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Caminho fica ainda mais livre para Djoko
Por José Nilton Dalcim
1 de julho de 2019 às 17:29

Wimbledon não poderia ter começado de forma mais bombástica. Perdeu logo de cara Alexander Zverev, Stef Tsitsipas, Gael Monfils e Grigor Dimitrov, viu a queda de Naomi Osaka e o brilho de uma menina de meros 15 anos.

Não se pode dizer que a derrota de Sascha tenha sido uma real surpresa. Além de viver momento de pouca confiança, ainda encarou logo o ousado canhoto Jiri Vesely, que já esteve duas vezes nas oitavas de Wimbledon e veio embalado do quali. Fez uma exibição rica, desde o saque até o ataque constante e ótima movimentação, arriscando as curtinhas que tanto machucam o alemão.

Mas a derrota do grego estava totalmente fora do prognóstico. Pior ainda: Tsitsipas não jogou mal, embora pudesse ter ido um pouco mais à rede para cortar o jogo de base tão sólido do adversário. O fato é que o italiano Thomas Fabbiano espancou a bola. E olhem só: além de estar com 30 anos, mede apenas 1,73m, teoricamente inadequado para a grama. Que fase incrível vive o tênis italiano.

A lista de grandes nomes a deixar a chave masculina incluiu Gael Monfils e Grigor Dimitrov, ainda que o francês fosse dúvida até o último momento e acabou mesmo por abandonar no quinto set depois de vencer os dois primeiros. Já o búlgaro levou incrível virada do garoto francês Corentin Moutet, outro ‘baseliner’ de ofício.

Quem deve estar achando tudo muito divertido é Novak Djokovic. O tetracampeão até perdeu dois games de serviço, um em cada abertura dos primeiros sets, mas cresceu pouco a pouco e fez um set final bem solto e respeitável diante de Philipp Kohlschreiber.

No seu caminho agora só existe um cabeça de chave até as oitavas: Felix Auger-Aliassime, que acaba de ganhar seu primeiro jogo num Grand Slam.

O outro quadrante ficou bem mais dentro da normalidade, com vitórias firmes de Kevin Anderson, Milos Raonic e Feliciano López, avanços de Karen Khachanov e Benoit Paire, atuação soberba de Stan Wawrinka. O suíço, que não passa da segunda partida em Wimbledon desde 2015, contratou Dani Vallverdu para ajudar Magnus Norman neste fase de grama e se mostrou bem à vontade diante de Ruben Bemelmans.

Momento histórico
Mais jovem tenista a superar o quali de Wimbledon, Cori Gauff tem menos idade do que muitos dos pegadores de bola em quadra. Na estreia, encarou um ídolo de infância, que já fazia sucesso no circuito dez anos antes de ela sequer ter nascido. Nada pareceu incomodar a menina de 15 anos diante de Venus Williams, de 39 e cinco troféus no currículo. Não é nada fácil despontar para o sucesso sobre a grama, e isso só indica que Cori parece ter tudo para uma carreira de destaque. E breve.

A chave feminina também viu a queda de três das 16 principais cabeças logo de início. Favas contadas, Naomi Osaka reencontrou Yulia Putintseva e não se achou em quadra, como aconteceu em Birmingham dias atrás. Com raras exibições decentes desde o Australian Open, a japonesa deixou a entrevista oficial repentinamente, porque estava a um passo de cair em prantos.

Karolina Pliskova, Simona Halep e Elina Svitolina venceram em sets diretos, a derrota de Aryna Sabalenka para Magdalena Rybarikova está longe de ser surpresa. E cuidado com Sofia Kenin, candidata a herdar todo o quadrante de Osaka.

Quadra Central
Para quem não viu ou não leu, sugiro a notícia que fiz sobre a história da legendária Quadra Central.

