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Tênis high-tec
Por José Nilton Dalcim
7 de dezembro de 2013 às 10:29

A Austrália deixou de ter o tênis mais vistoso e importante do circuito há anos, mas certamente é o país que possui a mais avançada tecnologia e documentação sobre os jogadores profissionais em atividade, graças a um trabalho incrivelmente competente que vem sendo chefiado por Darren McMurtrie, analista sênior da Tennis Australia, a federação nacional.

“Quando o técnico Miles Maclagan passou a trabalhar com Sam Stosur, me pediu o máximo de informações que tivéssemos, e ele então recebeu cerca de 20 horas de análises, desde jogos condensados até a identificação de pontos fortes e pontos fracos, padrões de jogo, rituais, bons e maus momentos”, conta o profissional.

Tudo começou em 2008, quando McMurtrie chegou ao Melbourne Park. “Não havia absolutamente nada. Partimos do zero. Contratamos um gerente e um matemático e constamos com a ajuda de um exército de voluntários durante o verão, que captaram cada partida disputada nos torneios profissonais australianos, até mesmo do quali ou de treinamentos. Também temos captado tudo o que importante aparece na internet, sejam vídeos gravados ou jogos ao vivo. Posso dizer que temos hoje filmados e analisados todos os melhores 300 jogadores do mundo dos dois circuitos”.

Depois de captados, os dados são jogados num programa chamado Sportscode, uma versão do que já é usado há anos pelo futebol australiano. “Com ele, podemos estabelecer padrões. Onde o tenista saca no momento de pressão, para onde vai a devolução, onde fazem mais winners ou erros, quando o backhand vem com spin ou slice”, dá exemplos. “Junto à análise, está todo o histórico do tenista. Então um técnico pega esse ‘iBook’, clica Serena Williams e vai ter uma visão detalhada e minuciosa”.

McMurtrie esteve num encontro de julho entre representantes das federações que regem o Grand Slam – França, Inglaterra e EUA incluídos – e pode constatar o quanto o seu programa de análise de tenistas está avançado: “A Associação britânica também faz um trabalho muito bom nesse campo e não está muito longe de nós, mas tem menor profundidade. Os outros dois países estão muito longe”, constatou.

‘Dazz’, como é conhecido o notável analista, garante que todo o material é dedicado para os tenistas e técnicos australianos. “Mesmo se Roger Federer me pedisse, eu diria não”. Ele conta que o time da Copa Davis é quem mais requisita dados, mas ainda encontra resistência na utilização dos dados. “Os treinadores mais jovens estão mais abertos a isso, enquanto outros acham que tenistas muito criativos são instintivos e portanto a matemática não seria tão valiosa”.

No entanto, McMurtrie sente reconhecimento por seu notável esforço. “Estamos conseguindo maior integração. Neste ano, cada treinador australiano utilizou ao menos alguma coisa do nosso arquivo, seja estatística, vídeo ou um simples perfil do adversário. John Tomic é um dos que vem aqui com maior regularidade e usou muito do nosso arquivo na excursão de Bernard na Ásia”.

Como a temporada começa no dia 30, Dazz terá folga unicamente no dia de Natal pelos próximos três meses. Em 2013, viajou 148 dias.

“Nosso maior orgulho foi ver Stosur ganhar o US Open de 2011, ao derrotar Serena. Ela executou um plano de jogo muito bem construído com base no nosso trabalho”, conta ele, que assistiu à conquista no box da australiana e comemorou ‘sua pequena contribuição’ num bar em Manhattan.

Federer continua sua provação em Melbourne
Por José Nilton Dalcim
19 de janeiro de 2013 às 12:07

Quando o sorteio saiu, todo mundo achou que Andy Murray tinha a chave mais dura no Australian Open de 2013. Mas agora ficou bem claro que Roger Federer terá de superar uma autêntica provação se quiser chegar à final do torneio daqui a uma semana.

O suíço já precisou jogar um tênis bem redondinho contra Nikolay Davydenko, ainda na segunda rodada, e foi exigido para valer por dois sets contra o animado Bernard Tomic, que chegou a ter 5-2 no tiebreak com um golpes e frieza de gente grande. E agora vem o saque devastador de Milos Raonic, que foi bem até no fundo de quadra contra Philipp Kohlschreiber, com direito a segundo serviço a 212 km/h.

E a lógica ainda aponta para Federer duelos contra Jo-Wilfried Tsonga nas quartas e o próprio Murray na semi. Não dá para ficar mais difícil. Porém, somente os incautos podem duvidar da capacidade do suíço, que mostrou muita perna e paciência para se defender dos constantes ataques do destemido australiano, aproveitando as pequenas aberturas que teve. Ressalte-se que, apesar de ter convertido apenas três dos 16 break-points na partida, o mérito de escapar do perigo quase sempre coube a Tomic.

