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Delpo fará muita falta no mundo dos gigantes
Por José Nilton Dalcim
11 de fevereiro de 2022 às 20:17

Juan Martin del Potro disse adeus. A ideia de jogar o Rio Open na próxima semana foi abandonada após a frágil e emocionante partida em Buenos Aires de terça-feira, a primeira vez que pisou no circuito desde junho de 2019. Não há condições de competir com mobilidade mínima, provocada por uma fratura no joelho que nunca sarou. Dono de 22 ATPs, entre os quais um Grand Slam e um Masters 1000, além do título da Copa Davis e duas medalhas olímpicas, pode-se ao menos dizer que o ex-número 3 do mundo completou todos os principais sonhos de sua carreira esportiva.

Um apaixonado pelo futebol, torcedor fervoroso do Boca Juniors, Juan Martin pendeu felizmente para o tênis, onde começou aos 7 anos na pequena Tandil. Foi um ótimo juvenil e aos 14 anos, após ganhar o Orange Bowl da categoria, já recebia convites para os ‘futures’. Seu primeiro título desse nível veio aos 16, o Slam de partida viria em Roland Garros ainda aos 17 e na temporada seguinte já era o mais jovem top 100 do ranking.

Curiosamente, antes mesmo de ganhar seu primeiro ATP, Delpo já convivia com lesões, algo que o levou a trocar de técnico e preparador físico em 2008, numa tacada perfeita. Recuperado, tomou a decisão de não ir à quadra dura e ficar naquele fase europeia de saibro pós-Wimbledon, e tudo se encaixou. Ganhou Stuttgart e Kitzbuhel e depois foi aos EUA para vencer também Los Angeles e Washinton. Quatro torneios seguidos de cara, feito ainda único na ATP, coroando a chegada de Franco Davin. A única frustração foi ter de abandonar o segundo jogo de simples na final da Copa Davis diante da Espanha.

O forehand destruidor, a garra e as respostas sempre bem humoradas já faziam de Delpo um destaque no circuito. E então chegou o US Open de 2009. Depois de reagir contra Marin Cilic, um adversário dos tempos juvenis, marcou a terceira vitória seguida sobre Rafael Nadal na semi e surpreendeu o mundo com aquela virada antológica sobre Federer na decisão. Com 1,98m de talento puro, era então o mais alto campeão de Slam da história, façanha repetida por Cilic (2014) e Daniil Medvedev (2021).

Aí, quando todo mundo achou que havia surgido um jovem e potente tenista para rivalizar com Federer e Nadal pela ponta do ranking, começou o pesadelo de Delpo. Antes mesmo do Australian Open de 2010, o punho esquerdo já atrapalhava. Veio a primeira grande parada, a cirurgia, três Slam desperdiçados e o retorno apenas em pequenos torneios em outubro.

Agora fora do top 400, recomeçou lentamente, ganhou corpo e após Wimbledon já reaparecia entre os 20 do ranking. Delpo também começava a se tornar um jogador bem adaptado à grama. Em 2012, fez uma semi olímpica épica contra Federer, num terceiro set de 26 games, levando o bronze em seguida em cima de Djokovic, e na temporada seguinte atingiu a semi de Wimbledon onde caiu para Nole em outra incrível maratona de 4h43.

Mas o punho esquerdo não aguentou. Já em fevereiro de 2014, abandonou Dubai e anunciou nova operação. Fez uma volta muito breve, jogando Sydney e Miami em 2015, e desta vez operou o punho direito em junho.

Quase 12 meses depois, Delpo protagonizou outro retorno, obtendo incríveis vitórias sobre Dominic Thiem no saibro e Grigor Dimitrov na grama, mas raramente embalou uma sequência. Mostrava então um slice de backhand e mais subidas à rede na ideia de preservar o punho. A dor ainda era um problema, porém nada o impediu de competir nos Jogos do Rio e marcar façanhas, como tirar Djoko na estreia, bater Nadal e lutar bravamente contra Andy Murray. O melhor no entanto estaria por vir. Depois de se vingar do escocês na semi da Davis, em vitória de 5h07 fora de casa, recolocou a Argentina na final e fez novos milagres, ao virar contra Cilic de 0-2 e deixar o amigo Federico Delbonis em condições de marcar o inesquecível quinto ponto e enfim realizar o segundo grande sonho de infância.

