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Renovação forçada
Por José Nilton Dalcim
19 de março de 2021 às 19:49

Nem dá para fingir surpresa. A desistência de Novak Djokovic de Miami, anunciada há pouco pelo número 1 do mundo, era simplesmente lógica. Depois de um esforço hercúleo para completar a campanha vitoriosa no Australian Open, o sérvio tinha mesmo de se tratar. Viajar aos Estados Unidos para um único torneio e depois voltar para a Europa e ter apenas cinco dias de preparação para o saibro de Monte Carlo soaria completamente absurdo.

Nole seguiu os passos de Rafael Nadal, que também saiu contundido de Melbourne, e em menor grau os de Roger Federer, ainda se recuperando da dupla cirurgia no joelho, mas o sérvio será certamente o desfalque maior em Miami. Afinal, ele e Andre Agassi são os únicos com seis títulos no Masters, onde possui a marca de 44 vitórias em 51 jogos. Vale lembrar que Djoko ainda não perdeu jogos em 2021, tendo vencido todos na ATP Cup e no Australian Open.

A consequência imediata e histórica é que Miami se torna o primeiro Masters 1000 desde Paris de 2004 a não ter qualquer um dos Big 3 em quadra. Nessa longa trajetória, passaram-se 138 torneios de tal quilate. Isso é tão distante na memória que a ATP recorreu a um vídeo para lembrar que Marat Safin levou o título em cima de Radek Stepanek. Também será o primeiro Masters de Miami sem um dos Big 3 desde 1998.

Essa renovação forçada abre o leque para que surja um novo campeão de Masters, o que também tem sido algo raro. Desde o início de 2009, apenas 17 tenistas fora do Big 4 conseguiram erguer um troféu. Sinal dos tempos, isso ficou um pouco mais normal a partir de 2018, com títulos de Juan Martin del Potro, John Isner, Alexander Zverev, Karen Khachanov, Dominic Thiem, Fabio Fognini e Danill Medvedev.

Até o final desta sexta-feira, a ordem dos oito primeiros cabeças de chave em Miami relaciona Medvedev, Stefanos Tsitsipas,Zverev, Andrey Rublev, Diego Schwartzman, Matteo Berrettini, Roberto Bautista e Denis Shapovalov. Observem que apenas dois deles já ganharam Masters e seis podem ser considerados da nova geração.

A outra pergunta que se faz necessária é o motivo de tantos abandonos. Da lista original de inscritos, nada menos que 30 já desistiram e poucos deles por contusão declarada. O corte original era o 77º, mas hoje já está no 114º. O próximo aliás a garantir vaga direta é a sensação de Acapulco, o garoto Lorenzo Musetti.

A explicação mais lógica parece estar no misto da grande baixa de premiação – 60% menor do que a de 2019, última edição realizada -, da saída pelo segundo ano consecutivo de Indian Wells e a sempre arriscada viagem diante de um quadro ainda preocupante da pandemia internacional. Sem falar que a temporada de saibro agora ficou quase grudada, uma vez que Monte Carlo começa apenas seis dias depois da final de Miami.

Na longa lista de abandonos, além de quatro dos top 6 figuram Gael Monfils, Pablo Carreño, Stan Wawrinka, Borna Coric, Filip Krajinovic, Richard Gasquet, Nick Kyrgios, Alejandro Davidovich, Kyle Edmund, Jo-Wilfried Tsonga, Gilles Simon, Pablo Cuevas, Lucas Pouille, Egor Gerasimov, Marco Cecchinato e Roberto Carballes. Fácil notar que muitos desses nomes estavam normalmente no circuito há uma ou duas semanas.

A boa notícia para o tênis brasileiro é que Felipe Meligeni conseguiu vaga em seu primeiro qualificatório de nível Masters e juntou-se a Thiago Wild e João Menezes. O próprio Wild está a seis vagas da chave principal, algo que não parece agora tão impossível Thiago Monteiro é nosso único nome garantido em simples. O torneio será aberto na quarta-feira.

