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Thiem ou Medvedev? Façam suas apostas.
Por José Nilton Dalcim
8 de setembro de 2020 às 00:03

Novak Djokovic não está mais em Nova York e o favoritismo natural ao título é herdado por Dominic Thiem e Daniil Medvedev. O primeiro problema deles, no entanto, é que estão do mesmo lado da chave. Se vencerem na quarta-feira dois nomes perigosos da novíssima geração, terão de duelar entre si por mais uma final de Grand Slam e se candidatar para o troféu que já lhes escapou.

Os jogos-teste desta segunda-feira, um dia depois de se surpreenderem com o buraco deixado pela desclassificação do número 1, foram muito bem administrados por ambos e, a rigor, tiveram um único set. Thiem, que já havia progredido na vitória sobre Marin Cilic, se mostrou muito à vontade depois de ganhar o tiebreak contra Felix Auger-Aliassime. O canadense decepcionou, é verdade, porém é preciso colocar na conta a forma com que o austríaco o sufocou e deu pouco tempo para ele respirar.

O russo por sua vez atropelou um desanimado Frances Tiafoe, que só engordou seus games no primeiro set porque Medvedev deixou escapar o 5/2 com saque. Ainda assim, ganhou só cinco games no total e levou um ‘pneu’. O finalista do ano passado fez ótimas cruzadas, variou com deixadinhas de backhand, sacou quase sempre muito bem e outra vez economizou valiosa energia.

O adversário de Thiem será o australiano Alex de Minaur, de 21 anos, que alcança seu maior resultado em Slam ao tirar o agressivo Vasek Pospisil. O detalhe do jogo foi o tiebreak do primeiro set, em que o canadense abriu 6-2 e perdeu três serviços e seis pontos seguidos. Pouco fez depois disso. O pupilo de Lleyton Hewitt enfrentou Thiem duas vezes em melhor de cinco sets e não aguentou o ritmo dos golpes pesados do adversário. Mas isso foi há dois anos e há evidentes evoluções no jogo do australiano, ainda que seu forte ainda sejam o espírito de luta e o baixo número de erros não forçados. Apostaria que ele irá tirar no máximo um set de Thiem.

Andrey Rublev, de 22 anos, tem mais bagagem. Já esteve nas quartas do US Open em 2017, bem antes de explodir de vez. Seu problema diante de Medvedev está no fato de os padrões serem muito parecidos – saque forte, base pesada e poucas variações – e acima de tudo um certo respeito que nutre pelo compatriota, a quem enfrenta e se diverte desde os tempos de juvenil. Nunca venceu em três confrontos na ATP. Para avançar nesta segunda-feira, Rublev superou um início de muitos erros e aí apostou tudo no ainda frágil backhand de Matteo Berrettini. Meu palpite é que Medvedev passará sem sustos.

Serena se supera, Kenin diz adeus
Na sua melhor apresentação desde a volta do circuito e de seus três torneios jogados, Serena Williams controlou não apenas os nervos mas também os golpes para uma dura vitória em cima da boa Maria Sakkari. Mesmo deslocada para os ângulos pela grega, a multicampeã soube esperar a hora do contragolpe. Sakkari fez mais winners (35 a 30), porém também liderou os erros (43 a 38).

Fará agora um curioso duelo de mães contra Tsvetana Pironkova, que não se repete desde 2015. Serena ganhou todos os quatro. A búlgara sem dúvida parece uma adversária bem mais confortável para a norte-americana porque também gosta de arriscar, faz pontos mais curtos e comete falhas naturais desse estilo. A performance contra o forte poder defensivo de Alizé Cornet foi ótima.

Nos jogos da noite, Sofia Kenin se perdeu em seus erros mas também no apuro tático de Elise Mertens. A belga cometeu apenas sete erros não forçados na partida, três no set inicial, e manteve pressão constante sobre a cabeça 2 e vencedora do Australian Open em janeiro.

