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Desafios e dúvidas para o Big 3 em Paris
Por José Nilton Dalcim
25 de outubro de 2019 às 19:51

Acostumado a ampla soberania nos Grand Slam e Masters 1000 da última década, o Big 4 sempre teve maior dificuldade de impedir as surpresas no piso sintético lento de Bercy. O Masters 1000 de Paris viu uma série de nomes diversificados chegarem ao título desde 2007, com David Nalbandian, Jo-Wilfried Tsonga e Robin Soderling, além de verdadeiras surpresas com as conquistas de David Ferrer, Jack Sock e Karen Khachanov, estes dois nas edições mais recentes.

Com quatro títulos e atual vice, Novak Djokovic tem é claro o favoritismo natural, ainda que venha de derrota em Xangai. O sorteio da chave lhe dá duas primeiras partidas muito tranquilas, provavelmente diante de Richard Gasquet e Diego Schwartzman, então um jogo mais perigoso, seja Stef Tsitsipas ou Roberto Bautista. Mas o que todo mundo aguarda é o possível reencontro com Daniil Medvedev, o homem que vem de seis finais consecutivas e duas vitórias em cima do número 1. O russo encara uma caminhada exigente, com John Isner, Dominic Thiem e David Goffin pela frente.

Rafa Nadal e Roger Federer ficaram do outro lado da chave, vendo oportunidade de recuperar o brilho em Bercy. Com uma única final no torneio, lá em 2007, existem também dúvidas sobre como estará o espanhol, que não joga desde o título no US Open e acaba de viver a emoção do casamento. Sua motivação é certamente vislumbrar o número 1 do ranking, que será seu de qualquer jeito na segunda-feira. O sorteio não foi de todo ruim, já que pode ter o contundido Stan Wawrinka ou o decadente Marin Cilic nas oitavas. Há muitos candidatos para as quartas: Matteo Berrettini, Khachanov, Andrey Rublev ou até Tsonga.

Assim como Nadal, Federer também não é exatamente um fã de Bercy. Desde o título isolado de 2011, ficou de fora por três vezes e atingiu mais duas semis, em ambas batido por Djoko, incluindo a excepcional partida do ano passado. Jogará neste sábado a semi da Basileia e aí devem vir mais duas barreiras: a diferença de velocidade de pisos e a sequência exigente, pois deve estrear na quarta-feira em Paris e aí terá de jogar todos os dias. Ainda assim, um novo ‘Fedal’ pinta no horizonte, já que o suíço tem uma sequência favorável (Gael Monfils ou Benoit Paire, Sascha Zverev ou Fabio Fognini).

Dá para apostar em alguma outra ameaça ao Big 3 que não seja Medvedev? Esta semana de ATPs 500 tem mostrado Thiem e Tsitsipas muito inconstantes, Bautista e Fognini se arrastando, Stan machucado e Zverev medroso. Pena que Andy Murray, à espera do nascimento do terceiro filho, não esteja lá.

Briga pelo Finais
Atração paralela em Paris é a luta pelas duas vagas ainda em aberto para o Finals de Londres. Nada menos que 10 candidatos se apresentam, mas o bom senso indica que Zverev, Berrettini e Bautista possuam as maiores chances. Se for campeão em Viena, Monfils crescerá e passará à frente do espanhol.

Atual campeão do Finals, Zverev corre risco porque tem uma estreia perigosa contra Verdasco ou Coric, depois Fognini ou Shapovalov e nas quartas Federer. O próprio Fognini está na briga, mas terá de ser finalista. A situação também não é fácil para Monfils, com estreia provável contra Paire e oitavas diante de Roger.

Berrettini ainda pode somar em Viena e vê outro caminho duro em Paris: Tsonga ou Rublev na estreia, depois Khachanov – só o título interessa ao russo –  e depois Nadal nas quartas.

Eliminado nesta sexta, Bautista se complicou. Aguarda De Minar ou Djere antes de eventual encontro com Tsitsipas e depois Djoko. É o setor onde está Dieguito, outro que vai precisar ir à final e isso quer dizer tirar Djoko nas oitavas.

Correm por fora ainda Goffin, que precisa no mínimo de semi; e Stan e Isner, que assim como Khachnov só chegarão a Londres erguendo o troféu.

