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Todos perdem muito sem Wimbledon
Por José Nilton Dalcim
1 de abril de 2020 às 12:31

O cancelamento do mais tradicional e importante torneio do calendário é um baque sem tamanho para o tênis e, confesso, me causou dor no coração. Pela primeira vez desde o fim da Segunda Guerra, em 1945, Wimbledon não terá uma edição realizada, algo que só aconteceu 10 vezes desde que ele estabeleceu toda a base do tênis moderno, em 1877. Os adiamentos sempre foram devido às guerras. Esta contra o covid-19 é mais uma.

A decisão do All England Club era no entanto totalmente esperada. Ainda que estivesse previsto para daqui a 89 dias, cada vez fica mais evidente que a pandemia vai demorar para permitir a volta da rotina aos principais países europeus, e o coronavírus ainda está em curva ascendente no Reino Unido. Por ser um esporte amplamente internacional e que obriga tenistas a se locomover constantemente de um país para o outro, por vezes de continentes diferentes, as restrições sanitárias são um ponto de dúvida crucial para o futuro do tênis profissional a médio prazo.

Roland Garros tenta desesperadamente sobreviver e anunciou o adiamento preventivo para final de setembro – e ainda assim já não se acredita muito nisso -, porém as características da grama inviabilizam que Wimbledon faça o mesmo. O piso necessita do sol para aguentar o tranco de tantos jogos e o clima mais frio pode tornar a superfície perigosa, sem falar que o dia fica mais curto fora do verão e assim as rodadas se espremeriam. Não há luz artificial em Wimbledon nas quadras externas.

Logo de cara, o Club rechaçou a alternativa de realizar o evento sem público porque, além do deslocamento complicadíssimo para os tenistas chegarem a Londres, num momento em que a maioria das fronteiras estão fechadas, ainda estima-se que mil pessoas sejam necessárias para tocar o evento a portas fechadas.

Curiosamente, não se espera prejuízo financeiro agudo para o Club. Única entidade particular a promover um Grand Slam, existe um seguro previsto para o caso de Wimbledon não acontecer por forças maiores, segundo revelou a imprensa britânica ontem. Além disso, jamais exibiu placas de patrocínio nas quadras. Os ingressos, tão raros e valiosos, foram vendidos há meses e pouquíssimos provavelmente irão pedir reembolso. Os direitos de TV podem afetar o faturamento, mas são geralmente contratos de longa duração que tendem simplesmente a ser estendidos por mais um ano.

Grande dano para o circuito
A perda maior é mesmo para o tênis e os jogadores, entre eles o Big 3, já que haverá um Slam a menos no calendário. Atual campeão, Novak Djokovic perde chance de um histórico hexa e de atingir o 18º troféu, grudando então em Rafael Nadal, que não tem feito grandes resultados na grama nos últimos anos ainda que nunca possa ser descartado entre os favoritos. Semi no ano passado, o espanhol sonha igualar os 20 títulos de Roger Federer e agora pode depender unicamente do US Open para isso em 2020. E olha lá.

O suíço então nem se fala. Com a inadiável artroscopia no joelho feita em fevereiro, ele já tinha até pulado os torneios de saibro para se preparar unicamente para a fase de grama, com objetivo máximo de tentar recuperar a coroa em Wimbledon. Ninguém duvida que lá seja o lugar em que Federer tem maiores chances de ainda ganhar um Slam. Esperar 12 meses para isso será um desafio e tanto. O mesmo pode se dizer de Serena Williams e sua esperança de ainda chegar ao 24º Slam.

O restante do circuito também perde, principalmente aqueles jogadores que hoje estão na faixa dos 80 a 100 do ranking. Poderão ficar sem a chance sempre especial de jogar Wimbledon e, pior ainda, veem mais uma boa premiação escapar entre os dedos. Só o fato de entrar na chave já garantiria algo em torno de 50 mil euros. Os tenistas de médio e pequeno portes estão parados há quatro semanas, vão esticar as ‘férias’ até julho e não se tem ideia do que irá acontecer depois disso.

A ATP já disse que uma ajuda financeira só será considerada quando houver um sinal claro do que afetará o calendário. Aí me pergunto: precisa mais?.

Novos cancelamentos
Como também era de se imaginar, todo o calendário da grama seguiu Wimbledon e foi cancelado. O retorno do circuito, anteriormente previsto para 7 de junho, esticou-se agora até 13 de julho.

