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Coração e pernas
Por José Nilton Dalcim
2 de setembro de 2020 às 01:02

Muitos acham uma autêntica crueldade submeter os tenistas de hoje a melhor de cinco sets, ainda mais no clima de Nova York, mas todos sabemos que isso leva o tênis masculino a um outro universo. O que aconteceu nestes dois dias de primeira rodada, no entanto, está para lá de peculiar.

Já foram sete viradas de dois sets atrás, quatro delas nesta terça-feira, com protagonistas do nível de Andy Murray, Marin Cilic e Karen Khachanov. Gigantesco esforço tão cedo num Slam geralmente é sinal de vida curta. Estes no entanto são tempos estranhos.

Por tudo que o envolve nesta nova tentativa de retorno, a luta do escocês foi um pouco mais especial, sem falar que ele ainda estava uma quebra atrás no começo do terceiro set diante do canhoto Yoshihito Nishioka, cheio de más intenções. Ele teve até um match-point, evitado com toda a coragem pelo ex-número 1, ainda no quarto set.

Vamos a um resumo de acordo com a chave:

Thiem não empolga – Principal nome na parte inferior da chave, o austríaco jogou um primeiro set em que forçou tudo, subiu muito à rede mas teve também vários erros não forçados. Ao menos, foram apenas dois sets até Jaume Munar desistir. Pega o indiano Sumit Nagal e pode cruzar Marin Cilic, um dos que virou de 0-2 hoje. Isso pode recuperar sua confiança

No quadrante superior, estão três nomes de peso: Felix Aliassime, que tem favoritismo contra o cansaço de Murray, e o habilidoso Daniel Evans. Nada me surpreenderia, ainda que coloque Evans como maior candidato.

Monteiro e Wild – Apesar da derrota, os brasileiros chamaram a atenção. Monteiro fez um jogo extremamente equilibrado contra Aliassime – cada um marcou exatos 147 pontos – e poderia ter vencido tanto o terceiro como o quarto sets ou até mesmo o jogo. Elogiáveis sua consistência num piso tão veloz, a postura agressiva e a garra, como já havia mostrado na Austrália.

Wild por sua vez demorou demais para se soltar e o estilo tão variado e pouco previsível de Evans não ajuda nada. Mas o paranaense, estreante em Slam, se soltou no terceiro set e fez grandes lances. Destaque para a velocidade das pernas e a clara evolução do jogo de rede.

Bautista x Raonic – Dois grandes destaques do Masters da semana passada, os dois tendem a se cruzar já na terceira rodada e isso pode valer um lugar nas quartas de final mais adiante. Os adversários mais perigosos são Karen Khachanov e Alex de Minaur, além de Richard Gasquet. Porém não me parece que algum deles tenha condições de barrar no momento Raonic ou Bautista em condições normais.

Medvedev inspirado – De volta ao palco em que brilhou tanto em 2019, o russo tem um caminho privilegiado se mantiver o nível desta estreia contra Federico Delbonis. É bem verdade que Grigor Dimitrov deu um belo espetáculo contra Tommy Paul, porém é difícil confiar na sua estabilidade emocional. Seria no entanto um belo nome para desafiar o poder defensivo de Daniil.

Nova geração – Praticamente só há jovens, alguns bem promissores, neste setor da chave. A começar por Andrey Rublev, que vai encarar Gregoire Berrere. Já Casper Ruud protagonizou grande virada e faz interessante duelo nórdico com Emil Ruusuvuori. Quem passar, terá Matteo Berrettini ou Ugo Umbert. E o melhor de tudo: difícil fazer prognósticos, ainda que o italiano tenha a valiosa experiência de uma semi no torneio em 2019.

Velhas heroínas
A rodada feminina viu pouco trabalho para as principais favoritas, com atenção natural sobre Serena Williams, que fez um primeiro set pouco convincente mas não precisou alongar demais sua partida. Embora esteja um tanto distante daquele domínio costumeiro, é de se esperar que ela avance sem sustos até reencontrar Maria Sakkari ou a adolescente Amanda Anisimova.

Tricampeã do torneio e tentando outro retorno ao circuito, Kim Clijsters esteve perto de tirar a cabeça 21 Ekaterina Alexandrova, mas vacilou e depois não suportou o ritmo. Ainda tem jogo, mas faltam pernas. Outra vencedora, Venus Williams fez uma despedida sem brilho, ainda que Karolina Muchova tenha qualidades.

Duas vezes finalista, Victoria Azarenka vem do título no sábado e é a mais embalada das velhas heroínas. Economizou energia para encarar Aryna Sabalenka, o que pode ser o melhor jogo de quinta-feira. Mas vale ficar de olho no promissor encontro das jovens Sofia Kenin e Leylah Fernandez.

