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Maratona no Rio
Por José Nilton Dalcim
19 de fevereiro de 2022 às 10:25

Faltou alguém levar a sério a previsão do tempo e principalmente providenciar a tão decantada lona no estádio principal, mas aos trancos e barrancos o Rio Open deverá enfim definir pelo menos os semifinalistas neste sábado. que promete ser muito movimentado. A rodada começará bem mais cedo, ao meio dia. Chance de chuva só a partir das 17 horas.

Todo mundo sabe que a meteorologia nem sempre é precisa, porém era líquido e certo que as tardes cariocas seriam de muita chuva nesta primeira parte da semana. Se não era possível mudar os horários – e aí estão os acordos de TV e a venda de ingressos, que são vendidos em sessões separadas -, que ao menos estivesse em ação a lona. Aquela mesma lona que já deu tanta polêmica em outros anos, que enfim apareceu em 2017 mas que estranhamente não foi escalada para um evidente 2022 de tempo instável.

Depois de seis horas de espera, Matteo Berrettini concluiu a duríssima vitória sobre um valente Thiago Monteiro e garantiu o aguardado duelo contra Carlos Alcaraz, digna ‘final antecipada’ depois que Casper Ruud sentiu o abdômen e abandonou. Mas nenhum dos dois está jogando tudo isso e é bom tomar cuidado com o descansado Fabio Fognini.

Monteiro ficou perto de surpreender o top 10. Teve dificuldade em achar a devolução no primeiro set e, com bola curta, o forehand do italiano abre buracos em qualquer piso. Mas a partir do momento que os golpes do brasileiro ficaram mais profundos, o italiano se atrapalhou todo. Thiago não teve receio de bater firme, escapou dos match-points no tiebreak e tive a impressão que levaria o terceiro set porque era taticamente mais acertado em quadra. Aí veio a chuva, seis horas de espera, e na volta foi impossível defender o saque.

Alcaraz também está longe de ser confiável e talvez uma parte da culpa seja o clima muito úmido. Já havia feito uma estreia sofrível contra Jaume Munar e teve sorte de não jogar três sets diante do canhoto Federico Delbonis. Os dois esperaram mais de 24 horas para completar a partida, interrompida no 5/4 do primeiro set, e saíram de quadra às 2h30. É bom lembrar que Alcaraz pode ter que jogar duas vezes no sábado.

O velho Fognini chamou mais a atenção, principalmente na vitória sobre Pablo Carreño, que exigiu o máximo do físico e da cabeça. Por isso, tenho certeza de que ele gostou de não ir à quadra na sexta. Tem favoritismo óbvio contra Federico Coria e, se economizar pernas, pode repetir a final de 2015.

É o mesmo caso de Diego Schwartzman, que chegou estafado da campanha em Buenos Aires. Deu sorte com uma estreia muito fácil, descansou na sexta e acho muito difícil que não chegue novamente à final. O campeão de 2018 tem primeiro Pablo Andujar, depois Miomir Kecmanovic ou Francisco Cerundolo. É bem verdade que o sérvio treinado por David Nalbandian tem um jogo muito certinho.

Ao Brasil, resta torcer para que Bruno Soares enfim dê um título de duplas ao tênis nacional no seu maior evento. Eu tinha desconfianças quanto à adaptação de Jamie Murray ao saibro lento, mas o escocês foi bem até agora. O problema é encarar na semi os cabeças 1 e atuais campeões Granollers/Zeballos.

E mais

  • Bia Haddad furou o quali do WTA 1000 de Doha e reencontra Amanda Anisimova, para quem perdeu no saibro de Bogotá em 2019. A norte-americana venceu um 250 em Melbourne e tirou Naomi Osaka do Australian Open. Não vai ser nada fácil.
  • Novak Djokovic enfim começará a temporada em Dubai. Pega o habilidoso Lorenzo Musetti, o que pode ser um jogo interessante. A chave tem Rublev, Aliassime e Sinner. Se Nole perder nas duas primeiras rodadas, deixará o número 1 para Medvedev.
As apostas de Djokovic
Por José Nilton Dalcim
15 de fevereiro de 2022 às 23:13

Novak Djokovic não vai mudar de ideia, ao contrário do que muitos acreditavam. Ao menos conforme afirmou à BBC, vacinar no momento está fora de questão, nem que isso custe a ele ficar ausente de grandes torneios, ver Rafa Nadal abrir distância na tabela dos Grand Slam ou perder a liderança do ranking.

