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Balaio de gato
Por José Nilton Dalcim
18 de janeiro de 2021 às 11:35

A balbúrdia está instalada no Australian Open. Com três voos fretados apresentando casos de infecção a bordo, tenistas de peso como Victoria Azarenka estão confinados em seus quartos de hotel, de onde só poderão sair uma semana antes de o Grand Slam começar. A conta de jogadores afetados com a medida, que era de 47 no sábado, saltou para 72 no domingo.

Mas não é só. O governo está sob fogo cerrado e recebe pesadas críticas por ter permitido a entrada de estrangeiros vindos dos mais variados lugares, ao mesmo tempo que mantém proibição para quase 40 mil residentes no país de voltarem para casa.

Tentemos explicar a confusão. Segundo as normas de saúde determinadas em Victoria, a província onde está Melbourne, todo passageiro de voo internacional, até mesmo os australianos, têm de ficar 14 dias em quarentena num hotel determinado pelo governo (não é sequer permitido o isolamento em sua própria casa).

O Tennis Australia obteve então uma concessão para que os tenistas deixassem seu quarto por cinco horas diárias para fazer treinamentos no complexo e os participantes tiveram de concordar com essa dura restrição. O deslocamento das 1.240 pessoas que entrarão no pais para o torneio tem sido feito por voo fretado, já que várias companhias aéreas cancelaram rotas para a Austrália.

No entanto, os jogadores alegam não haver instrução antecipada para o caso de surgir uma infecção a bordo dos voos fretados. E foi exatamente isso o que aconteceu com três deles, vindos de Los Angeles, Abu Dhabi e Doha. Os 143 viajantes dos dois primeiros voos foram colocados em isolamento absoluto, 47 deles tenistas. Entre eles, campeãs como Azarenka e Angelique Kerber, nomes bem cotados como Sloane Stephens e Maria Sakkari e tops 10 como Bianca Andreescu e Belinda Bencic. Também foram afetados Kei Nishikori e Pablo Cuevas.

Esse grupo não pode sequer abrir a porta do quarto e um deles, que se atreveu a conversar com amigos, pode ser multado em US$ 15 mil e até expulso. Nas mídias sociais, no entanto, pipocam jogadores reclamando: Vasek Pospisil, das acomodações; Fabio Fognini, das refeições; Yulia Putintseva, da falta de informação e até de um rato em seu quarto. Não há serviço de arrumação, obviamente. Os organizadores atenderam apelos e autorizaram a entrada de pedidos adicionais de alimentação fora do hotel, que serão ressarcidos.

Apesar de não estar afetada pela restrição absoluta, Alizé Cornet se manifesta pelas redes sociais em defesa dos que estão proibidos de deixar seu quarto. “Semanas e semanas de preparação serão jogadas fora e qualquer atleta sofrerá risco de contusão ao voltar aos treinos depois de 14 dias inativo”, reclamou. Neste domingo, a organização providenciou equipamentos de ginástica para cada quarto. “O acordo era que os grupos seriam separados de 10 em 10 nos aviões e, se houvesse um caso, apenas aquela seção seria afetada, jamais se falou em isolar todo o voo”, enfatiza.

Emma Cassar, responsável pela quarentena em toda a província, diz que a medida é necessária, lamenta mas não pode abrir exceções. Autoridades sanitárias já haviam previsto que, dos 1.240 integrantes do Australian Open, cerca de 2% apresentariam infecção pelo coronavírus.

No domingo, o ministro da saúde Greg Hunt garantiu que o Australian Open seguirá em frente na data prevista, ou seja dia 8 de fevereiro, e que o estado de Victoria tem tomado as medidas restritivas apropriadas.

