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Palmo a palmo
Por José Nilton Dalcim
18 de setembro de 2020 às 20:03

Embora em situações diferentes, os dois grandes favoritos para o título masculino em Roma deram o segundo passo rumo à que parece ser a inevitável conclusão do torneio, na segunda-feira. Novak Djokovic encarou um primeiro set bem complicado diante do amigo e parceiro de treino Filip Krajinovic, vivendo alguns altos e baixos, e Rafael Nadal mostrou versatilidade diante de Dusan Lajovic, o sérvio que bate backhand com uma mão.

A disputa entre Djoko e Nadal pela hegemonia dos Masters é bem equilibrada. Ambos somam 35 títulos e 51 finais. Rafa leva vantagem nas semifinais (73 a 68), vitórias (386 a 362) e eficiência (83% a 82,1%). E não é lá muito justo acusar o espanhol de ser soberano num piso só. Vejam: Nadal tem 25 títulos no saibro, mas Djokovic soma 26 na dura. Não há Masters na grama.

O primeiro set entre os sérvios foi uma maratona de 88 minutos, em que cada um perdeu seu primeiro game de serviço e desperdiçou chances preciosas de quebra. Djokovic poderia ter simplificado com os dois set-points que atingiu no 10º game, um deles numa devolução de segundo saque raramente falha. Aí no tiebreak levou um susto, ao ver Krajinovic sacar com 4-1. Um único vacilo e a virada veio, mas Nole ainda precisou de três set-points para concluir, depois de desperdiçar um deles com uma dupla falta que saiu 1 metro.

Há de se elogiar acima de tudo a exibição arrojada e sólida de Krajinovic. Entrou com proposta ofensiva, aguentou a pancadaria, correu demais atrás de curtinhas, foi à rede e contra-atacou com qualidade. Tremendo esforço. Djokovic fez lances excepcionais, mas também errou bastante, ainda que muitas vezes tenha sido por mínimos centímetros. Quando aquele forehand mais rasante na paralela – que exibiu com enorme desenvoltura em Flushing Meadows – começou a entrar, disparou.

Nadal se deu ao luxo de tentar variadas táticas. Devolveu lá atrás, jogou em cima da linha, cruzou backhand, subiu à rede, deu curtinha. Cardápio completo diante de um Lajovic apenas esforçado. Mais uma vez, o primeiro saque do espanhol foi o ponto menos consistente, a ponto de perder dois games de serviço.

As quartas de final deste sábado não prometem surpresas para os dois. Djokovic será favoritíssimo diante do quali alemão Dominik Koepfer e Nadal entra com histórico de 9 a 0 sobre Diego Schwartzman.

Matteo Berrettini é a esperança local e tenta sua segunda semi de Masters diante do canadense Denis Shapovalov. Quem vencer, provavelmente desafiará o número 1. Já Grigor Dimitrov faz uma campanha digna, marcou ótima virada sobre Jannik Sinner e encara outro ‘nextgen’, o norueguês Casper Ruud. Vale lembrar que Dimitrov é outro grande ‘freguês’ de Nadal, com 13 derrotas em 14 jogos.

Quem vai parar Azarenka?
Nem mesmo a troca radical de piso atrapalhou Victoria Azarenka. que já ganhou mais três jogos em Roma, entre eles uma incrível ‘bicicleta’ sobre a número 5 Sofia Kenin. A bielorrussa também jogou pouco hoje, já que a russa Daria Kasatkina se machucou no começo do tiebreak, e agora se prepara para desafios. De quebra, uma bela atitude ao socorrer e consolar a adversária.

Neste sábado, encara a força de Garbiñe Muguruza sobre as quadras de saibro e, se passar, poderá cruzar com a cabeça 1 Simona Halep. É um quadro digno de finais de Roland Garros. Mas nem de longe indicará a possível campeã, porque no lado inferior estão a atual campeã Karolina Pliskova e a vencedora dos dois anos anteriores, Elina Svitolina. E cada uma tem problemas nas quartas. Svitolina encara Marketa Vondrousova, a inesperada vice de Paris no ano passado, e a tcheca joga contra Elise Mertens, uma jogadora completa e que vem de 15 vitórias nos quatro últimos torneios.

E de sobra, fiquemos na torcida por Luísa Stefani, que está na semi de duplas ao lado da parceria Hayley Carter. Não vai ser fácil, já que encaram as duas líderes do ranking e atuais campeãs de Wimbledon, a taiwanesa Su-Wei Hsieh e a tcheca Barbora Strycova.

