Arquivo da tag: Richard Gasquet

Vai esquentar
Por José Nilton Dalcim
18 de janeiro de 2022 às 12:08

Ainda será a segunda rodada na parte inferior da chave masculina, mas a promessa é de que as coisas esquentem precocenente no Australian Open. O agora favorito Daniil Medvedev terá encarar a torcida fanática por Nick Kyrgios, o que pode ser o ponto alto da primeira semana. E não é só: haverá o duelo direto entre Taylor Fritz e Frances Tiafoe e o de Grigor Dimitrov e Benoit Paire. Será difícil dormir muito.

Medvedev teve pequenos altos e baixos na estreia, mas dificilmente será surpreendido por Kyrgios, que vem de covid e provavelmente vai jogar na maior lentidão da noite. Claro que se espera um grande confronto por dois ou três sets. O polêmico australiano deu o tradicional show na fácil vitória sobre o canhoto Liam Broady e é evidente que vai arriscar tudo e abusar de saques por baixo e dos voleios. Imperdível.

Na contramão, Stefanos Tsitsipas deixou outra vez muitas dúvidas sobre a chance de ir longe no torneio e foi instável contra o frágil Mikael Ymer, apesar de vencer em sets diretos. Não duvido que o baixinho Sebastian Baez lhe dê sufoco. Se mantiver o favoritismo, deve ter mais trabalho contra Dimitrov ou Paire.

Richard Gasquet e Maxime Cressy me surpreenderam positivamente. O veterano francês, acreditem, apresentou um forehand batido e mais veloz. Notável que tenha trabalhado nessa falha técnica grave já no fim da carreira. Tirou de virada e em jogo muito apertado o bom canhoto Ugo Humbert e pode até ser o oponente de Medvedev na terceira fase. Cressy também está nesse quadrante e vem tendo atuações expressivas neste começo de temporada. Adora forçar o saque – 31 aces e 20 duplas faltas – e venceu 82% dos pontos em que encaixou o primeiro serviço. Salvou todos os nove break-points em mais de 4h de duelo. Pega agora um qualificado e talvez Diego Schwartzman.

Por falar em maratona, Andy Murray sobreviveu a mais 4h52, ganhou novamente de Nikoloz Basilashvili e cresceu muito a chance de vê-lo contra Jannik Sinner na terceira rodada. Na entrevista oficial, o escocês reconheceu que ele e o time discutem muito a necessidade de praticar um tênis mais ofensivo e de pontos curtos, mas que reluta em mudar o estilo, porque provavelmente passaria a errar muito.

Por fim, vale ficar de olho em Taylor Fritz, que vem jogando o melhor tênis de sua jovem carreira. O teste contra Tiafoe é dos bons porque logo em seguida deve vir Roberto Bautista.

Salada no feminino
O complemento da primeira rodada feminina foi uma mistura de emoções. Se por um lado Emma Raducanu superou os nervos e a instabilidade para tirar Sloane Stephens, Aryna Sabalenka continua muito insegura com o saque e três estrelas se despediram cedo denais: Petra Kvitova, Angelique Kerber e Leylah Fernandez.

Raducanu abriu a estreia com ‘pneu’, mas o jogo em si não foi divertido. Ambas falharam demais. A britânica fez 15 winners e 30 erros, a experiente Stephens terminou com 14 winners e 42 erros. Talvez agora a campeã do US Open se solte. Esta foi apenas a terceira vitória desde a incrível campanha em Nova York.

Sabalenka fez mais 12 duplas faltas, porém deu tempo de virar contra a convidada local Storm Sanders. Apesar da vitória, Garbiñe Muguruza e Iga Swiatek estão longe do ideal, ainda que tenham tempo de crescer. Péssimas atuações de Fernandez, Kvitova e Kerber e um jogo muito agradável entre Anett Kontaveit e Katerina Siniakova, em que as duas meteram a mão na bola o tempo todo.

Noite suada para os brasileiros
Bia Haddad Maia enfim voltou às vitórias em Grand Slam, nível de torneio que não competia desde Wimbledon de 2019. Anotou seu quinto triunfo desse quilate e o terceiro em Melbourne com virada esforçada sobre a quali Katie Volynets. A canhota paulista só achou mesmo um ritmo a partir da metade do segundo set e colecionou muitos erros (50), apesar de ter feito 36 winners.

Campeã de duplas no domingo no 500 de Adelaide, um tremendo resultado, Bia tem enorme desafio agora diante de Simona Halep, que também ergueu troféu no fim de semana, em Melbourne. Para encarar a solidez da ex-líder e agora número 15 do mundo, Bia terá de ousar e tentar se aproveitar do segundo saque pouco contundente. A romena devolve por sua vez muito bem e aí será preciso manter esse bom padrão de estreia, em que a brasileira colocou 70% do primeiro saque na quadra.