Sorteio quase perfeito para Djokovic
Por José Nilton Dalcim
28 de junho de 2019 às 13:47

Wimbledon formou suas chaves de simples nesta sexta-feira e provavelmente agradou muito o sérvio Novak Djokovic. Além de não ver adversários de real currículo na grama até ao menos a semi, ainda poderá assistir de camarote a um novo ‘Fedal’. Só ficaria melhor mesmo se ele pudesse trocar Stefanos Tsitsipas ou Alexander Zverev por Dominic Thiem ou Kei Nishikori, mas nada é perfeito. Duro mesmo ficou a parte superior da chave feminina. Vamos a uma análise:

Poucas ameaças a Djokovic
O líder do ranking pode ter um curioso ‘mix’ entre veteranos e novatos em sua trajetória rumo ao quinto título, mas a rigor há poucos jogadores com extenso currículo na grama a ameaçá-lo. Philipp Kohlschreiber já jogou bem no piso, mas desde que fez quartas no torneio em 2012 ele só ganhou três partidas no Club e leva sonoros 10-2 no histórico. Ainda assim, é uma estreia que necessita atenção.

Não há barreiras até as oitavas, quando a lógica diz que Gael Monfils ou Felix Auger-Aliassime seriam os adversários. O francês é totalmente imprevisível, até porque no ano passado se mostrou mais ofensivo e fez oitavas. O garoto canadense vem de dois bons torneios na grama e já cansou de mostrar qualidade, mas Vasek Pospisil logo de cara e talvez Grigor Dimitrov depois serão testes duros. O garoto não deu sorte, definitivamente.

Fico na expectativa para ver o desempenho de Stefanos Tsitsipas numa superfície em que teoricamente pode ir muito longe. Sua sequência prevê o sacador Ivo Karlovic, o ‘baseliner’ Kyle Edmund e talvez o renovado David Goffin, que se mostrou bem versátil em Halle e ganhou respeito. Mas ele também tem seus problemas, com Jeremy Chardy e Daniil Medvedev no horizonte.

A luta pela outra vaga na semi também envolve juventude e experiência. O vice Kevin Anderson é nome forte, mas só fez dois jogos desde Miami e já pega de cara Pierre Herbert, tendo ainda Nicolas Jarry e possível oitavas contra Milos Raonic, se não aparecer contusão no caminho do canadense. O outro forte candidato é Alexander Zverev. Em seu quinto Wimbledon, ainda não passou de oitavas e, em momento instável, pegar o canhoto Jiri Vesely na estreia pode ser um pesadelo. Há chance ainda de cruzar com Benoit Paire na terceira e então ter Karen Khachanov ou Roberto Bautista nas oitavas, mas não duvido nada de uma surpresa nesse setor: Feliciano López.

Vida dura para Rafa
Duas derrotas nas exibições de Hurlingham foram o preparativo de Rafael Nadal na fase competitiva para Wimbledon e, para complicar, o sorteio sugere trabalho duro, desde é claro que Nick Kyrgios jogue sério. O terceiro adversário pode ser Denis Shapovalov, Jo-Wilfried Tsonga ou Bernard Tomic, mas qualquer um merece máximo empenho. Para as oitavas, Marin Cilic surge como obstáculo e parece difícil que o vice de 2017 não some três vitórias até tranquilas.

O eventual duelo Nadal-Cilic vale muito porque parece praticamente impossível que um deles não avance à semi. O quadrante adjacente não tem um único especialista na grama: Dominic Thiem, Laslo Djere, Gilles Simon ou Fabio Fognini. Aliás, o austríaco se poupou desde Roland Garros, depende muito de boa chave para sonhar num piso tão veloz e vai estrear logo contra Sam Querrey. É bem provável que o vencedor desse jogo embale para as quartas, ainda que Simon tenha feito uma semana incrível em Queen’s.

Federer tem boa primeira semana
Os grandes tenistas costumam dizer que é importante economizar energia e pegar confiança na primeira semana de um Slam. E foi exatamente isso o que ficou reservado para o octacampeão Roger Federer. Lloyd Harris, Noah Rubin e quem sabe Richard Gasquet são a caminhada natural até as oitavas diante de Borna Coric ou do ousado Jan-Lennard Struff, um tenista que só venceu três jogos em Wimbledon em seis edições mas tem estilo para dar muita dor de cabeça na grama.