Aos poucos, Delpo ganhava confiança e físico. Voltou a bater o backhand, o que o deixava de novo um tenista mais agressivo, como sempre foi sua marca. No começo de 2018, estava de novo no top 10. Três meses depois, ganhou em Indian Wells seu segundo maior troféu ao bater outra vez Federer – que poucos meses antes apelidou o argentino de ‘Thor-tro’ – e voltou à semi do saibro parisiense nove anos depois, o que lhe garantiu o top 4. E numa prova de que ainda tinha muito a dar, tentou o bi no US Open, barrado apenas por Djoko.

Foi seu último grande momento. Em Xangai, sofreu uma lesão no joelho que o impediu de retornar ao Finals, que havia jogado pela última vez em 2013. É bem verdade que ainda teve dois match-points para surpreender o líder Nole em Roma de 2019, mas o infortúnio que o perseguiu estava à espreita em Queen’s. Ao tentar alcançar uma bola curta, torceu o joelho e sofreu fratura. Jamais se recuperou e só fez um tremendo esforço para jogar seu último torneio em Buenos Aires nesta semana, onde recebeu a digna homenagem do público fanático e da imensa legião de admiradores. No meio disso tudo, o pai Horacio David faleceu em janeiro de 2021 e foi então que Juan Martin descobriu que a herança foi um rombo astronômico em suas finanças. Êta rapaz sem sorte.

É bem verdade que Delpo ainda não entregou completamente os pontos, embora suas palavras pareçam mais uma esperança do que uma realidade. Ele citou casos de Murray e Pablo Andujar, que também estiveram praticamente condenados à aposentadoria – o britânico chegou a anunciar -, mas que foram salvos por tratamentos modernos e permanecem na luta. O argentino no fundo me parece mais o caso de Guga Kuerten, que em certo momento foi obrigado a desistir do alto rendimento e se conformar com a sequência de vida saudável ainda que limitada de um mero mortal.

Del Potro fez e continuará fazendo extrema falta ao circuito dos gigantes.

Argumentos para o Goat
Por José Nilton Dalcim
4 de fevereiro de 2022 às 09:14

A conquista de Rafael Nadal no Australian Open, colocando o espanhol pela primeira vez acima de Roger Federer e Novak Djokovic na contabilidade dos Grand Slam, incluiu de vez seu nome na briga pelo chamado ‘goat’, ou ‘maior de todos tempos’, algo que parecia limitado aos outros dois. A acalorada discussão tem múltiplos ângulos e nada melhor do que comparar os números de momento desses três fenômenos para que cada um tenha chance de uma melhor avaliação. Vou listar os dados que considero mais relevantes em cada campo.

Grand Slam
Um dos indicativos de maior peso na carreira de qualquer tenista, são as estatísticas nos quatro grandes torneios.

Nadal passou nos títulos gerais (21 a 20 dos concorrentes), se aproximou no total de finais disputadas (29 contra 31 dos outros dois) e fica um pouco mais longe em semifinais (36 contra as 46 de Federer e as 42 de Djokovic). No entanto, quando se fala em números absolutos, é importantíssimo frisar que o espanhol disputou muito menos Slam (62) do que Federer (81) e Djoko (66).

Em termos de jogos e vitórias, Nadal ainda não chegou a 300 (tem 298) e está um tanto distante (369 de Federer e 323 de Djokovic). Quando se trata de eficiência, o espanhol está à frente: 87,9% contra 87.5% do sérvio e 86% do suíço. Rafa também atinge melhor aproveitamento em finais (21-8 contra 20-11 dos concorrentes).

Djokovic é o único do Big 3 a ter vencido os quatro Slam seguidamente, ainda que em duas temporadas. Nadal acaba de repetir seu feito de ter ao menos dois troféus em cada Slam.

Ao faturar o Australian Open, Nadal completou 15 temporadas com ao menos um troféu de Slam. Desde 2005, as exceções foram 2015, 2016 e 2021. Tanto Federer como Djokovic têm 11. O espanhol também ganhou um Slam ao menos por 10 anos seguidos (2005 a 2014), dois acima de Federer e quatro de Djokovic.

Federer é recordista absoluto de vitórias na Austrália e em Wimbledon e segundo no US Open. Djokovic é segundo colocado em Melbourne e Paris e terceiro nos demais. Nadal só lidera em Roland Garros e está muito atrás em Wimbledon e US Open. Suíço e sérvio somam aos menos 70 vitórias em cada Slam, Nadal cai para 50.