E mais
– A expectativa é que caia a marca de Ferrer, que ganhou Bercy aos 30 anos, em 2012, e ainda é o campeão de maior idade.
– O Masters parisiense tem estádio principal para 15 mil espectadores, com quali no sábado e domingo e chave principal a partir das 7h de segunda-feira. A final está marcada para as 11 horas.
– Finals feminino começa neste domingo em Shenzhen com ingrediente especial: a campeã receberá o maior prêmio da história do tênis, entre US$ 4,7 mi (invicta) e US$ 4,1 (se perder 2 jogos). O torneio dá US$ 14 mi, muito acima dos US$ 9 mi do ATP Finals.
– O torneio larga na madrugada com o Grupo Vermelho: Osaka x Kvitova e Barty x Bencic. A chave Roxa ficou com Pliskova, Andreescu, Halep e a atual campeã Svitolina.
– Barty precisa apenas entrar em quadra nos três jogos classificatórios para se garantir como número 1 ao fim da temporada.

Ingressos gratuitos para Paris
Premiado com um lote farto de ingressos para Paris por ter ido a Roland Garros, o internauta André Queiroga decidiu ceder gratuitamente suas entradas para Paris-Bercy a quem tiver verdadeiras condições de ver os jogos na próxima semana. E escolheu o Blog para isso.

São quatro ingressos para a sessão diurna de segunda-feira (dia 28), três para a noturna (dia 28), dois para a diurna de terça (dia 29) e quarto para a noturna de terça (dia 29).

Quem estiver interessado e efetivamente puder usar essas entradas, deve enviar email para joni@tenisbrasil.com.br. Atenderemos pela ordem de chegada dos pedidos.

Luta adiada
Por José Nilton Dalcim
3 de outubro de 2019 às 18:48

A expectativa de uma briga direta pela liderança do ranking masculino ficou frustrada. Rafael Nadal decidiu esticar seu afastamento do circuito e não vai outra vez ao curto – e desgastante – calendário asiático.

O espanhol pode até retomar o posto por inércia, mas agora depende de um desastre com Novak Djokovic. O sérvio já está nas quartas de Tóquio após duas rodadas muito tranquilas, abriu 730 pontos de distância no ranking tradicional de 52 semanas e assim só uma derrota antes das quartas em Xangai lhe tiraria o posto. Isso agora.

Se Nole confirmar o amplo favoritismo no fraco ATP 500 japonês – Lucas Pouille e David Goffin são as pequenas ameaças até domingo – estará garantido no posto até Paris Bercy.

Nadal alegou o problema na mão esquerda surgido na Laver Cup para evitar a ida à China, o que pode até ser verdade. Mas no fundo, com casamento à vista e uma folga ainda grande no ranking da temporada, a desistência não chega a surpreender.

Mesmo que Djoko ganhe Tóquio e conquiste Xangai, ou seja some os 1.500 pontos possíveis, Rafa ainda será o primeiro no ranking da temporada com 460 pontos de vantagem. Terá a chance então de lutar pela ponta durante Paris e Londres, dois pisos sintéticos cobertos mas lentos onde sempre se saiu bem pior do que Novak.

Em Tóquio…
Com quase metade da premiação de Pequim, Tóquio só atraiu um top 10 e mais dois entre os 20. E viu os quatro cabeças da parte inferior da chave caírem na estreia. As boas novidades são Goffin, com vitórias apertadas sobre Carreño e Shapovalov, e Chung, que aplicou 6/1 no terceiro set em cima de Cilic. Os dois duelam entre si. Se o coreano ganhar, tem tudo para voltar ao top 100.

Em Pequim…
Os quase US$ 3,7 milhões levaram ao ATP 500 chinês oito dos 13 primeiros do ranking, sendo cinco entre os 10. Com isso, as quedas de cabeças foram bem menos dramáticas, como as de Berrettini para Murray ou de Monfils para Isner. As quartas são bem atrativas: Thiem x Murray, Tsitsipas x Isner, Khachanov x Fognini e Zverev x Querrey. Ainda assim, o público outra vez tem sido uma enorme decepção, com arquibancadas muito vazias.

E no feminino…
A chave das meninas em Pequim também está bem animadora. A queda tão precoce de Pliskova e Halep foram inesperadas, mas veremos Osaka x Andreescu, Barty x Kvitova e Svitolina x Bertens nas quartas. A vitória vale a vaga definitiva no Finals para Osaka e Kvitova, mas o duelo entre Svitolina e Bertens é uma luta direta. Bem diferente do masculino, o ranking da temporada feminina tem oito jogadoras numa curta faixa de distância de 2 mil pontos.

