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Djokovic e Osaka: rumo ao Olimpo
Por José Nilton Dalcim
21 de fevereiro de 2021 às 16:19

O Australian Open sobreviveu aos piores temores, chegou ao fim sem sustos e deu de presente ao tênis a perspectiva de que Novak Djokovic e Naomi Osaka estão no rumo certo para concretizarem seus sonhos particulares. O sérvio há muito tempo já figura na elite do tênis, está no mínimo entre os três mais bem sucedidos de todos os tempos e caminha para uma sucessão de recordes que tende a acabar com a discussão sobre quem é o maior. Osaka rouba de vez os holofotes do circuito feminino, com qualidade em quadra e postura fora dela. Fixa uma imagem de liderança, algo difícil de se fazer aos 23 anos.

Novak é uma mistura de solidez e agressividade, representante mais que perfeito do tênis moderno. Às devoluções desconcertantes e ao trabalho de pernas primoroso, que lhe permitem jogar sempre perto da linha do começo ao fim de qualquer ponto, agregou ao longo dos anos um voleio muito respeitável, slices para mudar o ritmo e deixadinhas que confundem o oponente. Agora, aprimorou o primeiro saque. Com isso fica ainda mais ofensivo e economiza energia. Esse arsenal já seria demais, porém Djokovic ainda exibe capacidade emocional muito acima da média. Destrói raquetes, briga com o box, não disfarça a frustração. Seu raro dom é transformar tudo isso em combustível.

A quatro meses dos 34 anos, joga o melhor tênis do circuito em quase todos os aspectos, faz um calendário habilmente enxuto e dá sinal de que prolongará a carreira por várias temporadas. É bem verdade que contusões têm sido um fantasma permanente. E talvez sejam a mais alta barreira que o separa de se tornar o maior colecionador de troféus de Grand Slam. Nunca esteve tão perto dos recordistas e, à exceção do saibro de Roland Garros, tem de estar no topo da lista de favoritos para Wimbledon e US Open. Ainda mais agora que possui saque quase tão devastador como sua devolução.

Essa versatilidade é o que falta ainda a Osaka. Seus quatro títulos de Slam vieram na quadra dura, seu habitat natural. O desafio então é evoluir nos outros dois pisos. Não há um motivo aparente para que não brilhe na mesma proporção em Wimbledon, onde saque e força valem muito, mas o saibro exigirá adaptações. A habilidade em obter ângulos, o que não é tão comum entre as mulheres, deve facilitar isso. Me parece uma questão de determinação.

O circuito e os bastidores do tênis feminino já enxergam Naomi como a sucessora de Serena Williams no domínio dos grandes títulos e na representatividade das mulheres no esporte. A timidez dos primeiros tempos tem sido superada sem pressa. Seu engajamento nos movimentos sociais norte-americanos ou na repreensão ao dirigente olímpico japonês mostram isso. A diferença talvez entre Osaka, Serena e Djokovic seja a amplitude da ambição. Ela diz se contentar com ‘sete ou oito Slam’, o que seria um lugar mediano na história, e sonha com uma vida mais normal, pouco compatível com o tamanho de sua popularidade e faturamento crescentes.

Medvedev decepciona
Difícil entender o que aconteceu com Medvedev. Temos de considerar o russo um tenista experiente e com grande espírito de entrega. Mas ele simplesmente desabou após perder o saque e o primeiro set. Nem mesmo com a ajuda que Nole lhe deu, ao jogar sem intensidade no game inicial do set seguinte e permitir quebra, serviu para alguma coisa. O russo, que tanto aposta na sua firmeza da base, só fez bobagens e teve outros poucos momentos de um tênis ao menos aceitável daí em diante. Irritado e frustrado, entregou-se na parte mental, sem capacidade de achar uma solução tática que não fosse bater na bola de qualquer jeito. Surpreendente.

Djokovic por seu lado foi muito inteligente. Ao perceber que o russo estava cada vez mais perdido, tratou de alimentar seus erros. Ficou firme nas trocas de bola, colocou o adversário de um lado por outro e só foi para as bolas decisivas quando já tinha Medvedev nas cordas. Ganhou sem fazer grande esforço. Parecia certo de que Nole tinha ainda muito mais a dar, caso fosse necessário. Não foi. Alexander Zverev, quem diria, apertou muito mais do que Medvedev.

