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Saibro sul-americano resiste, Bia espera recomeço
Por José Nilton Dalcim
10 de fevereiro de 2020 às 11:20

Atualizado às 14h46

Ainda que vários dos maiores nomes do saibro do momento tenham preferido a quadra dura ou ficar no inverno europeu, o circuito sul-americano de saibro sobrevive mais uma vez. Rafael Nadal, David Goffin e Fabio Fognini não quiseram se arriscar na terra e nem mesmo Felix Aliassime, sensação de 2019, se atreveu a tentar repetir os feitos. À exceção de Rafa, que só reaparecerá em Acapulco, todos preferiram a sorte em Roterdã, que ficou fortíssimo.

Dominic Thiem, o segundo na escala do saibro na atualidade, e a surpresa do ano passado Matteo Berrettini decidiram só vir ao Rio Open, o que não deixa de ser preocupante já que chegarão sem o ritmo ideal. O austríaco justificou extremo esgotamento após a campanha no Australian Open. Motivação especial será a chance de superar Roger Federer e atingir o inédito terceiro lugar do ranking, necessitando chegar nas quartas de final para tanto.

É importante observar que os acordos mais comuns entre promotor e tenista, agora que os cachês foram oficializados pela ATP, preveem valores diferentes conforme o desempenho em quadra, os chamados ‘bônus por desempenho’, conforme me explica Luiz Procópio Carvalho, o diretor do Rio Open. Isso protege os organizadores e incentiva os contratados, como deveria mesmo ser. Thiem muito provavelmente estará sob esse regime no Jockey Club.

O restante do circuito, que foi a Córdoba, está em Buenos Aires e terminará em Santiago, ficou basicamente com os homens da casa. Diego Schwartzman perdeu neste domingo o título de Córdoba para o bom Cristian Garin, Guido Pella  entrou como quarta força atrás do sérvio Dusan Lajovic e ao menos Buenos Aires terá a estreia do croata Borna Coric, que pretende jogar os três torneios seguidamente. Em fase instável, o agora 31º do mundo é incógnita.

Se dependesse dos promotores de Buenos Aires e do Rio, o saibro já teria sido trocado pela quadra dura há muito tempo, já que ambos dizem que a concorrência com os torneios da mesma semana é quase desleal. O saibro sul-americano se tornou uma ilha no meio do calendário e a duras penas consegue se sustentar. Viña del Mar, Quito e agora São Paulo não aguentaram o tranco financeiro. Entrou Córdoba e agora volta Santiago, mas também há sérias dúvidas se eles conseguirão pagar as contas. O evento chileno tem forte apoio do governo, mas o país hoje vive crise social.

A perna do saibro sul-americano sempre foi defendida por Nadal e seus seguidores espanhóis e argentinos, que reconhecem a necessidade de o piso ter um outro ponto alto no calendário fora da Europa. Mas quase não há espanhóis nos torneios deste ano por aqui. Roberto Bautista e Pablo Carreño preferiram o piso sintético. O nome de maior currículo é o veterano Fernando Verdasco, que tem companhia dos pouco atraentes Albert Ramos e Pablo Andujar. O garoto Alejandro Davidovich poderia ser o Aliassime de 2020, mas nem passou da primeira partida no quali de Buenos Aires.

Bia pega 10 meses
Beatriz Haddad Maia poderá comemorar seu 24º aniversário, no dia 30 de maio, da forma que mais gosta: dentro de quadra. Enfim, saiu a decisão da Federação Internacional sobre o confuso caso de doping da número 1 brasileira. A entidade considerou que ela não teve intenção de tirar proveito ilícito de medicamentos e seu teste positivo para dois anabolizantes foi fruto de uma contaminação nas vitaminas que foram manipuladas em laboratório.

Apesar de a pena de 10 meses ter sido anunciada, com perda de pontos e premiação nos três torneios desde o exame antidoping, foi um alívio. Antes de tudo, o reconhecimento de que não houve uma tentativa de se burlar as regras, o que é sempre essencial para a imagem de um atleta. Depois, a pena ficou consideravelmente curta e permitirá que Bia retome sua trajetória no dia 22 de maio. Não será fácil, porque até lá ela deverá ter apenas 2 pontos no ranking.

Bia no entanto se tornou uma especialista em recomeços. Que venha mais um.

E mais
– Novak Djokovic aderiu ao saibro… mas de Monte Carlo. Residente no principado há nove anos, ele anunciou mudança de calendário e sua presença no torneio, que ganhou em 2013 e 2015 e fez outras duas finais. Dizem que sua preocupação é manter a ponta do ranking. Ele caiu nas quartas no ano passado para Daniil Medvedev.
– Monfils ganhou seu nono ATP em 30 finais disputadas, mas terá de lutar para se manter no top 10 porque defende os 500 pontos de Roterdã nesta semana. Outra ótima semana de Vasek Pospisil, que continua reagindo após a hérnia e se reaproxima do top 100.
– Marcelo Demoliner faturou seu terceiro ATP e voltou ao 48º posto, mas as meninas não ganharam um jogo sequer no qualificatório da Fed Cup diante da desfalcada alemã, em Florianópolis.
– Kim Clijsters marcou para Dubai, na próxima semana, seu segundo retorno ao tênis profissional, desta vez quase oito temporadas após seu último torneio, o US Open de 2012. A belga de 36 anos entrou até mesmo no Hall da Fama no período.
– Sucesso absoluto na exibição entre Federer e Nadal na Cidade do Cabo de sexta-feira: recorde quebrado, com público total de 51.954 pessoas, e arrecadação de US$ 3 milhões para a Fundação do suíço que ajuda crianças na África.
– No discurso de palco que fez ao ganhar o Oscar de melhor atriz, Rene Zellweger cita nominalmente ‘Venus e Serena’ entre os heróis que importam. Notável.

