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Noite dos sonhos para Aliassime
Por José Nilton Dalcim
4 de setembro de 2020 às 00:46

Não era de se esperar uma grande atuação de Andy Murray depois da estreia tão desgastante de dois dias atrás, mas ele certamente não contava com um Felix Aliassime tão inspirado. O garoto canadense fez uma de suas melhores exibições como profissional, demonstrando um controle invejável de sua força, o que lhe propiciou um caminhão de aces e winners. Sufocou o escocês do começo ao fim, numa noite de sonho na Arthur Ashe.

Felix jogou tanto, mas tanto tênis que Greg Rusedski, o canadense que foi top 4 enquanto jogava sob bandeira britânica, não conteve a euforia. “Se ele jogar nesse padrão o resto do torneio, pode ser campeão”, arriscou. Os números apoiam – 52 winners contra apenas 9, 24 aces e 89% de pontos vencidos com o primeiro saque  -, mas o que realmente encantou foi o domínio emocional, a profundidade das bolas, as devoluções tão ofensivas e as variações táticas que buscou.

Enquanto o canadense aguarda Daniel Evans ou Corentin Moutet, o genial Murray sabe que ainda precisa de mais tempo para recuperar o padrão físico tão essencial a seu estilo. Está um tanto claro que ele pode ter sucesso em torneios mais curtos, de três sets, sem esse padrão tão alto de exigência, como fez no ano passado na Antuérpia.

No feminino, o show foi de Azarenka. Imprimiu um ritmo muito forte no começo e Aryna Sabalenka se perdeu toda. Cometeu erros absurdos em bolas básicas. Vika ainda perdeu um serviço que quase recolocou ânimo na compatriota, mas ficou nisso. A excelente fase da campeã de Cincinnati continua. Ela aguarda quem passar do jogo interrompido pela chuva de Iga Swiatek e Sachia Vickery. Para alegrar ainda mais, Azarenka viu a queda de Johanna Konta, que era a mais provável adversária de oitavas.

Serena Williams jogou um pouco melhor do que na estreia, mas permitiu reação da russa Margarita Gasparyan, uma das raras no circuito que usa backhand de uma mão, e perdeu três serviços. A multicampeã levantou o astral com seus tradicionais gritos, que ecoam ainda mais alto no estádio vazio. Agora, reencontra Sloane Stephens para um duelo de campeãs, com vantagem de cinco vitórias em seis duelos.

A rodada masculina
– No dia em que comemorou 27 anos, Dominic Thiem venceu por sets diretos mas ainda viveu instabilidades. Incrível como devolveu lá no juiz de linha mesmo diante de um Sumit Nagal cuja média de primeiro saque é de 160 km/h. Vai precisar de muito mais diante do rodado Marin Cilic.
– Daniil Medvedev até encontrou resistência num desconhecido Christopher O’Connell, que tentou brechas com seu backhand de uma mão na paralela. A chave do russo continua incrível. Agora vem o convidado JJ Wolf, 21 anos e 138º do ranking. Não é mau jogador, mas foge demais do backhand e deixa buracos perigosos.
– Vasek Pospisil, um dos mentores da nova associação de jogadores, impediu o aguardado duelo entre Milos Raonic e Roberto Bautista. Ótimo duplista, Pospisil ousou esperar o saque do compatriota sempre em cima da linha e Raonic colecionou erros de todo o tipo. Bautista tenta chegar pela terceira vez nas oitavas.
– Frances Tiafoe lutou 3h57, cometeu 73 erros mas mostrou estar sobrando físico após a contaminação do coronavírus. Enfrentará Marton Fucsovics, que reagiu diante de Grigor Dimitrov em maratona ainda mais longa, de 4h50 e quase 400 pontos disputados. Foi apenas a 2ª vitória de Tiafoe em 10 jogos que chegaram ao quinto set.
– Semi do ano passado, Matteo Berrettini ainda não perdeu set no piso bem mais veloz. Agora, encara o também jovem Casper Ruud. E há boa chance de um outro ‘next-gen’ entrar na briga por essa vaga nas quartas: Andrey Rublev tirou dois franceses com autoridade e é favorito diante da surpresa italiana Salvatore Caruso, 100º aos 27 anos e que joga seu primeiro US Open.

– Outro duelo da nova geração envolverá o rapidíssimo Alex de Minaur e o mão de pedra Karen Khachanov, que hoje sacou muito bem. O australiano foi campeão de duplas em Cincinnati no sábado.
– Daniel Evans teve seu difícil jogo diante do canhoto Corentin Moutet adiado. A situação estava complicada. O francês de 21 anos mistura força e jeito. Pode complicar.

