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Que a grama os conserve
Por José Nilton Dalcim
23 de junho de 2019 às 22:50

O tênis masculino conheceu num mesmo domingo seus dois mais velhos campeões de nível ATP das últimas quatro décadas. Roger Federer, em Halle, e Feliciano López, em Queen’s, se tornaram os jogadores de maior idade a erguer um troféu de primeira linha desde Ken Rosewall, em 1977. O suíço nasceu apenas 42 dias antes do espanhol e ambos assim caminham para os 38 anos dentro de dois meses. O notável: esbanjam vigor físico e aquela essencial vontade de vencer.

Federer reencontrou o caminho da grama depois de sua excursão ao saibro europeu, mostrando que a mudança de calendário não o afetou. Ao contrário, talvez tenha até contribuído para o deixar com pernas mais fortes, algo que ele precisou muito na campanha de Halle, principalmente em duas rodadas exigentes diante de Jo-Wilfried Tsonga e Roberto Bautista.

Fato curioso destacado pela ATP, ele jogou Halle pela primeira vez no ano 2000 e nenhum tenista daquela chave continua em atividade, entre eles Ivan Ljubicic e o treinador de David Goffin, o sueco Thomas Johansson.

Embora sejam universos um tanto diferentes, Federer deixou bem claro que a 10ª conquista em Halle é muito animadora para Wimbledon, onde ele será mesmo o cabeça 2. Se ‘melhor de cinco sets’ podem pesar para a idade, não parece menos verdade que sua experiência em jogos longos sobre a grama serve como diferencial importante diante dos mais jovens.

Se eu fosse apostar hoje, cravaria Roger como o favorito ao título.

O nome da semana
Quando López ganhou convite e entrou na chave de simples de Queen’s, ele não era muito mais do que o parceiro que Andy Murray havia escolhido para tentar sua volta às quadras. Apesar de já ter vencido o torneio em 2017 e feito outra final em 2014, o ranking de 113º e os 37 anos nas costas não davam qualquer credencial ao canhoto espanhol, que ainda sonhava que o All England lhe daria ingresso direto em Wimbledon.

É bem verdade que Feli deu alguma sorte ao não precisar enfrentar Juan Martin Del Potro na segunda rodada, mas todos seus outros quatro jogos foram ao terceiro set, e três deles exigiram virada. Tirou o garotão Marton Fucsovics, o sacador Milos Raonic, a estrela adolescente Felix Auger-Aliassime e por fim o experiente Gilles Simon. A soma deu 9h13 de esforço, e uma parte considerável disso sob grande pressão.

A campanha nas duplas não foi menos exigente, obrigando López a ficar mais 6h02 em ação. O problema maior no entanto esteve no acúmulo dos jogos, já que a chuva do meio de semana o fez entrar duas vezes em quadra na sexta, três no sábado e mais duas no domingo. E querem saber? López jogou muito tênis no finalzinho do match-tiebreak da dupla, mostrando energia e determinação incomuns.

Para mim, López foi o homem de uma semana que teve muita coisa boa. O retorno vitorioso de Murray, com destaque para um primeiro saque muito firme, ótimo tempo de bola nas devoluções e passadas, voleios apurados e muita garra, jogando-se ao chão algumas vezes. Jurou não ter sentido qualquer dor no quadril, o que é ainda mais esperançoso. Ele irá jogar Eastbourne ao lado de Marcelo Melo e Wimbledon com Pierre Herbert (e talvez mistas) e considera a chance de jogar simples num challenger inglês em setembro.

Também foi excepcional ver as campanhas de Felix e do italiano Matteo Berrettini na grama, dois nomes da nova geração que se firmaram no saibro europeu e mostram aquela versatilidade essencial para quem deseja brigar lá em cima do ranking. Está certo que ficaram muito mais no fundo de quadra, mas essa parece a tendência inevitável do tênis atual até mesmo para a grama. Novak Djokovic, Rafael Nadal, Marin Cilic e Kevin Anderson que o digam.

Aliás, a ATP lembra que mais um campeão de 37 anos surgiu neste domingo: o ex-top 10 Tommy Robredo, em challenger sobre o saibro.

Vida longa e próspera a esses notáveis senhores.

Número 1 muda de mãos
A queda técnica e assuntos extra-quadra de Naomi Osaka desde a conquista do Australian Open se somaram à qualidade crescente de Ashleigh Barty e eis que enfim o tênis feminino tem uma nova líder, a 27ª de sua história e apenas a segunda australiana, após Evonne Goolagong, desde que o ranking foi criado, em novembro de 1976.

A rigor, a pequenina Barty saiu do zero ponto ao topo da lista em apenas três temporadas, o que é um feito espetacular. Neste ano, venceu três torneios, um em cada piso, com destaque óbvio a Roland Garros, ainda mais que o saibro nunca foi o favorito. A grama combina muito mais com seu estilo requintado e daí que ela já vira séria candidata a Wimbledon, desde que saiba controlar ansiedade e bajulação, um binômio nada fácil de se administrar quando se tem 23 anos.