E mais
– Caso Djokovic mantenha o amplo favoritismo deste sábado, ele atingirá um feito curioso: irá superar Guillermo Vilas no percentual de vitórias sobre o saibro. Neste momento, o sérvio é o quinto colocado, com 79,7%, e o canhoto argentino está a sua frente, com 79,74%.
– Em número absolutos, Vilas é o tenista que mais ganhou no piso na Era Aberta, com 681 vitórias, acima de Manuel Orantes (555) e de Nadal (438).

Bem vindo, Rafa
Por José Nilton Dalcim
16 de setembro de 2020 às 19:45

Depois de quase sete meses sem disputar qualquer jogo, nem mesmo amistoso, Rafael Nadal retornou ao circuito no tradicional saibro de Roma e a impressão que deu foi a melhor possível dentro das circunstâncias, como se quase nada tivesse acontecido.

O último dia em que Nadal entrou em quadra foi na conquista do ATP 500 de Acapulco, no dia 1º de março. Ficou totalmente parado ao longo do período de isolamento social na Espanha e só retornou aos treinos quando foram relaxadas as normas. Decidiu não competir nos torneios combinados de Flushing Meadows, apostando todas suas fichas no saibro.

Freguês de carteirinha, Pablo Carreño, aquele que ficou a um set da final do US Open cinco dias atrás, mal serviu para um treino. É bem verdade que fez uma opção pelo risco e cometeu erros bisonhos, mas Rafa não tem nada a se queixar. Mostrou ótima mobilidade, fugindo até mesmo do backhand lá na linha de dupla, e fez o que melhor que sabe no saibro, aquela excepcional mistura de topspin defensivo todo enroscado com golpes muito agressivos. Totalizou 20 winners e 11 erros, ganhou 31 dos 39 pontos com o saque e olha que a média de primeiro serviço deixou a desejar, na casa dos 49%.

Quando pisa no saibro, Nadal vira um semideus. Seu percentual de aproveitamento é absurdo: 437 vitórias e apenas 39 derrotas, ou seja, eficiência de 91,8%. A chave de Roma promete lhe dar diferentes desafios, como o slice de Dusan Lajovic ou o saque poderoso de Milos Raonic na próxima rodada, o jogo peso pesado de Andrey Rublev ou a correria de Diego Schwartzman nas quartas. Com o novo vexame de Stefanos Tsitsipas, concorrem à semi Fabio Fognini, Denis Shapovalov e Grigor Dimitrov.

Djoko sem sequelas
A quarta-feira também viu a estreia de Novak Djokovic e foi também muito bom perceber que o sérvio não mostrou qualquer sequela do drama vivido com a desclassificação em Nova York. O italiano Salvatore Caruso até foi competitivo no começo, fixando-se quase em cima da linha, de onde pegou na subida e trocou direções com competência. Mas bastou Nole achar o ritmo mais ofensivo da devolução para dominar com ampla superioridade.

Seu desafio de quinta-feira talvez seja o mais perigoso antes da presumível reedição da final de 2019 contra Nadal. O amigo e parceiro de duplas e treino Filip Krajinovic é um adversário respeitável no saibro e tem diferentes armas. Fora ele, o dono da casa Matteo Berrettini não pode ser subestimado e ficou como forte candidato à semi com a queda incrível de David Goffin diante de Marin Cilic.

Djokovic sempre se sentiu à vontade em Roma, conquistando quatro troféus, mas desde 2016 não achou mais o caminho dos títulos. Nesse ano, chegou a derrotar Nadal antes de perder a final para Andy Murray e na edição seguinte foi surpreendido pelo então garoto Alexander Zverev na decisão. Nadal foi quem o tirou na semi de 2018 e o superou na final de altos e baixos de 2019.

E mais
– O pessoal que gosta das contagens regressivas anote aí: faltam apenas nove para Nadal se tornar o quarto profissional a atingir a incrível marca de 1.000 vitórias, lista que tem Connors (1.274), Federer (1.242) e Lendl (1.068).
– O tênis italiano colocou de forma inédita oito representantes na segunda rodada. Três já avançaram: Berrettini faz duelo direto com Travaglia e Sinner tirou Tsitsipas no terceiro set, embora tenha tido 6/1, 5/3 e saque antes disso.
– O adolescente Musetti mostrou qualidades diante de um Wawrinka em seus dias de preguiça e pega o também ex-top 5 Nishikori nesta quinta. Vale assistir.
– Fognini é outra atração do dia, mas seu histórico em Roma é muito pobre: uma quartas em 12 tentativas. Para piorar, perdeu do 303º do mundo semana passada em Kitzbuhel. Seu adversário é o elétrico canhoto Humbert.
– Dimitrov fez coro às críticas inconsoláveis de Tsitsipas sobre o piso da magnífica quadra Pietrangeli. Eles acusam de estar muito irregular.
– E não se esqueçam: a final de Roma será na segunda-feira.