Os destaques femininos
– A cabeça 2 Sofia Kenin está na terceira rodada do US Open pelo quarto ano seguido, mas nunca passou disso. A juvenil canadense Leylah Fernandez confirmou sua qualidade, mas não foi páreo para a solidez da norte-americana, que agora encara a versatilidade de Ons Jabeur.
– As cabeças continuam a cair, e desta vez foi um nome de peso: Garbiñe Muguruza. Ela se rendeu ao tênis sempre agressivo de Tsvetana Pironoka, que não jogava torneios desde Wimbledon-2017 e sequer tem ranking. A espanhola raramente jogou bem em Nova York na carreira.
– A outra surpresa coube a Sorana Cirstea, que virou em cima de Johanna Konta, quadrifinalista do ano passado. Mas a romena tem qualidade: já ganhou 14 vezes de uma top 10 e agora 32 de top 20.
– Sloane Stephens e Madison Keys passearam em quadra. Amanda Anisimova fortalece a esquadra americana, mas teve grande trabalho com a promissora Katrina Scott, de tenros 16 anos, e agora tem jogo de pouco prognóstico frente à boa grega Maria Sakkari.

Virada de Demo
Suada e valente vitória de Marcelo Demoliner e seu parceiro holandês Matwe Middelkoop. Frente ao grande especialista Nicolas Mahut, os dois foram buscar uma bela virada após tenso segundo set. Agora, pegam os britânicos Jamie Murray/Neal Skupski. Que chave!

Coração e pernas
Por José Nilton Dalcim
2 de setembro de 2020 às 01:02

Muitos acham uma autêntica crueldade submeter os tenistas de hoje a melhor de cinco sets, ainda mais no clima de Nova York, mas todos sabemos que isso leva o tênis masculino a um outro universo. O que aconteceu nestes dois dias de primeira rodada, no entanto, está para lá de peculiar.

Já foram sete viradas de dois sets atrás, quatro delas nesta terça-feira, com protagonistas do nível de Andy Murray, Marin Cilic e Karen Khachanov. Gigantesco esforço tão cedo num Slam geralmente é sinal de vida curta. Estes no entanto são tempos estranhos.

Por tudo que o envolve nesta nova tentativa de retorno, a luta do escocês foi um pouco mais especial, sem falar que ele ainda estava uma quebra atrás no começo do terceiro set diante do canhoto Yoshihito Nishioka, cheio de más intenções. Ele teve até um match-point, evitado com toda a coragem pelo ex-número 1, ainda no quarto set.

Vamos a um resumo de acordo com a chave:

Thiem não empolga – Principal nome na parte inferior da chave, o austríaco jogou um primeiro set em que forçou tudo, subiu muito à rede mas teve também vários erros não forçados. Ao menos, foram apenas dois sets até Jaume Munar desistir. Pega o indiano Sumit Nagal e pode cruzar Marin Cilic, um dos que virou de 0-2 hoje. Isso pode recuperar sua confiança

No quadrante superior, estão três nomes de peso: Felix Aliassime, que tem favoritismo contra o cansaço de Murray, e o habilidoso Daniel Evans. Nada me surpreenderia, ainda que coloque Evans como maior candidato.

Monteiro e Wild – Apesar da derrota, os brasileiros chamaram a atenção. Monteiro fez um jogo extremamente equilibrado contra Aliassime – cada um marcou exatos 147 pontos – e poderia ter vencido tanto o terceiro como o quarto sets ou até mesmo o jogo. Elogiáveis sua consistência num piso tão veloz, a postura agressiva e a garra, como já havia mostrado na Austrália.

Wild por sua vez demorou demais para se soltar e o estilo tão variado e pouco previsível de Evans não ajuda nada. Mas o paranaense, estreante em Slam, se soltou no terceiro set e fez grandes lances. Destaque para a velocidade das pernas e a clara evolução do jogo de rede.

Bautista x Raonic – Dois grandes destaques do Masters da semana passada, os dois tendem a se cruzar já na terceira rodada e isso pode valer um lugar nas quartas de final mais adiante. Os adversários mais perigosos são Karen Khachanov e Alex de Minaur, além de Richard Gasquet. Porém não me parece que algum deles tenha condições de barrar no momento Raonic ou Bautista em condições normais.

Medvedev inspirado – De volta ao palco em que brilhou tanto em 2019, o russo tem um caminho privilegiado se mantiver o nível desta estreia contra Federico Delbonis. É bem verdade que Grigor Dimitrov deu um belo espetáculo contra Tommy Paul, porém é difícil confiar na sua estabilidade emocional. Seria no entanto um belo nome para desafiar o poder defensivo de Daniil.

Nova geração – Praticamente só há jovens, alguns bem promissores, neste setor da chave. A começar por Andrey Rublev, que vai encarar Gregoire Berrere. Já Casper Ruud protagonizou grande virada e faz interessante duelo nórdico com Emil Ruusuvuori. Quem passar, terá Matteo Berrettini ou Ugo Umbert. E o melhor de tudo: difícil fazer prognósticos, ainda que o italiano tenha a valiosa experiência de uma semi no torneio em 2019.

