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Festa e recorde dos italianos
Por José Nilton Dalcim
30 de setembro de 2020 às 20:16

O tênis italiano já teve dias de glórias em Roland Garros. A maioria aqui nem havia nascido nos tempos de Nicola Pietrangeli, talvez nem de Adriano Panatta, mas quem sabe nos de Francesca Schiavone. Nesta quinta-feira, quatro homens – recorde na Era Aberta em qualquer Grand Slam – e uma mulher avançaram à terceira rodada e é bem provável que Matteo Berrettini, o melhor de todos no ranking, se junte a eles.

Marco Cecchinato já brilhou em Paris, há três anos, com uma inesperada semifinal e não vingou. Jannik Sinner tem um potencial notável, indicado pela ATP tempos atrás como dono do backhand mais veloz do circuito. Os dois estão no caminho de Alexander Zverev, que foi levado a cinco sets pelo voleador Pierre Herbert. Cecchinato é o adversário imediato do alemão e é bem provável que Sinner seja o seguinte. Não dá para desconsiderar a hipótese de vermos o garoto de 19 anos e em seu segundo Slam desafiar Rafael Nadal nas quartas.

Aliás, Stefano Travaglia é o próximo na lista de Nadal, que continua em ritmo de treino. Travaglia não é mau jogador no saibro, usa variados recursos como o piso exige. Mas, aos 28 anos, nunca sequer entrou no top 70 e agora, em seu nono Slam, finalmente ganhou dois jogos seguidos. Merece crédito pela vitória suada diante de Kei Nishikori, num jogo de 101 erros não forçados dos quais 50 foram do italiano.

Lorenzo Sonego avança num setor esvaziado da chave e tem chance contra Taylor Fritz, mas dificilmente passará por Diego Schwartzman em eventuais oitavas, ainda que seja um top 50 de 25 anos e com jeito para jogar bem na terra. Saca forte, gosta de atacar mas é muito inconsistente.

Boa surpresa mesmo causou Martina Trevisan, canhota de apenas 1,60m. Passou o quali para jogar seu primeiro Slam aos 26 anos e mostrou eficiência defensiva além de cabeça boa para virar o jogo em cima de Cori Gauff. A tarefa contra a versátil Maria Sakkari não vai ser fácil. Vale lembrar que Monica Seles foi a última canhota a ganhar Roland Garros há 28 anos.

A única marca ruim do tênis italiano ficou por conta de Sara Errani. Não por sua derrota de 3h11, onde lutou bravamente como sempre, mesmo por vezes tendo de sacar por baixo tal a falta de sincronia de movimento. Mas pela ironia e desdém com a adversária, que parecia ter problemas físicos claros. Acusou Kiki Bertens publicamente de fingir contusão, ainda que a holandesa tenha sofrido cãibras e saído da quadra de cadeira de rodas. Não ficou bonito. (Veja aqui as cenas)

Dia agitado
Rafael Nadal brigou mais com as rajadas de vento do que contra o tênis quadradinho de Mackenzie McDonald, cujo maior feito foi tentar um saque por baixo (veja que bizarro), muito mal feito diga-se. Não tenho dúvidas que o espanhol reservou uma quadra para treinar à tarde, porque o jogo não valeu quase nada.

Dominic Thiem quase se enrolou no terceiro set contra Jack Sock, mas evitou o desgaste físico bobo. Vai ter uma terceira rodada interessante contra Casper Ruud, ou seja, dos favoritos é quem vem sendo realmente testado. E não para por aí: é quase certo que nas oitavas surja Stan Wawrinka no caminho e, depois, Diego Schwarztman. Dá para ser pior?

O feminino, ao contrário, viu baixas de peso. Serena Williams nem entrou em quadra devido ao tendão de Aquiles problemático e Vika Azarenka fez um jogo ruim e pouco inspirado. Além do sufoco de Kiki Bertens, sobrou ‘pneu’ para Elina Svitolina.

Tudo aponta cada vez mais na direção da romena Simona Halep, que ficou na Europa e só jogou no saibro desde o retorno do circuito. Amanda Anisimova merece cuidado, mas os golpes retinhos não devem incomodar na lentidão de Paris.

Saiba mais
– Zverev correu risco o tempo todo contra um inspirado Herbert, que foi magnífico nos voleios e nas deixadas mas, como sempre, falhou bisonhamente em lances capitais. O francês que resta agora é o canhoto Hugo Gaston, 20 anos e bom jogador, mas que terá Wawrinka pela frente.
– Além de El Peque, o tênis argentino avança com Federico Coria e Nadia Podoroska, que tiraram cabeças de chave. Guido Pella pode se juntar a eles se vencer Carreño.
– Eugenie Bouchard fez jus ao convite e pela primeira vez desde janeiro de 2017 ganhou dois jogos seguidos de Slam. Ela hoje é 168 do ranking.
– Três qualis estão na terceira rodada masculina: Cecchinato, Martinez e Korda.
– Acorde cedo para torcer por Thiago Monteiro: ele fará o primeiro jogo da quadra 4, portanto às 6h, contra Marcos Giron.
– Dia importante para Djokovic: se vencer Berankis, somará 70ª vitória em Roland Garros, igualando Federer e ficando somente atrás de Nadal.
– Tsitsipas e Rublev, depois das viradas de 0-2, podem precisar de fôlego diante de Cuevas e Fokina.
– Pliskova e Ostapenko fazem o grande duelo feminino da quinta. Tcheca tem 4-2 no histórico.

