Arquivo da tag: Roberto Bautista

Incredible Lorenzo
Por José Nilton Dalcim
30 de outubro de 2020 às 18:37

Tenista que habitualmente passa despercebido em qualquer sorteio de chave, o italiano Lorenzo Sonego se tornou a maior ‘zebra’ da temporada, ao impor um placar humilhante em cima do todo poderoso número 1 do mundo. Ao ganhar apenas três games do número 42 do ranking, Novak Djokovic sofreu sua pior derrota em nível ATP em 15 anos.

Os números da partida não são menos chocantes. Corajoso e determinado, usando sua combinação predileta de saque e forehand, Sonego disparou 26 winners contra apenas sete do sérvio. E ainda errou muito menos, com 12 diante de 25. Salvou todos os seis break-points que encarou e ganhou 80% dos pontos em que acertou seu forte primeiro serviço.

Alguns aspectos merecem destaque. Conseguiu ser muito consistente até mesmo com o backhand, seu ponto fraco, e utilizou recursos interessantes e inteligentes, como deixadinhas de forehand – um golpe que costuma disparar com força – e o saque sobre o corpo, que tirou muito o ângulo do adversário. O forehand esteve notável, principalmente no chamado ‘inside-in’, aquele golpe difícil em que se foge do backhand e se arrisca na paralela. Djokovic jogou melhor como devolvedor do que com o saque, pareceu acreditar que bastaria ter paciência para tirar a confiança do italiano e no final me pareceu quase desinteressado.

Em boletim, a ATP observou que Djokovic não perdia por placar tão elástico desde que foi superado por Marat Safin no Australian Open de 2005, por 6/0, 6/2 e 6/1. Mas então o sérvio era um adolescente saído do quali e encarou justamente aquele que seria o campeão, então me parece justo dizer que foi a mais dura derrota desde que entrou na elite do tênis. E não vamos esquecer que, há três semanas, Nole também acabou atropelado por Rafael Nadal em Paris.

Mas quem é esse Sonego, com cara de garoto? Ele na verdade tem 25 anos e se diz um especialista em saibro, ainda que seu único título de ATP tenha acontecido na grama de Antalya. Três semanas atrás, fez oitavas em Roland Garros. Jamais havia vencido um top 10 – seu maior resultado foi diante de Karen Khachanov, então 12º, na lentidão de Monte Carlo – e entrou na chave de Viena de última hora. Ele perdeu no quali para Aljaz Bedene e a desistência de Diego Schwartzman lhe deu nova chance. Djokovic aliás tinha 12-0 contra lucky-losers na carreira.

Enquanto Nole vê adiado o inevitável anúncio de que terminará a temporada como número 1, Sonego enfrentará o britânico Daniel Evans neste sábado. E convenhamos que qualquer coisa pode acontecer neste fim de semana, depois que Andrey Rublev atropelou Dominic Thiem no segundo set, logo após Kevin Anderson fazer uma bela exibição e barrar o nervosinho Daniil Medvedev.

E mais
– Rublev ganhou 17 de seus últimos 18 jogos em quatro torneios. Sacou muito contra Thiem: 11 aces e só perdeu quatro pontos quando usou o primeiro serviço.
– Antes de atingir quartas no Rio Open deste ano, Sonego vinha de 10 derrotas consecutivas. Já se garantiu como 35º.
– Aos 34 e apenas 111º do mundo, Anderson fez segunda cirurgia no joelho direito em fevereiro e joga com ranking protegido. Ele foi campeão de Viena, há dois anos.
– Roberto Bautista não se recuperou e desistiu de Paris, deixando a briga pelo Finals. Matteo Berrettini confirmou que joga, mas terá de ir ao menos à semi para ter chance.
– Zverev também jogará Paris. A saber como estará sua cabeça com a chegada do filho e com acusações de agressão de duas ex-namoradas.

Coração e pernas
Por José Nilton Dalcim
2 de setembro de 2020 às 01:02

Muitos acham uma autêntica crueldade submeter os tenistas de hoje a melhor de cinco sets, ainda mais no clima de Nova York, mas todos sabemos que isso leva o tênis masculino a um outro universo. O que aconteceu nestes dois dias de primeira rodada, no entanto, está para lá de peculiar.

Já foram sete viradas de dois sets atrás, quatro delas nesta terça-feira, com protagonistas do nível de Andy Murray, Marin Cilic e Karen Khachanov. Gigantesco esforço tão cedo num Slam geralmente é sinal de vida curta. Estes no entanto são tempos estranhos.

