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O top 50 está logo ali
Por José Nilton Dalcim
25 de março de 2022 às 23:26

Beatriz Haddad Maia está muito perto de apresentar a melhor versão de si mesma. Nesta sexta-feira, marcou virada espetacular em cima da número 3 do mundo, a mesma Maria Sakkari que acabou de ser vice em Indian Wells. Dominou amplamente os dois sets finais e, segundo suas próprias palavras, nem jogou o máximo que pode. Sinal claro que ainda há mais por vir, o que só nos deixa animados.

Esta foi a terceira vitória consecutiva de Bia em cima de uma adversária top 5 do ranking, somada à então quarta colocada Sloane Stephens (Acapulco-2019) e a que fez em cima da terceira do mundo Karolina Pliskova (Indian Wells-2021), depois de ter sofrido seis derrotas nas tentativas anteriores, duas delas para uma vice-líder (Halep e Kerber) e outra para uma 5 (Ostapenko). Ou seja, nos altos e baixos de sua carreira, a canhota de 25 anos está 3-3 diante de top 5, o que é bem expressivo.

Depois de longo período sem poder disputar torneios de primeira linha por conta de ficar quase zerada no ranking, Bia ganhou 10 de seus 16 jogos desse quilate em 2022, o que eleva seu currículo para 87 vitórias e 64 derrotas em eventos WTA ou Grand Slam, com saldo positivo também sobre a quadra dura, onde tem 49 triunfos e 38 quedas. Na categoria de torneios chamados agora de ‘1000’, como é o caso de Miami, sua eficiência é de 50% (19 em 38).

Provisoriamente, Bia sai do 62º posto e atinge o 57º, o que seria novo recorde pessoal, mas isso depende ainda de outras três concorrentes diretas. Se vencer no domingo Anhelina Kalinina, que tirou Madison Keys, concorrerá ao 52º. Se considerarmos apenas o ranking da temporada, ou seja, campanhas desde janeiro, Bia está em 41º, com 336 pontos.

Apesar de ela própria não ter considerado seu desempenho tão espetacular, há duas coisas importantes a se destacar na conduta de Bia diante da forte e já experiente Sakkari. A primeira foi a postura tática, aquela insistência de manter a bola profunda e no centro da quadra, evitando dar ângulos de contragolpe à grega. E ao mesmo tempo vem a outra qualidade, a emocional, porque conseguiu manter essa meta diante do vento e por 1h58. Raramente se apressou, jamais perdeu a paciência.

‘Fui forte mentalmente’, ressaltou ainda em quadra. Ah, mas não foi só hoje, menina. Você tem sido muito resiliente a cada um dos tantos recomeços que precisou fazer, e talvez a blindagem venha exatamente por isso. Mais do que nunca, o tão sonhado e merecido top 50 está logo ali.

E Iga chegou lá
Aconteceu certamente mais cedo do que o esperado, em função da aposentadoria surpreendente de Ashleigh Barty, porém me parece que era destino certo que Iga Swiatek chegaria à liderança do ranking em algum momento. Ainda aos 20 anos, na segunda-feira ela se tornará a primeira tenista de seu país, homem ou mulher, a pontuar a lista de simples, façanha que apenas Lukasz Kubot obteve para a Polônia em duplas.

Swiatek será a 28º diferente jogadora a pontuar a lista e a mais jovem desde a dinamarquesa Caroline Wozniacki, que era 216 dias mais jovem em 2010. Sua lista de triunfos ainda é pequena, porém nobre, já que reúne Roland Garros e três nível 1000 em pisos distintos, em Roma, Doha e Indian Wells, estes dois conquistados seguidamente e que lhe dá agora 12 jogos de invencibilidade.

É difícil avaliar o quão extenso será esse reinado. No entanto, é claro e evidente que Swiatek está empenhada em continuar evoluindo em todos os campos. Já ultrapassou a barreira das quadras duras e agora terá de encarar a nada fácil tarefa de superar a si mesma. O desafio apenas começou.

E mais

  • Kyrgios teve atuações de gala contra Mannarino e Rublev e agora oferece revanche a Fognini, já que os dois se cruzaram só uma vez e foi exatamente na terceira rodada de Miami de 2018. Talento de sobra em quadra. Quem vencer, pega Carreño ou Sinner. Instável, o italiano salvou 3 match-points contra Ruusuvuori.
  • Zverev é o único cabeça do seu setor que está na terceira rodada, com decepção maior para a má atuação de Dimitrov.
  • Surpreendente vitória em dois sets e um tiebreak do ‘baixinho’ Gaston, 1,73m, diante do gigante Isner. Melhor para Norrie, que pega o canhoto francês e tem Ruud e Bublik no quadrante.
  • Os irmãos Cerundolo ganharam dois jogos cada um. Francisco encara Monfils agora, Juan pode enfrentar em seguida.
  • A chave feminina abre sua terceira rodada sem 19 das 32 cabeças de chave (3 foram por desistência), o que só aumenta a imprevisibilidade. Swiatek, Badosa e Jabeur são as únicas das oito principais favoritas ainda de pé.
  • Entre as derrotadas, Sabalenka, Kontaveit, Svitolina, Raducanu e Fernandez, além de Sakkari. A britânica teve jogo nas mãos e de novo se rendeu ao nervosismo.
  • Quem pode aproveitar essa debacle é Osaka, que fez dois jogos firmes e num deles tirou Kerber. Ela defende pontos e no momento é uma mera 92º. Um eventual título a recolocaria no top 30.
O velho Nadal contra o novo Nadal
Por José Nilton Dalcim
18 de março de 2022 às 00:25