Palmo a palmo
Por José Nilton Dalcim
18 de setembro de 2020 às 20:03

Embora em situações diferentes, os dois grandes favoritos para o título masculino em Roma deram o segundo passo rumo à que parece ser a inevitável conclusão do torneio, na segunda-feira. Novak Djokovic encarou um primeiro set bem complicado diante do amigo e parceiro de treino Filip Krajinovic, vivendo alguns altos e baixos, e Rafael Nadal mostrou versatilidade diante de Dusan Lajovic, o sérvio que bate backhand com uma mão.

A disputa entre Djoko e Nadal pela hegemonia dos Masters é bem equilibrada. Ambos somam 35 títulos e 51 finais. Rafa leva vantagem nas semifinais (73 a 68), vitórias (386 a 362) e eficiência (83% a 82,1%). E não é lá muito justo acusar o espanhol de ser soberano num piso só. Vejam: Nadal tem 25 títulos no saibro, mas Djokovic soma 26 na dura. Não há Masters na grama.

O primeiro set entre os sérvios foi uma maratona de 88 minutos, em que cada um perdeu seu primeiro game de serviço e desperdiçou chances preciosas de quebra. Djokovic poderia ter simplificado com os dois set-points que atingiu no 10º game, um deles numa devolução de segundo saque raramente falha. Aí no tiebreak levou um susto, ao ver Krajinovic sacar com 4-1. Um único vacilo e a virada veio, mas Nole ainda precisou de três set-points para concluir, depois de desperdiçar um deles com uma dupla falta que saiu 1 metro.

Há de se elogiar acima de tudo a exibição arrojada e sólida de Krajinovic. Entrou com proposta ofensiva, aguentou a pancadaria, correu demais atrás de curtinhas, foi à rede e contra-atacou com qualidade. Tremendo esforço. Djokovic fez lances excepcionais, mas também errou bastante, ainda que muitas vezes tenha sido por mínimos centímetros. Quando aquele forehand mais rasante na paralela – que exibiu com enorme desenvoltura em Flushing Meadows – começou a entrar, disparou.

Nadal se deu ao luxo de tentar variadas táticas. Devolveu lá atrás, jogou em cima da linha, cruzou backhand, subiu à rede, deu curtinha. Cardápio completo diante de um Lajovic apenas esforçado. Mais uma vez, o primeiro saque do espanhol foi o ponto menos consistente, a ponto de perder dois games de serviço.

As quartas de final deste sábado não prometem surpresas para os dois. Djokovic será favoritíssimo diante do quali alemão Dominik Koepfer e Nadal entra com histórico de 9 a 0 sobre Diego Schwartzman.

Matteo Berrettini é a esperança local e tenta sua segunda semi de Masters diante do bom norueguês Casper Ruud, que tem jogo de base firme. Quem vencer, provavelmente desafiará o número 1. Já Grigor Dimitrov faz uma campanha digna, marcou ótima virada sobre Jannik Sinner e encara outro ‘nextgen’, o canadense Denis Shapovalov. Vale lembrar que Dimitrov é outro grande ‘freguês’ de Nadal, com 13 derrotas em 14 jogos.

Quem vai parar Azarenka?
Nem mesmo a troca radical de piso atrapalhou Victoria Azarenka. que já ganhou mais três jogos em Roma, entre eles uma incrível ‘bicicleta’ sobre a número 5 Sofia Kenin. A bielorrussa também jogou pouco hoje, já que a russa Daria Kasatkina se machucou no começo do tiebreak, e agora se prepara para desafios. De quebra, uma bela atitude ao socorrer e consolar a adversária.

Neste sábado, encara a força de Garbiñe Muguruza sobre as quadras de saibro e, se passar, poderá cruzar com a cabeça 1 Simona Halep. É um quadro digno de finais de Roland Garros. Mas nem de longe indicará a possível campeã, porque no lado inferior estão a atual campeã Karolina Pliskova e a vencedora dos dois anos anteriores, Elina Svitolina. E cada uma tem problemas nas quartas. Svitolina encara Marketa Vondrousova, a inesperada vice de Paris no ano passado, e a tcheca joga contra Elise Mertens, uma jogadora completa e que vem de 15 vitórias nos quatro últimos torneios.

E de sobra, fiquemos na torcida por Luísa Stefani, que está na semi de duplas ao lado da parceria Hayley Carter. Não vai ser fácil, já que encaram as duas líderes do ranking e atuais campeãs de Wimbledon, a taiwanesa Su-Wei Hsieh e a tcheca Barbora Strycova.

