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Rumo a Wimbledon
Por José Nilton Dalcim
21 de junho de 2015 às 18:48

Não se pode dizer que os títulos de Roger Federer em Halle ou de Andy Murray em Queen’s tenham efeito decisivo sobre a futura campanha de ambos em Wimbledon que se aproxima. Mas, ao mesmo tempo, é certo que os dois provaram que estão novamente bem adaptados ao piso mais difícil do circuito atual. Com largo histórico no All England Club, fixam-se assim com dois dos três grandes favoritos ao título, ao lado do sérvio Novak Djokovic. Este sim uma incógnita bem maior.

Federer não teve vida fácil em Halle, mesmo não encontrando pelo caminho qualquer top 20. Se não foram atuações perfeitas e brilhantes, deram o nível de dificuldade que pode valer como ótimo treino técnico e grande valia para a confiança. Philipp Kohlschreiber, Ivo Karlovic e até mesmo Andreas Seppi colocaram várias vezes o número 2 do mundo contra a parede, mas Roger escapou quase sempre com seu saque afiado, algo essencial na grama. Aliás, Federer ganhou todos os seis tiebreaks que disputou, misto de consistência, ofensividade e cabeça firme.

Murray chegou ao tetra em Queen’s também sem cruzar com um único cabeça de chave, mas o torneio londrino estava bem mais forte. Na final, precisou derrotar Kevin Anderson, 17º do ranking, sem falar nos dois canhotos que teve nas rodadas inicias, Fernando Verdasco e Gilles Muller, e a semi contra Viktor Troicki, vindo da final de Stuttgart. É relevante lembrar que Murray foi até a penúltima rodada de Roland Garros, de fato jogou até o sábado, quando encerrou sua incrível temporada sobre o saibro. E, mesmo tendo nascido na grama, a troca sempre será mais dramática.

Enquanto isso, Djokovic treina, treina. Não disputará novamente qualquer aquecimento para Wimbledon e vai ser o primeiro a estrear, porque assim determina a tradição do torneio. Ou seja, até a próxima segunda-feira, não teremos o menor indício de como anda Djokovic. Menos na parte técnica, claro, porque seus títulos no Club falam por si e pouco provável surgir algum elemento inovador, mas sim na questão emocional.

Com Nole e Roger obrigatoriamente em lados opostos da chave, caberá ao sorteio da sexta-feira dizer onde ficará Murray. Esse parece ser um componente essencial, ainda que Stan Wawrinka tenha reconhecido potencial e Rafa Nadal, currículo suficiente para nunca ser descartado. O escocês, me parece, tem de ser o adversário mais importante a ser evitado para quem quer ter maiores chances de chegar à final de Wimbledon.

De minha parte, quebrei o protocolo e decide acompanhar o Grand Slam britânico de perto desta vez. Estarei escrevendo diretamente de Londres a partir de quinta-feira, já à espera do sorteio. Mas até lá, fico atento a qualquer assunto importante que apareça.

Manias e surpresas
Por José Nilton Dalcim
18 de junho de 2015 às 11:45

Ah, esses jornalistas.

Para esquentar a temporada de grama, nada como achar coisas diferentes para atrair o público. Dias atrás, um colunista do Independent reviveu a curiosa lista (acho que a primeira que li foi há cinco anos) das manias menos conhecidas de Rafael Nadal, mas que, tal qual alinhar garrafinhas, arrumar o calção antes do saque ou da devolução ou correr para o fundo da quadra após o sorteio da moedinha, sem jamais pisar as linhas, são cumpridas num verdadeiro ritual para que o espanhol esteja totalmente preparado para a batalha.

Vejam só:

– Por volta de 45 minutos antes de uma partida, ele toma um banho de água fria.

– Sempre entra em quadra com uma raquete na mão.

– Somente ele pode colocar os ‘grips’ (aquela proteção que vai no cabo da raquete para amenizar suor e melhorar a firmeza da mão no cabo) em suas raquetes. Rafa faz isso dentro do vestiário. Os grips são sempre brancos.

– Sua raqueteira precisa ser colocada bem próxima a ele, na cadeira, em cima de uma toalha. Jamais será colocada no chão.

– Ele sempre bebe um pouco do líquido que carrega em cada uma das duas garrafas que leva à quadra. Uma tem líquido gelado, a outra líquido morno.

– Jamais se levanta da cadeira para retornar à quadra antes do adversário, assim como jamais é o primeiro a ir se sentar, sempre dando passagem ao oponente.

– Nadal adotou novo critério para se enxugar, o que faz praticamente a cada ponto, até mesmo um ace ou dupla falta. Agora leva duas toalhas, entrega cada uma delas a um pegador e recebe ambas de volta a cada troca de lado.

Aliás, desde o começo do ano, quando esteve aqui no Rio, observei mais uma novidade: ao término de um game em que tem de ir para a troca de lados, esteja onde estiver, ele dá uma volta sobre o centro da quadra (aquela pequena marca que divide a linha de base e serve de orientação para sacar do lado certo).

