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C’est magnifique
Por José Nilton Dalcim
5 de setembro de 2016 às 01:18

Se existe um lugar que merece sucesso no tênis, é a França. Estrutura séria, formação bem cuidada, milhares de juvenis nos centros de treinamento, incontáveis quadras públicas. Muito dinheiro, verdade, mas bem empregado. Nunca teve um número 1 do mundo e sofre jejum de 23 anos de títulos de Grand Slam entre os homens, porém o resultado desse cuidado com todos os degraus do esporte é que na próxima segunda-feira eles terão quatro top 20.

O domingo foi iluminado. Começou com o conhecido show de elasticidade, improviso e alegria de Gael Monfils, que atropelou Marcos Baghdatis mostrando estar em excepcional forma física. Depois, veio uma aula extasiante de Jo-Wilfried Tsonga, com seus voleios extraordinários, barrando o último americano da chave, Jack Sock. Quando Jo atinge esse nível atlético e de confiança, consegue ser agressivo com enorme competência e elegância.

Por fim, a surpresa. Bom, quem já viu Lucas Pouille antes não deve ter ficado tão surpreso assim. Um tenista dos mais variados recursos: saque, jogo de base, muita perna, habilidade de rede, ousadia, ótima leitura do adversário e juventude de seus 22 anos. Às vezes, tão entusiasmado que passa do ponto. Daí que derrotar Rafa Nadal numa melhor de cinco sets tão tensa, 80% do público contra, deve lhe dar um novo rumo na carreira.

Foi um jogo atípico em muitos sentidos. Cada jogador dominou amplamente um dos primeiros sets, mas não se esperava que Pouille começasse tão determinado a ponto de anular Nadal completamente. O terceiro set ainda foi mascado, dificilmente os dois jogaram bem ao mesmo tempo e outra vez Pouille encurralou o espanhol com uso brilhante das paralelas.

Como é sua característica, Rafa não se deu por vencido e mudou a postura tática, partindo para o voleio. Talvez nunca tenha subido tanto à rede na sua vida – 48 vezes, 35 pontos – mas era essencial ir lá antes do adversário, que tentou 63 voleios e fez 38. Os dois últimos sets foram de grande qualidade e enorme tensão. Pior ainda o tiebreak final, que viu tremedeira e ponto corajoso dos dois lados. Jogo maluco. Até que Rafa errou um forehand absurdamente fácil. Para ganhar o jogo e fazer história, Pouille disparou o 59º winner. Era sua terceira vitória seguida no quinto set, esta obtida após mais de 4 km de deslocamento de cada jogador.

Está assim garantido um feito para os franceses: três homens nas quartas de Nova York após 89 anos, primeira vez em qualquer Slam da Era Aberta. Mais ainda: Pouille ou Monfils serão um semifinalista inédito no torneio. Tsonga claro também tem uma chance, mas seu desafio se chama Novak Djokovic, que não mostrou qualquer sinal de ferrugem por tão pouco jogo desde segunda-feira e atropelou Kyle Edmund com alguns backhands descalibrados porém vários lances de total genialidade. Apenas uma massagem no cotovelo direito para preocupar.

Destaques
Muito legal ver tenistas como Roberta Vinci e Anastasija Sevastova, que saem completamente da mesmice. As duas têm muita mão e fazem ótimo trabalho perto da rede, variam bem mais os efeitos e velocidades. Vinci obviamente está longe de ser novidade, mas não chegou fisicamente bem ao US Open e está se virando. Tem um grande problema agora diante da consistência de Angelique Kerber.

Sevastova possui uma história bem curiosa, já que se aposentou em maio de 2013 devido a contusões seguidas e voltou ao circuito em janeiro de 2015 em eventos de nível future. Meses depois, foi semi em Floripa diante de Teliana Pereira. Agora, já tirou Muguruza e Konta tendo direito ao melhor ranking (31º). Aos 26 anos, dá ainda para sonhar alto. Fará um duelo bem interessante contra Carol Wozniacki, que enfim adotou um tênis agressivo e parece confiante e, mais importante, confortável.