Murray, ao contrário, tem seu trabalho cada vez mais facilitado. Contra Ricardas Berankis, chegou a ter 2/4 no segundo set e falhou para fechar a partida no 5/4 do terceiro, porém a diferença técnica era enorme. Agora, pega um arrasado Gilles Simon, que sobreviveu ao sofrível duelo francês contra Gael Monfils. Foram quase cinco horas de trocas de bola monótonas e inócuas, com dois tenistas se arrastando em quadra com problemas físicos. Capaz de Simon nem entrar novamente em quadra.

Mas o tênis francês está em evidência em Melbourne. Além do confronto marcado entre Tsonga e Richard Gasquet por vaga nas quartas, Jeremy Chardy, 36º do mundo, é a ‘zebra’ até aqui. Enfrentou um Juan Martin del Potro que só tinha perdido 13 games nas primeiras rodadas e o havia arrasado em Cincinnati meses atrás. Mas contou com horrível atuação do argentino no primeiro set e a partir daí arriscou tudo: 78 winners e 64 erros não-forçados. Mereceu. Seu adversário? O italiano Andreas Seppi, 21º do mundo, que jogou mais cinco sets e tirou Marin Cilic.

O britânico e cabeça 3 agradece demais.

Feminino – A pressão por manter o título e a liderança do ranking somada ao desprendimento das adversárias têm dificultado a vida de Victoria Azarenka em Melbourne. Passou grande sufoco diante de Jamie Hampton, que mesmo com dor no ombro e cãibras anotou 41 winners e exigiu empenho máximo. Os altos e baixos de Vika podem inspirar Elena Vesnina, russa que vem jogando direitinho. Serena Williams também levou um susto, ao tomar 0/3 de Ayumi Morita no segundo set, mas o saque é um diferencial absoluto: anotou outro 207 km/h e perdeu apenas quatro pontos com o primeiro serviço.

No duelo da nova geração, deu Sloane Stephens, 19 anos, que diz não ter jogado seu melhor contra Laura Robson apesar dos 22 winners em dois sets. O curioso foi ter jogado contra a torcida: “Me senti como se estivesse na Itália enfrentando uma italiana”, comparou. Ela tem chance contra Bojana Jovanovski. No mesmo quadrante, estão duas que tentam renascer: Carol Wozniacki e Svet Kuznetsova.

Só temos um – E Thomaz Bellucci, quem diria, saiu de maior decepção para última esperança brasileira nas chaves profissionais do Australian Open, depois que ele e o francês Benoit Paire surpreenderam Bruno Soares e o austríano Alexander Peya. É apenas a segunda vez na carreira que Bellucci disputará as oitavas de final de um Grand Slam. A outra foi nas simples de Roland Garros de 2010. O jogo contra Qureshi/Rojer deve passar ao vivo na ESPN por volta das 23h30.

Domingo – As oitavas de final de um Slam deveriam ser promessa de equilíbrio e imprevisibilidade, mas ao menos para os jogos de domingo isso deverá acontecer bem pouco. Com 11 a 2 nos confrontos diretos, Novak Djokovic buscará sua 15ª presença consecutivas nas quartas de final de Grand Slam, o que será a terceira maior marca depois de Roger Federer e Jimmy Connors. O adversário é Stan Wawrinka, que ganhou duas vezes de Nole, mas em 2006! Outro favorito é Tomas Berdych: ele venceu todos os quatro duelos que fez nos últimos 12 meses contra Kevin Anderson.

O melhor do dia promete ser David Ferrer x Kei Nishikori, principalmente porque o japonês tem 2-1 nos duelos diretos e tenta repetir as quartas do ano passado. Então deveremos ter dois tenistas bem dispostos em quadra. Janko Tipsarevic e Nicolás Almagro também deveriam fazer partida longa, mas é difícil imaginar que o sérvio ainda tenha fôlego depois de dois jogos seguidos em cinco sets. Aliás, ele tem 17-8 em quinto sets na carreira, um número e tanto.

O feminino pode ter um bom jogo entre Agnieszka Radwanska e Ana Ivanovic, já que a polonesa parece ser a única das top 4 contra quem Aninha ainda tem chance de vencer. Maria Sharapova é superfavorita e outra russa, Ekaterina Makarova, surge como candidata a surpresa diante de Angelique Kerber. O jogo entre as erráticas Na Li e Julia Goerges não me empolga em nada.

Saiba mais
A derrota de Bernard Tomic encerra a participação australiana no Open, incluindo também a chave feminina, e aumenta a frustração daquela que já foi a segunda maior potência do tênis. No torneio caseiro, o último campeão ainda é Mark Edmondson, em 1976, quando poucos jogadores de ponta iam a Melbourne. Desde então, Pat Cash chegou às finais de 1987-88 e Lleyton Hewitt, na de 2005. O jejum em Grand Slam também aumenta: o último troféu foi aquele de Hewitt em Wimbledon de 2002. No feminino, uma australiana não vence desde Chris O’Neil, em 1978, mas ao menos Sam Stosur faturou o US Open de dois anos atrás.