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De drop em drop, Alcaraz chega lá
Por José Nilton Dalcim
1 de abril de 2022 às 23:48

Carlos Alcaraz viveu dois dias distintos em Miami. Na quinta-feira, fez um dos jogos mais espetaculares da temporada e superou um brilhante Miomir Kecmanovic com direito a uma contabilidade digna de Roger Federer: 52 de seus 102 pontos na partida foram winners. Hoje, contra o atual campeão Hubert Hurkacz, errou quase tanto que acertou porém foi o tenista com maior controle emocional nos dois tiebreaks disputados. De um jeito ou de outro, o espanhol achou o jeito de vencer. Um veterano de 18 anos.

O pupilo de Juan Carlos Ferrero tem duas excepcionais qualidades, que são antagônicas, e talvez seja essa rara dualidade que o faça tão deslumbrante. Defende-se como um leão, dono de velocidade e antecipação notáveis, mas ao mesmo tempo é capaz de atacar com diferentes armas, sejam golpes de base extremamente precisos e fortes, a destreza de curtinhas desconcertantes ou transições à rede inteligentes.

Num passe de mágica, sai da defesa para o ataque, algo que necessariamente nos lembra de Novak Djokovic. Também me causa admiração, e seria interessante observarem isso com atenção, sua capacidade de fazer escolhas certas, ou seja quando optar pela cruzada ou pela paralela, usar curta ou um topspin profundo, lob ou bola no pé. Já cansei de dizer aqui que essa habilidade no encontro da jogada mais adequada, em frações de segundo, é o dom que me faz gostar tanto de Rafa Nadal.

Por falar em Rafa, caso vença Miami, Alcaraz mais uma vez lembrará façanhas do ídolo espanhol, que também ganhou o primeiro Masters 1000 aos 18 anos, em abril de 2005 no saibro de Monte Carlo.

Mais um campeão de Masters inédito
Quem também está radiante com sua campanha em Miami é o norueguês Casper Ruud. Depois de três semifinais de Masters 1000 no saibro, ele acabou superando a barreira logo no piso duro, ao superar com folga o surpreendente argentino Francisco Cerundolo. Com isso, haverá certamente um novo campeão de Masters 1000, o quinto diferente nos últimos nove disputados e o segundo estreante em 2022, depois de Taylor Fritz.

É bem verdade que Miami é considerada a quadra sintética mais lenta do circuito, inferior até a alguns torneios de saibro, mas ao mesmo tempo não se pode negar a campanha sólida de Ruud, que tirou adversários de estilos tão distintos como Alexander Bublik, Cameron Norrie e Alexander Zverev, todos reconhecidamente bons nesse tipo de superfície.

O noruguês usou muito de sua solidez do saibro, mas também sacou de forma mais ofensiva e se aventurou diversas vezes na rede. É dono também de físico privilegiado, mas tudo isso me parece insuficiente para superar Alcaraz, para quem perdeu sem grande chance no saibro de Marbella muito antes de o espanhol assombrar o circuito.

Swiatek é favorita contra Osaka
Duas jogadoras em momentos muitos distintos decidem neste sábado a chave feminina de Miami. De um lado, a embalada Iga Swiatek tenta seu terceiro 1000 consecutivo, consagrando de vez sua chegada à liderança do ranking, invicta há 16 partidas e sem perder set no torneio.

Do outro, está a japonesa Naomi Osaka, ex-número 1 que começou Miami ameaçada de sair do top 100. Conseguiu reagir à eliminação chorosa de Indian Wells e, apesar de estar ainda distante do seu melhor nível, tem se mostrado fisica e mentalmente mais forte. E sacando de novo bem. Vamos ver se vai funcionar diante das devoluções muito firmes que a polonesa tem feito.

Claro que o favoritismo é naturalmente de Swiatek. Sua adversária não decide um título desde a conquista do Australian Open do ano passado, então seu quarto troféu de Slam. O único duelo entre elas não tem grande significado, já que a vitória de Naomi em 2019 veio sobre uma Iga quase iniciante. Fossem outros tempos, Osaka deveria ganhar sobre a quadra dura, sua superfície predileta, mas Swiatek evoluiu rapidamente no piso, como dizem as conquistas de Doha e de Indian Wells.

O título seria muito mais importante para Osaka, que já recuperou 41 posições no ranking e pode terminar como 30º colocada. Seria essencial para a retomada completa de confiança. Iga, ao contrário, está às portas da temporada europeia de saibro, onde se espera muito dela. Eventual título da polonesa a deixará quase 1.700 pontos à frente de Barbora Krejcikova, uma liderança consideravelmente folgada.