É crucial observar que tal debandada não acontece na chave feminina. Ao contrário, até mesmo a número 1 Ashleigh Barty saiu de seu auto-isolamento e garantiu presença. Das atuais top 50, só não jogarão Karolina Muchova, Donna Vekic e Barbora Strycova, o que garante um grupo extremamente forte.

As oito principais cabeças serão Barty, Naomi Osaka, Simona Halep, Sofia Kenin, Elina Svitolina, Karolina Pliskova, Serena Williams e Aryna Sabalenka.

  • No domingo, volto para a análise das incríveis surpresas deste começo de temporada
Façanhas do ranking independem da pandemia
Por José Nilton Dalcim
16 de março de 2021 às 18:23

Em apenas duas semanas, a história do ranking masculino foi chacoalhada por dois grandes momentos. No dia 8 de março, ratificando-se seu título no Australian Open, Novak Djokovic quebrou um recorde que se pensava inalcançável e superou as 310 semanas que Roger Federer havia passado como número 1. Sete dias depois, Daniil Medvedev ganhou Marselha para coroar a quebra de uma longa hegemonia do Big 4. Desde julho de 2005, nenhum outro que não se chamasse Federer, Nadal, Djokovic ou Murray figurou no top 2 da lista.

Muitos apressadinhos correram para dizer que o congelamento do ranking feito pela ATP em março, em função da pandemia e a paralisação do calendário até agosto, teria sido essencial para que essas incríveis marcas caíssem. Como se sabe, a ATP também mudou a fórmula de contagem a partir da volta dos jogos e passou a considerar um ranking de 24 meses, ou seja entre março de 2019 e de 2021. E apenas há poucos dias fez pequena alteração, forçando descontos de 50% dos pontos de 2019 e mantendo até agosto a possibilidade de cada tenista somar seu melhor resultado, sem descontos de campanhas.

Uma rápida análise matemática do ranking entre 15 de março de 2020 e de 2021, no entanto, mostra que não há qualquer sombra de dúvida do mérito de Djokovic e Medvedev nas posições alcançadas. Se utilizarmos o critério tradicional do ranking de somar apenas os pontos dos torneios efetivamente jogados entre Acapulco/Dubai do ano passado até o último domingo, Djokovic ainda lideraria com certa folga (5.830 pontos) e Medvedev estaria realmente à frente dos demais (5.585).

Nessa hipótese, o verdadeiro prejudicado é o também russo Andrey Rublev. Com 3.915 pontos somados nesta sua arrancada técnica, ele seria o terceiro colocado, deixando Rafael Nadal para trás (3.800). Outra troca de posição aconteceria entre Alexander Zverev e Stefanos Tsitsipas. Vejamos como está essa pontuação, considerando-se os oito tenistas que disputaram o ATP Finals de Londres:

1. Novak Djokovic – 5.830
2. Daniil Medvedev – 5.585
3. Andrey Rublev – 3.915
4. Rafael Nadal – 3.800
5. Dominic Thiem – 3.535
6. Alexander Zverev – 3.410
7. Stefanos Tsitsipas – 3.095
8. Diego Schwartzman – 2.210

Então, caros amigos, não me parece haver qualquer razão para se contestar o recorde histórico de Djokovic, que na verdade poderia ter alcançado a marca de 310 muito antes, em outubro, não fosse a pandemia. E hoje já estaria com pelo menos mais 20 semanas. De qualquer forma, a ATP já calculou que não há qualquer risco de o sérvio perder o posto antes de 26 de abril.

Medvedev agora se tornou a maior ameaça a ele, principalmente porque o russo só fez 90 pontos em Miami em 2019 e assim poderia acrescentar 910 num eventual título. Ainda não se sabe se Nole irá para Miami, mas de qualquer forma ele só teria a perder 45 pontos (metade dos 90 de 2019) caso prefira continuar sua recuperação na Europa, à espera do saibro. Chegaria a Monte Carlo com 1.113 pontos de vantagem sobre o russo e todos sabemos que a terra batida está longe de ser a praia do Urso.