Dentro do seu estilo tão peculiar, Medvedev ainda só pode sonhar com Slam na quadra dura. Ele até se vira no saibro, mas tem um bloqueio em Roland Garros e está muito atrás dos concorrentes. A grama é um universo estranho, com bolas que quicam mais baixo, exigem um slice ao menos razoável e um jogo de rede decente, coisas que ele ainda precisa trabalhar muito. Ainda assim, não ficarei espantado se ele roubar a vice-liderança de Nadal nas próximas semanas. Se o ranking da ATP voltar ao sistema normal de defesa de pontos, sua chance fica ainda maior.

Medvedev garante final correta para o Australian Open
Por José Nilton Dalcim
19 de fevereiro de 2021 às 10:28

Apesar da espetacular atuação de Stefanos Tsitsipas nas quartas de final contra Rafael Nadal, não me parecia haver maior justiça neste Australian Open do que uma final entre Novak Djokovic e Daniil Medvedev. Se o sérvio é o ‘rei de Melbourne’, o russo tem sido o melhor tenista do circuito nos últimos quatro meses. São dois grandes especialistas na quadra dura mais veloz e têm histórico de confrontos apertado. Grande chance de vermos às 5h30 de domingo uma batalha de tirar o fôlego.

Medvedev disputará nada menos que sua quarta final consecutiva, o que significa 20 vitórias em sequência. E estamos falando de torneios do quilate do Masters de Paris, Finals de Londres e ATP Cup. Nessa arrancada, ganhou de todos os 11 adversários de nível top 10 que cruzou, entre eles o próprio Djokovic. Neste momento, é o maior adversário que Nole poderia temer na tentativa do 9º troféu em Melbourne.

Tsitsipas escapou de um verdadeiro atropelamento na semifinal desta sexta-feira, e nem se pode colocar na conta um possível cansaço físico após a maratona diante de Nadal. Talvez, claro, tenha falhado mais a parte mental.

Diante de um Medvedev extremamente agressivo e sólido da base, Stef demorou demais para tentar um plano alternativo. Só ali na metade do terceiro set, quando já estava 2 sets e uma quebra atrás, entendeu que era mais negócio ir à rede e encurtar os pontos ao invés de ver seu backhand massacrado pelos golpes retos e profundos do russo, que lhe tiravam totalmente o tempo e o tornavam errático e defensivo.

Foi sem dúvida o melhor momento do duelo. Medvedev fez seu único game ruim no serviço – pareceu irritado com uma demora do adversário em se arrumar para a devolução -, a torcida se inflamou e Tsitsipas passou a comandar mais os pontos. Esteve perto de ganhar esse set, o que provavelmente mudaria muita coisa na partida, quando chegou a ter break-point para um 5/3. Mas o Urso arriscou tudo no saque e recuperou a confiança. Fez passadas magníficas para chegar à quebra definitiva e à vitória super merecida.

Quando se acreditava que a tática mais adequada de Tsitsipas seria a agressividade, os números mostram que Medvedev fez 17-3 em aces e 46-19 nos winners. E ainda errou menos (21-30). O grego ganhou 77% dos pontos em que subiu à rede (24 de 31), mas quase 60% deles concentrados no terceiro set (14 de 18).

Djokovic obviamente permanece o mais cotado para o título, diria na casa de 60%, ainda que tenha perdido 3 dos 4 mais recentes duelos. Só houve um confronto em melhor de cinco sets, lá mesmo na Austrália de dois anos atrás, e mesmo sem ainda ser um nome tão respeitado no circuito o russo ainda tirou um set.

De forma esperta, Daniil diz que não tem muito a perder em sua segunda final de Grand Slam – óbvio que não é tão verdade assim – e que haverá mais pressão sobre o sérvio, que defende a invencibilidade de oito finais anteriores do torneio. Se o russo obtiver tamanha façanha, de quebra também vai derrubar Nadal e tornar-se o primeiro nome fora do Big 4 a atingir o número 2 do ranking desde 25 de julho de 2005.

Uma coisa é certa: veremos a história ser reescrita no domingo.

Não deu para Soares
Dupla vence junto e perde junto, mas é inegável que Jamie Murray esteve um ou dois degraus abaixo dos demais jogadores na semifinal em que os campeões de 2016 perderam em dois sets apertados para os atuais detentores do título do Australian Open. Bruno Soares foi barrado na tentativa de sua terceira final seguida de Grand Slam pelo dueto Rajeev Ram e Joe Salisbury, que se mostrou mais compacto e oportuno.

