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Tênis não será mais o mesmo depois de Miami
Por José Nilton Dalcim
3 de abril de 2022 às 22:36

A edição 2022 de Miami foi mais do que especial. Seus dois inéditos campeões, muito jovens e extremamente talentosos, chacoalharam o circuito. Se de um lado Iga Swiatek, 20 anos, inicia um promissor reinado com um tênis muito mais requintado, do outro o garoto Carlos Alcaraz, 18, causou sensação através do estilo encantador, atitudes nobres e discurso maduro. Há um clima indisfarçável no ar de que o novo chegou para ficar.

Num partida um tanto nervosa diante de Casper Ruud – o norueguês também diante de sua maior final da carreira -, Alcaraz outra vez começou atrás, cedendo terreno ao adversário, antes de encontrar o ponto de equilíbrio e tomar o domínio da partida. Foi essencial acima de tudo achar aquele saque aberto no lado da vantagem que tantos estragos fez na cabeça de seus oponentes ao longo da última semana.

Essa autocompreensão, que não se desespera diante de um placar adverso, corrobora o que Alcaraz disse dias atrás, ao definir sua principal estratégia: “Me manter positivo mesmo quando as coisas não estão indo tão bem”. Vimos muito disso diante de Stefanos Tsitsipas e de Hubert Hurkacz, muito mais experientes, e também frente a Miomir Kecmanovic. A força mental desse rapaz é tão grande quanto seus golpes.

Depois de se tornar o mais jovem campeão de um ATP 500, ao vencer no Rio, Alcaraz agora é o de menor idade e também o primeiro espanhol a ganhar Miami, algo que nem Rafael Nadal conseguiu. Só perdeu dois jogos na temporada e possui o segundo melhor percentual de aproveitamento do ano, logo atrás do próprio Nadal.

E muito disso tem de ser creditado ao treinador Juan Carlos Ferrero, a quem o garoto não cansou de mencionar e homenagear. ‘Mosquito’ deixou Indian Wells ao perder o pai, mas apareceu de surpresa neste domingo para a final em Miami e deixou o pupilo radiante. Ferrero não segurou as lágrimas depois do abraço ainda na arquibancada. A conexão de respeito e admiração entre eles é evidente e saudável.

Nesta segunda-feira, Alcaraz aparecerá apenas 29 pontos atrás do número 10 Cameron Norrie e poderá entrar para o seleto grupo já em Monte Carlo, desde que atinja pelo menos as quartas. O título em Miami o levou ao segundo posto entre os mais bem pontuados de 2022 e também na lista dos que mais faturaram, com US$ 2,26 mi, sempre atrás de Nadal.

Há quem acredite piamente que Alcaraz estará lutando pelo número 1 na reta final da temporada. Seria uma façanha, mas eu não duvido.


Quem segura Swiatek?
A polonesa Iga Swiatek encerrou sua temporada sobre a quadra dura de forma exuberante. Primeira tenista na história a ganhar os três primeiros WTA 1000 de uma mesma temporada, não perde há 17 jogos e 20 sets, numa sequência em que derrotou a maioria de suas concorrentes diretas por títulos e pelo ranking, tendo vencido Aryna Sabalenka, Maria Sakkari, Anett Kontaveit, Simona Halep, Jessica Pegula e Naomi Osaka, sem falar em jovens de grande potencial, como Clara Tauson e Coco Gauff.

Não resta portanto qualquer dúvida de que ela é a herdeira legítima do trono abandonado por Ashleigh Barty. “Agora estou mostrando todo meu potencial e percebi que não preciso estar 100% para vencer”, afirma a confiante Swiatek, a quarta a fazer a difícil dobradinha Indian Wells-Miami.

Vale ressaltar que a polonesa tem agora seis títulos, dos quais um é Grand Slam e quatro, do nível 1000. E mais importante ainda, fará transição confortável para o saibro, onde se sente muito à vontade. Por isso, só podemos esperar sucesso rumo à tentativa do bi em Roland Garros. A princípio, jogará Stuttgart dentro de 15 dias e depois vai a Madri.