Mais polêmica
As medidas excepcionais adotadas para a disputa do Australian Open causam revolta. Segundo estimativas da ABC News, há cerca de 37 mil cidadãos australianos em diversos pontos do planeta aguardando autorização para voltar para casa. Pior ainda, nem mesmo viagens interestaduais estão permitidas no país. Milhares de residentes de Victoria não têm autorização para retornar e permanecem no aguardo, principalmente em Sydney e Brisbane. Há dois dias, a empresa aérea Emirates cancelou toda sua operação na Austrália.

Victoria foi o estado mais atingido pela pandemia, com médias próximas de 800 casos diários em julho, quatro vezes mais do que Nova Gales do Sul, por exemplo. Desde outubro, diante dos lockdowns, baixaram os índices. Segundo o serviço estadual de Saúde, Victoria teve um pico de 10 casos no dia 2 de janeiro, mas está zerado desde o dia 8. Neste último sábado, o governo tentou amenizar as críticas e informou estar providenciando 20 voos internacionais de repatriação, embora todos terão de cumprir a quarentena na chegada.

O quadro se transformou também numa disputa política. O líder do Partido Liberal afirma que o primeiro ministro local Daniel Andrews “prioriza trazer tenistas oriundos de países com alto risco de infecção ao invés de trazer para casa os australianos. É pior que uma dupla falta”, ironizou.

Em sua defesa, Andrews afirma que a Austrália perderia o Grand Slam para outro país, caso Melbourne não conseguisse realizar o torneio. E ele recebeu forte apoio da Câmara do Comércio de Victoria, que aponta os benefícios econômicos da realização do Australian Open para a região.

Enquanto isso…
Novak Djokovic, Rafael Nadal, Dominic Thiem, Simona Halep, Naomi Osaka e Serena Williams estão longe de toda essa confusão. Privilegiados pela organização, foram colocados num pequena ‘bolha’ em Adelaide. Seus hotéis possuem academia própria e assim eles ainda têm a regalia de cinco horas completas de prática em quadra. Isso sem falar em jogos-treinos já programados para o fim do mês.

Claro que isso não pegou bem no circuito, ainda mais diante da atual balbúrdia em Melbourne. Djokovic foi o único dos grandes que chegou a reclamar da situação tão diferenciada, mas ao final não recusou a oferta.

Se por um lado é justificável que os organizadores tentem proteger suas principais estrelas, de outro derruba a tal isonomia com que prometeu tratar todos os participantes do torneio.

Tênis em 2021 segue com incertezas
Por José Nilton Dalcim
3 de janeiro de 2021 às 11:32

Nunca durante estes 15 anos de Blog me deparei com tanta dificuldade para formar expectativas para uma temporada à frente. E, claro, o motivo é a pandemia do coronavírus, que continua a modificar calendários, com a dura promessa de vermos mais alguns eventos importantes serem cancelados. Mas não é só. Nomes importantes do circuito acenam para um retorno às competições depois de infindáveis meses de afastamento, como é o caso da ainda número Ashleigh Barty e do fenomenal Nick Kyrgios.

A temporada 2021 será aberta nesta quarta-feira com o WTA de Abu Dhabi e no dia seguinte começam dois ATPs menores, em Delray Beach e Antalya. Todos terminarão na outra quarta, o que por si só mostra o quão anômolo anda o calendário. Sofia Kenin lidera quatro top 10 nos Emirados, Fabio Fognini volta na Turquia ao lado de Matteo Berrettini, Jannick Sinner, David Goffin e Borna Coric e Delray, que perdeu Andy Murray e Kei Nishokori, terá Milos Raonic e John Isner.

As excentricidades seguem com os qualis do Australian Open disputados no Oriente Médio, em Doha e Abu Dhabi, e aí teremos a pausa obrigatória de 14 dias para se cumprir a quarentena em Melbourne. O tênis recomeçará dia 31, com dois ATPs e dois WTAs simultâneos em Melbourne. Os masculinos ficam reservados aos em que não devem jogar a ATP Cup, reduzida para 12 países e cinco dias. O evento termina à véspera da largada do Australian Open, em 8 de fevereiro.