O que faltou a Murray foi devolver com mais qualidade em momentos importantes da partida, especialmente na parte final do jogo, quando Salisbury não estava tão confiante. O escocês ainda teve dois serviços quebrados no primeiro set, o que prejudicou o bom início da parceria, que chegou a abrir 3/0, e vacilou feio ao não reagir rapidamente numa bola que ia para fora no tiebreak, permitindo que ela tocasse de raspão na sua raquete. De qualquer forma, Soares e Murray é uma dupla forte e experiente e podemos esperar títulos grandes em 2021.

Dos quatro finalistas, três buscam o segundo título de Slam – Ivan Dodig venceu aquele em Roland Garros de 2015 com Marcelo Melo – e outro, Filip Polasek, faz sua primeira final desse quilate.

Osaka: favoritismo delicado
Não há mais jogos na nossa madrugada. A partir de agora, as rodadas decisivas em Melbourne começarão sempre às 19h30 locais, às 5h30 de Brasília. Neste sábado, Naomi Osaka entra com relativo favoritismo para erguer seu quatro troféu de Slam e o segundo no Australian Open diante da norte-americana Jennifer Brady, que faz sua primeira decisão desse nível.

Se a japonesa confirmar, já se igualará a nomes de peso do tênis feminino moderno, como Kim Clijsters, Arantxa Sanchez e Hana Mandlikova, algo admirável se considerarmos seus 23 anos recém completados. Brady tem apenas dois anos a mais e é uma tenista divertida de se assistir, já que assume riscos, demonstra emoções e é dotada de grande espírito de luta.

Tal qual Medvedev, Osaka também venceu seus últimos 20 jogos e possui ainda 3-1 nos duelos diretos com Brady, mas é fundamental lembrar que a norte-americana deu enorme trabalho na recente semifinal do US Open, que terminou com o duro placar de 7/6, 3/6 e 6/3. A WTA aliás considerou esse como o melhor jogo de 2020 e a própria Osaka diz que foi uma das duas mais exigentes vitórias de sua carreira.

“Não vou mais para a quadra esperando que minha adversária jogue mal. Agora, eu acredito sempre que posso vencer, que tudo depende muito mais de mim”, afirma Brady. É a forma mais que perfeita de se encarar o circuito e este desafio na final.

Djokovic dos 100 aces
Por José Nilton Dalcim
18 de fevereiro de 2021 às 12:17

Não houve dor, nem falta de treino que segurassem Novak Djokovic. O recorde perfeito em semifinais no Australian Open se manteve diante da surpresa russa Aslan Karatsev e, um dia depois de garantir sua segunda mais espetacular façanha na carreira, Nole está pronto para o nono título em Melbourne e o 18º troféu de Grand Slam.

O rei dos tiebreaks em 2020 virou agora o rei dos aces. Como tem feito em toda a campanha deste ano no torneio e pouco antes na ATP Cup, Djokovic se esmerou no saque para encurtar pontos, abrir vantagens mas especialmente escapar de dificuldades. Como foi o caso dos dois essenciais break-points que encarou no 5/4 do segundo set em que Karatsev sequer tocou na bola.

Treinado por um dos mais hábeis sacadores do tênis moderno, Djokovic atingiu nesta sexta rodada do Australian Open a notável soma de 100 aces, o que dá média de quase 17 por jogo, exatamente a quantidade que desferiu contra Karatsev. Na segunda rodada contra Frances Tiafoe, bateu seu recorde pessoal para uma partida, com 26.

E isso considera apenas o ace em si, aquele em que o oponente mal reage, e não outros tantos serviços cruciais em que Djokovic induziu a devolução a erros. Infelizmente, a estatística ainda não contabiliza os aces de segundo serviço, outro aspecto em que o sérvio – e vários outros – tem se mostrado corajoso e eficiente.

O que será dos adversários se o melhor devolvedor da história se tornar também um dos maiores sacadores?

A partida desta quinta-feira contra Karatsev foi o que se esperava: muito esforço do russo e placar dilatado. Poderia ter sido ainda mais fácil, caso Djokovic tivesse fechado o segundo set na primeira chance, quando tinha 5/2.

Karatsev viveu alguns grandes momentos no fundo de quadra e fez alguns lances de força e precisão incríveis , mas o fator mais relevante era um alto índice de primeiro saque e ele mal chegou a 52%, vencendo ainda por cima apenas 65% deles. Então não dava mesmo para fazer novos milagres.