Osaka, por sua vez, perdeu a oportunidade de chegar ao primeiro título desde o Australian Open de 2021, mas dizer que ela teve alguma chance na partida é um tremendo exagero. O primeiro set até foi equilibrado, mas ela jamais conseguiu um ritmo decente para devolver, acreditem, o segundo saque da adversária. E olha que nessa parcial Swiatek jogou com 39% de primeiro serviço. Osaka tentou devolver dois passos dentro da quadra, porém estava notavelmente imprecisa. Coisa certamente da cabeça.

“Não estou tão desapontada como antes, quando estaria chorando no vestiário”, afirmou a japonesa. Ótima notícia. Ela promete treinar muito no saibro, algo que raramente fez, mas só deve aparecer em Madri.

De drop em drop, Alcaraz chega lá
Por José Nilton Dalcim
1 de abril de 2022 às 23:48

Carlos Alcaraz viveu dois dias distintos em Miami. Na quinta-feira, fez um dos jogos mais espetaculares da temporada e superou um brilhante Miomir Kecmanovic com direito a uma contabilidade digna de Roger Federer: 52 de seus 102 pontos na partida foram winners. Hoje, contra o atual campeão Hubert Hurkacz, errou quase tanto que acertou porém foi o tenista com maior controle emocional nos dois tiebreaks disputados. De um jeito ou de outro, o espanhol achou o jeito de vencer. Um veterano de 18 anos.

O pupilo de Juan Carlos Ferrero tem duas excepcionais qualidades, que são antagônicas, e talvez seja essa rara dualidade que o faça tão deslumbrante. Defende-se como um leão, dono de velocidade e antecipação notáveis, mas ao mesmo tempo é capaz de atacar com diferentes armas, sejam golpes de base extremamente precisos e fortes, a destreza de curtinhas desconcertantes ou transições à rede inteligentes.

Num passe de mágica, sai da defesa para o ataque, algo que necessariamente nos lembra de Novak Djokovic. Também me causa admiração, e seria interessante observarem isso com atenção, sua capacidade de fazer escolhas certas, ou seja quando optar pela cruzada ou pela paralela, usar curta ou um topspin profundo, lob ou bola no pé. Já cansei de dizer aqui que essa habilidade no encontro da jogada mais adequada, em frações de segundo, é o dom que me faz gostar tanto de Rafa Nadal.

Por falar em Rafa, caso vença Miami, Alcaraz mais uma vez lembrará façanhas do ídolo espanhol, que também ganhou o primeiro Masters 1000 aos 18 anos, em abril de 2005 no saibro de Monte Carlo.

Mais um campeão de Masters inédito
Quem também está radiante com sua campanha em Miami é o norueguês Casper Ruud. Depois de três semifinais de Masters 1000 no saibro, ele acabou superando a barreira logo no piso duro, ao superar com folga o surpreendente argentino Francisco Cerundolo. Com isso, haverá certamente um novo campeão de Masters 1000, o quinto diferente nos últimos nove disputados e o segundo estreante em 2022, depois de Taylor Fritz.

É bem verdade que Miami é considerada a quadra sintética mais lenta do circuito, inferior até a alguns torneios de saibro, mas ao mesmo tempo não se pode negar a campanha sólida de Ruud, que tirou adversários de estilos tão distintos como Alexander Bublik, Cameron Norrie e Alexander Zverev, todos reconhecidamente bons nesse tipo de superfície.

O noruguês usou muito de sua solidez do saibro, mas também sacou de forma mais ofensiva e se aventurou diversas vezes na rede. É dono também de físico privilegiado, mas tudo isso me parece insuficiente para superar Alcaraz, para quem perdeu sem grande chance no saibro de Marbella muito antes de o espanhol assombrar o circuito.

