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Insaciável Medvedev
Por José Nilton Dalcim
13 de outubro de 2019 às 22:02

Muitos dizem, com certa razão, que seu jogo não é tão vistoso e atraente, mas o fato é que o russo Daniil Medvedev roubou a cena. Achou um padrão e está cada vez mais difícil alguém competir com ele, principalmente nas quadras sintéticas. Ele conquistou neste domingo o segundo troféu consecutivo de Masters, justamente nos dois pisos mais velozes desse nível no circuito..

O russo de 23 anos desfila números impressionantes. Desde o vice no US Open naquela incrível final em que quase virou em cima de Rafa Nadal, venceu todos os 18 sets que disputou. A sequência desde Wimbledon inclui 29 vitórias em 32 possíveis, e não foram quaisquer triunfos: bateu cinco de oito top 10, entre eles outra vez o líder do ranking.

Aliás, penso que a reação que conseguiu na semi de Cincinnati, quando Djoko parecia caminhar para a vitória com facilidade, tem muito a ver com o momento que Medvedev vive. Ele vinha dos vices para Nick Kyrgios e Nadal, mas daí em diante virou um leão. Destruiu David Goffin na final, fez um US Open incrível e nem deu bola para a polêmica com o público.

A fase é tão boa que ele tem superado com folgas seus momentos de provação. Na final de São Petersburgo, tinha histórico de 0-4 contra Borna Coric e o placar foi um massacre de 72 minutos. Na decisão de Xangai, outro 0-4 diante de Alexander Zverev, e um resultado muito parecido, apenas um game e dois minutos a mais para o adversário.

A frase de Zverev diz tudo: “Hoje ele é outro jogador”. Na final deste domingo com teto fechado, Medvedev atacou o forehand do alemão para ir a 3/0, perdeu consistência e cedeu empate, mas aí viu o adversário cometer as tradicionais duplas faltas sob pressão. Enquanto Zverev se apressou no segundo set, o russo disparou winners.

Com 59 vitórias na temporada, sendo 46 na quadra dura e 22 de nível Masters, o russo já supera Roger Federer no ranking da temporada por 185 pontos, o que significa que irá duelar diretamente pelo terceiro posto daqui para a frente.

E não pensem que Medvedev considera um descanso. Ele entrou na chave de Moscou, onde estreará na segunda rodada e tem Karen Khachanov como principal concorrente, e depois emenda o 500 de Viena e o 1000 de Paris antes de enfim uma semana de preparação para debutar no Finals de Londres.

O apetite desse rapaz parece insaciável.

Bruno reage
Sempre admirador dos pisos mais velozes, Bruno Soares conseguiu enfim um grande resultado ao lado do novo parceiro Mate Pavic, depois que foi abandonado no meio do ano pelo escocês Jamie Murray.

A campanha em Xangai foi excepcional: nenhum set perdido, apenas um serviço quebrado. Tiraram os números 1 colombianos e derrotaram o próprio Jamie. A decisão contra os atuais campeões Marcelo Melo e o polonês Lukasz Kubot não teve o equilíbrio esperado.

Soares e Pavic sobem ao 18º lugar no ranking de parcerias, 1.120 pontos atrás da oitava e última vaga para Londres. Difícil, mas eles jogam agora o 250 de Estocolmo e seguem para o 500 de Viena, podendo chegar a Paris com ao menos uma chance matemática de se classificar.

Frases e fatos
– “Todo mundo estava dizendo que precisava de algo novo (no tênis masculino), então dei a eles isso”
– Esta foi a primeira final de Masters 1000 entre dois tenistas com menos de 24 anos desde que Novak Djokovic (22) venceu Gael Monfils (23) em Paris-2009.
– “Sou um tenista melhor do que era no início desta temporada. Tudo melhorou, nunca me senti tão confiante com o saque e me sinto à vontade até nos voleios”.
– Desde o título do russo Nikolay Davydenko na primeira edição de Xangai, em 2009, apenas três jogadores haviam vencido o torneio: Djokovic, Federer e Andy Murray.
– “Se continuar com essa sequência de vitórias, posso pensar no número 1 do ranking em 2020”.
– Bruno tem agora 32 títulos na carreira, sendo 4 de Masters. Melo é recordista em ambos, com 33 troféus e 9 de Masters.

Teste de resistência
Por José Nilton Dalcim
14 de janeiro de 2014 às 12:54

Diante de uma onda de calor que irá novamente beirar os 42 graus nos dois próximos dias, o Australian Open pode se tornar um verdadeiro teste de resistência física, ao menos para a chave masculina. Quem joga no meio da tarde (madrugada brasileira) certamente é o mais prejudicado, mas até mesmo Rafa Nadal parecia Ian Thorpe saindo da piscina após seu único set diante de Bernard Tomic, de cujo boné escorria água, no jogo que abriu a rodada noturna.

Obviamente, choveu crítica para os organizadores, que não invocaram a regra do calor extremo, alegando que havia baixa umidade (não passou dos 30%). Realmente, é a junção de altta temperatura com alta umidade o que causa sensação de calor insuportável. Ainda assim, pelo menos três jogadores abandonaram por exaustão, outros passaram mal e dezenas se queixaram. Jo-Wilfried Tsonga não achou engraçado ver o solado do calçado grudando no chão.