Com o recorde de semanas na liderança garantido e a inigualável façanha de ganhar quatro Slam seguidos em três pisos diferentes – seus dois maiores feitos, a meu ver -, Djokovic terá 72 horas de descanso para encarar Daniil Medvedev ou Stefanos Tsitsipas e encurtar para apenas dois a distância de troféus de Slam para Rafael Nadal e Roger Federer.

Posso apostar que ele prefere a inexperiência do grego de 22 anos, contra quem possui 4-2, do que o marrento russo, que o venceu em 3 dos últimos 4 confrontos ainda que o sérvio tenha 4-3 no geral.

Desafetos de longa data, Medvedev e Tsitsipas duelam às 5h30 desta sexta-feira. Tsitsipas vem da notável porém desgastante virada em cima de Nadal e pega um descansado russo que, além de já ter experimentado a tensão de fazer uma final de Slam,  leva ampla vantagem no histórico entre eles, com 5 vitórias em 6 duelos, sendo 4 a 1 nas quadras duras.

Osaka barra Serena e busca 4º Slam
Serena Williams teve suas chances na semifinal contra Naomi Osaka. Logo no começo do jogo, diante de uma adversária nervosa, abriu 2/0 e ainda poderia ter obtido quebras nos dois serviços seguintes. Mas a japonesa se mostrou uma fortaleza mental e deu seu show. Bateu na bola com desenvoltura invejável, achou ângulos perfeitos e contragolpes mortais, deixando a poderosa adversária estática e perdida na linha de base quase o tempo inteiro. Serena sentiu na pele o que mais gosta de fazer com suas adversárias: sufoco constante, sem tempo de pensar.

E olha que Osaka só acertou 36% de seu forte primeiro saque no set inicial. Esse ponto instável também deu uma quebra de sobrevida a Serena na metade do segundo set, mas que durou muito pouco. A japonesa manteve assim seu retrospecto impecável nas quatro semifinais de Grand Slam que já disputou e tem tudo para manter também a invencibilidade em finais no sábado, quando enfrentará Jennifer Brady.

Aos 25 anos e número 21 do mundo, Brady fará sua primeira final desse quilate e precisou novamente de três duros sets para vencer, agora Karolina Muchova. De estilo agressivo e acostumada a muitos erros não forçados – foram 38 nesta semi -, é arriscado dizer que ela não tem chance diante de Osaka. Mas precisará de um dia iluminado ou de uma atuação abaixo da média de Osaka para erguer a taça. Houve três duelos e Brady ganhou o primeiro deles, mas em 2014.

Soares e Murray desafiam campeões
Vale torcida brasileira no final desta noite e começo desta madrugada. Bruno Soares irá em busca de sua terceira final seguida de Grand Slam, depois do título no US Open e do vice em Roland Garros com Mate Pavic. Ele e o canhoto Jamie Murray enfrentam os atuais campeões, o norte-americano Rajeev Ram e o britânico Joe Salisbury, e deve ser uma batalha de arrepiar. Jogo começa 23h de Brasília.

Bruno e Murray buscam a segunda final da parceria no Australian Open e a terceira em eventos de Grand Slam. Eles ganharam em Melbourne e Nova York em 2016.

E mais
– Esta será a 28ª final de Slam de Djokovic, o que o deixa igualado a Nadal e a três de Federer.
– O sérvio pode se tornar também o segundo homem com mais troféus num mesmo Slam, atrás dos 13 de Rafa em Paris. Federer tem 8 em Wimbledon.
– O título também será o sexto de Djokovic depois dos 30 anos, empatando com o recordista Nadal.
– Aos 27 anos, Karatsev aparecerá no 42º posto do ranking e terá grande chance de entrar direto em todos os principais torneios do circuito até pelo menos Wimbledon.
– Serena deixou a entrevista oficial em lágrimas depois de responder se teria sido seu adeus ao Melbourne Park. Muito aplaudida pelo público na saída, ela disse amar a Austrália nas redes sociais.
– Brady saltará para o 13º lugar do ranking com a campanha até aqui e subirá mais um posto em caso de título.
– Ex-número 1, Osaka poderá recuperar a vice-liderança no lugar de Halep se vencer o Australian Open, mas ainda estará 1.350 pontos atrás de Barty.