E faltou pouco para o tênis brasileiro sair com outra vitória, a de Thiago Monteiro sobre o habilidoso Benoit Paire. O canhoto cearense teve alguns ótimos momentos, com um quarto set brilhante, e buscou mexer sempre o adversário. Era de se acreditar que um quinto set favoreceria o brasileiro na parte física, mas o saque não funcionou tão bem e Paire foi feliz nas devoluções. Monteiro participou de seu quarto Australian Open, com uma vitória em 2021.

Festa russa em Cincinnati continua
Por José Nilton Dalcim
17 de agosto de 2019 às 23:02

Entre tantas surpresas que a temporada 2019 nos tem reservado, a virada de Daniil Medvedev em cima de Novak Djokovic na semifinal de Cincinnati está facilmente entre os resultados menos esperados. De repente, o sérvio perdeu a consistência e a confiança, dando ao russo forças inimagináveis para um final de partida soberbo.

Em sua terceira final em semanas consecutivas, agora com duas vitórias seguidas sobre o número 1 do mundo em pisos bem distintos, Medvedev terá uma nova chance de conquistar seu primeiro troféu de Masters 1000 e, por que não, se tornar a maior ameaça ao Big 3 no tão próximo US Open.

Uma coisa é certa: a temporada verá o terceiro campeão inédito de Masters, já que o outro finalista é o belga David Goffin, que nunca chegou tão longe nesse nível. Quem vencer, se juntará a Dominic Thiem (Indian Wells) e Fabio Fognini (Monte Carlo). Isso iguala 2017 (Alexander Zverev, Grigor Dimitrov e Jack Sock) e 2018 (Juan Martin Del Potro, John Isner e Karen Khachanov).

Assim como fez Nole ao final do jogo, teremos todos de cumprimentar Medvedev por sua resiliência. Foi jogado de um lado para outro no primeiro set, pediu atendimento para dor muscular no braço direito e fez coisas fora do seu padrão para se tornar competitivo, ora com curtinhas, ora com voleios. Cravou até ace de segundo saque. Bastou um vacilo de Djokovic, uma queda repentina de intensidade, para o russo obter a primeira quebra e ganhar vida nova. Dominou o jogo a partir daí com extrema coragem e empenho físico. Incrível.

Estará agora diante de Goffin pela terceira vez na temporada, tendo vencido em sets diretos no Australian Open e perdido um jogo duríssimo na terceira rodada de Wimbledon, em que chegou a liderar por 2 sets a 1. É meu favorito natural ao título, mas tudo indica que terá de jogar o máximo outra vez.

Aos 28 anos, Goffin parece ter se reencontrado e curiosamente não foi sobre o saibro, mas na grama, onde somou 10 vitórias, com vice em Halle e quartas em Wimbledon, o que o levou de volta ao top 20. Não por acaso, Cincinnati também é um piso bem mais veloz e ele tem feito um jogo propositivo. Dominou Richard Gasquet com 27 winners (contra 15) e 14 erros (frente 23).

Semi no ano passado, quando abandonou pela metade a partida contra Federer, Goffin enfim terá chance de conquistar um grande título, algo que escapou no Finals de 2017. Na verdade, ele não ganha um torneio há 22 meses. Possui apenas quatro troféus na carreira em 12 finais anteriores e um único ATP 500, em Tóquio.

Kuznetsova amplia festa russa
A chave feminina também tem um grande destaque russo: a veterana Svetlana Kuznetsova, de 34 anos, dá a volta por cima a uma fase cheia de problemas físicos e é responsável direta pela permanência de Naomi Osaka na liderança do ranking, já que acabou com o sonho de Karolina Pliskova e de Ash Barty. Aliás, sua campanha em Cincinnati inclui três vitórias sobre top 10.

Fato curioso, Sveta teve problemas com visto para entrar nos Estados Unidos e por isso não defendeu o título de Washington e quase encerrou o calendário. De volta ao top 70, enfrentará na decisão a tenista da casa Madison Keys, que também atravessa um ótimo momento e a quem jamais venceu em três duelos. Keys eliminou Simona Halep, Garbine Muguruza e Venus Williams. Precisa do maior título da carreira para retornar ao grupo das 10 melhores. Esta final promete.

E mais
– A semana incrível do tênis russo em Cincinnati teve também a vitória de Andrey Rublev sobre Federer e o duelo tenso e confuso de Khachanov em cima de Nick Kyrgios.
– Medvedev é o tenista com maior número de vitórias na temporada, com 43, uma a mais que Rafael Nadal e três sobre Roger Federer.
– Ele também lidera em triunfos na quadra dura, agora com 30, bem cima das 20 de Bautista Agut e Stefanos Tsitsipas.
– Goffin enfim chega a sua primeira final de Masters depois de quatro tentativas frustradas. Saindo do saibro em junho, era 33º do mundo, sua mais baixa classificação desde 2014.
– Nadal chegará ao US Open como líder do ranking da temporada, 140 pontos à frente de Djokovic, o que é mais um ingrediente saboroso para Nova York.
– Thiago Monteiro irá reaparecer no top 100 na segunda-feira. Conseguiu vaga direta e joga o ATP 250 de Winston antes do US Open, mas a estreia é dura contra o garoto australiano Alexei Popyrin.

