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O Big 3 dá espetáculo
Por José Nilton Dalcim
16 de maio de 2019 às 19:12

A chuva permitiu ao Fóro Itálico um momento inédito: assistir aos três maiores tenistas da história jogar duas vezes no mesmo dia, numa rodada que durou mais de 13 horas. E como foi espetacular. Novak Djokovic manteve o embalo de Madri e engoliu os adversários, Rafael Nadal não quis saber de brincadeira e cedeu dois games em quatro sets, Roger Federer brindou sua volta a Roma com máximo empenho numa partida disputada palmo a palmo com o valente Borna Coric, com direito a match-point para os dois lados.

Aliás, outros dois ‘trintões’ brilharam. Aos 35, o canhoto Fernando Verdasco sobreviveu a seis sets, eliminou primeiramente Dominic Thiem, que vinha sendo o destaque da temporada de saibro, e depois virou o jogo contra Karen Khachanov, num total de quase 5 horas de esforço. Quanta vontade de vencer. E Juan Martin del Potro, que se dizia em dúvida sobre sua capacidade de jogar bem outra vez sobre o saibro, passou por David Goffin e Casper Ruud com grande autoridade e uma torcida muito animada.

Djokovic reencontra Delpo no encerramento da rodada de sexta e é favorito, não apenas pelos 15-4 geral e 3-0 no saibro, mas pelo momento incerto do argentino. Pela manhã, Nadal tem vantagem ainda maior sobre Verdasco, de 16-3, mas pode ser um jogo divertido.

Fica a expectativa para ver como Federer irá se recuperar fisicamente – ficou 3h51 em quadra hoje – para encarar Tsitsipas e quanto cada um vai aguentar o duelo lá do fundo de quadra. É o terceiro jogo entre eles, todos em 2019. Por fim, abrindo o dia, Kei Nishikori busca repetir a semi de três anos atrás contra Diego Schwartzman, que enfim mostra sua capacidade sobre a terra. O japonês nunca perdeu, mesmo fazendo dois confrontos no saibro.

A rodada feminina foi um tanto inesperada, com queda de Simona Halep e abandonos de Petra Kvitova e Garbine Muguruza. Assim, as atrações das quartas de final ficam para  a revanche entre Karolina Pliskova e Vika Azarenka (a tcheca venceu apertado em Stuttgart semanas atrás) e a briga direta entre Naomi Osaka e Kiki Bertens, campeã de Madri e já terceira do ranking. A japonesa chega nas quartas pelo terceiro torneio seguido no saibro (fez semi em Stuttgart), o que prova evolução diante das 5 vitórias de 2018.

O triste caso Kyrgios
Mais uma vez, a ATP tem a oportunidade de invocar seu próprio regulamento para dar uma punição exemplar a Nick Kyrgios. Está escrito lá: o tenista está passível de penalidade caso ateste contra a integridade do esporte. Oras, e o que o australiano fez hoje em Roma? No dia em que o Big 3 deu um show de competência, seriedade e qualidade técnica, foi seu comportamento nefasto que virou manchete pelo mundo. Existe algo mais triste para macular a imagem do tênis?

Claro que a ATP tem que mexer também no bolso do rapaz, sempre uma penalidade que atormenta qualquer tenista, que detesta gastar centavos: foram retirados dele os 33 mil euros de premiação, que se soma à multa de outros 20 mil e à perda da gratuidade de hospedagem, o que deve gerar um prejuízo de 55 mil euros. Isso é justo, mas não o bastante.

Li um abalizado comentário que reforça ainda mais a “integridade do esporte” afetada. Kyrgios é adorado pela maioria das crianças e não se pode admitir que tal comportamento em quadra as influencie. Para o bem das futuras gerações, é preciso mostrar a todos que existe um claro limite. Kyrgios já ultrapassou todos.

Como já disse antes aqui, a ATP no fundo é a maior culpada pela situação. Teve inúmeras chances de brecar o australiano, e não o fez. Criticar gratuitamente parceiros de profissão, entre eles o número 1 do mundo, e dizer que venceu um torneio indo para baladas até 4h30 da manhã definitivamente não combinam com a honradez secular do tênis.

