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Djokovic ‘rouba’ eficiência de Nadal
Por José Nilton Dalcim
14 de julho de 2021 às 16:52

Com 34 vitórias em 37 possíveis nesta temporada, o que lhe garantiu também quatro títulos e três troféus de Grand Slam, Novak Djokovic se mostra bem superior a Rafael Nadal nos últimos sete meses e como consequência tirou do espanhol a condição de tenista mais eficiente de toda a Era Profissional.

Djoko tem agora 968 vitórias e 195 derrotas na carreira, com sucesso de 83,23%, e fica ligeiramente acima de Rafa, com 1.027 vitórias e 208 derrotas, que lhe geram positividade de 83,16%. Em 2021, o espanhol jogou 27 partidas e venceu 23.

O terceiro posto permanece com o sueco Bjorn Borg, com 82,4% mas números mais acanhados (654 vitórias em 794 jogos), à frente de Roger Federer, que está com 82%, frutos de 1.251 triunfos em 1.526 tentativas.

Ainda acima de 80%, aparecem Jimmy Connors (81,8%), John McEnroe (81,7%) e Ivan Lendl (81,5%). O quarto tenista em atividade na lista ocupa o 10º posto na Era Aberta: Andy Murray, com 76,9%.

À espera do quarto Slam
O US Open pode ser determinante para que Djokovic também supere enfim Nadal no aproveitamento de vitórias em jogos de Grand Slam. A diferença nunca foi tão pequena: o espanhol tem agora 87,7% (291 vitórias e 41 derrotas) e o sérvio, 87,6% (317 e 45). Os dois estão bem à frente de Federer, com 86% (369 e 60) e atrás somente de Bjorn Borg (89,2%, porém com menos da metade de jogos feitos).

A vantagem de Nadal sobre Djokovic é feita em cima de Roland Garros, único Slam em que ele aparece entre os três primeiros, com incríveis 97,2%. Já Djokovic é recordista na Austrália (91,1%) e está em terceiro nos outros: 84,4% em Paris, 88,8% em Wimbledon e 86,2% no US Open.

Embora tenha dois títulos a menos que Federer em Nova York, o tricampeão divide o recorde de finais em Flushing Meadows, com oito, ao lado de Lendl e Pete Sampras. O suíço vem logo atrás, com sete, junto a Jimmy Connors.

Haverá uma disputa interessante entre Nole e Federer pelo segundo lugar no percentual de sucesso no US Open. O suíço é o segundo, com 86,4%, e o sérvio está grudado, com 86,2%, ambos atrás somente de Sampras e seus notáveis 88,8%.

Nadal por sua vez terá uma única chance de não interromper duas marcas muito relevantes em sua carreira. Desde 2005, ele ganhou ao menos um troféu de Slam por 14 temporadas (contra 11 de Djokovic e Federer), assim como fez ao menos uma final (neste quesito, o suíço está acima, com 15). Nadal tem também a marca de temporadas consecutivas, com 10.

Como todo mundo sabe, Djokovic detém a maior sequência de vitórias em nível Slam da Era Profissional, com 30, entre 2015-16, e está no momento com 21. Se ele levar este US Open, saltará então para 28 e terá as três maiores séries (Federer tem duas de 27 e ele próprio, uma).

Um dado curioso: Djokovic é o único dos Big 3 que ainda não venceu um Slam sem perder set. Nadal tem a maior coleção da Era Aberta nesse quesito, com 4, e Federer já fez em 2. Apenas Ken Rosewall e Borg, este por três vezes, conseguiram isso.

Desafio Wimbledon
Doze internautas acertaram que a final de Wimbledon teria Djokovic perdendo o primeiro set no tiebreak, mas que venceria nos três sets seguintes, como realmente aconteceu. É um número bem expressivo. O vencedor no entanto teve um desempenho quase tão bom como o de Nole: Celso Antonio Bonin errou um único game no seu palpite (6/7, 6/4, 6/4 e 6/2, quando na verdade o quarto set foi 6/3). E assim merece muito o prêmio da Editora Évora e irá receber no endereço que indicar a biografia de Djokovic, grande sucesso de vendas. Parabéns!