Espanha rouba cena em Indian Wells
Por José Nilton Dalcim
17 de março de 2022 às 00:48

Com três representantes em estágios completamente distintos mas todos jogando um tênis de primeira grandeza, o tênis espanhol é a sensação do momento sobre as quadras duras de Indian Wells. O ainda imbatível Rafael Nadal, a estrela ascendente Carlos Alcaraz numa transição perfeita do saibro e a atual campeã Paula Badosa de olho no número 2 estão batendo muito na bola e usando os mais variados recursos diante das difíceis condições do torneio.

Como se esperava, Rafa sofreu com o saque demolidor de Reilly Opelka, que está longe de ser ridículo da base. Faltou pouco para levar o número 4 ao terceiro set e faltou coragem na hora de obter a segunda quebra. O espanhol foi como sempre muito aplicado na parte tática, determinado a entrar nos pontos de qualquer jeito. Ele achou que fez seu melhor jogo da semana, mas seu segundo set foi bem menos brilhante.

Obviamente, sobrará motivação para o reencontro com Nick Kyrgios, que descansou diante do mal estar que forçou Jannik Sinner a abandonar o torneio. O australiano ganhou 3 dos 8 duelos e é mais perigoso do que Opelka por sua imprevisibilidade. Fato curioso e relevante, Nadal ganhou 8 dos 9 tiebreaks disputados, incluindo todos os 6 mais recentes.

Alcaraz e Gael Monfils só fizeram o esperado duelo de habilidades até o francês perder o saque no 6/5, depois de flertar com break-points em outros dois serviços. O garotão, ao contrário, foi consistente do começo ao fim, fez 18 de seus 22 winners de forehand, ganhou 87% dos pontos em que acertou o primeiro saque e fez deixadinhas desconcertantes e voleios oportunos. De novo, mostra maturidade muito acima de seus 18 anos e segue com um estilo muito agradável de se ver.

O campeão do Rio Open chega às quartas de um Masters 1000 pela primeira vez e é o mais jovem a ir tão longe no torneio desde o fenômeno Michael Chang 33 anos atrás. Com 11 vitórias em 12 jogos na temporada, Alcaraz enfrentará agora o detentor do título, o canhoto Cameron Norrie, a quem venceu com notável facilidade no US Open do ano passado. O britânico fez notáveis lances contra Jenson Brooksby e precisa de mais uma vitória para enfim realizar o sonho do top 10.

Paula Badosa ganhou logo seu segundo torneio do ano, ainda em Sydney, e deu a impressão que manteria o momento confiante de 2021, mas daí em diante não fez grandes exibições. Tinham-se então reservas sobre como iria encarar a pressão de defender o título de Indian Wells – ainda que o troféu tenha acontecido em outubro – e a espanhola de golpes tão pesados e agressivos está muito bem. Foi notável na vitória sobre Leylah Fernandez, principalmente na forma de atacar o serviço, e buscará a semi diante de Veronika Kudermetova.

E mais

  • Dono de dois títulos na quadra dura neste ano, Rublev parece firme na busca do sonhado primeiro Masters, depois de dois vices no ano passado. Sua insistência em jogar duplas enfim rende um jogo de rede menos tímido. Tirou Hurkacz em sets duros e reencontra Dimitrov, semi de 2021 em Indian Wells. Duelo está 2-2.
  • Kecmanovic é um sérvio a se ficar de olho. Orientado por Nalbandian, joga bem em todos os pisos e é muito gelado sob pressão. Ótima vitória sobre Berrettini e encontro agora com Fritz, semi em 2021 e que ganhou no sufoco de De Minaur. O americano venceu os dois jogos anteriores contra Kecmanovic, mas lá em 2019. Vale conferir.
  • As primeiras quartas de final femininas foram decepcionantes porque Halep e Swiatek se mostraram absurdamente superiores a Martic e Keys. Enquanto a romena está muito veloz e solta em quadra, a jovem polonesa vem do título 1000 em Doha tendo como destaque o ataque nas devoluções.
  • Halep tem 2 a 1 no histórico, com única derrota na campanha inesquecível de Iga rumo ao título de Roland Garros em 2020. Swiatek assume provisoriamente o número 2, mas pode ainda ser ultrapassada por Badosa ou Sakkari, que enfrentará Rybakina nesta quinta-feira.
  • Zverev está na semi de duplas ao lado de Golubev e pode pegar Isner/Sock, que já tiraram Pavic/Mektic e Kokkinakis/Kyrgios. Rublev/Karatsev e Tsitsipas/Feliciano jogam quartas.
  • A ITF enfim conseguiu acordo entre os quatro Slam e unificou a regra do tiebreak no 6/6 do quinto set. É o fim definitivo do set longo, que sobrevivia em Roland Garros.