Segundo suas palavras, o corpo está acima de tudo e, afirmando ser um grande estudante de saúde e nutrição, está claro que não confia nas vacinas já lançadas contra o coronavírus. E rejeita o rótulo de ‘antivax’. O problema dele parece ser apenas contra este imunizante.

Até agora, Djokovic correria grande risco de não disputar Indian Wells nem Monte Carlo, os dois Masters 1000 que já anunciaram a exigência de comprovação da vacina. Em certo ponto da entrevista, Nole deixa escapar que não estaria disposto à novas desgastantes polêmicas, ou seja, entendi que ele nem mesmo tentaria uma exceção para os lugares que exigirem a vacinação. Atitude sábia.

Para mim, o sérvio se apega em duas coisas. A primeira é que a pandemia perca força e as exigências enfraqueçam pouco a pouco. Grã-Bretanha e Bélgica já deram largo passo nesse caminho e, quem sabe, até maio as barreiras caiam também na Itália e na França, o que pelo menos abriria caminho para disputar Roma e Paris. A meu ver, é uma boa aposta.

A outra opção, talvez bem mais delicada, seria acreditar que é possível manter a forma e algum ritmo de competição, com brechas oferecidas como no caso de Dubai. Não descarto uma retirada ‘sabática’, que ao final das contas permitiria prolongar sua permanência no circuito para muito além de Nadal. Não é algo tão fora de propósito. John McEnroe e Andre Agassi fizeram isso e conseguiram recuperar a qualidade e a vontade. Mas o mundo do tênis mudou muito e acredito que esta segunda aposta envolva alto risco.

Enquanto isso, Nadal mantém a inscrição em Acapulco e, se realmente o fizer, terá pela frente uma verdadeira armada da nova geração, com Daniil Medvedev, Alexander Zverev e Stefanos Tsitsipas na fortíssima lista. O russo, como todo mundo sabe, assumirá a liderança do ranking se conquistar o título, independente do que acontecer em Dubai. Vamos ver como ele lidará com essa pressão.

A volta do Rio Open

  • Grande virada de Thiago Monteiro no Rio Open, o que garante duelo com Matteo Berrettini. Missão duríssima se o número 6 do mundo estiver com a vontade necessária. A lentidão da noite carioca e a torcida podem ajudar o cearense. O público aliás foi muito bom nestes primeiros dias.
  • Monteiro buscará na quinta-feira repetir a vitória sobre um top 10 no Rio Open – como fez em 2016 diante de Tsonga – e também a vaga nas quartas de 2017. Se alcançar êxito, voltará ao top 100.
  • A nova geração brasileira teve seus altos e baixos. Um ATP 500 mostrou estar além do nível de Felipe Meligeni, Matheus Pucinelli teve excepcional vitória sobre Marco Cecchinato no quali e Thiago Wild pegou o duro espanhol Roberto Carballes sem conseguir espantar seus fantasmas. Falta pouco para o capitão Jaime Oncins decidir quem joga simples ao lado de Monteiro diante da Alemanha pela Copa Davis.
  • Os dois mais recentes campeões do torneio deram um enorme vexame, ganharam só dois games e levaram ‘pneu’. Cristian Garin caiu para Federico Coria e diz que as costas ainda são um problema, Laslo Djere parou em Lorenzo Sonego. Por pouco, Carlos Alcaraz não seguiu pelo mesmo caminho, o que seria frustrante, mas reagiu após levar 2/6 de Jaume Munar.
  • Notável como Fernando Verdasco, aos 38 anos, ainda tem tanta vontade e energia para brigar no circuito. Esta é sua quinta semana seguida no saibro sul-americano, a começar por dois challengers. Fez quartas em Buenos Aires, mas ainda está no 172º posto. Joga sua 21ª temporada profissional.
  • Outra grande atração das oitavas no Rio será Carreño x Fognini, já nesta quarta-feira.
Wild só merece aplausos
Por José Nilton Dalcim
21 de fevereiro de 2020 às 00:54

A expectativa positiva que cerca Thiago Wild só se fez aumentar durante sua passagem pelo saibro lento do Rio Open. Colocado diante de diferentes desafios, o paranaense de 19 anos se saiu muito bem nas duas partidas que fez, deu um pequeno mas animador salto no ranking e reforçou qualidades.