O suíço também é o recordista principal em finais e semis consecutivas de Slam, enquanto o sérvio detém a maior sequência de vitórias (30).

Quanto aos pisos, Djokovic tem maior eficiência tanto no sintético (88,6%) como na grama (88,8%) e Nadal lidera no saibro (97,2%).

Ranking
Djokovic tem larga vantagem no total de semanas como número 1, outro quesito de muito peso no circuito. Ultrapassou as 310 de Federer em março e já está em 358. Nadal tem a sexta marca, com 209.

Federer tem totais expressivos como maior presença no top 3, 5 e 10, além das incríveis 237 semanas consecutivas na ponta. Nadal tem outro destaque ao ter já alcançado 854 consecutivas no top 10.

Em 2021, Djokovic completou histórica sétima temporada como líder, duas a mais que Federer e Nadal.

ATP Finals
O torneio mais importante do calendário da ATP é totalmente dominado por Federer: mais títulos (6), finais (10), semis (16), jogos vencidos (59) e participações (17). Djokovic vem logo atrás em títulos (5), vitórias (41) e presenças (14). É o calcanhar de Aquiles de Nadal, que jamais venceu e só fez duas finais.

Masters 1000
O Big 3 domina amplamente a categoria Masters 1000, série criada em 1990. Djoko tem vantagem pequena sobre Nadal em títulos (37-36) e finais (54-52), mas Nadal ganhou mais (398) e tem eficiência superior (82,7% contra 82,2% de Nole).

Outro ponto em que Djokovic se diferencia são o de maior título numa temporada (6 dos 9 possíveis) e único a ter vencido todos os Masters em vigor, o que aliás já fez duas vezes (2018 e 2020).

Torneios
Federer ganhou mais torneios, fez mais finais, jogou mais partidas e tem maior número de vitórias que os concorrentes, porém em termos percentuais há disputa acirradíssima entre Djokovic e Nadal (83,25% no momento contra 83,24%), com Federer mais atrás (82%).

Djokovic é quem mais derrotou adversários de nível top 10 (229) e ainda tem melhor aproveitamento (68,8%, mais de 4% acima dos outros Big 3).

Nadal tem 10 ou mais títulos em quatro diferentes campeonatos, sendo um Slam e dois Masters. Apenas Federer também é deca (nos 500 de Halle e Basileia), enquanto a principal marca de Djokovic são os 9 da Austrália.

Nadal detém o mais alto percentual em sets vencidos da ATP (77,61%) e é o segundo em games (59,88%).

O espanhol também é o único entre os três a ter medalha olímpica de ouro em simples e em duplas. Federer foi prata em simples e ouro em duplas. Djokovic tem um bronze individual.

O rei do saibro agora é o rei dos Slam
Por José Nilton Dalcim
30 de janeiro de 2022 às 14:23

Dezessete temporadas depois de conquistar seu primeiro Roland Garros, então um garoto de pernas e paciência infernais, e naquele que parecia ser o ocaso de sua carreira, segundo suas próprias palavras, Rafael Nadal conseguiu uma das reações mais notáveis já vistas para se tornar pela primeira vez o tenista com maior quantidade de troféus de Grand Slam em todos os tempos.

Tudo parece excepcional na sua façanha. Seis meses atrás, postava foto de muletas após tratamento rigoroso para contornar as dores atrozes geradas pelo problema congênito do pé esquerdo. Demorou para retornar aos treinos e muitas vezes não era capaz de bater dois dias seguidos, mesmo que praticasse apenas por um par de horas. Rafa duvidou então se retornaria ao circuito.

Suas limitações ficaram claras em Abu Dhabi e, para piorar, ainda veio a covid-19 e novo atraso na preparação para a Austrália. Mas viajou, ganhou três jogos e um título pouco expressivo para seu tamanho porém importante o suficiente para lhe dar alento. Como afirmou na entrevista oficial de hoje, após a incrível batalha de 5h25 na virada heroica sobre Daniil Medvedev, considerar o bicampeonato em Melbourne àquela altura era impensável.

Evoluiu pouco a pouco, experimentou táticas diferentes. Mudou o saque no ‘iguais’, pediu para jogar de dia parar tirar mais da bola Dunlop. Nadal trabalha como um cronômetro, medindo cada decisão. Superou a juventude de Denis Shapovalov e Matteo Berrettini e de repente lá estava ele, insistente, pela quinta vez na tentativa de reconquistar o troféu. Medvedev, por questões óbvias, entrou como favorito. Ainda mais se o jogo se alongasse. Que ironia.