Por esse extenso quadro de novidades fica patente que um panorama das condições atléticas e técnicas da maciça maioria dos tenistas só estará mais claro nessa semana que antecede o Australian Open. É de se acreditar que Novak Djokovic, Rafael Nadal, Dominic Thiem e Danill Medvedev joguem a ATP Cup e tenham adversários de peso, já que deverão enfrentar quase sempre um top 10, preparativo exigente. Já no feminino, Barty, Simona Halep, Naomi Osaka e Serena Williams são aguardadas nos WTA 500.

Há componentes diferenciados neste início de temporada, que devem refletir diretamente no Australian Open, e o mais importante deles é que os principais nomes terão 14 longos dias de treinamento no Melbourne Park durante a quarentena, ou seja, uma extensão da pré-temporada que tradicionalmente fazem em dezembro. O confinamento não deixa de ser tedioso, ainda mais que por sete dias só poderá haver um mesmo parceiro de bate-bola, mas isso no fundo acabará sendo um teste de resiliência.

Daí a prudência colocar Djokovic e Nadal novamente na ponta da lista de favoritos. porque o mental mais do que nunca pode decidir jogos e títulos. Todos sabemos que a maciça maioria dos tenistas de hoje se adapta muito bem à quadra dura, e entre eles estão Thiem, Medvedev, Alexander Zverev e Stefanos Tsitsipas, não por acaso os quatro mais cotados para barrar o Big 2. Surpresas isoladas podem vir com Andrey Rublev, Milos Raonic, Stan Wawrinka e Grigor Dimitrov, mas não vejo esses outros com consistência suficiente para ir até as rodadas finais.

O feminino também tem uma série de favoritas com jogo solto e ideal para a quadra dura, mas eu colocaria fichas iniciais em Osaka e Kenin, ficando de olho arregalado em Vika Azarenka e Petra Kvitova. Sempre é essencial lembrar que o Slam feminino não se diferencia dos grandes torneios regulares, ainda que sejam necessárias uma ou duas vitórias a mais, com a vantagem de um dia de descanso permanente.

Com a chegada gradual da vacina na Europa e Américas, a ATP divulgou um calendário provisório em que manteve a perna sul-americana de saibro, exceto o Rio; os torneios de quadra coberta na Europa, os 500 de Acapulco e Dubai como preparativos para Miami, confirmando também o adiamento de Indian Wells. No entanto, com os EUA batendo recordes de mortos na incrível casa de 3.700 diários e o temor pela variação do coronavírus, ainda há muita reserva sobre a concretização dessa sequência.

O que talvez seja mais palpável é a série do saibro europeu, planejada para largar com Monte Carlo na segunda quinzena de abril e seguir nos moldes naturais. A presença de público segue incerta e isso, como era imaginado, tem provocado o desabamento das premiações dos torneios e afastamento de patrocinadores.

O terrível 2020 acabou, mas as incertezas seguem sobre o tênis em 2021.

Um ano sem Federer
Por José Nilton Dalcim
28 de dezembro de 2020 às 20:19

Roger Federer nem esperou as duas semanas prometidas e, após somente cinco dias de treinamento em Dubai, já anunciou que não irá competir no Australian Open, adiando seu retorno para o final de fevereiro. Ainda que não seja inesperado, é doloroso ver o suíço pular seu terceiro Grand Slam seguido, interromper uma sequência de 21 viagens a Melbourne, iniciadas em 1999, um torneio que lhe deu 15 semifinais, seis troféus e seu mais recente Slam, em 2018.

Pior ainda, Federer completará pelo menos 13 meses sem competir, já que seu último torneio oficial foi justamente o único de 2020, a semifinal do Australian Open. Não fosse o congelamento do ranking determinado pela ATP diante da pandemia, ele desapareceria da lista ao final de janeiro de 2021.