O jogo de estreia contra o espanhol Alejandro Fokina forçou Wild a segurar a cabeça e sustentar um esforço físico tremendo, que tem sido uma de suas dificuldades no circuito. São dois tenistas jovens e impetuosos, que tiveram altos e baixos contínuos no duelo de quase 4 horas, mesclando lances espetaculares com golpes extremamente descalibrados e apressados.

O brasileiro ganhou os primeiros elogios ao ganhar o tiebreak catimbado e empurrar a decisão ao terceiro set, logo depois de salvar três match-points. Naquele momento, parecia entregue, quase desinteressado, e um lance de sorte mudou tudo. O notável no entanto é que jamais deixou de tomar a iniciativa, exibindo o forehand potente que chama a atenção de qualquer um. No longo e disputado terceiro set, jogou com empenho máximo e total controle emocional.

A derrota desta quinta-feira para Borna Coric foi um pecado e o próprio croata admitiu que Wild se mostrou o melhor tenista em quadra. Depois de um primeiro set um tanto passivo, ele mudou tudo, e isso é para quem possui recursos técnicos. Passou a cruzar com firmeza as devoluções e a explorar o saque pelo centro. Ditava os pontos diante do 32º do mundo e teve as maiores oportunidades, incluindo aquele doloroso 0-40 no 11º game, em que os méritos foram do adversário. A se lamentar apenas o começo ruim do tiebreak, que deu 4-0 a Coric. Com coragem, reagiu e empatou, mas a experiência do croata decidiu.

Wild chegou ao Rio sem vitórias na temporada. Sai como o 179º do ranking, o que no mínimo o garante no quali de Roland Garros, já que ele só tem 20 pontos a defender até sair a lista de inscritos do Slam francês. Espera-se que ele receba um convite para Santiago, na próxima semana, e aí seguirá para a missão quase impossível diante da Austrália na Copa Davis. A meu ver, deveria ser escalado como titular de simples ao lado de Thiago Monteiro. Para termos alguma chance na quadra dura de Adelaide, será preciso arriscar. E isso ele sabe fazer muito bem.

O saibro carioca, aliás, também foi importante para outros três garotos: Felipe Meligeni Alves teve a incrível oportunidade de enfrentar Dominic Thiem e não decepcionou, arrancando pontos incríveis e até um impensável set. É bem verdade que Thiem pareceu preocupado com dor repentina no joelho, mas o sobrinho de Fernando Meligeni suportou muito bem o peso das bolas do número 4 do mundo, o que não é pouca coisa para quem ainda está em nível future e challenger.

Orlandinho Luz e Rafael Matos conseguiram também seu lugar ao sol, ao derrubar nada menos que a dupla número 1 do mundo. Ainda que estivesse clara a falta de ritmo de Robert Farah, que voltava da suspensão preventiva, os brasileiros fizeram coisas incríveis em quadra. Note-se que essa parceria já ganhou dois challengers, um deles no mês passado. Perderam nas quartas para Meligeni e Monteiro.

Por falar em Monteiro, ele deixou escapar outra oportunidade de ouro para fazer uma grande semana em nível ATP, como aconteceu em Buenos Aires. A estreia contra Guido Pella no Rio realçou a evidente evolução do canhoto cearense, que de certa forma acabou penalizado por ter de voltar menos de 20 horas depois à quadra e à umidade sufocante, perdendo totalmente a intensidade no terceiro set diante de Atilla Balazs. Na condição de 86º do ranking, segue agora para o ATP de Santiago com uma pequena chance de ser cabeça de chave.