O jogo contra Victoria Azarenka promete muito. A bielorrussa não teve vida fácil diante de Karolina Muchova, que reaiizou um primeiro set muito consistente mas depois passou a sentir a coxa esquerda e perdeu mobilidade. Mudou a tática, arriscou cada vez mais e nem assim saiu de jogo, obrigando Vika a manter um alto padrão até o último game. Belo jogo. O duelo entre Mertens e Azarenka será inédito e, para mim, sem prognósticos.

Grande dia de Soares e Pavic
Depois de um início de torneio travado, em que quase pararam na estreia, Bruno Soares e o canhoto croata Mate Pavic cresceram jogo a jogo e obtiveram uma grande vitória em cima dos britânicos Jamie Murray e Neal Skupski. Devoluções primorosas foram o ponto alto.

Este é o melhor resultado da parceria, formada no ano passado. Para o mineiro, é a terceira tentativa de chegar à final masculina do US Open, onde foi campeão em 2016 com o mesmo Murray e finalista em 2012 com Alex Peya. Ele tem ainda dois títulos de mistas.

Os adversários são respeitáveis: Julian Rojer e Horia Tecau, que conquistaram o torneio em 2017, além de terem vencido Wimbledon e o Finals dois anos antes.

Luísa Stefani, por sua vez, caiu nas quartas. Desta vez, ela e Hayley Carter mostraram clara inferioridade diante de Nicole Melichar e Yifan Xu. A paulista de 23 anos segue agora para o saibro europeu, onde a adaptação da dupla é um pouco mais difícil.

Chocante e indiscutível
Por José Nilton Dalcim
6 de setembro de 2020 às 18:18

Atualizado com a rodada às 01h23

Um dia, iria acontecer. Quem acompanha a longa carreira de Novak Djokovic já cansou de ver seus destemperos, muitas vezes injustificados, descontando raiva na bola e na raquete. Passou bem perto de ser desclassificado em plena final de um Grand Slam, mas deu sorte porque a raquete passou por centímetros.

Neste domingo, no entanto, os centímetros não estiveram a seu favor. Após perder o terceiro set-point com uma deixadinha ousada do adversário, a frustração o levou a dar uma bolada violenta na placa de publicidade. Desconcentrado, permitiu minutos depois 0-30 e aí tropeçou e caiu sobre o ombro. Medicado, voltou e perdeu o saque. Levou a virada para 6/5 e então jogou a bola para trás, atingindo direto o pescoço de uma juíza de linha.

A imagem não deixa mínima margem de dúvida. O árbitro geral até contemporizou demais antes de cumprir a regra e desclassificar o número 1 do mundo de um torneio em que ele estava jogando um tênis magnífico, era o favorito absoluto, a passos largos para o 18º troféu de Grand Slam.

Antes que alguém pergunte, frise-se: não importa a intenção do tenista – muito raramente ele vai tentar atingir alguém de propósito – e o regulamento é extremamente claro sobre isso. Se o jogador usar qualquer meio de extravasar emoções e através disso atingir qualquer pessoa, dentro ou fora da quadra, a punição é imediata. Há inúmeros casos de desclassificação não intencional. Fernando Meligeni e Teliana Pereira já viveram isso.

O que mais choca nesta situação tão inusitada e amarga é que Djokovic começou a perder o controle emocional no 5/5 do primeiro set. Cedo demais para um jogador tão competente como ele, com histórico espetacular de viradas e recuperações. E não foi a primeira deste US Open. Contra Kyle Edmund, já mostrava irritação exagerada para a ocasião, com urros e reclamações. Pagou um preço alto demais. De quebra, ficará sem pontos, sem o prêmio de US$ 250 mil e sem a invencibilidade, que para nos 26 jogos.

O sérvio não quis falar com a imprensa – o que pode aumentar sua multa -, foi visto no aeroporto já no fim da tarde e soltou um comunicado no Instagram em que reconheceu a falha, pediu desculpas a todos e garantiu que levará isso como lição para o restante da carreira e da vida. Tomara.

A consequência imediata é que veremos um novo campeão de Grand Slam daqui uma semana. No lado de cima de chave, os sobreviventes nunca sequer fizeram uma final. Do outro, Dominic Thiem e Daniil Medvedev já foram vices. É um US Open para ficar mesmo na história.

