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O sonho continua
Por José Nilton Dalcim
6 de julho de 2019 às 18:21

Os três maiores vencedores de Grand Slam da Era Profissional do tênis continuam sonhando em Wimbledon. Em sets diretos, Serena Williams, Roger Federer e Rafael Nadal completaram o quadro de oitavas de final neste sábado sem dar chances às zebras que atormentam os favoritos no torneio.

Serena jogou sua melhor partida da semana, num constante crescimento desde a estreia enferrujada. E Julia Goerges é uma adversária de respeito sobre a grama. Vai cruzar agora com Carla Suárez, mas sua chave continua muito dura, já que Ash Barty atravessa excepcional momento e Petra Kvitova espancou a bola, dando recado de que está totalmente recuperada. A reta final desse setor da chave promete ser eletrizante.

Rafa foi impiedoso com Jo-Wilfried Tsonga, e ratificou seu favoritismo com uma atuação de encher os olhos. É verdade que o francês está um tanto longe de seu melhor tênis, porém isso não diminui os elogios para a firmeza do espanhol no saque e sua requintada cobertura da quadra. Quando Tsonga se aventurou à rede, o espanhol achou espaços milimétricos para realizar a passada. Se mantido esse conjunto, João Sousa terá de fazer outra mágica. Primeiro português nas oitavas de Wimbledon, ele já tirou Marin Cilic e sobreviveu a um emocionante duelo com Daniel Evans neste sábado em que esteve várias vezes atrás.

Federer demorou para calibrar o backhand e viu Lucas Pouille ousado nas devoluções. Quando o semifinalista do Australian Open rendeu-se à pressão do final de primeiro set, o suíço se soltou e deu exibição na Central, alcançando bolas extremamente difíceis com soluções geniais. Federer ainda não jogou seu máximo em Wimbledon, mas nem precisou. O embalado Matteo Berrettini, uma das grandes surpresas da temporada, talvez exija isso. Ele salvou três match-points no quarto set do duríssimo duelo contra Diego Schwartzman, que se esticou por 4h19 e 374 pontos. O italiano cravou 75 winners, sendo 22 aces.

E mais
– Momento histórico na Central com a parceria de Serena e Andy Murray. Eliminado pouco antes na dupla com Pierre Herbert, o escocês jogou determinado e viu empenho da parceira, que se divertiu muito.
– Mais um recorde para Federer: 17 oitavas em Wimbledon, superando Connors. Somou também a 350ª vitória em Slam.
– Nadal chegou a 51 triunfos no Club, igualando Borg, e a 35 na temporada, dividindo a liderança com Federer.
– Uma espectadora de 60 anos sofreu uma parada cardíaca e precisou ser reanimada na arquibancada, o que causou longa interrupção do jogo em que Mikhail Kukushkin tirou Jan-Lennard Struff e avançou para as oitavas de um Slam pela segunda vez, sete anos depois do AusOpen. O cazaque tirou também John Isner. Enfrentará agora um descansado Kei Nishikori.
– Sam Querrey se irritou com torcedor antes de fechar a vitória sobre John Millman e o chamou de ‘idiota’. Semifinalista do torneio há dois anos, faz duelo nacional contra Tennys Sandgren, que prevaleceu sobre um cansado Fabio Fognini.
– Há quatro tchecas nas oitavas. As Karolinas Pliskova e Muchova fazem duelo direto e Kvitova pode cruzar com Barbora Strycova nas quartas.
– Jo Konta é última esperança britânica nas chaves de simples. Semi de Roland Garros no mês passado, ela só fez uma grande campanha na grama sagrada, há dois anos, quando atingiu a penúltima rodada. A caminhada é difícil: agora pega Kvitova, contra quem tem 1-1 sobre o piso.

Que a grama os conserve
Por José Nilton Dalcim
23 de junho de 2019 às 22:50

O tênis masculino conheceu num mesmo domingo seus dois mais velhos campeões de nível ATP das últimas quatro décadas. Roger Federer, em Halle, e Feliciano López, em Queen’s, se tornaram os jogadores de maior idade a erguer um troféu de primeira linha desde Ken Rosewall, em 1977. O suíço nasceu apenas 42 dias antes do espanhol e ambos assim caminham para os 38 anos dentro de dois meses. O notável: esbanjam vigor físico e aquela essencial vontade de vencer.