Velhas heroínas
A rodada feminina viu pouco trabalho para as principais favoritas, com atenção natural sobre Serena Williams, que fez um primeiro set pouco convincente mas não precisou alongar demais sua partida. Embora esteja um tanto distante daquele domínio costumeiro, é de se esperar que ela avance sem sustos até reencontrar Maria Sakkari ou a adolescente Amanda Anisimova.

Tricampeã do torneio e tentando outro retorno ao circuito, Kim Clijsters esteve perto de tirar a cabeça 21 Ekaterina Alexandrova, mas vacilou e depois não suportou o ritmo. Ainda tem jogo, mas faltam pernas. Outra vencedora, Venus Williams fez uma despedida sem brilho, ainda que Karolina Muchova tenha qualidades.

Duas vezes finalista, Victoria Azarenka vem do título no sábado e é a mais embalada das velhas heroínas. Economizou energia para encarar Aryna Sabalenka, o que pode ser o melhor jogo de quinta-feira. Mas vale ficar de olho no promissor encontro das jovens Sofia Kenin e Leylah Fernandez.

Duro de matar
Por José Nilton Dalcim
29 de agosto de 2020 às 20:10

Ele não dormiu bem à noite, fez um primeiro set travadíssimo em que levou sonoros 1/6, mas o número 1 do mundo se chama Novak Djokovic e é preciso mais, muito mais para derrotá-lo. Invicto a 23 jogos na temporada, arrancou a segunda virada seguida, outra vez saindo atrás no terceiro set, e fez história. Como é duro matar esse gigante.

Milos Raonic teve sua chance de enfim acabar com o incômodo tabu, já que somava 10 derrotas ao entrar em quadra. Aproveitou-se do saque instável do sérvio, estava feliz nas bolas ofensivas e deu a impressão de que havia chegado seu dia quando tirou o segundo set do sérvio no longo histórico de confrontos.

Pouco a pouco, Djokovic achou o ritmo. Começou a sacar melhor, simplificando pontos, e isso mexe positivamente com a confiança de qualquer um. No seu caso, as devoluções passaram a infernizar o adversário, a consistência da base aumentou. Raonic perdeu ao mesmo tempo a precisão do forehand, reflexo da pressão.

Um vacilo importante de Nole deu então a grande oportunidade. Raonic quebrou e sacou para 3/0 no terceiro set. Não venceu um único ponto com o poderoso saque. Ficou perdido. Passou a fazer escolhas ruins e Djokovic voltou a quebrar, vibrando a cada grande jogada. Mesmo avariado no físico – no game final, não colocou primeiro saque na quadra e precisou salvar break-point -, a força mental fez toda a diferença.

Único tenista a ganhar cada Masters ao menos duas vezes, ele agora é dono de 80 títulos e 35 Masters. Reforça ainda mais seu favoritismo para o US Open, na busca pelo 18º Slam, e mais do que nunca o maior adversário parece ser seu próprio corpo.

Título sem jogo
Outra vez Naomi Osaka foi manchete, novamente por não entrar em quadra. Porém, o motivo para desistir da final do Premier de Cincinnati foi uma contusão na coxa, que apareceu no final do jogo de sexta-feira.

Uma pena. De qualquer forma, Victoria Azarenka pôde comemorar seu primeiro título em quatro anos e o 21º da carreira depois de uma semana de atuações convincentes.

Aos 31 anos, voltará ao top 30 nesta segunda-feira e entrará solta na chave do US Open, podendo fazer estragos. Deve encarar Aryna Sabalenka na segunda rodada e está no setor de Johanna Konta, a quem acabou de superar.

Bastidores quentes
Bem mais incompreensível foi colocar Djoko para estrear no US Open logo na segunda-feira, ainda que na rodada noturna. Seria mais compreensível se houvesse público e interesse na venda de ingressos, mas não é o caso. Teria sido uma pequena retaliação pela anunciada nossa associação dos tenistas que ele comanda?

O sábado não trouxe grandes detalhes sobre os ideais dessa nova entidade, batizada de Professional Tennis Players Associaton (PTPA), mas Djokovic apressou-se a dizer que não se trata de uma associação paralela, sem intenção de criar um calendário diferente ou idealizar boicotes a torneios. Estaria mais para um novo Conselho de Jogadores com maior independência para lutar por suas reivindicações. O grupo, tem John Isner e recebeu apoio de Milos Raonic, bate de frente com o atual presidente Andrea Gaudenzi.

Mas logo de cara a iniciativa de Djoko não teve adesão de três nomes fundamentais: Rafael Nadal opinou que não é hora de divisões em sua conta no Twitter e tal postura foi corroborada por Roger Federer. Já Andy Murray afirmou que vai avaliar a ideia, mas que o novo sindicato teria de ter também as mulheres para ganhar real força.