Essa nova lista de baixas inclui o também tradicionalíssimo torneio de Queen’s, o pomposo Halle, além de Stuttgart e Mallorca no masculino, além de Nottingham, Berlim, Birmingham e Bad Homburg. Também não aconteceram os dois torneios de grama conjuntos entre ATP e WTA: s-Hertogenbosch e Eastbourne.

Roland Garros usa sensatez e antecipa mudança
Por José Nilton Dalcim
17 de março de 2020 às 21:28

Numa surpresa estonteante, a Federação Francesa não quis esperar as variantes incontroláveis da crise provocada pelo coronavírus e anunciou nesta terça-feira que Roland Garros mudará de data em 2020 e acontecerá na terceira semana de setembro, ou seja, apenas seis dias depois da final do US Open, o que implicará também na sempre delicada mudança de superfícies.

Parece maluquice, mas vamos lembrar que não faz muito tempo – na verdade, até 2014 – que Roland Garros e Wimbledon estavam separados por apenas duas semanas e nunca foi fácil também a troca do saibro para a grama, ainda mais nos tempos em que o piso natural do tênis era definitivamente rápido.

Claro que já houve reações duras de alguns tenistas, que com certa razão afirmam não ter sido consultados previamente sobre a intenção da Federação Francesa.

No entanto, me parece um tanto prematuro concluir que os organizadores franceses tomaram essa iniciativa sem consultar seus pares, no caso os detentores dos outros Slam e principalmente a Federação Internacional, ainda que os Slam tenham regimentalmente o direito a decidir seu destino sem autorizações prévias.

Se pensarmos apenas do lado dos franceses, foi uma atitude sensata. Ao pressentir que a temporada de saibro estará seriamente prejudicada – o circuito fala em voltar para Madri e Roma com otimismo duvidoso -, Roland Garros acaba com a especulação, diminui a ansiedade de jogadores e patrocinadores e dá tempo para os espectadores se reorganizarem. De quebra, não precisa pelo menos tão urgentemente tratar de devoluções de ingressos e quebras de contratos. Ganha fôlego e esperança, palavras chaves neste momento.

Inegavelmente, no entanto, joga uma tremenda bomba no colo da ATP e WTA, que teriam de recalcular o calendário. No período que Roland Garros se propõe a acontecer, estão previstos cinco ATPs 250 e sete WTAs na Europa e Ásia, além da Laver Cup nos EUA e de eliminatórias da Copa Davis em vários lugares. Na semana seguinte a Paris, ainda aconteceria os 500 de Pequim e Tóquio, que antecedem o Masters de Xangai. Confusão das grandes.

Em última análise, existe um tenista seriamente prejudicado caso a vontade de Roland Garros seja mantida: Rafael Nadal é o atual campeão dos dois Slam. O espanhol tinha real expectativa de faturar o 13º troféu no saibro francês e igualar os 20 Slam de Federer agora em junho. A alteração tão drástica do calendário seria um transtorno amargo e mais um desafio para o canhoto espanhol, que poderia até mesmo se ver obrigado a abrir mão de Nova York em prol da soberania em Paris.

No final da tarde, a USTA fez pequeno pronunciamento e afirma que espera realizar normalmente o US Open, mas que a data dependerá de conversações. Ou seja, abriu a porta para antecipação, o que daria margem maior para a disputa atrasada de Roland Garros, ou até mesmo.atender a uma mudança ainda mais radical de calendário. Tradicionalmente o Slam norte-americano começa na última semana de agosto.

Wimbledon se recusou a fazer comentários sobre a posição francesa. Na véspera, o All England Club havia dito que é impensável um torneio sem público. Segundo o Daily Mail, os organizadores não têm intenção de fazer qualquer anúncio nos próximos 30 dias. Irão esperar o desenvolvimento da crise. O mais tradicional torneio do tênis está marcado para 29 de junho.

São Thiago
Por José Nilton Dalcim
1 de março de 2020 às 22:34

Woody Allen foi extremamente feliz, como sempre, quando usou o tênis para parodiar a vida em seu ‘Match Point’. Para quem não se recorda, a imagem da bola tocando na fita, indecisa em qual lado vai cair, e isso modificaria totalmente os rumos do personagem.

Thiago Wild teve seu ‘Match Point’. No lance que poderia determinar a eliminação na estreia – e a quarta derrota seguida – do Rio Open em dois sets para outro jovem espanhol, o forehand disparado tocou na fita e caiu do lado do adversário.