Por tudo que o envolve nesta nova tentativa de retorno, a luta do escocês foi um pouco mais especial, sem falar que ele ainda estava uma quebra atrás no começo do terceiro set diante do canhoto Yoshihito Nishioka, cheio de más intenções. Ele teve até um match-point, evitado com toda a coragem pelo ex-número 1, ainda no quarto set.

Vamos a um resumo de acordo com a chave:

Thiem não empolga – Principal nome na parte inferior da chave, o austríaco jogou um primeiro set em que forçou tudo, subiu muito à rede mas teve também vários erros não forçados. Ao menos, foram apenas dois sets até Jaume Munar desistir. Pega o indiano Sumit Nagal e pode cruzar Marin Cilic, um dos que virou de 0-2 hoje. Isso pode recuperar sua confiança

No quadrante superior, estão três nomes de peso: Felix Aliassime, que tem favoritismo contra o cansaço de Murray, e o habilidoso Daniel Evans. Nada me surpreenderia, ainda que coloque Evans como maior candidato.

Monteiro e Wild – Apesar da derrota, os brasileiros chamaram a atenção. Monteiro fez um jogo extremamente equilibrado contra Aliassime – cada um marcou exatos 147 pontos – e poderia ter vencido tanto o terceiro como o quarto sets ou até mesmo o jogo. Elogiáveis sua consistência num piso tão veloz, a postura agressiva e a garra, como já havia mostrado na Austrália.

Wild por sua vez demorou demais para se soltar e o estilo tão variado e pouco previsível de Evans não ajuda nada. Mas o paranaense, estreante em Slam, se soltou no terceiro set e fez grandes lances. Destaque para a velocidade das pernas e a clara evolução do jogo de rede.

Bautista x Raonic – Dois grandes destaques do Masters da semana passada, os dois tendem a se cruzar já na terceira rodada e isso pode valer um lugar nas quartas de final mais adiante. Os adversários mais perigosos são Karen Khachanov e Alex de Minaur, além de Richard Gasquet. Porém não me parece que algum deles tenha condições de barrar no momento Raonic ou Bautista em condições normais.

Medvedev inspirado – De volta ao palco em que brilhou tanto em 2019, o russo tem um caminho privilegiado se mantiver o nível desta estreia contra Federico Delbonis. É bem verdade que Grigor Dimitrov deu um belo espetáculo contra Tommy Paul, porém é difícil confiar na sua estabilidade emocional. Seria no entanto um belo nome para desafiar o poder defensivo de Daniil.

Nova geração – Praticamente só há jovens, alguns bem promissores, neste setor da chave. A começar por Andrey Rublev, que vai encarar Gregoire Berrere. Já Casper Ruud protagonizou grande virada e faz interessante duelo nórdico com Emil Ruusuvuori. Quem passar, terá Matteo Berrettini ou Ugo Umbert. E o melhor de tudo: difícil fazer prognósticos, ainda que o italiano tenha a valiosa experiência de uma semi no torneio em 2019.

Velhas heroínas
A rodada feminina viu pouco trabalho para as principais favoritas, com atenção natural sobre Serena Williams, que fez um primeiro set pouco convincente mas não precisou alongar demais sua partida. Embora esteja um tanto distante daquele domínio costumeiro, é de se esperar que ela avance sem sustos até reencontrar Maria Sakkari ou a adolescente Amanda Anisimova.

Tricampeã do torneio e tentando outro retorno ao circuito, Kim Clijsters esteve perto de tirar a cabeça 21 Ekaterina Alexandrova, mas vacilou e depois não suportou o ritmo. Ainda tem jogo, mas faltam pernas. Outra vencedora, Venus Williams fez uma despedida sem brilho, ainda que Karolina Muchova tenha qualidades.

Duas vezes finalista, Victoria Azarenka vem do título no sábado e é a mais embalada das velhas heroínas. Economizou energia para encarar Aryna Sabalenka, o que pode ser o melhor jogo de quinta-feira. Mas vale ficar de olho no promissor encontro das jovens Sofia Kenin e Leylah Fernandez.