O esperado reencontro entre Rafael Nadal e Carlos Alcaraz se concretiza em Indian Wells. Se dez meses atrás o pupilo de Juan Carlos Ferrero era apenas uma promessa talentosa, hoje o garoto de 18 anos já é considerado o mais provável súdito de Rafa, após um salto notável de resistência, velocidade, força e mão habilidosa.

A semifinal de sábado tem tudo para ser um eletrizante duelo entre duas gerações de espanhóis que jogam de forma claramente distinta mas que possuem como máxima a determinação ferrenha de lutar por cada ponto de maneira quase irritante e são dotados de recursos variados para optarem por diferentes e inesperadas táticas. Não dá para pedir mais.

O nono duelo entre Nadal e Nick Kyrgios foi além do que eu esperava, porque o australiano conseguiu resistir mental e fisicamente por quase três horas de intensa batalha. Um quesito pode ser o suficiente para definir a tênue diferença que favoreceu o espanhol: confiança. Com pouco ritmo competitivo nesse alto nível nos últimos meses, Kyrgios desperdiçou pontos cruciais, enquanto Nadal, em seu excepcional momento na temporada, nunca se desesperou e achou pequenas soluções que foram fundamentais. De novo, ganhou tiebreak e, como dizia Boris Becker, há muito mais de nervos do que de técnica num desempate.

O próprio Rafa explicou que, depois de escapar de um início tenso de terceiro set, decidiu mudar a posição de recebimento do saque com o único objetivo de mexer com a cabeça do adversário. E deu muito certo. Apesar de ter perdido dois games de serviço, no começo do jogo e para ceder o segundo set, no geral o espanhol utilizou muito bem o primeiro saque para conter a impetuosidade de Kyrgios. E se havia algum problema com o pé esquerdo, jamais demonstrou isso, deslocando-se de maneira notável.

Além da 19ª vitória consecutiva neste início de 2022, Nadal atinge a 76ª semi de nível Masters em 124 torneios disputados, ou seja, esteve pelo menos na penúltima rodada em mais de 61% das vezes. Com 402 vitórias em Masters em 485 possíveis, a eficiência está pertinho dos 83%, recorde absoluto.

Alcaraz por sua vez teve uma tarefa dura diante do atual campeão Cameron Norrie. O britânico liderou o primeiro set por duas vezes com quebras à frente, e repetiu isso no começo da segunda série, mas o empenho do garoto espanhol foi assombroso. Além de correr atrás de bolas impossíveis e fazer sempre o canhoto suar pelos pontos, utilizou muito bem outra vez as paralelas e sua visão para encaixar curtinhas esteve apuradíssima. Totalizou 36 winners, quase dois por game.

Sem dúvida, o saque de Alcaraz foi instável e ele sabe que isso será uma falha imperdoável diante de um canhoto muito mais experiente e de golpes bem mais pesados do que Norrie. Ao menos, ele já teve a experiência de encarar o jogo tão especial de Rafa em Madri do ano passado, quando levou um passeio no saibro veloz. No jogo desta quinta-feira, Alcaraz fez uma opção curiosa de ficar bem afastado na devolução do primeiro saque e jogar quase em cima de linha para retornar o segundo. Será que funciona contra Nadal? Curioso para ver.

A rodada desta sexta-feira define os outros dois semifinalistas. Tanto Taylor Fritz como Grigor Dimitrov já estiveram na penúltima rodada de Indian Wells, mas Andrey Rublev tem no currículo dois vices de Masters. O mais inexperiente é Miomir Kecmanovic. Ele enfrenta Fritz, que além da torcida tem histórico de 2 a 0, enquanto Rublev e Dimitrov farão o quinto duelo, todos em piso duro, com empate por 2 a 2. Nas bolsas de aposta, Fritz tem ligeiro favoritismo e Dimitrov é considerado razoável ‘zebra’.

Grandes jogos e número 2 em jogo
Três das atuais top 10 e uma ex-líder do ranking fazem uma rodada das mais interessantes na semifinal feminina de Indian Wells. Campeã de 2015 mas hoje apenas 26ª do mundo, Simona Halep leva vantagem de 2 a 1 sobre Iga Swiatek, enquanto Paula Badosa se mantém na luta pelo segundo título seguido e tenta repetir a vitória de novembro sobre Maria Sakkari.

Nos jogos desta quinta-feira, Sakkari começou lenta e viu Elena Rybakina abrir 4/1, mas depois a grega calibrou as devoluções e fechou com 18 a 12 nos winners, sendo 6 a 4 nos aces. Sakkari ainda tenta o primeiro título da temporada e chega a sua terceira semi seguida.