Como fica o masculino
– Este é o primeiro Slam desde Wimbledon-2003 em que as quartas não tem qualquer campeão de Slam. É também o primeiro sem um membro do Big 3 desde Roland Garros-2004. E o primeiro US Open sem um campeão anterior nas quartas desde 1997.
– Carreño, de 29 anos, é o único na parte de cima que já fez semi em Flushing Meadows, há três anos. Antes do incidente fatal com Djokovic, ele vinha fazendo uma bela partida, firme no saque e muito consistente no fundo. Havia evitado os quatro break-points que encarou, cometido apenas seis erros e estava com o saque a favor para fechar a série.
– Seu adversário será o canhoto Denis Shapovalov, 21 anos, em sua primeira quartas desse nível. Virou nesta noite contra David Goffin, um jogo em que o saque o salvou muitas vezes. Seu mérito foi ter batalhado com cabeça fria em dezenas de ralis importantes, além de 33 das 47 idas à rede. Denis aliás também está nas quartas de duplas, com Rohan Bopanna.
– Para Alexander Zverev, só boas notícias. Subiu mais um degrau no US Open e faz quartas pela primeira vez, economizando energia num jogo muito fácil sobre o espanhol Alejandro Fokina. Se for à semi, será a segunda seguida em Slam. O que sempre se esperou dele.
– Agora encara o jogo sólido de base de Borna Coric, que tem se aventurado com sucesso nos voleios. Os dois tem 23 anos. O croata, que vinha da maratona física e emocional da virada contra Stefanos Tsitsipas, passou fácil por Jordan Thompson e deve estar ‘zerado’.
– Carreño ganhou 3 de 4 duelos com Shapovalov, todos na dura e dois no ano passado. O canadense só ganhou no saibro. Coric ganhou apertado de Zverev no US Open de 2017 e tem mais duas vitórias em quatro duelos, incluindo Cincinnati e Halle do ano seguinte. O alemão só levou a melhor em Miami-2018.

Americanas tiram favoritas
– Para comprovar o bom momento neste reinício do circuito, Jennifer Brady e Shelby Rogers são as primeiras tenistas da casa nas quartas de final femininas.
– Campeã em Lexington, Brady se adaptou incrivelmente bem à canhota Angelique Kerber e cedeu apenas cinco games. Grande exibição. Enfrenta agora Yulia Putintseva, que foi mais determinada na reta final do jogo e tirou Petra Martic, a cabeça 8.
– Rogers, 93ª do ranking, nem figura entre as cabeças de chave e foi quem tirou Serena Williams de Lexington. Fez um jogo duríssimo contra Petra Kvitova, evitando quatro match-points, um deles no tiebreak e no saque da tcheca.
– O desafio agora é ainda maior: Naomi Osaka. A campeã de 2018 e ex-número 1 não precisou jogar o máximo para tirar Anett Kontaveit. Fez 21 winners mas também 18 erros. O ponto forte foi o saque, com 84% de pontos vencidos quando colocou o primeiro serviço.

Nova geração aproveita a chance
Por José Nilton Dalcim
5 de setembro de 2020 às 02:20

O US Open sem três experientes top 10 tinha tudo para abrir espaço à nova geração sedenta por grandes resultados e até aqui a garotada não decepcionou. Dos oito classificados nesta sexta-feira à quarta rodada na parte superior da chave, metade está abaixo dos 24 anos. E no lado inferior, quatro ‘next-gen’ certamente avançarão no sábado.

O único ‘trintão’ no setor superior é justamente o amplo favorito ao título. Novak Djokovic fez outra grande exibição diante de Jan-Lennard Struff, ganhou 46% dos pontos como devolvedor, variou com deixadinhas desconcertantes e mais uma vez economizou energia para as rodadas mais importantes.

Está sobrando em quadra, com um forehand mais afiado do que nunca e isso parece dar muito pouca chance ao espanhol Pablo Carreño, que perdeu os três duelos contra o sérvio mas ao menos já tirou um set. Apesar de ser um tenista consistente em quase todos os aspectos e ter feito semi no US Open de 2017, Carreño é inferior a Djokovic em tudo.