A última vez que Federer se submeteu a uma cirurgia foi para o joelho esquerdo. Ele então perdeu metade da temporada 2016, deixou o top 10 pela primeira vez em 17 anos,  o que sugeria um final de carreira. Que nada. Então com 35 anos, surpreendeu pelo nível físico e incrementos técnicos, faturando o Australian Open e Wimbledon em outro momento mágico de sua incomparável carreira.

A situação em 2020 no entanto é bem diferente. Durante a campanha de Melbourne, já dava clara mostras de limitação atlética, e fez um esforço para realizar a exibição-recorde contra Rafa Nadal na África do Sul. Logo em seguida se submeteu a artroscopia no joelho direito e marcou a volta para a fase de grama, em julho, que acabaria cancelada pelo coronavírus. Nesse período, chegou a se mostrar treinando na neve.

Antes mesmo do prazo, Federer veio a público em junho para informar que teria de realizar uma pequena cirurgia corretiva no mesmo joelho e que então seu retorno ficaria para 2021. Em outubro, mostrou otimismo com a recuperação, mas avisou que a volta só aconteceria quando estivesse 100%. Marcou o Australian Open como meta, divulgou fotos de treino de quadra na Basileia e depois voou para Dubai, onde habitualmente passa o Natal, com a ideia de fazer um teste mais rígido em condições semelhantes às de Melbourne. Avisou que daria uma resposta após ‘duas semanas decisivas’, mas apenas cinco dias depois veio a notícia da desistência e do adiamento.

A pergunta que fica é se o retorno ainda lhe dará chance de novos títulos e de grandes façanhas ou se marcará uma despedida. Aquele retorno espetacular de 2017 parece muito improvável. O suíço está agora quatro anos mais velho e sem competir por um período muito longo. Hoje o top 10 comporta não apenas espetaculares Djokovic e Nadal, mas jovens bem mais experientes como Dominic Thiem, Daniil Medvedev e Alexander Zverev assim como talentosos de grande vigor físico do porte de Stefanos Tsitsipas e Andrey Rublev. Chegar nas rodadas finais dos torneios parece um desafio maior do que nunca.

Para amenizar o quadro, há quem aposte que o recuo de Federer em atrasar seu retorno não tenha nada a ver com sua capacidade física ou técnica de momento, mas sim a Covid-19 e as duras medidas impostas pelos organizadores do Australian Open. Sem poder levar a família e forçado a longa estada em Melbourne – há exigência de 14 dias de quarentena antes de qualquer competição ou sequer um passeio pela cidade -, faltou motivação e sobrou receio com o vírus. Sequer poderia escolher a acomodação desejada. Uma indicação disso seria a própria entrevista de Tony Godsick, em que o empresário e amigo enfatiza que a decisão foi tomada em conjunto.

Ainda assim, o retorno no final de fevereiro está carregado de dúvidas, já que sequer existe um calendário da ATP para depois do Australian Open. Seria bem lógico que Federer permanecesse em Dubai para o tradicional torneio da cidade ou que retornasse à Europa para os eventos de quadra coberta e rápida. Não se sabe ainda o que acontecerá com os Masters de Indian Wells e Miami, muito ameaçados de novo cancelamento, e eu particularmente duvido muito que Roger se arrisque no saibro europeu, um piso que evitou por três anos por recomendação do fisio Pierre Pagnani, já que o deslizamento obrigatório gera risco à estabilidade de seus joelhos.

Então Federer poderia jogar dois ou três torneios antes de nova longa parada em abril e mirar a curta fase de grama. É evidente que Wimbledon sempre será sua meta maior. Também parece certa sua presença nas Olimpíadas de Tóquio, ainda mais diante do enorme contrato com a Uniqlo, assim como na Laver Cup, que deverá acontecer em setembro em Boston, e no seu ATP caseiro da Basileia.

A contagem regressiva pode ter começado definitivamente para o melhor de todos. Tomara que ainda tenhamos tempo para apreciar mais um pouco de sua genialidade.