Seu destino mudou totalmente a partir daí. Redescobriu forças, virou a partida com arrojo, levantou a torcida e sobreviveu a um duelo fisica e mentalmente exaustivo. Três dias depois, quase eliminou o então 32º do mundo Borna Coric, outro espetáculo de raça e competência.

Esse conjunto de atuações empolgantes lhe garantiu o convite para Santiago e aí… Passou por especialistas no saibro, como os argentinos Facundo Bagnis, Juan Ignacio Londero e Renzo Olivo, além de ganhar um set duríssimo antes do abandono da estrela da casa Cristian Garin, 18º do mundo e campeão de dois ATPs seguidos. Salvou aliás seis set-points com algazarra do público e tudo o mais.

Se alguém ainda duvidava de que seu tênis é de primeira grandeza, a decisão deste domingo diante de Casper Ruud colocou à prova todas suas qualidades. O forehand todo mundo já conhece e admira, mas vieram também 17 aces, deixadinhas preciosas, voleios firmes, contragolpes mortais e acima de tudo cabeça fria.

O jogo todo foi enroscado, games duros, muitos break-points, pressão constante. Ruud é dois anos mais velho, ganhou Buenos Aires há duas semanas e navega entre os top 70 desde maio, chegando à final deste domingo com 51 vitórias e quase 100 jogos de nível ATP. É uma diferença considerável.

Como reagiria Wild ao ver o norueguês ganhar o segundo set com quebra no finalzinho? Da melhor forma possível. Não mudou a determinação de atacar antes, mexer bem as pernas para achar o forehand agressivo e concentrar-se muito no próprio serviço. Abriu logo 2/0 e só perdeu dois pontos com o saque a partir daí, ou seja, não abriu qualquer fresta para o adversário se animar outra vez.

Sem qualquer demérito a grandes batalhadores como Rogerinho Silva, Thiago Monteiro ou João Menezes, o que anima ao ver Wild jogar nesse nível é seu poder de fogo. Ele tem um golpe que faz diferença e não tem medo de usá-lo. O saque progrediu muito e fica cada vez mais importante. Nos muitos break-points que favoreceram Ruud, cansou de empurrá-lo para o lado e forçar a devolução cruzada para que fizesse bom uso do forehand.

Agora 113º do mundo, a pergunta óbvia é o quão longe ele poderá ir a curto e médio prazos. Resposta ainda difícil porque agora todo mundo no circuito sabe do que é capaz. Irão procurar antídotos. E por aqui haverá muita expectativa e a inevitável cobrança. Sucesso no Brasil sempre será uma faca de dois gumes.

A boa notícia reside na versatilidade do paranaense, que gosta muito do piso duro e tem aptidões para tanto. Até maio, encara apenas 36 pontos a defender e há uma chance nada desprezível de ainda conquistar vaga direta em Roland Garros – o prazo vai até o começo de abril – e quem sabe  nas Olimpíadas.

Por fim, é imprescindível destacar o papel de seu treinador, João Zwetsch, alguém que já dirigiu tenistas com potencial técnico indiscutível, mas com problemas de controle emocional. E ainda assim os levou a seus melhores dias, casos de Flávio Saretta e Thomaz Bellucci. Além de possuir uma excelente visão do jogo, Zwetsch prega a serenidade e valoriza o diálogo. Sabe extrair o melhor e esse parece exatamente o caso de Wild.

E mais
– Diante do domingo histórico para o tênis brasileiro, resta falar bem pouco das excelentes conquistas de Novak Djokovic e Rafael Nadal nos ATP 500 de quadra dura. Nole até abriu um pouquinho a distância na ponta do ranking, mas haverá disputa pelo número 1 em Indian Wells, o que é sempre divertido.
– O sérvio ficou a um passo da derrota para Gael Monfils na semi, quando a vitória ficou nas mãos do francês, porém na contabilidade geral mostrou um tênis muito competitivo. O toque especial tem sido as deixadinhas inesperadas e desconcertantes.
– Rafa perdeu apenas 25 games em Acapulco, sofreu algumas falhas com o saque a favor, mas gostei de ver o uso do forehand ofensivo e a variedade de suas armas na hora do contragolpe. Ele ainda pode fazer mais com as paralelas, principalmente na hora dos jogos realmente duros.
– Para completar o grande fim de semana nacional, Marcelo Melo voltou aos títulos em Acapulco, o primeiro desde agosto, encerrando a chata sequência de vices. Sobe novamente para o top 5 do ranking e avança com Lukazs Kubot para o sexto na lista da temporada.