Desafio US Open
Kauê Guedes foi o único participante do Desafio US Open a dizer que Zverev precisaria de cinco sets para ganhar de Carreño e que Thiem venceria Medvedev em sets diretos. Assim, ele leva o prêmio e os parabéns: a Editora Évora enviará o livro cheio de dicas importantes de Fernando Meligeni, o “Jogando Junto”.

Missão impossível para Nadal
Por José Nilton Dalcim
17 de junho de 2020 às 20:34

Após a confirmação de Cincinnati e US Open numa realização conjunta e consecutiva em Flushing Meadows, a ATP soltou nesta quarta-feira o esboço do calendário que pretende realizar a partir de 14 de agosto, quando se imagina ser possível enfim retomar o circuito internacional.

E a missão não poderia ser mais difícil para Rafael Nadal. Se quiser defender 5.360 de seus 9.850 pontos atuais, o canhoto espanhol terá de entrar em quadra por pelo menos seis semanas consecutivas e em dois pisos diferentes.

Olhem só a montanha a escalar: 2000 pontos no US Open, 360 em Madri, 1000 em Roma e 2000 em Roland Garros, ou seja, defender três dos quatro títulos. Claro que ele pode trocar Madri por Cincinnati, torneio que não disputou no ano passado. Isso permitiria que entrasse em melhor ritmo no Grand Slam, ainda que seja sempre um risco ao joelho. E em última hipótese, arriscar jogar Madri caso não se saia tão bem no US Open.

Além do desgaste físico e emocional que tal maratona proporciona, Nadal terá mínimas chances de se manter próximo ao número 1 Novak Djokovic. Quando o ranking foi congelado, ele estava a entusiasmantes 370 pontos.

Nessa mesma sequência insana do novo calendário, o sérvio defende 360 pontos em Cincinnati, 180 no US Open, 1000 em Madri, 600 em Roma e 720 em Roland Garros, num total de 2.860, ou seja 2.500 a menos que Rafa. Se considerarmos sua excelência sobre a quadra dura, é muito provável que some muitos pontos no US Open e aí saltar Madri parece muito lógico, até porque o saibro espanhol é muito diferente do que verá em Roma e em Paris.

Ainda não se sabe o que acontecerá após Roland Garros. Oficialmente, a ATP não descartou a fase asiática mas, com Roland Garros terminando dia 11 de outubro, teria de haver no mínimo duas semanas para uma aventura a Pequim e Xangai (Tóquio está fora). E isso apertaria a realização de Paris-Bercy e o Finals de Londres em novembro, já que a ATP não quer de forma alguma avançar sobre dezembro.

De qualquer forma, a chance de Nadal ainda somar pontos para uma eventual briga pela liderança é escassa. Ele marcou 720 pontos e poderia somar 2.740 se ganhasse Xangai, Paris e Finals, o que convenhamos não é nada fácil Nesses três torneios, Djokovic defenderia 1.380, já que ganhou Bercy.

Especula-se, claro, se Nadal e Djokovic iriam mesmo a Nova York, já que não se manifestaram confortáveis com a forma com que a pandemia abalou a metrópole. Particularmente, acho difícil eles saltarem um Slam nesta altura de suas carreiras e de suas metas, tão próximas, se igualar ou apertar o recorde de Roger Federer.

O espanhol, é claro, pode se dar ao luxo de apostar todas suas fichas no saibro europeu e saltar o US Open para economia de joelhos e sustos. Djoko, ao contrário, é menos favorito na terra e muito mais candidato em Flushing Meadows.

Uma coisa não se pode negar: um Slam sem o Big 3 jamais seria o mesmo.

P.S. 1: Como se imaginou ontem quando o US Open cancelou o qualificatório, a chave principal terá agora 120 nomes diretamente pelo ranking e, como ele não poderá se mexer até o começo de Washington, o paranaense Thiago Wild terá vaga direta e jogará seu primeiro Grand Slam. O mesmo que conquistou como juvenil em 2018. Thiago Monteiro também está garantido.

P.S. 2: O calendário anunciado pela ATP fará com que Washington comece numa sexta-feira e Cincinnati, num sábado, com final na sexta seguinte. Novos tempos.