Djokovic completa a tarefa de Hércules
Por José Nilton Dalcim
13 de junho de 2021 às 19:50

O adversário era grego, mas os deuses do Olimpo permitiram que a justiça fosse cumprida. O homem que derrotou o rei supremo do saibro Rafael Nadal num jogo de tirar o fôlego jamais poderia sair deste domingo sem o título de Roland Garros. Houve o toque dramático a gosto de Zeus, mas os dois sets brilhantemente vencidos por Stefafos Tsisipas apenas aumentaram o tamanho da conquista de Novak Djokovic.

Pela segunda vez em seis dias, Nole virou um jogo em que saiu dois sets atrás frente a garotos talentosos e no curto espaço de três dias lutou mais de 4 horas diante do dois top 5 de vitalidade privilegiada. Nesta reta final de campeonato, foi obrigado a jogar 18 sets e barrou três dos 10 melhores do mundo. Acima de tudo, sejamos bem honestos, um jogador de saibro com as qualidades técnicas, físicas e psicológicas de Djokovic merecia muito mais do que um título em Roland Garros. E para ser sincero, ainda acho que dois troféus são pouco.

Djoko foi colocado à prova neste torneio vindo de uma temporada de saibro relativamente fraca para seu poderio. Perder de Daniel Evans ou Aslam Karatsev estava fora da lógica. Sofreu em Roma para ganhar do próprio Stef e fez uma final equilibrada diante de Nadal, sem conseguir interromper a série de derrotas. Havia muitas questões a ser resolvidas e duvido que não tenha passado por sua cabeça a decepção de 2015 ou principalmente a atuação desastrosa da final de 2020. Era hora de ele responder. E o fez.

Aos 34 anos e com longa permanência na liderança do ranking, nada indica que a vontade de vencer de Djokovic tenha diminuído. Muito pelo contrário, ele se alimenta do desejo por recordes, da meta de ser o maior de todos os tempos. Deu um passo enorme neste Roland Garros para isso porque, apesar do crescimento inexorável da nova geração e da capacidade inconteste dos outros Big 3, continua a jogar o melhor entre todos e em qualquer aspecto que se olhe o tênis moderno.

O ‘Goat’ é uma mera questão de tempo.

Uma final, dois jogos
A bem da verdade, temos de dividir a partida em dois pedaços bem distintos.

O primeiro set foi o melhor desta final, equilibrado o tempo todo, com alternâncias nas oportunidades. O grego conseguiu competir igualmente lá no fundo de quadra e repetia muito o que fez em Roma, quando era consistente com o backhand, aproveitava as chances de agredir com o forehand e o saque simplificava pontos importantes. Djokovic sacou incrivelmente bem, passou 13 pontos sem perder, mas quase o set escapou no 5/4. Em seguida, obteve a quebra e deveria ter fechado por 7/5, porém pela primeira vez sacou muito abaixo e Tsitsipas foi feliz nas devoluções. Veio o tiebreak e as chances se dividiram. Stef abriu 4-0, Nole virou e teve set-point que o grego evitou por milagre. Ai jogou muito e saiu na frente. O segundo set foi decepcionante. Djokovic perdeu totalmente a intensidade, se mostrava sem energia. Assim, apressava tudo e errava demais. Era um domínio inesperado do grego.

Aì vem o segundo capítulo. Ao voltar do vestiário,. Djokovic já era outro. O longo terceiro game foi o divisor de águas. Devoluções perfeitas pressionavam, mas Tsitsipas escapava da quebra com bolas de alto risco. Até que não aguentou mais. O sérvio ganhou o ânimo que precisava e pouco a pouco a partida mudou da água para o vinho. O quarto set repetiu o script e aí o destaque era a queda no número de erros do sérvio, ainda que ele continuasse a impor ritmo pesado. O grego pediu assistência para a lombar antes do quinto set, porém ainda assim voltou a perder o saque muito cedo e tudo que fez foi correr atrás e ainda evitar uma nova e desastrosa quebra no sétimo game. Assim como nos dois sets anteriores, jamais ameaçou o serviço sérvio. Obteve aliás um único ‘iguais’ já no game derradeiro, após salvar o primeiro match-point com backhand paralelo magistral.