E mais
– Caso Djokovic mantenha o amplo favoritismo deste sábado, ele atingirá um feito curioso: irá superar Guillermo Vilas no percentual de vitórias sobre o saibro. Neste momento, o sérvio é o quinto colocado, com 79,7%, e o canhoto argentino está a sua frente, com 79,74%.
– Em número absolutos, Vilas é o tenista que mais ganhou no piso na Era Aberta, com 681 vitórias, acima de Manuel Orantes (555) e de Nadal (438).

Bem vindo, Rafa
Por José Nilton Dalcim
16 de setembro de 2020 às 19:45

Depois de quase sete meses sem disputar qualquer jogo, nem mesmo amistoso, Rafael Nadal retornou ao circuito no tradicional saibro de Roma e a impressão que deu foi a melhor possível dentro das circunstâncias, como se quase nada tivesse acontecido.

O último dia em que Nadal entrou em quadra foi na conquista do ATP 500 de Acapulco, no dia 1º de março. Ficou totalmente parado ao longo do período de isolamento social na Espanha e só retornou aos treinos quando foram relaxadas as normas. Decidiu não competir nos torneios combinados de Flushing Meadows, apostando todas suas fichas no saibro.

Freguês de carteirinha, Pablo Carreño, aquele que ficou a um set da final do US Open cinco dias atrás, mal serviu para um treino. É bem verdade que fez uma opção pelo risco e cometeu erros bisonhos, mas Rafa não tem nada a se queixar. Mostrou ótima mobilidade, fugindo até mesmo do backhand lá na linha de dupla, e fez o que melhor que sabe no saibro, aquela excepcional mistura de topspin defensivo todo enroscado com golpes muito agressivos. Totalizou 20 winners e 11 erros, ganhou 31 dos 39 pontos com o saque e olha que a média de primeiro serviço deixou a desejar, na casa dos 49%.

Quando pisa no saibro, Nadal vira um semideus. Seu percentual de aproveitamento é absurdo: 437 vitórias e apenas 39 derrotas, ou seja, eficiência de 91,8%. A chave de Roma promete lhe dar diferentes desafios, como o slice de Dusan Lajovic ou o saque poderoso de Milos Raonic na próxima rodada, o jogo peso pesado de Andrey Rublev ou a correria de Diego Schwartzman nas quartas. Com o novo vexame de Stefanos Tsitsipas, concorrem à semi Fabio Fognini, Denis Shapovalov e Grigor Dimitrov.

Djoko sem sequelas
A quarta-feira também viu a estreia de Novak Djokovic e foi também muito bom perceber que o sérvio não mostrou qualquer sequela do drama vivido com a desclassificação em Nova York. O italiano Salvatore Caruso até foi competitivo no começo, fixando-se quase em cima da linha, de onde pegou na subida e trocou direções com competência. Mas bastou Nole achar o ritmo mais ofensivo da devolução para dominar com ampla superioridade.

Seu desafio de quinta-feira talvez seja o mais perigoso antes da presumível reedição da final de 2019 contra Nadal. O amigo e parceiro de duplas e treino Filip Krajinovic é um adversário respeitável no saibro e tem diferentes armas. Fora ele, o dono da casa Matteo Berrettini não pode ser subestimado e ficou como forte candidato à semi com a queda incrível de David Goffin diante de Marin Cilic.

Djokovic sempre se sentiu à vontade em Roma, conquistando quatro troféus, mas desde 2016 não achou mais o caminho dos títulos. Nesse ano, chegou a derrotar Nadal antes de perder a final para Andy Murray e na edição seguinte foi surpreendido pelo então garoto Alexander Zverev na decisão. Nadal foi quem o tirou na semi de 2018 e o superou na final de altos e baixos de 2019.

E mais
– O pessoal que gosta das contagens regressivas anote aí: faltam apenas nove para Nadal se tornar o quarto profissional a atingir a incrível marca de 1.000 vitórias, lista que tem Connors (1.274), Federer (1.242) e Lendl (1.068).
– O tênis italiano colocou de forma inédita oito representantes na segunda rodada. Três já avançaram: Berrettini faz duelo direto com Travaglia e Sinner tirou Tsitsipas no terceiro set, embora tenha tido 6/1, 5/3 e saque antes disso.
– O adolescente Musetti mostrou qualidades diante de um Wawrinka em seus dias de preguiça e pega o também ex-top 5 Nishikori nesta quinta. Vale assistir.
– Fognini é outra atração do dia, mas seu histórico em Roma é muito pobre: uma quartas em 12 tentativas. Para piorar, perdeu do 303º do mundo semana passada em Kitzbuhel. Seu adversário é o elétrico canhoto Humbert.
– Dimitrov fez coro às críticas inconsoláveis de Tsitsipas sobre o piso da magnífica quadra Pietrangeli. Eles acusam de estar muito irregular.
– E não se esqueçam: a final de Roma será na segunda-feira.

Desafio US Open
Kauê Guedes foi o único participante do Desafio US Open a dizer que Zverev precisaria de cinco sets para ganhar de Carreño e que Thiem venceria Medvedev em sets diretos. Assim, ele leva o prêmio e os parabéns: a Editora Évora enviará o livro cheio de dicas importantes de Fernando Meligeni, o “Jogando Junto”.