Um possível candidato a ‘azarão’ na rodada seguinte é o canhoto Denis Shapovalov, que arrancou uma virada sofridíssima diante de Taylor Fritz. O norte-americano vinha super bem, sacou para o jogo no quarto set e ficou a dois pontos da classificação no tiebreak. Aí desabou. O canadense de 21 anos fez 60 winners e 33 erros, números bem mais confortáveis, e terá pela frente David Goffin. O belga não saiu de cima da linha, fez ótimas transições à rede e não perdeu set de Filip Krajinovic. Deixou ótima impressão. Está pelo quarto ano seguido nas oitavas, mas nunca foi além.

Já na madrugada, veio o grande jogo deste US Open até agora. Com um incrível espírito de luta e ferrenha aplicação tática, Borna Coric evitou uma derrota que parecia certa no quarto set, quando o grego Stefanos Tsitsipas abriu 5/1. O croata salvou então seis match-points, escapou de quebra atrás no quinto set e foi impecável no tiebreak decisivo. Que comportamento exemplar, em contraste com a conduta juvenil do grego, a esbravejar outra vez com o pai-treinador.

Coric, que sofreu com tantas lesões mesmo ainda aos 23 anos, repete as oitavas de 2018 e pode enfim marcar sua maior campanha num Slam diante de Jordan Thompson, australiano que tem padrão de jogo semelhante, mas sem currículo sobre pisos mais velozes.

Alexander Zverev por fim virou em cima do canhoto Adrian Mannarino e jogou um tênis cada vez mais sólido conforme os sets andaram, com destaque para os 14 aces e 28 subidas à rede. Sascha está pelo segundo ano seguido nas oitavas do US Open. No entanto não pode vacilar diante do poder de fogo do espanhol Alejandro Davidovich, outro de 21 anos, que não pensa duas vezes para espancar a bola.

No lado inferior da chave, jogarão neste sábado para entrar nas oitavas Medvedev-Wolf, Berrettini-Ruud, De Minaur-Khachanov e Aliassime-Moutet. Fiquem de olho nesse francês canhoto abusado. Moutet joga com força e com jeito. Superou Daniel Evans de virada e levou dois tiebreaks.

Bom teste para Osaka
A adolescente Marta Kostyuk exigiu muito da cabeça 4 Naomi Osaka, que segue em busca do segundo título no US Open. Ousada e agressiva, a ucraniana recebeu um elogio e tanto da adversária: “Tenho medo do que ela pode fazer num futuro breve”. Osaka enfrentará no domingo Anett Kontaveit, que se vira bem nas quadras mais rápidas porém perdeu todos os quatro duelos contra Naomi, incluindo o de sete dias atrás.

Petra Kvitova está no caminho da número 9 do mundo e aí a coisa pode ficar mais interessante. A tcheca ainda não se soltou totalmente, cometeu cinco duplas faltas e total de 28 erros em dois sets, mas gosta dos jogos grandes. Enfrentará antes a local Shelby Rogers. O US Open é o único Slam em que Petra jamais fez semi em 12 tentativas.

O outro quadrante está bem aberto e obviamente o sensato é apostar na experiência de Angelique Kerber, campeã de 2016, que venceu todos os seis sets até agora. A canhota alemã não jogava desde o Australian Open. Já a alegria de Carolina Garcia durou bem pouco e, depois de tirar a cabeça 1 Karolina Pliskova, foi dominada pela boa Jennifer Brady. A vencedora desse duelo enfrentará Petra Martic ou Yulia Putintseva.

Polêmica
O jogo entre Zverev e Mannarino ficou envolvido em polêmica e indefinição. Como Adrian é uma das 11 pessoas a ter contato próximo com Benoit Paire, ele foi autorizado pelas autoridades sanitárias do município a jogar as primeiras rodadas, mas ontem entrou em ação uma ordem do governo do estado que impedia o francês de atuar, exigindo o confinamento. Houve longa negociação para que o jogo acontecesse e Zverev gentilmente aceitou atrasar a partida.