A estatística individualizada nos dá uma visão magnífica. Nos dois primeiro sets, Djokovic teve média de acerto do primeiro saque de 66%, vencendo 71% deles. Anotou 21 winners mas 31 erros, tendo conseguido devolver apenas 14% do primeiro saque adversário. E nos três seguintes? Média de acerto do primeiro saque subiu para 70% (sendo 74% nos dois sets finais), dos quais ganhou notáveis 79% dos lances (e 85% nos dois sets finais). O saldo de winners-erros saltou para 35-19 (com meros 4 falhas no terceiro set) e por fim manteve 35% de pontos na eficiência da devolução do primeiro saque. Então não há o que contestar sobre quem mereceu a vitória.

O grego não precisa ficar cabisbaixo, apesar de obviamente a frustração da virada seja inevitável e justa. Fez um primeiro set do mais alto nível e talvez tenha acreditado que o jogo poderia acabar logo quando viu o Djokovic fragilizado do segundo set. Se ocorreu, é um erro a se corrigir e uma experiência a se guardar. No mais, lutou como pôde e acreditou até o fim, que são características essenciais no saibro e entre os grandes campeões. A meu ver, subiu ainda mais no conceito de que é o grande nome da nova geração e o mais indicado sucessor dos Big 3 à medida que eles declinem. Estou curioso para ver o que pode fazer na grama com os vários recursos que possui.

O que esperar da final de Roland Garros
Por José Nilton Dalcim
12 de junho de 2021 às 18:13

Depois de duas semifinais muito bem disputadas e principalmente da épica vitória de Novak Djokovic sobre Rafael Nadal de virada, Roland Garros decide às 10 horas deste domingo o título masculino num típico duelo de gerações. A distância entre os dois finalistas é enorme e todos os números pendem para o multicampeão, que busca mais uma lista espetacular de feitos históricos. O quanto o debutante Stefanos Tsitsipas poderá ser competitivo é a principal dúvida.

Separados por 11 anos e 82 dias, será a sexta final de maior distância de idade da Era Profissional. Enquanto Nole fará sua 29ª tentativa de troféu – cada vez mais perto do recordista Roger Federer, que soma 31 -, o grego enfim supera a barreira da semi, e vimos como foi nervoso o jogo contra Alexander Zverev. Os dois já se cruzaram sete vezes, com cinco vitórias de Nole, incluindo todas as três sobre o saibro, entre elas a bela semi do ano passado de cinco sets, em que o grego segurou bem até levar um 6/1 definitivo.

Não se pode achar que Tsitsipas é um tenista inexperiente. Ele já ganhou três de seus seis confrontos diante de top 5 em torneios de Grand Slam e derrotou dois vice-líderes, Nadal e Daniil Medvedev. Também bateu o próprio Djokovic enquanto já líder do ranking, no piso rápido de Xangai. Mas é claro que há ainda um abismo para as estatísticas do poderoso adversário. Nole tem 33 vitórias em 54 duelos diante de top 5 em Slam e saldo positivo na carreira em geral de 104 a 70.

O aspecto técnico e tático no entanto pesam mais que a fria estatística. Vimos quatro semanas atrás que Tsitsipas conseguiu equilibrar a batalha num saibro pesado e exigiu muito de Djokovic em Roma, onde venceu o set inicial por 6/4 e cedeu os dois seguintes por 7/5, tendo real chance de vitória. Na ocasião, Djokovic diria que foi sua maior exibição da temporada e eu próprio incluiria que houvera sido a partida de melhor nível técnico de 2021. E tomara que isso se repita neste domingo.

Tsitsipas sustentou então trocas duríssimas, arriscou backhands e usou o máximo de seu forehand para tentar barrar o extraordinário poder defensivo do sérvio, que por seu lado fazia as conhecidas devoluções impecáveis e não economizava na agressividade. O terceiro set aliás foi de uma riqueza ímpar, ambos buscando surpreender com deixadas ou voleios. Para quem não se lembra, o grego chegou a sacar para a vitória, mas recebeu respostas de saque milimétricas.

Como é óbvio, Djokovic me parece confiante para manter esse altíssimo padrão, mas e o grego? Conseguirá dominar os nervos e conter a ansiedade? Para mim, será a questão essencial. Na soma de todas as variantes, acredito que Djoko entre em quadra com 70% de favoritismo. E seu maior risco é justamente esse: engolir a euforia da sexta-feira e jamais achar que já ganhou o título. Experiência para isso ele tem de sobra.