Seu estilo genial não recompensa o esporte na mesma proporção que suas atitudes e palavras trazem noticiário tão negativo.

Meio a meio
Por José Nilton Dalcim
26 de março de 2019 às 00:02

Embora esteja longe de ser favorita, a nova geração conseguiu dividir as oitavas de final do Masters 1000 de Miami com os veteranos. Mesmo sem Alexander Zverev, oito classificados estão abaixo da faixa dos 25 anos, com quatro deles com no máximo 21. Melhor ainda, veremos dois duelos diretos da Next Gen.

Claro que Novak Djokovic e Roger Federer continuam como maiores candidatos à final de domingo. O sérvio ainda não jogou seu melhor tênis, mas todo mundo sabe de sua capacidade de elevar o nível quando realmente importa. O suíço por sua vez apagou a estreia ruim com uma exibição muito boa, encarando uma tarde de alta umidade em Miami.

Apesar do evidente momento de desconcentração, Nole também jogou melhor do que na estreia, ainda que tenha perdido um set bobo para Federico Delbonis. O andamento natural da partida era uma vitória fácil em dois sets, mas Djoko desperdiçou vantagens. Quando relembrou do começo da partida, em que batia uma  bola em cada direção com enorme controle, tudo voltou a ficar fácil.

A sequência de Djokovic coloca do outro lado da quadra Roberto Bautista, que o derrotou no começo do ano quando estava jogando muito tênis. O espanhol deu uma queda desde então, porém ainda assim será um teste interessante com suas bolas retas batidas na subida. Também sabe trocar direções e acredito que Djokovic precisará evitar a passividade que o acometeu no domingo. Bautista parece um adversário muito mais perigoso do que John Isner ou Kyle Edmund na eventual rodada de quartas.

O outro quadrante reúne três nomes da nova geração e uma incógnita. Nick Kyrgios continua com um tênis inversamente proporcional a sua irritante conduta. Enquanto faz chover em quadra com variedade invejável de golpes, xinga juiz, briga com torcedor, dá saque por baixo, brinca de forma exagerada com o adversário. Se jogar bem, deve tirar o instável Borna Coric. Já o garoto Felix Aliassime continua em momento mágico, sem jamais abrir mão da agressividade. Nikoloz Basilashvili não faz um grande 2019 e assim há chance para o canadense diante do forte jogo de base do georgiano.

Gostei muito do segundo jogo de Federer porque Filip Krajinovic exigiu o tempo todo. O suíço precisou ser consistente na base e o fez com louvor, principalmente o backhand. Passou alguns apertos e aí o saque funcionou e os voleios foram perfeitos. As condições estavam lentas, e Roger raramente se apressou.

É exatamente dessa paciência na construção de pontos que irá precisar diante de Daniil Medvedev, a quem venceu duas vezes no ano passado mas levou susto em Xangai. Se passar, há chance maior de reencontrar Kevin Anderson, favorito diante de Jordan Thompson e um ‘freguês’ do suíço até a incrível virada de Wimbledon.

Na última parte da chave, se repete o quadro: três garotos contra o experiente David Goffin, com destaque total para o terceiro duelo entre Stefanos Tsitsipas e Denis Shapovalov, o que tem tudo para ser uma constante no futuro do tênis. O outro jogo é bem curioso: Frances Tiafoe andou perdido depois da grande campanha em Melbourne e cruza com Goffin, que nunca mais se achou depois da bolada acidental no olho de um ano atrás. O belga venceu os três confrontos já realizados, porém Tiafoe vem de duas grandes partidas, despachando nesta noite David Ferrer.

Já o torneio feminino caminha para um desfecho de ouro, uma vez que tanto Simona Halep como Petra Kvitova ultrapassarão Naomi Osaka na pontuação do ranking caso atinjam a final de sábado. E como as duas estão em lados opostos, a chance de uma luta direta pelo título e pelo número 1 está aberta.