Badosa foi bem mais dominante e voltou a ter grande atuação, desta vez barrando Veronika Kudermetova em jogo sem sustos. Apesar de sempre forçar mais o jogo, a espanhola terminou com apenas seis erros. Swiatek, Badosa e Sakkari lutam entre si pelo número 2 do ranking.

Espanha rouba cena em Indian Wells
Por José Nilton Dalcim
17 de março de 2022 às 00:48

Com três representantes em estágios completamente distintos mas todos jogando um tênis de primeira grandeza, o tênis espanhol é a sensação do momento sobre as quadras duras de Indian Wells. O ainda imbatível Rafael Nadal, a estrela ascendente Carlos Alcaraz numa transição perfeita do saibro e a atual campeã Paula Badosa de olho no número 2 estão batendo muito na bola e usando os mais variados recursos diante das difíceis condições do torneio.

Como se esperava, Rafa sofreu com o saque demolidor de Reilly Opelka, que está longe de ser ridículo da base. Faltou pouco para levar o número 4 ao terceiro set e faltou coragem na hora de obter a segunda quebra. O espanhol foi como sempre muito aplicado na parte tática, determinado a entrar nos pontos de qualquer jeito. Ele achou que fez seu melhor jogo da semana, mas seu segundo set foi bem menos brilhante.

Obviamente, sobrará motivação para o reencontro com Nick Kyrgios, que descansou diante do mal estar que forçou Jannik Sinner a abandonar o torneio. O australiano ganhou 3 dos 8 duelos e é mais perigoso do que Opelka por sua imprevisibilidade. Fato curioso e relevante, Nadal ganhou 8 dos 9 tiebreaks disputados, incluindo todos os 6 mais recentes.

Alcaraz e Gael Monfils só fizeram o esperado duelo de habilidades até o francês perder o saque no 6/5, depois de flertar com break-points em outros dois serviços. O garotão, ao contrário, foi consistente do começo ao fim, fez 18 de seus 22 winners de forehand, ganhou 87% dos pontos em que acertou o primeiro saque e fez deixadinhas desconcertantes e voleios oportunos. De novo, mostra maturidade muito acima de seus 18 anos e segue com um estilo muito agradável de se ver.

O campeão do Rio Open chega às quartas de um Masters 1000 pela primeira vez e é o mais jovem a ir tão longe no torneio desde o fenômeno Michael Chang 33 anos atrás. Com 11 vitórias em 12 jogos na temporada, Alcaraz enfrentará agora o detentor do título, o canhoto Cameron Norrie, a quem venceu com notável facilidade no US Open do ano passado. O britânico fez notáveis lances contra Jenson Brooksby e precisa de mais uma vitória para enfim realizar o sonho do top 10.

Paula Badosa ganhou logo seu segundo torneio do ano, ainda em Sydney, e deu a impressão que manteria o momento confiante de 2021, mas daí em diante não fez grandes exibições. Tinham-se então reservas sobre como iria encarar a pressão de defender o título de Indian Wells – ainda que o troféu tenha acontecido em outubro – e a espanhola de golpes tão pesados e agressivos está muito bem. Foi notável na vitória sobre Leylah Fernandez, principalmente na forma de atacar o serviço, e buscará a semi diante de Veronika Kudermetova.

E mais

  • Dono de dois títulos na quadra dura neste ano, Rublev parece firme na busca do sonhado primeiro Masters, depois de dois vices no ano passado. Sua insistência em jogar duplas enfim rende um jogo de rede menos tímido. Tirou Hurkacz em sets duros e reencontra Dimitrov, semi de 2021 em Indian Wells. Duelo está 2-2.
  • Kecmanovic é um sérvio a se ficar de olho. Orientado por Nalbandian, joga bem em todos os pisos e é muito gelado sob pressão. Ótima vitória sobre Berrettini e encontro agora com Fritz, semi em 2021 e que ganhou no sufoco de De Minaur. O americano venceu os dois jogos anteriores contra Kecmanovic, mas lá em 2019. Vale conferir.
  • As primeiras quartas de final femininas foram decepcionantes porque Halep e Swiatek se mostraram absurdamente superiores a Martic e Keys. Enquanto a romena está muito veloz e solta em quadra, a jovem polonesa vem do título 1000 em Doha tendo como destaque o ataque nas devoluções.
  • Halep tem 2 a 1 no histórico, com única derrota na campanha inesquecível de Iga rumo ao título de Roland Garros em 2020. Swiatek assume provisoriamente o número 2, mas pode ainda ser ultrapassada por Badosa ou Sakkari, que enfrentará Rybakina nesta quinta-feira.
  • Zverev está na semi de duplas ao lado de Golubev e pode pegar Isner/Sock, que já tiraram Pavic/Mektic e Kokkinakis/Kyrgios. Rublev/Karatsev e Tsitsipas/Feliciano jogam quartas.
  • A ITF enfim conseguiu acordo entre os quatro Slam e unificou a regra do tiebreak no 6/6 do quinto set. É o fim definitivo do set longo, que sobrevivia em Roland Garros.