E em Campinas
Nada menos que 17 brasileiros entraram na chave de simples de 48 participantes no challenger de Campinas e o único que chegou ao menos nas quartas foi… Thomaz Bellucci! E ainda por cima com desistência do cabeça 2 Leo Mayer, que nem entrou em quadra. Aliás, Bellucci foi bye na primeira rodada e ganhou na estreia por desclassificação, portanto tendo jogando um set até aqui. A realidade nua e crua é que o tênis brasileiro de hoje precisa muito mais de futures do que de challengers. E pensar que temos um 500 e um 250…

Quem não ouviu, vale conferir o podcast desta semana com o Bellucci. Clique aqui.

Bianca Andreescu, a maturidade aos 19 anos
Por José Nilton Dalcim
7 de setembro de 2019 às 19:52

Seu tênis chama a atenção pela fluidez, força, coragem, precisão. Desde que despontou para o público com o inesperado título de Indian Wells, a canadense Bianca Andreescu mostrava as qualidades essenciais para se dar bem no circuito. Mas não seria tão fácil assim. Encarou outro período de problemas físicos, como em 2018, antes de mostrar em Toronto que não tinha perdido a essência do seu jogo.

O triunfo neste US Open foi mais do que merecido. É inevitável aliás comparar com o de Naomi Osaka de um ano atrás, porque são duas jogadoras que simbolizam o que há de mais moderno no tênis feminino, forçando saque, devolução, paralelas e ângulos, sem abandonar a linha de base, atentas à toda chance de contraataque. Não por acaso, ambos se inspiraram na própria Serena Williams, a quem derrotaram em grande estilo nas finais históricas.

Mesmo tão jovens, tanto Andreescu como Osaka também tiveram a marca indelével dos campeões: a cabeça fria. Se a japonesa se viu em meio à tremenda confusão armada com a arbitragem e jamais perdeu o foco, Bianca suportou a pressão não menos aterradora de ver um estádio inteiro empurrar Serena para uma reação incrível. E fechou o jogo com duas devoluções que as Williams só poderiam aplaudir. Maturidade aos 19 anos.

O tênis feminino pode comemorar três jogadoras muito jovens e de enorme qualidade técnica no seu novo top 5, já que a liderança nesta segunda-feira voltará à habilidosa Ashleigh Barty. Não se trata apenas de acentuada renovação, mas de um tênis competitivo no seu mais alto nível, tendo cada uma vencido um Slam na temporada.

Tomara que Serena não desanime e consiga uma quinta chance de chegar ao 24º Grand Slam, porque ela e a irmã Venus mudaram os rumos do esporte e continuam a dar exemplo saudável de amor à profissão.

Experiência x juventude também no masculino
A final masculina do US Open também traz um considerável duelo de gerações e de currículos, um pouco menos expressivo do que a decisão feminina mas igualmente destoante. Rafael Nadal, de 33 anos, faz sua 27ª final de Grand Slam e a quinta no US Open, enquanto Daniil Medvedev, uma década mais jovem, é um completo debutante.

Detalhe relevante: são dois tenistas com estilos atípicos no circuito. Canhoto e dono do topspin mais perfeito provavelmente da história, Nadal desenvolveu um modelo incomparável, onde a regularidade e a capacidade de defesa se mesclam com um preparo físico ímpar. Tem sacado muito bem e com isso ataca da base, assim como varia com curtas ou slices, faz voleios oportunos. O russo bate incrivelmente plano e forte na bola, mesmo jogando três passos atrás da linha e tendo preparação de golpes um tanto fora do padrão. Adora ser atacado para usar o peso da bola do adversário. Usa o primeiro saque para definir na bola seguinte, mas nunca se abala se tiver de jogar com o segundo serviço.

Medvedev surpreende por sua solidez na temporada, tendo se saído bem até mesmo no saibro e na grama, com duas vitórias sobre o número 1 do mundo. Nas quadras duras do verão norte-americano, chegou a todas as finais, venceu seu primeiro Masters, já somou 3.100 pontos e mostrou resistências física e mental raramente vistas no circuito masculino atual, onde poucos ousam entrar em quadra semana após semana.

Nadal tem o favoritismo natural, porque faz tudo melhor do que Medvedev, como ficou claro na recente final que fizeram em Montréal, onde cedeu apenas três games. Mas o espanhol tem permitido algumas brechas a seus adversários neste US Open, e a ansiedade parece ser seu maior inimigo. Perdeu set para Marin Cilic, permitiu duas corajosas reações de Diego Schwartzman e por milagre não perdeu o set inicial para Matteo Berrettini. Diante do momento histórico que viverá, às portas do 19º Slam, esse favoritismo precisa ser bem administrado.

Minha aposta: Nadal, 3 a 1. Meu desejo: que seja um grande espetáculo.