A um passo da eternidade
Por José Nilton Dalcim
28 de agosto de 2020 às 21:08

Foi muito sofrido mas, em seu melhor estilo, Novak Djokovic arrancou forças de onde parecia não haver mais e conseguiu o direito de tentar mais um feito histórico, e dificilmente igualável, em sua carreira. Se obtiver o bi no evento relativo a Cincinnati às 14h deste sábado, será o único tenista a ter ao menos dois troféus em cada um dos nove Masters 1000 ativos. É um feito tão mais espetacular quando se observa que a Rafael Nadal, Roger Federer, Andre Agassi e Andy Murray, os outros quatro grandes colecionadores, faltam dois títulos para uma coleção completa.

O sérvio jogou sua pior partida da semana, pareceu sentir grande desgaste físico e voltou a ter problemas com o pescoço. Isso o levou a intensos altos e baixos, que se somaram ao espirito lutador e às bolas chatas de Roberto Bautista. O espanhol mudou um tanto seu plano habitual, evitou paralelas e insistiu incansavelmente em atacar o backhand de Djoko. Uma tática que aparentemente tinha dois objetivos: evitar erros com as bolas cruzadas e tirar o máximo proveito do problema muscular do oponente.

Não foi um jogo espetacular, mas uma batalha de consistência. Os dois tiveram suas chances no terceiro set e isso resume razoavelmente a partida: Bautista teve 2/1 e saque antes de perder quatro games seguidos. Nole abriu 5/2 e sacou para a vitória em seguida, cedendo também quatro games consecutivos. Com 6/5, o espanhol fez 30-30 e não conseguiu cravar um saque vencedor. Aí o tiebreak o puniu severamente, com um passeio de um Djokovic soberano e agressivo.

O número 1 terá apenas 19 horas para se recuperar antes de encarar um embaladíssimo Milos Raonic, que agradeceu os dois erros cruciais de Stefanos Tsitsipas na reta final do primeiro set e depois deslanchou. O saque afiado, o forehand pesadíssimo e os voleios apurados enfim têm a companhia de um backhand sólido como há muito se esperava do canadense.

Esse arsenal respeitável e as dificuldades físicas do adversário serão enfim suficientes para acabar com o amargo tabu de 10 derrotas para Djokovic? É um desafio mental e tanto. Os dois fizeram outras duas finais, em Indian Wells e Bercy, e mais quatro jogos em quadra dura, incluindo a veloz Cincinnati, e o sucesso sempre foi do sérvio. Apesar de terem disputado oito tiebreaks nesse histórico, até hoje Raonic só tirou um set. E no saibro de Roma.

Milos tem oito pequenos títulos de ATP 250, mas fez três finais de Masters e uma de Wimbledon. Aos 29 anos e com várias interrupções na carreira, pode fechar a semana como o 13º do ranking. Vale todo o esforço do mundo.

Grande final no feminino
Pelo que apresentaram ao longo da semana no piso mais veloz de Flushing Meadows, Naomi Osaka e Victoria Azarenka farão uma justa e promissora final do Premier, às 12 horas deste sábado.

Para melhorar, Osaka ainda se livrou da adversária talvez mais temida, já que ela jamais venceu Johanna Konta em três duelos. E Konta começou bem, antes de permitir a virada de Victoria Azarenka, que vive uma sequência de vitórias que há muito não comemorava.

O grande destaque da vitória de Osaka em cima da belga Elise Mertens foi sua capacidade de lutar nos break-points, tendo evitado 18 de 21 que permitiu. Mertens mostrou um serviço frágil, que foi quebrado cinco vezes, mas igualou a briga nos winners (27 a 30 da japonesa).

Vika perdeu dois dos três confrontos diante de Osaka, mas não creio que isso pese mais do que seu desejo de encerrar o longo jejum de títulos, que vem desde a dobradinha Indian Wells-Miami de 2016 e seu anúncio da gravidez. Desde então, fez uma única final no pequeno WTA de Monterrey no ano passado. O troféu também valerá a volta ao top 30.

A bielorrussa de 31 anos foi a primeira a quebrar o saque de Konta na semana e isso só aconteceu no segundo set. E pouco a pouco subiu de qualidade nas devoluções, algo que pode ser decisivo diante da número 10.

Mais confusão
Os sussurros ouvidos pelos bastidores parecem que se tornarão realidade neste sábado, às vésperas do US Open. Liderados por Vasek Pospisil, uma série de jogadores descontentes com a atual administração da ATP quer dar início à uma entidade paralela.

O afastamento de Guido Pella e Hugo Dellien de Cincinnati e o adiamento da rodada de quinta-feira devido à postura de Naomi Osaka foram o estopim de um atrito que vem desde que Andrea Gaudenzi assumiu o comando. É esperar para ver quem tem mais cartas na mão.