Federer reencontrou o caminho da grama depois de sua excursão ao saibro europeu, mostrando que a mudança de calendário não o afetou. Ao contrário, talvez tenha até contribuído para o deixar com pernas mais fortes, algo que ele precisou muito na campanha de Halle, principalmente em duas rodadas exigentes diante de Jo-Wilfried Tsonga e Roberto Bautista.

Fato curioso destacado pela ATP, ele jogou Halle pela primeira vez no ano 2000 e nenhum tenista daquela chave continua em atividade, entre eles Ivan Ljubicic e o treinador de David Goffin, o sueco Thomas Johansson.

Embora sejam universos um tanto diferentes, Federer deixou bem claro que a 10ª conquista em Halle é muito animadora para Wimbledon, onde ele será mesmo o cabeça 2. Se ‘melhor de cinco sets’ podem pesar para a idade, não parece menos verdade que sua experiência em jogos longos sobre a grama serve como diferencial importante diante dos mais jovens.

Se eu fosse apostar hoje, cravaria Roger como o favorito ao título.

O nome da semana
Quando López ganhou convite e entrou na chave de simples de Queen’s, ele não era muito mais do que o parceiro que Andy Murray havia escolhido para tentar sua volta às quadras. Apesar de já ter vencido o torneio em 2017 e feito outra final em 2014, o ranking de 113º e os 37 anos nas costas não davam qualquer credencial ao canhoto espanhol, que ainda sonhava que o All England lhe daria ingresso direto em Wimbledon.

É bem verdade que Feli deu alguma sorte ao não precisar enfrentar Juan Martin Del Potro na segunda rodada, mas todos seus outros quatro jogos foram ao terceiro set, e três deles exigiram virada. Tirou o garotão Marton Fucsovics, o sacador Milos Raonic, a estrela adolescente Felix Auger-Aliassime e por fim o experiente Gilles Simon. A soma deu 9h13 de esforço, e uma parte considerável disso sob grande pressão.

A campanha nas duplas não foi menos exigente, obrigando López a ficar mais 6h02 em ação. O problema maior no entanto esteve no acúmulo dos jogos, já que a chuva do meio de semana o fez entrar duas vezes em quadra na sexta, três no sábado e mais duas no domingo. E querem saber? López jogou muito tênis no finalzinho do match-tiebreak da dupla, mostrando energia e determinação incomuns.

Para mim, López foi o homem de uma semana que teve muita coisa boa. O retorno vitorioso de Murray, com destaque para um primeiro saque muito firme, ótimo tempo de bola nas devoluções e passadas, voleios apurados e muita garra, jogando-se ao chão algumas vezes. Jurou não ter sentido qualquer dor no quadril, o que é ainda mais esperançoso. Ele irá jogar Eastbourne ao lado de Marcelo Melo e Wimbledon com Pierre Herbert (e talvez mistas) e considera a chance de jogar simples num challenger inglês em setembro.

Também foi excepcional ver as campanhas de Felix e do italiano Matteo Berrettini na grama, dois nomes da nova geração que se firmaram no saibro europeu e mostram aquela versatilidade essencial para quem deseja brigar lá em cima do ranking. Está certo que ficaram muito mais no fundo de quadra, mas essa parece a tendência inevitável do tênis atual até mesmo para a grama. Novak Djokovic, Rafael Nadal, Marin Cilic e Kevin Anderson que o digam.

Aliás, a ATP lembra que mais um campeão de 37 anos surgiu neste domingo: o ex-top 10 Tommy Robredo, em challenger sobre o saibro.

Vida longa e próspera a esses notáveis senhores.

Número 1 muda de mãos
A queda técnica e assuntos extra-quadra de Naomi Osaka desde a conquista do Australian Open se somaram à qualidade crescente de Ashleigh Barty e eis que enfim o tênis feminino tem uma nova líder, a 27ª de sua história e apenas a segunda australiana, após Evonne Goolagong, desde que o ranking foi criado, em novembro de 1976.

A rigor, a pequenina Barty saiu do zero ponto ao topo da lista em apenas três temporadas, o que é um feito espetacular. Neste ano, venceu três torneios, um em cada piso, com destaque óbvio a Roland Garros, ainda mais que o saibro nunca foi o favorito. A grama combina muito mais com seu estilo requintado e daí que ela já vira séria candidata a Wimbledon, desde que saiba controlar ansiedade e bajulação, um binômio nada fácil de se administrar quando se tem 23 anos.