Halep fez seu melhor jogo das últimas semanas contra Venus Williams, enquanto Kvitova chegou a 26 winners diante de Caroline Garcia. Outra sensação é a taiwanesa Su-Wei Hsieh. Aos 33 anos, emendou a vitória sobre Naomi Osaka com a eliminação de Caroline Wozniacki. É uma autêntica ‘giant killer’. Neste ano, já derrotou Angelique Kerber e Karolina Pliskova, no ano passado surpreendeu Halep e Garbiñe Muguruza.

Como se esperava, acabou o gás da canadense Bianca Andreescu, que já sofreu muito para repetir a vitória sobre Kerber de Indian Wells. A alemã, aliás, se irritou e chamou a garota de ‘drama queen’ na hora do cumprimento, mas a canadense deixou claro que estava mesmo no limite e se arrastou em quadra contra Anett Kontaveit. Mal aguentou jogar nove games.

Thiem volta a ser Thiem
Por José Nilton Dalcim
22 de março de 2019 às 23:28

É absolutamente normal no circuito de hoje um campeão tropeçar imediatamente no torneio seguinte, seja por falta de adrenalina ou pela cobrança natural.

Dominic Thiem no entanto foi além desse direito natural e fez uma partida a seu melhor estilo na noite desta sexta-feira: exagerado na força, falho nas escolhas, frágil na parte mental.  Saiu na frente com quebra, não segurou e fez um game pavoroso para perder o serviço e o primeiro set. Depois teve 3/1 e 4/2, não suportou a pressão e cedeu os dois serviços seguintes.

A parte boa disso tudo é que ele deixou uma vaga nas oitavas de final do Masters de Miami para dois garotos que vêm chamando a atenção: seu algoz Hubert Hurkacz, polonês de 22 anos cheio de bons recursos, e a sensação Felix Auger-Aliassime, de 18, com seu delicioso tênis muito ofensivo. Quem ganhar, aliás, será top 50 do ranking pela primeira vez. Então digamos que o trabalho de Thiem acabou bem feito.

A outra decepção no dia em que os primeiros grandes nomes estrearam em Miami foi Kei Nishikori. Repetiu a receita de Thiem em doses ainda mais dolorosas. Arrasou Dusan Lajovic no primeiro set e aí se perdeu em erros, a ponto de terminar com 20 forehands desperdiçados. O sérvio de 28 anos é brigador, tem um jogo mais na base de toques e vive um bom momento.

Será o adversário de Nick Kyrgios, que exagerou no malabarismo mas tirou o quali Alexander Bublik. Se o australiano tiver o mínimo de juízo, vai aproveitar uma chave muito propícia para ir longe. Quem sabe até as quartas e aí faça o duelo contra Novak Djokovic que escapou em Indian Wells por sua total incompetência.

Por falar no líder do ranking, ele ratificou o favoritismo sobre Bernard Tomic e ampliou o placar para 6-0, mas foi um jogo chato, sonolento. O australiano ficou trocando bolas em peso, evitou arriscar e Nole passou a maior parte do primeiro set nesse ritmo insosso, chegando até a perder o serviço antes de Tomic. Assim que resolveu ser mais ofensivo, o sérvio dominou e atropelou. Afinal, a distância técnica é enorme. Faz agora um duelo curiosamente inédito contra o canhoto argentino Federico Delbonis, a quem sobra potência, mas falta consistência.

A chave feminina completou a segunda rodada também com as estreias finais das cabeças e viu altos e baixos de Naomi Osaka, Angelique Kerber e Serena Williams, todas com sets perdidos mas nenhum risco real de derrota. Destaque para a ótima vitória de Simona Halep e as duas rodadas que a veteraníssima Venus Williams já avançou.

A terceira rodada coloca oito jogos em quadra com uma grande atração: a revanche da final de domingo de Indian Wells entre Kerber e Bianca Andreescu. Ainda que tenha tenros 18 aninhos, é incrível que Bianca tenha que jogar pelo terceiro dia seguido em Miami. Na lentidão do lugar e diante do poder defensivo da alemã, ganhar será mais um feito incrível.