Djoko dá show, Naomi dá exemplo
Por José Nilton Dalcim
26 de agosto de 2020 às 23:56

Na quarta-feira em que o número 1 do mundo Novak Djokovic deu show e avançou às semifinais do Masters de Flushing Meadows, a sensação aconteceu fora da quadra. Totalmente engajada com o movimento antirracista nos EUA, Naomi Osaka aderiu ao protesto do basquete e do beisebol e anunciou que não irá tentar vaga na decisão do Premier, abandonando a disputa em que era ampla favorita. “Há coisas mais importantes no momento do que me ver jogando”. Notável atitude.

Final do dia, ATP e WTA suspenderam a rodada de quinta, na esperança que Osaka ainda jogue. Vamos primeiro ao que aconteceu efetivamente com a bola rolando.

Com um tênis extremamente vigoroso e ainda assim consistente, Djoko deveria cobrar pela aula que ofereceu a Jan-Lennard Struff. Nem parecia que do outro lado da quadra estava o número 34 do ranking, dono de golpes poderosos, saque respeitável e voleios virtuosos. O show foi todo de Nole, que a cada dia mostra maior precisão e profundidade em suas bolas, com destaque todo especial para um forehand matador, especialmente os de paralela. A exibição foi tão rica que o número 1 jogou seguidos pontos junto à rede, como a ensinar ao adversário como é que se faz.

Apesar das 20 vitórias na temporada, 9-0 em tiebreaks e 7-0 em jogos contra top 10, Djokovic sabe que não pode vacilar contra o velho conhecido Roberto Bautista, contra quem tem 9 a 3 nos duelos mas sofreu duas derrotas no ano passado. O espanhol tomou 1/6 de Daniil Medvedev, não se abateu e reagiu. Fez alguns ajustes táticos, aventurando-se mais à rede, e não se desesperou ao perder o primeiro serviço do set decisivo. Está em sua terceira semifinal de Masters e será premiado com a volta ao top 10 se conseguir parar Djokovic. Terá importantes 24h de descanso.

Não menos notável foi a virada de Milos Raonic sobre o cada vez mais perigoso Filip Krajinovic. O sérvio teve o saque a favor para liquidar a partida, no que teria sido uma vitória estonteante, mas vacilou e o canadense abraçou a chance, crescendo de qualidade game a game, sem medo de forçar o saque e seu notável forehand. Salvou um match-point no terceiro set com coragem. Três games mais tarde, completou o placar com 53 winners, sendo 24 aces e 26 de direita. Mas note-se que Krajinovic cometeu apenas 17 erros no duríssimo jogo (fez aliás um só em todo o primeiro set).

Será mais um gigante no caminho do grego Stefanos Tsitsipas. Ele só jogou 11 games já que Reilly Opelka voltou a sentir o joelho direito e abandonou quando vencia por 6/5, um alívio para quem já teve de passar por Kevin Anderson e John Isner. Vale lembrar que Raonic tirou Tsitsipas nas oitavas do Australian Open de janeiro em sets diretos e hoje anotou as incríveis médias de 209 km/h no primeiro saque e 179 no segundo.

Vitória dupla de Osaka
Na quadra, a japonesa Naomi Osaka superou um considerável aperto, ao ver Anett Kontaveit sacar muito no primeiro set e abrir 2/0 no seguinte. Só então a japonesa achou o ‘timing’ perfeito e começou a disparar winners para garantir sua vaga na semifinal, onde deveria duelar contra a consistente belga Elise Mertens, a quem superou com sobras há 13 meses.

A ex-número 1 no entanto decidiu não ir à quadra para buscar um troféu importante, que seria o primeiro da temporada. Aderir ao movimento iniciado pelos atletas da NBA, que consideram até mesmo encerrar a temporada, cansados que estão da violência policial contra os negros no país. Osaka foi muito ativa durante todos os protestos dos últimos meses. Possivelmente, receberá críticas de torcedores e pressão de promotores e patrocinadores, porém a postura é coerente com tudo o que tem dito nas mídias sociais e, portanto, louvável.

Com o adiamento da rodada de quinta, fica a expectativa se ela recuará da decisão.

Na outra semi. Victoria Azarenka continua sem perder sets, apesar de um jogo de altos e baixos na primeira série diante da versátil Ons Jabeur e seus slices venenosos. Precisou evitar quatro set-points, dois deles no tiebreak, e só então dominou. Destaque para seu baixo número de erros: 11 em 20 games.

Em sua primeira semi em 16 meses, reencontra a perigosa Johanna Konta, para quem perdeu 2 de 3 duelos. A britânica, também invicta em sets mas com um jogo feito a menos, também gosta dos pisos velozes e curiosamente vinha de derrota na estreia em Lexington. Vika não levanta um troféu desde a dobradinha Indian Wells-Miami de 2016. Konta venceu seu último também em Miami, mas de 2017. Devem estar sedentas pela oportunidade que caiu do céu.

Sorteio na quinta
A USTA realiza a cerimônia e faz a montagem das chaves de simples, masculina e feminina, do US Open às 13 horas desta quinta-feira.