou-se muito à vontade na grama. Duplista de mão cheia, Krejcikova tem bom teste contra Petkovic. Nada mau se cruzar com Barty lá nas oitavas.
– Kerber manteve embalo, Pliskova e Gauff venceram dois sets duros. E Venus, aos 41, voltou a vencer em Wimbledon após três anos. Essa, sim, é exemplo magnífico de amor à profissão.

Chove, chuva
– Treze jogos masculinos ainda de primeira rodada foram completamente adiados para quarta-feira, o que obrigará seus vencedores a volta à quadra no dia seguinte para a segunda partida. Nesse grupo estão Monteiro-Aliassime, Dimitrov-Verdasco, Querrey-Carreño, além de Taylor Fritz, Lorenzo Sonego e Alexander Bublik.
– Outros cinco jogos não terminaram, com destaque para Cilic e Norrie que ainda vão abrir o segundo set. Monfils começou na segunda-feira e seguirá pelo terceiro dia.
– O pior é que Monfils e Garin são da parte superior da chave, que já entrará na segunda rodada nesta quarta. Ou seja, quem vencer joga quinta e quem sabe na sexta também.
– O feminino adiou 14 partidas inteiras, lista que tem Andreescu-Cornet e nomes como Bencic e Azarenka, e tem uma suspensa no terceiro set. As ganhadoras também terão de voltar na quinta, mas no feminino o desgaste é bem menor e todos os jogos não completados pertencem ao lado superior.
– Ao menos, a previsão diz que só voltará a chover em Londres sábado e domingo, em forma de pancadas.

A frase
“Foi um final de jogo terrível, que não gosto nem de ver. Eu me senti muito mal, principalmente com tudo que passei com o joelho”.
Roger Federer

Todos os olhos em Nole
Por José Nilton Dalcim
27 de junho de 2021 às 20:07

Com a ausência de Rafael Nadal e o momento incerto de Roger Federer e Serena Williams, todas as atenções em Wimbledon se concentram sobre Novak Djokovic. E o atual campeão e número 1 do mundo inicia a campanha já às 9h30 desta segunda-feira, tendo pela quarta vez a honra de ser o primeiro a pisar na imaculada grama da Quadra Central, como reza a tradição centenária.

Há muita coisa em jogo para Djokovic. Claro que todo mundo pensa no 20º troféu de Slam, o que o igualaria a Nadal e Federer, mas há outras façanhas importantes aguardando o sérvio. Ele pode ser apenas o quinto homem na história a conquistar os três primeiros Slam da temporada, repetindo Jack Crawdford (1933), Don Budge (1938), Lew Hoad (1956) e Rod Laver (1962 e 1969). Desses, apenas Budge e Laver completaram o Slam nos EUA.

Vencer seguidamente no saibro de Paris e na grama londrina também era um feito raro até Bjorn Borg fazê-lo por três vezes seguidas, entre 1978 e 1980. Desde então, apenas Nadal (2008 e 2010) e Federer (2009) repetiram o sueco.

Penta ao lado de Borg, Djoko poderá ainda se isolar como terceiro maior vencedor de Wimbledon desde que foi abolido o ‘challenge round’ em 1921 (ou seja, quando o campeão do ano anterior apenas defendia o título na edição seguinte). Os outros dois são Federer (oito troféus) e Pete Sampras (sete).

Por fim, se for à semifinal, somará 100 vitórias na grama na carreira, clube exclusivo de Federer (188) e Andy Murray (108) na fase profissional.

Com apenas três jogos de duplas feitos em Mallorca – em quatro de seus cinco títulos não jogou preparatórios de qualquer espécie -, Djokovic testa sua adaptação á grama diante do garoto britânico Jack Draper, 253º do ranking nesta segunda-feira. Fico a imaginar o tamanho da ansiedade do canhoto de 19 anos: vai jogar seu primeiro Slam, diante do número 1 e em plena Central, um palco reservado a muitos poucos na história.

Saiba mais
– O torneio mais antigo do mundo atinge a 134ª edição desde 1877 e a 53ª desde que profissionais foram admitidos, em 1968.
– Nesse longo período, o torneio deixou de ser disputado apenas 11 vezes, sendo 4 na Primeira Guerra, 6 na Segunda e 1 nesta pandemia.
– Os campeões embolsam 1,7 milhão de libras (US$ 2,3 mi) e quem perder na estreia, 48 mil (US$ 67 mil)
– Se chegar ao nono troféu, Federer marcará também a maior distância entre o primeiro e o último Slam, com 18 anos. O recorde hoje é de Serena, com 17 anos e 5 meses, seguida por Nadal, com 15 anos e 4 meses.
– Aos 39 anos e 337 dias, suíço também pode ser o mais velho campeão de um Slam.
– Federer disputa o torneio pela 22ª vez, com total de 81 Slam, e Venus completa 23 participações e 90 Slam, recordes absolutos. Feli Lopez chega a 77 Slam seguidos.
– Só existem quatro vencedores de Slam na chave masculina, somando Murray e Cilic. Dos demais, apenas Anderson chegou numa final de Wimbledon. No feminino, são 15 e olhem que Osaka e Halep estão fora.
– Mais dois recordes para o tênis italiano: representantes na chave masculina (10) e cabeças (4).
– Dos oito principais cabeças, Medvedev, Tsitsipas, Zverev, Rublev e Berrettini nunca fizeram quartas em Wimbledon. Bautista foi semi em 2019.
– O cabeça 1 só perdeu uma vez na estreia na Era Aberta: Hewitt para Karlovic em 2003
– Há 18 canhotos na chave. O último a vencer foi Nadal, em 2010
– Borg, Cash, Edberg e Federer foram únicos campeões juvenis que ergueram troféu no profisisonal
– A última vez que um debutante ganhou Wimbledon foi em 1951, com Dick Savitt
– Um membro do time de Johanna Konta deu positivo para covid e a britânica foi obrigada a se retirar do torneio. Ela foi semi em 2018 e quartas em 2019.
– Sabalenka pode tirar Barty da ponta do ranking, mas terá de ser campeã e a australiana não passar das quartas.
– Em 19 participações, Serena nunca perdeu na estreia de Wimbledon. Precisa de duas vitórias para chegar à 100ª no torneio.
– Desde 2017, o circuito feminino vê sempre quatro diferentes campeãs de Slam (em 2020 foram três).
– O Brasil de Maria Esther faz parte da curta lista de 11 países a ganhar o título feminino na história do torneio