Se mantiver o favoritismo, Federer terá um adversário imprevisível nas quartas. Claro que Kei Nishikori e John Isner são os mais cotados e o gigante americano, a grande ameaça, mas Isner não joga desde Miami. Entre eles, aparece Matteo Berrettini, que parece estar em ritmo perfeito e poderia surgir como novidade, apesar de jogar apenas seu segundo Wimbledon.

Diante da perspectiva de um novo ‘Fedal’, vale lembrar que os dois nunca mais se cruzaram no Club desde a série de três finais seguidas, entre 2006 e 2008.

Grupo da morte no feminino
Não me lembro de ter visto uma quadrante tão incrivelmente equilibrado num Grand Slam como este de cima da chave feminina de Wimbledon. A nova número 1 Ash Barty e quatro campeãs do torneio lutam nessa faixa por uma vaga na semi. Notável. Estão aí a atual detentora do título Angie Kerber, que pode cruzar com Maria Sharapova na terceira fase e com Serena Williams nas oitavas. Já Garbine Muguruza tem chance de encarar Barty na terceira rodada e olha que a australiana ainda vê Sveta Kuznetsova, dona de dois troféus de Slam, numa possível segunda partida.

Quer dizer então que a campeã sairá desse apertado setor? Nada disso. Porque nessa parte de cima também ficaram outra vencedora de Wimbledon, Petra Kvitova, e a embaladíssima Kiki Bertens. É bem verdade que Kvitova ainda é dúvida para entrar em quadra e há no seu setor pelo menos três nomes a atrapalhá-la: Amanda Anisimova e depois Sloane Stephens ou Johanna Konta.

O outro lado da chave ficou obviamente mais fraco, mas não menos interessante. Naomi Osaka reencontra Yulia Putintseva, para quem perdeu em Birmingham, e pegaria na terceira fase Sofia Kenin, a campeã de Mallorca. A outra vaga nas quartas pode ser de Simona Halep, mas a estreia é um alerta diante de Aliaksandra Sasnovich, que surpreendeu Kvitova na primeira rodada do ano passado, sem falar em Vika Azarenka na terceira. Ainda estão por ali Madison Keys, Aryna Sabalenka… e Venus Williams.

Dureza para Thiago e Bia
Depois de grandes campanhas no quali, faltou sorte para Thiago Monteiro e Bia Haddad, que poderiam ter adversários menos gabaritados na estreia e assim repetir a campanha de 2017, quando o casal avançou uma rodada na grama sagrada. O cearense faz duelo inédito contra Kei Nishikori e sua importante vantagem é que o japonês não joga nada desde Paris.

Já Bia revê Garbine Muguruza, campeã de 2017 e vice de 2015, um desafio e tanto. No único duelo, fez apenas dois games em Cincinnati. No entanto, Muguruza não anda aquelas coisas no quesito confiança e a brasileira fez ótimas partidas em Ilkley e no quali. Resta torcer muito.

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Que a grama os conserve
Por José Nilton Dalcim
23 de junho de 2019 às 22:50

O tênis masculino conheceu num mesmo domingo seus dois mais velhos campeões de nível ATP das últimas quatro décadas. Roger Federer, em Halle, e Feliciano López, em Queen’s, se tornaram os jogadores de maior idade a erguer um troféu de primeira linha desde Ken Rosewall, em 1977. O suíço nasceu apenas 42 dias antes do espanhol e ambos assim caminham para os 38 anos dentro de dois meses. O notável: esbanjam vigor físico e aquela essencial vontade de vencer.

Federer reencontrou o caminho da grama depois de sua excursão ao saibro europeu, mostrando que a mudança de calendário não o afetou. Ao contrário, talvez tenha até contribuído para o deixar com pernas mais fortes, algo que ele precisou muito na campanha de Halle, principalmente em duas rodadas exigentes diante de Jo-Wilfried Tsonga e Roberto Bautista.