Curiosa foi a frase de um dos médicos: “Nunca vi ninguém morrer de desidratação numa quadra de tênis. O maior risco que pode acontecer é algum jogador passar mal por tomar líquido em excesso por medo do calor”. Apesar do vento, que amenizou boa parte do sofrimento, John Isner definiu: “É exatamente como abrir o forno depois de assar as batatas”. E Andy Murray, que conseguiu a vitória mais fácil do dia, acha que estão brincando com fogo: “Os profissionais estão condicionados para aguentar o jogo, mas o problema é como se recuperar disso depois. Não paralisar os jogos pode afetar a imagem do torneio”.

Oficialmente, a temperatura chegou a 42,2 graus, longe da histórica Black Friday de 1936, quando atingiu 45,6 graus em Melbourne. A preocupação maior tem sido com o público. A onda quente não impediu que 47.491 pessoas fossem ao complexo na rodada diurna. Foram providenciados amplos espaços protegidos e ventiladores de água fria. Não houve registro de incidentes.

O desconforto ficou evidente na movimentação ruim de Juan Martin del Potro, que conseguiu a virada contra Rhyne Williams, mas não pareceu afetar Roger Federer. O suíço fez apenas o necessário contra o limitado James Duckworth. Certamente, o esforço de cinco sets custará mais para Kei Nishikori e Gilles Simon. As notas ruins foram o abandono de Isner – o campeão de Auckland está com sério problema no pé – e de Philipp Kohlschreiber, que voltou a sentir problema na coxa e nem entrou em quadra.

O grande jogo do dia, assim, ficou para a maratona e o notável empenho de Andreas Seppi e Lleyton Hewitt sob condições tão difíceis. O italiano jogou muito nos dois primeiros sets, o veterano herói da casa não se entregou mesmo no clima sufocante, levou ao quinto set e ainda teve um match point. Depois, foi um duelo para ver quem ficava de pé em quadra. Aplausos de pé para ambos.

Entre as meninas, estreia vacilante de Vika Azarenka e Agnieszka Radwanska, jogo firme de Maria Sharapova e dois destaques da nova geração: a romena Simona Halep, de olho no top 10, e a espanhola Garbine Muguruza.

O Brasil – Não tivemos imagens da derrota de Teliana Pereira e da vitória por abandono de Thomaz Bellucci. Mas duas coisas são evidentes: a pernambucana lutou muito, encarou de frente a cabeça 29 Anastasia Pavlyuchenkova e poderia ter sim vencido, caso confirmasse a chance que teve no duro primeiro set. Foi uma estreia de Slam motivante e, com muito sol, torcida e saibro, nossa top 100 pode ser a grande estrela do Rio Open.

O placar da partida de Bellucci viu mil reviravoltas, porém o brasileiro mostrou que, ao menos no preparo físico, está sobrando. Vindo de três jogos do quali, aguentou os 42 graus e quem sentiu foi o adversário, o alemão Julian Reister. Claro que agora a tarefa é hercúlea: encarar Tsonga num dos grandes estádios. Seria o momento perfeito para mais uma reação na carreira.

A quarta-feira – A abertura da segunda rodada não empolga. Novak Djokovic é superfavorito contra Leo Mayer, enquanto David Ferrer deve fazer um jogo monótono contra o trocador de bolas Adrian Mannarino. Talvez haja emoção entre Tomas Berdych e o canhoto Kenny de Schepper ou entre Richard Gasquet e Nikolay Davydenko, se aguentarem o calor. E quem sabe o também canhoto Alejandro Falla complique um pouco para Stan Wawrinka. No feminino, pode ser curioso o duelo de gerações de Na Li e Belinda Bencic, que vem antes do provável jogo rápido de Serena Williams.

O adeus – O Australian Open me impediu de ir até Jacareí para a despedida a José Amin Daher, que sofreu acidente fatal de carro na manhã desta segunda-feira, na sempre perigosa Rio-Santos, quando voltava de fim de semana em Angra dos Reis para sua bela academia em São José dos Campos. Zé, como sempre um chamou ao outro, foi um daqueles tenistas que acompanhei a carreira desde o comecinho, ainda juvenil. Como todo tenista extremamente talentoso, era taticamente indisciplinado e muito irreverente. Não foi mais do que 139º do ranking porque não tinha muita paciência para o monótono trabalho físico.

Lembro de duas passagens curiosas. Em 1987, quando enfrentou o favorito Jaime Yzaga na segunda rodada de um challenger no hotel Transamérica, fez um ziquizira de voleio logo no primeiro ponto da partida. Três anos mais tarde, num dia de calor australiano em Manaus, sem forças diante de Luis Herrera, se virava para mim a cada ponto exaustivo e fazia uma brincadeira. Nos últimos anos, Zé Amin se dedicou a seu centro de treinamento e ao sonho de desenvolver novos jogadores de ponta. Perdemos um apaixonado pelo tênis, vai fazer muita falta.

Registro histórico
* Djokovic jamais perdeu para um tenista que não estivesse no top 80 em todo seu histórico de Grand Slam. A pior derrota nesse sentido foi para Marat Safin, então 75º, em Wimbledon de 2008. Leo Mayer está atualmente no 98º posto.
* Davydenko ganhou apenas dois de seus últimos 26 jogos diante de adversários top 10: Ferrer e Janko Tipsarevic, ambos no ano passado e no piso duro.
* Tommy Robredo marcou contra Lukas Rosol sua quinta vitória seguida em partidas decididas no quinto set, aumentando sua marca geral da carreira para 14-4. A última derrota no quinto set foi para Nole no US Open de 2008.
* Em cinco participações anteriores no Australian Open, Ernests Gulbis jamais passou da segunda rodada.