Swiatek é favorita contra Osaka
Duas jogadoras em momentos muitos distintos decidem neste sábado a chave feminina de Miami. De um lado, a embalada Iga Swiatek tenta seu terceiro 1000 consecutivo, consagrando de vez sua chegada à liderança do ranking, invicta há 16 partidas e sem perder set no torneio.

Do outro, está a japonesa Naomi Osaka, ex-número 1 que começou Miami ameaçada de sair do top 100. Conseguiu reagir à eliminação chorosa de Indian Wells e, apesar de estar ainda distante do seu melhor nível, tem se mostrado fisica e mentalmente mais forte. E sacando de novo bem. Vamos ver se vai funcionar diante das devoluções muito firmes que a polonesa tem feito.

Claro que o favoritismo é naturalmente de Swiatek. Sua adversária não decide um título desde a conquista do Australian Open do ano passado, então seu quarto troféu de Slam. O único duelo entre elas não tem grande significado, já que a vitória de Naomi em 2019 veio sobre uma Iga quase iniciante. Fossem outros tempos, Osaka deveria ganhar sobre a quadra dura, sua superfície predileta, mas Swiatek evoluiu rapidamente no piso, como dizem as conquistas de Doha e de Indian Wells.

O título seria muito mais importante para Osaka, que já recuperou 41 posições no ranking e pode terminar como 30º colocada. Seria essencial para a retomada completa de confiança. Iga, ao contrário, está às portas da temporada europeia de saibro, onde se espera muito dela. Eventual título da polonesa a deixará quase 1.700 pontos à frente de Barbora Krejcikova, uma liderança consideravelmente folgada.

Imprevisível desta vez é o masculino
Por José Nilton Dalcim
29 de março de 2022 às 00:06

Miami já garantiu duas mudanças nos números 1 do ranking – Iga Swiatek e Joe Salisbury – e parece favorável para que Daniil Medvedev complete o quadro de renovações na próxima segunda-feira.

Depois de duas atuações muito seguras, ainda que diante de jogadores defensivos como Andy Murray e Pedro Martinez, ele precisa agora vencer Jenson Brooksby e depois quem passar entre o atual campeão Hubert Hurkacz e Lloyd Harris. Claro que não jogos fáceis. O norte-americano é um tanto preso no fundo de quadra, embora goste de ser agressivo lá de trás, e talvez o grande perigo esteja em Hurkacz, que é um tenista bem completo e que se mexe bem.

Há dois jogos imperdíveis nesta terça-feira. O duelo entre jogadores muito versáteis entre Stefanos Tsitsipas e Carlos Alcaraz tem tudo para ser um dos jogos da temporada, ainda mais que os dois se mostram confiantes. O espanhol continua naquele padrão quase perfeito na sua postura ofensiva, com a vantagem de ter sacado com qualidade até aqui. O grego é mentalmente mais instável e pode sentir o favoritismo natural por conta do ranking e do currículo.

Jannik Sinner e Nick Kyrgios farão enfim o confronto que não aconteceu em Indian Wells por conta da desistência do italiano. A sorte até aqui jogou a favor de Sinner, que evitou três match-points na estreia e mais cinco diante de Pablo Carreño, que ainda por cima sacou para a vitória. É notável como o italiano joga solto e de forma corajosa sob pressão. Kyrgios até aqui está jogando super bem, controlado e econômico na fanfarrice. Quando o australiano joga para valer, é extremamente perigoso.

Também me impressionou como Taylor Fritz se adaptou bem entre as condições um tanto radicais entre Indian Wells e Miami, sem falar no desgaste físico e emocional. Teve uma estreia de altos e baixos e foi firme contra o amigo Tommy Paul, em ambos os jogos se mostrando concentrado no fato de que Miami exige paciência e mobilidade. Esses fatores aliás serão de grande valia diante de Miomir Kecmanovic, um tenista que preza pela regularidade. É outra partida que vale a pena conferir.