André Sá carregou um piano da marca Chris Guccione nas costas e retorna às quartas de duplas de um Grand Slam após exatos nove anos.  Tudo bem, o gordinho australiano ajudou no tiebreak, mas obrigou o mineiro de 39 anos a se desdobrar na maior parte do tempo. André bem que poderia tentar outra vez a parceria com Marcelo Demoliner. O bom é que, se Bruno Soares for às quartas, fará duelo direto com Sá.

Drops
– Há uma luta direta francesa também pelo top 10. Monfils recupera o posto por enquanto, mas pode ser ultrapassado caso Tsonga vá uma rodada a mais. Pouille, Karlovic e Dimitrov até concorrem, mas teriam de ganhar o campeonato.
– ‘Nick Kyrgios, se você não quer ser um tenista profissional, vá fazer outra coisa. Ele se machuca porque não treina o bastante’, disparou John McEnroe nos comentários para a TV americana.
– Baghdatis tomou advertência por ter consultado o celular na virada de lado durante o jogo contra Monfils devido à possibilidade de instrução. O cipriota discordou: ‘E se eu quisesse apenas olhar as horas?’. Piadista.
– O tênis brasileiro terá um inédito top 100 na próxima segunda-feira, quando sairá o novo ranking mundial. Com o vice de duplas em Curitiba, o gaúcho Fabrício Neis, de 26 anos, irá aparecer pelo menos no 99º posto.

Spettacolare
Por José Nilton Dalcim
11 de setembro de 2015 às 16:51

O tênis feminino está boquiaberto. A Itália, em festa. Duas veteranas, muito distante de qualquer cotação para ganhar um Grand Slam no atual estágio de suas carreiras, irão decidir nada menos que o US Open. Mais incrível ainda, ganharam das duas melhores tenistas do ranking, derrubando todos os prognósticos. É certamente a maior surpresa do circuito das meninas desde que outra italiana, Francesca Schiavone, duelou na final de Roland Garros contra Samantha Stosur.

O feito de Roberta Vinci é absolutamente histórico. Teve uma certa dose de sorte, mas isso é algo que faz parte do tênis. Fez três jogos iniciais contra adversárias sem currículo e deveria então cruzar com Eugénie Bouchard nas oitavas, a canadense em clima de reação. Mas aí aconteceu tudo aqui, a italiana nem precisou entrar em quadra e depois tirou uma pouco experiente Kristina Mladenovich.

Mas tudo isso ficará em segundo plano, porque ela entrará mesmo para a história como a tenista que impediu o Grand Slam de Serena Williams em plena Nova York, provavelmente 23 mil pessoas torcendo contra ela. E mais notável: de virada. Aliás, duas. Além de ganhar o primeiro set, a dona da casa ainda abriu 2/0 no terceiro. Porém, jamais se mostrou solta e Vinci explorou isso com notável inteligência e competência. Abusou do slice e das bolas anguladas para tirar o ritmo, recorreu aos lobs para fazer a adversária jogar sempre mais uma bola e foi recompensada com o caminhão de erros da número 1. Deu deixadas oportunas, subiu à rede com sua habilidade de duplista e não tremeu na hora de fechar o jogo.

Aos 32 anos e 1,63m, Vinci só havia ganhado três jogos de Grand Slam nas duas últimas temporadas até chegar a Flushing Meadows. Mas, não por acaso, foi justamente em Nova York onde obteve suas duas únicas passagens anteriores pelas quartas de final desse nível, em 2012 e 2013. E por que logo no piso sintético? Porque Vinci, antes de tudo, é uma excepcional jogadora de duplas, com cinco troféus de Slam ao lado da então parceira Sara Errani, com quem liderou por muito tempo o ranking da especialidade.

Aliás, a quadra dura também é onde Pennetta tem todas as suas melhores passagens da carreira. Fez semi e mais quatro presenças em quartas no US Open antes de 2015, além de quaras na Austrália. Nesses dois lugares, ganhou e fez final de duplas. Daí ser bem menos surpreendente que ela tenha eliminado Sam Stosur, Petra Kvitova e Simona Halep na sequência, depois de quase ter perdido para a boa Petra Cetkovska. É uma tenista agressiva, que joga para ganhar os pontos.