A um passo da eternidade
Por José Nilton Dalcim
28 de agosto de 2020 às 21:08

Foi muito sofrido mas, em seu melhor estilo, Novak Djokovic arrancou forças de onde parecia não haver mais e conseguiu o direito de tentar mais um feito histórico, e dificilmente igualável, em sua carreira. Se obtiver o bi no evento relativo a Cincinnati às 14h deste sábado, será o único tenista a ter ao menos dois troféus em cada um dos nove Masters 1000 ativos. É um feito tão mais espetacular quando se observa que a Rafael Nadal, Roger Federer, Andre Agassi e Andy Murray, os outros quatro grandes colecionadores, faltam dois títulos para uma coleção completa.

O sérvio jogou sua pior partida da semana, pareceu sentir grande desgaste físico e voltou a ter problemas com o pescoço. Isso o levou a intensos altos e baixos, que se somaram ao espirito lutador e às bolas chatas de Roberto Bautista. O espanhol mudou um tanto seu plano habitual, evitou paralelas e insistiu incansavelmente em atacar o backhand de Djoko. Uma tática que aparentemente tinha dois objetivos: evitar erros com as bolas cruzadas e tirar o máximo proveito do problema muscular do oponente.

Não foi um jogo espetacular, mas uma batalha de consistência. Os dois tiveram suas chances no terceiro set e isso resume razoavelmente a partida: Bautista teve 2/1 e saque antes de perder quatro games seguidos. Nole abriu 5/2 e sacou para a vitória em seguida, cedendo também quatro games consecutivos. Com 6/5, o espanhol fez 30-30 e não conseguiu cravar um saque vencedor. Aí o tiebreak o puniu severamente, com um passeio de um Djokovic soberano e agressivo.

O número 1 terá apenas 19 horas para se recuperar antes de encarar um embaladíssimo Milos Raonic, que agradeceu os dois erros cruciais de Stefanos Tsitsipas na reta final do primeiro set e depois deslanchou. O saque afiado, o forehand pesadíssimo e os voleios apurados enfim têm a companhia de um backhand sólido como há muito se esperava do canadense.

Esse arsenal respeitável e as dificuldades físicas do adversário serão enfim suficientes para acabar com o amargo tabu de 10 derrotas para Djokovic? É um desafio mental e tanto. Os dois fizeram outras duas finais, em Indian Wells e Bercy, e mais quatro jogos em quadra dura, incluindo a veloz Cincinnati, e o sucesso sempre foi do sérvio. Apesar de terem disputado oito tiebreaks nesse histórico, até hoje Raonic só tirou um set. E no saibro de Roma.

Milos tem oito pequenos títulos de ATP 250, mas fez três finais de Masters e uma de Wimbledon. Aos 29 anos e com várias interrupções na carreira, pode fechar a semana como o 13º do ranking. Vale todo o esforço do mundo.

Grande final no feminino
Pelo que apresentaram ao longo da semana no piso mais veloz de Flushing Meadows, Naomi Osaka e Victoria Azarenka farão uma justa e promissora final do Premier, às 12 horas deste sábado.

Para melhorar, Osaka ainda se livrou da adversária talvez mais temida, já que ela jamais venceu Johanna Konta em três duelos. E Konta começou bem, antes de permitir a virada de Victoria Azarenka, que vive uma sequência de vitórias que há muito não comemorava.

O grande destaque da vitória de Osaka em cima da belga Elise Mertens foi sua capacidade de lutar nos break-points, tendo evitado 18 de 21 que permitiu. Mertens mostrou um serviço frágil, que foi quebrado cinco vezes, mas igualou a briga nos winners (27 a 30 da japonesa).

Vika perdeu dois dos três confrontos diante de Osaka, mas não creio que isso pese mais do que seu desejo de encerrar o longo jejum de títulos, que vem desde a dobradinha Indian Wells-Miami de 2016 e seu anúncio da gravidez. Desde então, fez uma única final no pequeno WTA de Monterrey no ano passado. O troféu também valerá a volta ao top 30.

A bielorrussa de 31 anos foi a primeira a quebrar o saque de Konta na semana e isso só aconteceu no segundo set. E pouco a pouco subiu de qualidade nas devoluções, algo que pode ser decisivo diante da número 10.

Mais confusão
Os sussurros ouvidos pelos bastidores parecem que se tornarão realidade neste sábado, às vésperas do US Open. Liderados por Vasek Pospisil, uma série de jogadores descontentes com a atual administração da ATP quer dar início à uma entidade paralela.

O afastamento de Guido Pella e Hugo Dellien de Cincinnati e o adiamento da rodada de quinta-feira devido à postura de Naomi Osaka foram o estopim de um atrito que vem desde que Andrea Gaudenzi assumiu o comando. É esperar para ver quem tem mais cartas na mão.