Distante dos holofotes, Alexander Zverev vislumbra ótima perspectiva de chegar ao menos na semi. Encara hoje Thanasi Kokkinakis, que vem de dois jogos cansativos, e deve enfrentar depois Casper Ruud ou Cameron Norrie, jogadores com predicados e que podem dar trabalho se o alemão continuar jogando na lentidão das rodadas noturnas. Ou seja, a chave masculina está completamente aberta.

Vale por fim registrar a façanha do argentino Francisco Cerundolo, que está fora do top 100 e é um saibrista típico. Se deu bem contra um contundido Reilly Opelka e massacrou Gael Monfils. A tarefa contra Frances Tiafoe, que eliminou seu irmão mais novo Juan Manuel, é mais difícil, mas nunca impossível.

De olho em Osaka
Depois de tantas surpresas, a chave feminina de Miami enfim tomou ares de normalidade. As quartas de final, definidas nesta segunda-feira, terão seis das cabeças ainda restantes e também Naomi Osaka, que dispensa elogios quando se trata de quadra sintética. A única real ‘zebra’ é Daria Saville, uma jovem australiana de predicados e que viu dar tudo certo. Não pegou uma única favorita em quatro jogos e a adversária de maior gabarito, Katerina Siniakova, nem completou a partida.

Torço particularmente por Osaka. Seria um momento perfeito para ela voltar aos títulos, ficar positiva e recuperar ranking, já que começou Miami sob ameaça de deixar até o top 100. Naomi revelou ter iniciado trabalho com um psicólogo devido à insistência da irmã e gostou da experiência. Chegar à final não parece coisa de outro mundo. Enfrenta já nesta terça-feira Danielle Collins, a quem bateu duas vezes, e aí enfrentaria Saville ou mais provavelmente Belinda Bencic.

Do outro lado, Iga Swiatek está demais e seria loucura tirar dela o favoritismo em qualquer rodada daqui em diante. Absorveu magnificamente a pressão para virar líder do ranking, só perdeu oito games em três rodadas e massacrou a jovem porém ‘engessada’ Cori Gauff. O jogo de quarta-feira contra a experiente e canhota Petra Kvitova promete, ainda que a tcheca esteja um tanto longe de seus melhores dias.

A outra vaga na semi será disputada entre Paula Badosa e Jessica Pegula, mais duas que gostam de bater na bola. A espanhola suou muito diante da sensação tcheca Linda Fruhvirtova, que em seus tenros 16 anos mostra tênis de gente grande e parece fadada a galgar rapidamente o ranking, ainda que precise ganhar um saque mais contundente. Pegula ganhou Doha em fevereiro e virou top 15, porém de forma geral falta a ela presença constante nas rodadas importantes dos torneios de peso.

A queda de Bia
Por falar em Pegula, cabe menção à chance perdida por Bia Haddad Maia nas oitavas de final de domingo, principalmente porque sua adversária, a ucraniana Anhelina Kalinina, desistiu do jogo contra a norte-americana hoje após levar ‘pneu’, certamente contundida. Há duas situações a se mencionar na virada que a brasileira levou.

A primeira é como Bia se desencontrou na partida depois de ganhar com placar elástico o primeiro set e abrir o segundo com quebra, até então mandando no ritmo do jogo e sendo agressiva de forma correta. O outro destaque foi justamente a reação de Kalinina, que mudou complemente sua postura, passou a buscar pontos mais curtos e encurralou a brasileira. Como ela pediu atendimento logo no começo do segundo set, talvez tenha feito ajustes táticos por conta já de algum incômodo físico. E isso é louvável.

Vale registrar que é muito provável que Bia atinja seu recorde pessoal e apareça no 57º lugar do ranking na segunda-feira. E o mais importante: estará apenas 88 pontos atrás da 50º colocada. A batalha continua. O saibro de Bogotá, onde será cabeça 2, é o próximo desafio.