Um ano mais velha que Vinci, Flavia já esteve no top 10 de simples, há seis temporadas, e também liderou o ranking de duplas. Se levar o troféu às 16 horas deste sábado, irá ao oitavo posto e garantirá vaga no Finals de Cingapura.

Em 2010, Schiavone maravilhou o tênis e ganhou Roland Garros na condição de cabeça 17. O feito de qualquer uma de suas compatriotas será ainda maior. Pennetta é a 26ª pré-classificada e Vinci sequer figurava entre as 32 favoritas. O prêmio? Merecidos US$ 3,3 milhões, o mais alto já pago no tênis em todos os tempos.

Tal qual o masculino, o US Open verá o duelo entre o backhand de uma mão e o de duas em sua final.

Super Friday
Por José Nilton Dalcim
10 de setembro de 2015 às 22:04

O US Open extinguiu neste ano um de suas produtos mais relevantes e polêmicos, o Super Saturday. Mas o destino lhe deu inesperadamente uma Super Friday, provocada pelo mau tempo desta quinta-feira. Assim, num só dia, acontecerão as duas semifinais femininas, no começo da tarde, e as duas semis masculinas, no final tarde e início da noite. Nessa incrível programação, estarão cinco campeões de Grand Slam e os quatro melhores do ranking. E um grande nome da casa. Perfeito.

Serena Williams e Simona Halep são favoritas para decidir o título às 16 horas de sábado. Se é possível uma surpresa, caberia talvez a Flavia Pennetta, jogadora experiente e que pega um Halep que anda preocupando com seus problemas na coxa. Já Roberta Vinci, que surge de um buraco na chave deixado pelo abandono de Eugénie Bouchard, teria de fazer um pequeno milagre para derrotar Serena.

Da mesma forma, Novak Djokovic e Roger Federer são os candidatos naturais à decisão das 17 horas de domingo. O sérvio tende a crescer nas horas decisivas e carrega um incrível placar de 13 a 0 sobre Marin Cilic. Já Federer vem jogando de forma mais consistente do que Stan Wawrinka e o piso mais veloz deve ajudar. No entanto, Cilic acabou com seu jejum pessoal diante de Federer justamente na semi do US Open do ano passado e dali rumou ao título. E Stan deu muito trabalho ao compatriota nos quatro duelos mais recentes, aplicando sonoros 3 a 0 nas recentes quartas de Roland Garros.

Aproveitando o dia sem jogos, vamos dar uma olhada como ficará o ranking pós-US Open.

Masculino
– Se Djokovic ganhar de Cilic, garantirá 11.985 pontos na temporada e com isso terá assegurado o número 1 de final de ano, mesmo que Federer seja campeão (o suíço ficaria com 7.525, portanto fora de possibilidade matemática de retomar o posto).
– Federer manterá o número 2 e já abriu 400 pontos de Murray. No ranking do ano, só superará o escocês se erguer o troféu.
– Wawrinka, em quarto, e Berdych, em quinto, superam Nishikori. Nadal será sétimo.
– Cilic cai por enquanto de 9 para 14, mas se manterá no top 10 caso vença Djokovic. Se perder, o número 10 será, acreditem, de Gilles Simon, mesmo derrotado na estreia do US Open.
– Bellucci continuará no 30º lugar, mas Feijão deixa o top 100 após derrota na estreia de Barranquilla.
– Djokovic, Murray, Federer e Wawrinka já estão no Finals de Londres. Parece difícil que Berdych, Nishikori e Nadal também não se classifiquem. A última vaga está entre Ferrer, Gasquet, Anderson e Isner. Se for à final, Cilic também entra na briga.

Feminino
– Pouca coisa muda no top 10. Safarova sobe para 5, Kerber volta ao 9º.
– Vinci já salta pelo menos para 25, duas posições atrás de Pennetta.
– Graças ao saibro francês, Teliana volta ao top 50.
– Apenas Serena, Halep e Sharapova estão no Finals de Cingapura. As outras cinco vagas estão abertas para pelo menos 11 concorrentes.