Fato curioso destacado pela ATP, ele jogou Halle pela primeira vez no ano 2000 e nenhum tenista daquela chave continua em atividade, entre eles Ivan Ljubicic e o treinador de David Goffin, o sueco Thomas Johansson.

Embora sejam universos um tanto diferentes, Federer deixou bem claro que a 10ª conquista em Halle é muito animadora para Wimbledon, onde ele será mesmo o cabeça 2. Se ‘melhor de cinco sets’ podem pesar para a idade, não parece menos verdade que sua experiência em jogos longos sobre a grama serve como diferencial importante diante dos mais jovens.

Se eu fosse apostar hoje, cravaria Roger como o favorito ao título.

O nome da semana
Quando López ganhou convite e entrou na chave de simples de Queen’s, ele não era muito mais do que o parceiro que Andy Murray havia escolhido para tentar sua volta às quadras. Apesar de já ter vencido o torneio em 2017 e feito outra final em 2014, o ranking de 113º e os 37 anos nas costas não davam qualquer credencial ao canhoto espanhol, que ainda sonhava que o All England lhe daria ingresso direto em Wimbledon.

É bem verdade que Feli deu alguma sorte ao não precisar enfrentar Juan Martin Del Potro na segunda rodada, mas todos seus outros quatro jogos foram ao terceiro set, e três deles exigiram virada. Tirou o garotão Marton Fucsovics, o sacador Milos Raonic, a estrela adolescente Felix Auger-Aliassime e por fim o experiente Gilles Simon. A soma deu 9h13 de esforço, e uma parte considerável disso sob grande pressão.

A campanha nas duplas não foi menos exigente, obrigando López a ficar mais 6h02 em ação. O problema maior no entanto esteve no acúmulo dos jogos, já que a chuva do meio de semana o fez entrar duas vezes em quadra na sexta, três no sábado e mais duas no domingo. E querem saber? López jogou muito tênis no finalzinho do match-tiebreak da dupla, mostrando energia e determinação incomuns.

Para mim, López foi o homem de uma semana que teve muita coisa boa. O retorno vitorioso de Murray, com destaque para um primeiro saque muito firme, ótimo tempo de bola nas devoluções e passadas, voleios apurados e muita garra, jogando-se ao chão algumas vezes. Jurou não ter sentido qualquer dor no quadril, o que é ainda mais esperançoso. Ele irá jogar Eastbourne ao lado de Marcelo Melo e Wimbledon com Pierre Herbert (e talvez mistas) e considera a chance de jogar simples num challenger inglês em setembro.

Também foi excepcional ver as campanhas de Felix e do italiano Matteo Berrettini na grama, dois nomes da nova geração que se firmaram no saibro europeu e mostram aquela versatilidade essencial para quem deseja brigar lá em cima do ranking. Está certo que ficaram muito mais no fundo de quadra, mas essa parece a tendência inevitável do tênis atual até mesmo para a grama. Novak Djokovic, Rafael Nadal, Marin Cilic e Kevin Anderson que o digam.

Aliás, a ATP lembra que mais um campeão de 37 anos surgiu neste domingo: o ex-top 10 Tommy Robredo, em challenger sobre o saibro.

Vida longa e próspera a esses notáveis senhores.

Número 1 muda de mãos
A queda técnica e assuntos extra-quadra de Naomi Osaka desde a conquista do Australian Open se somaram à qualidade crescente de Ashleigh Barty e eis que enfim o tênis feminino tem uma nova líder, a 27ª de sua história e apenas a segunda australiana, após Evonne Goolagong, desde que o ranking foi criado, em novembro de 1976.

A rigor, a pequenina Barty saiu do zero ponto ao topo da lista em apenas três temporadas, o que é um feito espetacular. Neste ano, venceu três torneios, um em cada piso, com destaque óbvio a Roland Garros, ainda mais que o saibro nunca foi o favorito. A grama combina muito mais com seu estilo requintado e daí que ela já vira séria candidata a Wimbledon, desde que saiba controlar ansiedade e bajulação, um binômio nada fácil de se administrar quando se tem 23 anos.