Thiem sobe mais um degrau
Por José Nilton Dalcim
28 de abril de 2019 às 22:24

O austríaco Dominic Thiem costuma dizer que sua carreira tem sido construída degrau por degrau. E tem bons exemplos. Precisou esperar cinco temporadas para ganhar o primeiro ATP, em 2015; teve de jogar 41 vezes, incluindo qualis, para enfim faturar o primeiro Masters. Fez duas semifinais em Roland Garros antes do vice do ano passado. E por aí vai.

Barcelona é mais um caso. Finalista dois anos atrás para Rafael Nadal, deu a volta por cima neste ano e chegou a um grande título. Talvez seja nisso em que ele aposte para Madri, dentro de duas semanas, onde foi à final nos dois últimos anos, e provavelmente também no Aberto da França.

Mas ao mesmo tempo é um tremendo exagero colocar Thiem entre os melhores saibristas do tênis profissional. Para entrar nessa lista, falta muita coisa, principalmente consistência e sucesso. Alguns números para explicar isso:

– Em termos de eficiência (percentual de vitórias e derrotas), Thiem é apenas o 16º colocado na Era Aberta, com 74,7% de aproveitamento. Até Jimmy Connors tem índice melhor. Nadal está com 91,7% e Borg chegou a 86,4%.

– Agora com nove troféus no piso, é o 35º mais bem sucedido. Entre os em atividade, está distante de Djokovic (13) e atrás de Robredo (11). O líder disparado é Nadal (57).

– Ao atingir 121 vitórias na terra em nível ATP ou superior, Thiem subiu para 138º na Era Profissional, muito atrás de Guga (179, em 59º). Nem mesmo Nadal, com 421, lidera. Estão a sua frente Vilas (679), Orantes (530) e Muster (426).

Discípulo de Muster
Ainda assim, é preciso colocar o discípulo de Thomas Muster – o maior tenista austríaco, canhoto que também batia backhand de uma mão, abusava da potência dos golpes de base e fez história no saibro – entre aqueles que podem dominar o piso já nesta temporada. E com grande chance de ser soberano nas próximas.

Só para lembrar aos mais novos, Muster ganhou 44 títulos na carreira, apenas quatro deles fora do saibro, uma lista que incluiu oito Masters e um Roland Garros. Liderou o ranking por seis semanas em 1996.

A conquista de Barcelona em cima de Daniil Medvedev não causou surpresa, exceto pelo início tenso e irregular. Assim que calibrou o backhand, atropelou o russo vencendo 12 dos 13 últimos games com um arsenal maravilhoso, que foi desde a força bruta até o toque delicado, um padrão sobre o saibro que Guga resgatou duas décadas atrás.

Madri começa dentro de oito dias e gera enorme expectativa, ainda que seja um torneio atípico devido à altitude e eventual teto coberto. O interessante é que irá colocar em duelo direto os bichos papões Nadal e Djokovic e os ousados Thiem, Medvedev e Fabio Fognini. Sem falar, é claro, de Roger Federer, do imprevisível Kei Nishikori e de alguns ‘Next Gen’ potencialmente perigosos. E é bom sempre tomar cuidado com Stan Wawrinka.

O fim de semana
– O tênis italiano continua em alta no saibro. Matteo Berretini, 23 anos e 1,96m, dono de saque poderoso, se juntou a Fognini e Marco Cecchinato entre os campeões de 2019 ao faturar Budapeste.
– Petra Kvitova estreitou drasticamente sua distância para o tão sonhado número 1. O merecido título em Stuttgart, regado a um Porsche Carrera, a deixa 136 pontos atrás de Naomi Osaka. Mas não vai ser fácil. Enquanto a canhota tcheca defende o título na Caixa Mágica, Osaka ganhou apenas uma rodada entre Madri e Roma do ano passado, e então leva significativa vantagem.
– Thiago Monteiro passou o quali de Munique com duas belas vitórias sobre Albert Ramos e Andrey Rublev e vai jogar o quinto ATP da temporada. Estreia duríssima contra Jan-Lennard Struff, aquele que tirou Goffin e Tsitsipas de Barcelona e endureceu contra Nadal.
– Fognini pode enfim chegar ao top 10 com o título no Estoril, mas precisa que Tsitsipas caia até a semifinal. Isso daria o aguardado posto ao campeão de Monte Carlo por meros 15 pontos.