Comparações
– Djokovic luta também pelo 84º título da carreira e o grego, pelo oitavo. Nesta temporada, cada um venceu dois.
– O campeão fatura 1,4 milhão de euros. O sérvio é o recordista, com US$ 148 milhões na carreira, grego embolsou 10% disso.
– Nole já tem 309 vitórias em Slam contra 31 do grego, sendo 80 a 15 em Roland Garros e 243 a 61 no saibro.
– Tsitsipas tenta 40º triunfo da temporada em 48 jogos, Nole tem 26 em 29.
– Grego se saiu bem nos tiebreaks em 2021, com 9 positivos em 14, enquanto Djokovic está com 50% (7-7).
– No geral, Djokovic ganhou 34 jogos que foram ao quinto set (31 em Slam). O grego tem apertados 5-4.

Mais façanhas
Djokovic concorre também a:
– Primeiro profissional e terceiro na história a vencer ao menos duas vezes cada Grand Slam (Rod Laver e Roy Emerson o fizeram na fase amadora)
– Será oitavo tenista na Era Aberta a ter ao menos dois títulos em Roland Garros.
– Campeão em 2016, terá a maior distância entre primeiro e segundo troféus no torneio na Era Aberta.
– Terceiro na história a ganhar por mais de uma vez a Austrália e Roland Garros na mesma temporada (Laver e Emerson também foram os outros)
– Aos 34 anos e 22 dias, será o terceiro mais velho a ganhar Paris na Era Aberta, atrás de Andrés Gimeno e Rafael Nadal
– Será o tenista com mais de 30 anos com mais troféus de Slam, desempatando com Nadal

Tsitsipas pode ser:
– Primeiro grego em todos os tempos a vencer um Slam
– Será o 56º diferente campeão de Slam da Era Aberta e 151º desde 1877.
– Assumirá o terceiro posto do ranking, ultrapassando Nadal (já garantiu o quarto posto com a final).
– Será o nono tenista da Era Aberta a derrotar os cabeças 1 e 2 e vencer um Slam e o quarto em Roland Garros. O mais recente foi Wawrinka, em 2015.
– Aos 22 anos e 305 dias, será o mais jovem campeão de Paris desde Nadal em 2008 e mais jovem em Slam desde Juan Martin del Potro no US Open de 2009.
– Primeiro a ganhar um Slam logo em sua primeira final desde Marin Cilic no US Open de 2014

Krejcikova resgata o tênis tcheco
Numa final muito tensa como era previsível, Barbora Krejcikova recolocou o tênis tcheco no topo em Roland Garros ao se tornar a segunda tenista de seu país a conquistar o torneio, exatos 40 anos depois de Hana Mandlikova (quando Martina Navratilova venceu em Paris, ela já jogava pelos EUA).

Se não mostrou seu melhor tênis neste sábado contra uma instável Anastasia Pavlyuchenkova, ao menos Krejcikova esbanjou simpatia. Não economizou palavras na longa cerimônia, lembrou histórias divertidas sobre sua heroína Justine Henin e rendeu homenagens à compatriota Jana Novotna, já falecida, que tanto a ajudou a deslanchar na carreira.

Dona de um estilo variado, em que tanto pode disparar um winner como dar um balão nas alturas, Krejcikova será a número 15 do mundo na segunda-feira e isso a colocará entre as cabeças de Wimbledon, um lugar que também combina com sua facilidade junto à rede. Não por acaso, neste domingo ela e a parceria Katerina Siniakova buscarão o bi em Paris e o terceiro troféu Slam, o que poderá recolocar Barbora na liderança do ranking. A última tenista a ganhar os dois troféus numa mesma edição de Paris foi Mary Pierce, em 2000.

Com mínimo sucesso em simples, o tênis francês também comemorou o título de duplas, outra vez com os brilhantes Nicolas Mahut e Pierre Herbert, numa virada notável, e levou o juvenil masculino, em que duas promessas decidiram: Luca van Assche venceu Arthur Fils, de apenas 16 anos.