Enquanto isso, a quadra de grama vai cobrando caro. Se existe uma superfície em que um tenista não pode se dar ao luxo de desperdiçar chances, essa certamente é a grama. Ainda mais se você estiver no saque, porque achar uma oportunidade de quebrar de volta pode ser uma tarefa inglória.

Foi assim com Nadal diante de Alexandr Dolgopolov – ter 4/2 no terceiro set e não levar é quase um crime na grama -, mas também com Stan Wawrinka e o absurdo erro de forehand no set-point do segundo tiebreak diante de Kevin Anderson e com o atual campeão Grigor Dimitrov, que fez 3-0 no tiebreak contra Gilles Muller antes de tomar a virada.

Ao final da segunda rodada em Queen’s e Halle, ao menos temos coisas diferentes acontecendo no circuito, como Jerzy Janowicz, Florian Mayer e Guillermo Garcia-López se juntando aos vitoriosos inesperados.

E o que foi essa marca de 27 aces da alemã Sabine Lisicki? Em 11 games de serviço, dá quase três de média! Poucos homens são capazes disso, ainda é claro que devolução no feminino seja um pouco mais frágil. Lisicki é sem dúvida uma das maiores sacadoras do circuito, o que também combina muito bem com a grama.

A grama ao quadrado
Por José Nilton Dalcim
14 de junho de 2015 às 21:19

Depois de tanto tempo, enfim a ATP fez o que a maioria exigia e dobrou a importância da curta temporada sobre as quadras de grama. Embora apenas um novo torneio tenha sido criado, o de Stuttgart, que abandonou o saibro, o que valeu mesmo foi elevar Queen’s e Halle para a condição de ATP 500. Como nem tudo é perfeito, ainda não entendi por que manter os dois na mesma semana, dividindo as grandes estrelas e enlouquecendo os organizadores.

Queen’s tem mais de 100 anos de história, não é um torneio qualquer. Sempre foi considerado o mais importante aquecimento para Wimbledon, e a partir de agora ficou ainda mais seletivo, já que a ATP forçou a redução da chave principal de 48 para 32 participantes, ao mesmo tempo que a bolsa saltou para 1,7 milhão de libras. Ficou tão absurdamente forte que o último a entrar direto foi o russo Mikhail Youzhny, 58º da lista de inscrição.

Teremos jogos incríveis logo na primeira rodada, especialmente Stan Wawrinka contra Nick Kyrgios, ou seja, o 4 contra o 28. E o australiano é nada menos que o quadrifinalista de Wimbledon do ano passado. Também teremos Grigor Dimitrov, o atual campeão, contra Sam Querrey, vencedor em 2010. As quartas de final apontam para Wawrinka-Nadal e Dimitrov-Andy Murray, duelos que realmente poderão valer como excelente prévia para Wimbledon.

Halle ficou um tanto mais fraco, nem tanto pelo ranking dos principais nomes mas pelo histórico menos expressivo na grama, caso de Kei Nishikori, Gael Monfils, Pablo Cuevas. Ainda assim é fácil ver que Roger Federer deverá ter trabalho se quiser chegar ao oitavo troféu: Kohlschreiber é freguês mas já ganhou o torneio; Stakhovsky tirou o suíço na segunda rodada de Wimbledon de 2013; Tomic conhece bem a grama;. e Berdych decidiu Wimbledon depois de tirar o suíço.

Aliás, não pode passar batido o fato de que esta revigorada temporada de grama tem tudo para recuperar o interesse do público alemão pelo tênis, o que despencou ano a ano com a falta de um grande campeão. Stuttgart contratou Nadal e viu um sucesso incrível de audiência. Halle tem sempre Federer como maestro principal, garantia de casa cheia, além do ídolo Tommy Haas e da esperança Alexander Zverev.

E Nadal? Cumpriu muito bem seu papel. Demorou para pegar ritmo nas primeiras rodadas, o que é absolutamente normal não só pela dificuldade natural do piso mas também por seu momento, e evoluiu até apresentações convincentes no sábado e domingo. Tudo bem, Gael Monfils e Viktor Troicki não têm currículo na grama. No entanto, a forma com que Rafa se impôs, trabalhando muito bem o saque e apostando nos voleios, reforça aquilo que eu previra após Roland Garros: mesmo não sendo o Nadal de antes, ele é bom o suficiente para qualquer top 20.

Claro que ganhar Stuttgart não aumenta seu grau de favoritismo para Wimbledon. Terá de mostrar mais em Queen’s, onde possui duas boas primeiras rodadas para embalar. Pode ser impressão falsa minha, porém me pareceu que o espanhol tirou algumas libras de pressão das cordas – talvez esteja algo na casa das 48 ou 50 -, o que seria uma alternativa frutífera na ideia de ganhar peso e profundidade nos golpes de base e ainda maximizar o efeito topspin. De quebra, ainda poupa o braço.