O russo fez um primeiro set brilhante e apostou corretamente em atacar a paralela de backhand. Por algum motivo, recuou da iniciativa. Um único game de saque ruim custou a quebra. O espanhol sacou para fechar no 5/3 e ainda teria 5-3 com serviço no tiebreak. Medvedev recordou-se da tática, voltou a ser agressivo pelo lado certo e abriu 2 sets a 0. A situação parecia não ter volta quando obteve 0-40 no sexto game da terceira série, mas aí entrou em cena a visão tática de Nadal.

Desde que Medvedev pediu a presença do fisio, Rafa entendeu que era hora de dar curtas. Até então suas variações estavam limitadas ao slice, ainda que alguns eficientes. Salvar os breaks decisivos também lhe deu enfim confiança no saque, soltou seu forehand e por fim, e talvez o mais importante de tudo, mostrou que a paralela também era o melhor caminho.

O quarto set foi tenso, com uma chuva de oportunidades de quebra e sucessão de serviços perdidos. Outra vez no 5/3, Nadal quase deixou a vantagem escapar, mas contou com péssima escolha do adversário a partir do 15-40. Empatou a partida dois games depois através de um game de serviço impecável. Já dava as cartas nas trocas mais longas, balançava o russo com o forehand e usava o backhand para contragolpes.

Não faltaram alternâncias e emoção no set final. Medvedev enfim voltou a atacar o backhand pela paralela, mas o forehand estava claramente atrasado – a preparação exagerada demanda tempo – e portanto impreciso. Claro que Nadal esmerou-se em entrar nos pontos de devolução e foi compensado com quebra no quinto game. Salvou-se da reação em seguida, mas quando sacou para o jogo não deu sorte ao buscar as linhas. O russo de novo não aproveitou, jogou apressado e nem teve chance de comandar o placar. Nadal liquidou sua terceira virada de 2 sets atrás em Slam, a primeira fora de Wimbledon.

Certamente, não existiu até hoje um tenista com o coração tão grande como Nadal. Mas é um erro caracterizá-lo apenas como aquele que nunca desiste. A virtude primordial a meu ver está na capacidade de achar soluções táticas, já que possui técnica apuradíssima, e de se manter positivo. Mesmo quando joga mal, e isso tem sido um tanto frequente, Rafa persiste. A caminho dos 36 anos, é uma tarefa fisicamente difícil que só mesmo uma cabeça genial e mãos incrivelmente habilidosas podem contornar.

Nadal agora tem oito troféus de Grand Slam fora de Roland Garros, seis deles na quadra sintética e dois na grama, derrotando Roger Federer e Novak Djokovic em algumas dessas decisões. É portanto inegável seu direito de entrar na discussão do ‘Goat’, cujo argumento de maior peso a seu favor está no fato inquestionável de que sempre precisou adaptar muito mais seu estilo para os triunfos fora do saibro do que os dois concorrentes diretos.

Bia sai muito forte com o vice
Mais uma vez, Bia Haddad Maia teve uma atuação de primeira linha nas duplas do Australian Open. Sem patriotismos desnecessários, foi a melhor tenista em quadra, e olha que do outro lado estavam as líderes do ranking. Sacou a maior parte do tempo com qualidade, encarou trocas pesadas com a forte Barbora Krejcikova, seu backhand na paralela abriu buracos decisivos e a movimentação junto à rede esteve sempre oportuna.

Claro que o equilíbrio e as chances de surpresa na final contra as tchecas incluem uma atuação ruim de Krejcikova na primeira metade dos três sets e indecisões de Katerina Siniakova na série decisiva. A parceira Anna Danilina teve também altos e baixos, com ótima produtividade na rede mas alguma instabilidade com o forehand.

As cinco semanas que Bia passou no piso sintético australiano lhe renderam cinco posições no ranking de simples, agora 77ª, e mais de 430 em duplas, levando a canhota para o 41º. O faturamento bruto também foi perto dos US$ 270 mil, o que deve recolocar as finanças em ordem após tantas dificuldades sofridas desde 2019. E o mais importante: fez uma volta digna aos grandes palcos do circuito e vai se encher de confiança, o que mantém a promessa de mais alegrias em 2022.