Medvedev, o novo ironman russo
Por José Nilton Dalcim
17 de agosto de 2019 às 00:27

Se competir em alto nível por dois torneios seguidos tem sido difícil no circuito masculino atual, imagine então o que é disputar 14 partidas de simples em três semanas sucessivas, com duas finais e agora uma semi. E olha que o piso duro, como os de Washington, Montréal e Cincinnati, machuca mais o corpo do que qualquer outro.

Daniil Medvedev está surpreso até consigo mesmo pela qualidade e tenacidade de seu tênis, a ponto de sequer ter perdido sets em Cincy até agora. Na verdade, ele ganhou nada menos do que 24 dos 28 sets que disputou nessa trajetória incrível na temporada de verão da quadra sintética.

Esta foi sua 42ª vitória em 58 jogos na temporada, lembrando os ‘ironmen’ russos, como Yevgeny Kafelnikov e Nikolay Davydenko. Contemporâneo de Guga Kuerten, Kafelnikov assombrou mais de 80 partidas feitas por seis temporadas seguidas, chegando a 105 tanto em 1995 como em 1996.

É importante observar ainda o estilo um tanto atípico de Medvedev, com opção por bolas muito retas dos dois lados, saque forçado e movimentação admirável para quem mede 1,98m. Será suficiente para repetir a inesperada vitória sobre Novak Djokovic no lento saibro de Monte Carlo de abril? É uma boa pergunta, e eu diria que sua chance está num alto percentual de primeiro saque e na determinação de arriscar backhand na paralela o mais cedo possível.

Se Medvedev atropelou o amigo Andrey Rublev, que não foi sequer sombra do tenista veloz e determinado que surpreendeu Roger Federer na véspera, Djokovic foi exigido por um primeiro set de grande qualidade de Lucas Pouille, mas deu pequeno susto ao pedir atendimento para o cotovelo direito no finzinho da partida. Felizmente, completou a vitória nos dois games seguintes sem sinal de dor.

Tenista de recursos, Pouille foi totalmente diferente daquele que levou surra em Melbourne. Sacou bem, ousou na rede, usou curtas e forçou paralelas. Falhou na parte mental, o que nem é tão novidade assim, e cometeu uma sucessão absurda de erros no tiebreak, justamente onde o emocional é tão necessário. E força mental sobra para o líder do ranking.

Djokovic vai em busca da 50ª final de Masters da carreira em sua 66ª semi. Se vencer às 19h deste sábado, retoma a liderança do ranking da temporada, com vantagem de 100 pontos sobre Rafael Nadal, que pode subir a 500 se levar o bi em Cincinnati e se tornar o único profissional com ao menos dois troféus em cada Masters. É um final de semana especial.

Semi inesperada
A outra semi é daquelas que dificilmente alguém imaginaria quando a chave foi sorteada, ainda que o setor inferior tenha ficado capenga com a desistência de Rafael Nadal. Claro que envolverá dois ex-top 10 que já estiveram em várias semifinais de nível Masters e isso pode garantir um bom espetáculo.

Richard Gasquet já me chamou a atenção em Montréal, porque parecia menos medroso com o forehand, tendo tirado Paire e Nishikori antes de perder para o mesmo Roberto Bautista que dominou com louvor em Cincinnati. Usou desta vez um recurso interessante, que foi diminuir a potência dos golpes para tirar o contragolpe que o espanhol gosta tanto.

Saibrista que foi aos poucos moldando melhor seu tênis, David Goffin já havia feito grandes campanhas na grama, tanto em Halle como em Wimbledon, mas perdido nas estreias de Washington e Montréal. Nem precisou entrar em quadra, favorecido pelo abandono de Yoshihito Nishioka.

Não há favoritismo no terceiro duelo entre Goffin e Gasquet, empatado por 1 a 1, mas vale lembrar que o belga fez semi em Cincinnati no ano passado. Goffin nunca decidiu um Masters em quatro tentativas e Gasquet chega na sua primeira semi desde 2013, tendo sido finalista de Toronto em 2012, a terceira e mais recente que conseguiu.

Osaka torce duas vezes
Quando parecia estar reencontrando alegria de estar na quadra, justamente às vésperas de defender seu título no US Open, Naomi Osaka teve uma notícia ruim. Contundiu o joelho, abandonou as quartas de Cincinnati, pode perder a liderança do ranking se Ash Barty vencer neste sábado e, mais grave de tudo, agora vê sua presença no quarto Slam da temporada sob risco.

Com a desistência de Osaka, Sofia Kenin marcou sua sétima vitória sobre top 10 e a segunda seguida sobre uma líder do ranking em semanas consecutivas. Enfrenta agora Madison Keys, que tirou Venus Williams com a incrível diferença de 39 a 3 nos winners.

Muito mais magra, Svetlana Kuznetsova tirou a chance de Karolina Pliskova brigar pelo número 1. A experiente russa dona de dois Grand Slam já tirou três das 11 primeiras do ranking nesta semana e agora encara Barty, que marcou grande virada sobre Maria Sakkari.