Nadal avisou nesta terça-feira que não irá para os EUA, como era de se imaginar. Bem preparado, ele poderá recomeçar a somar pontos em Monte Carlo, Barcelona e Madri, onde terá a descontar 900 de 2019 e poderia fazer 2.500. Ranking no entanto me parece ser a última das preocupações do canhoto espanhol neste momento. Antes de tudo, vem a melhor forma física para o esforço sobre o duro calendário que sempre faz no saibro europeu. E em seguida ganhar toda a confiança para atingir a meta primordial de defender Roland Garros e chegar ao 21º Grand Slam. Por tudo isso, é mais do que correta sua decisão.

Aliás, mesmo antes de outra decepcionante atuação, em Dubai, Dominic Thiem se juntou a ele e a Roger Federer e também não irá a Miami. O Masters norte-americano pode assim ter Medvedev, Tsitsipas, Zverev e Rublev como os quatro primeiros cabeças de chave. Isso sim que é renovação.

Esticar temporada pode ser alternativa
Por José Nilton Dalcim
12 de março de 2020 às 12:47

O tênis profissional vai parar nas próximas seis semanas. Com otimismo, voltará no dia 27 de abril, deixando para trás torneios tradicionalíssimos da ATP e de enorme faturamento: Indian Wells, Miami, Monte Carlo e Barcelona. A possibilidade já era explorada desde o começo da semana, com o avanço do coronavírus pelos Estados Unidos e Europa e ações tomadas por várias outras modalidades de peso, como a NBA. Não havia alternativa para a ATP e a ITF acaba de anunciar idêntica medida. É muito provável que a WTA siga a mesma diretriz.

O que restam agora são especulações. Fala-se na possibilidade de realizar Indian Wells e Miami depois do US Open, o que provocaria o cancelamento ou redução da temporada asiática, que tem os 500 de Pequiim e Tóquio e o Masters de Xangai. Ainda assim, os dois Masters norte-americanos teriam chaves reduzidas para 64 e aconteceriam em apenas uma semana.

No entanto, há evidentes dificuldades, entre elas o fato de o Hard Rock Stadium de Miami não ter datas disponíveis para o segundo semestre, já que é sede do Dolphins. E o que fazer com os compromissos comerciais já assumidos dos ATPs asiáticos? A alternativa seria esticar a temporada 2020 até dezembro.

Fica é claro a dúvida ainda se a pandemia será estancada em tempo hábil para acontecer os Masters de Madri e Roma e principalmente Roland Garros. Há enorme divergência de opinião entre especialistas em saúde pública. A China, onde se iniciou a virose, já vê redução drástica dos casos mas a Itália, onde aconteceu a primeira explosão europeia, certamente será o parâmetro essencial. Há de se esperar ainda como os outros países da União Europeia vão reagir.

Problema do ranking
As entidades também não se pronunciaram ainda sobre como ficará o ranking dessas seis semanas, considerando que envolvem nada menos do que três Masters e um 500, ou seja, um mar de pontos em jogo.

Se houver a simples retirada dos pontos, haverá mexidas drásticas no ranking, principalmente para os tenistas que estão fora do top 10. A lógica aponta para o congelamento e desconto apenas em 2021, mas aguarda-se ainda comunicado oficial.

Torneios brasileiros
Já é certo o adiamento dos challengers de Olímpia e de Florianópolis, conforme determinou a ATP, e também não poderá acontecer o Circuito Feminino Future de Tênis, previsto para as duas próximas semanas.

Como o calendário dos challengers e ITFs tem maior flexibilidade, é possível movê-los para outras datas, mas obviamente ficará prejuízo para a Koch Tavares, já que a estrutura de Olímpia estava montada devido à realização do ITF feminino nesta semana.

Até agora, não se sabe ainda se a ITF irá permitir que o feminino de Olímpia chegue ao fim ou se determinará a suspensão da rodada de hoje, que foi o modelo seguido pelos dois challengers em andamento pela ATP no Cazaquistão e África do Sul.

O adiamento do Circuito Feminino reuniria basicamente as mesmas jogadoras de Olímpia. Ou seja, o adiamento trará prejuízo às tenistas estrangeiras que vieram para cá.