Analisando 2019: nova geração cava espaço
Por José Nilton Dalcim
7 de dezembro de 2019 às 00:46

É bem verdade que o topo do ranking continua firme e forte nas mãos do Big 3, mas se tirarmos o mais poderoso triunvirato já visto no tênis masculino é fácil perceber que a nova geração enfim chegou para ocupar seu lugar no circuito.

Cinco dos outros top 10 estão entre os 21 e 26 anos, e somando triunfos cada vez mais relevantes. Stefanos Tsitsipas, o mais jovem deles, conquistou o quinto mais importante torneio do calendário, troféu aliás que também já está na galeria de Alexander Zverev.

Com inesperado salto de qualidade em 2019, Daniil Medvedev faturou dois Masters e chegou a um vice de Grand Slam, desempenho semelhante ao do bem mais experiente Dominic Thiem, que somou nada menos que seis vitórias sobre o Big 3 em diferentes pisos. Por fim, Matteo Berrettini foi a grande surpresa, com títulos no saibro e na grama e a incrível semi no US Open.

Não restam dúvidas sobre o potencial diferenciado de Stef. O grego é dono de um arsenal poderoso. Ao mesmo tempo que o saque faz estragos e simplifica pontos, ele evoluiu na consistência na base e transformou o backhand numa arma, pegando as bolas mais na subida sem sair de cima da linha. Voleia com desenvoltura. Ficou muito perigoso nos pisos mais velozes, e olha que foi mal na grama. O essencial, no entanto, foi dominar a cabeça. Realizou uma reta final de temporada madura, sem chiliques e com ótimo físico. A seguir assim, pode ganhar de qualquer um, em qualquer piso.

Apesar de todo mundo ainda estar boquiaberto com Medvedev, acredito que o segundo nome da ‘nova geração’ a ser observado seja Thiem. Ainda que tenha 26 anos, não vejo motivo para tirá-lo da lista do Next Gen. O austríaco reúne habilidades e tem conseguido aparar seus defeitos. Tenista de golpes muito pesados e físico privilegiado, deixou de jogar tão atrás da linha, evoluiu nas devoluções e treinou a transição para a rede. Ficou bem mais completo e isso explica o sucesso inédito na quadra sintética. Pela primeira vez, venceu mais sobre o piso duro do que no saibro. Com exceção a Wimbledon, é sensato colocá-lo entre os candidatos para os demais Slam em 2020.

Medvedev é um caso à parte, a começar pelo estilo pouco ortodoxo. Joga ofensivo a partir do saque, mas se defende muito bem para seus 1,98m. Ganhou títulos de gabarito em quadras muito velozes, como Cincinnati e Xangai, sem ter um jogo de rede sequer razoável. O segredo é talvez menos técnico e muito mais mental, e vimos essa fortaleza em jogos longos e duros ou frente à torcida irada. No entanto 2020 tende a ser um outro universo. Ele já não é mais surpresa, os adversários estudaram suas fraquezas e haverá um caminhão de pontos a defender a partir de abril. É hora portanto de sabermos o tamanho de sua fome.

Zverev e Berrettini estão em extremidades opostas. O alemão já fez muito para seus tenros 22 anos, e isso gera cobrança constante, vinda de fora e, pior ainda, de dentro. Vejo o rapaz com dois problemas graves: a lenta evolução técnica – principalmente se comparada aos demais jovens – e a exagerada instabilidade emocional. Será que uma queda maior, que o tirasse do foco, não seria uma solução a médio prazo? Já o italiano ainda me parece um bom mas limitado jogador, que explora bem a força. É fato que muitos tenistas com um golpe de base fraco, como é o caso de seu backhand, foram longe em suas carreiras, mas aos 23 anos espera-se que ele trabalhe incansavelmente nisso.

Logo abaixo, eu listaria seis nomes a se observar: os canadenses Denis Shapovalov e Felix Aliassime, os russos Karen Khachanov e Andrey Rublev, o australiano Alex de Minaur e o norte-americano Taylor Fritz. São reais candidatos ao top 10, ao menos em algum momento da temporada. O dueto canadense é espetacular e promissor, mas ainda falta estabilidade emocional, um por ser explosivo demais, o outro por ser um tanto passivo.

Khachanov deu na verdade um pequeno e compreensível passo para trás em 2019 e Rublev reagiu muito bem à fase de contusões. São jogadores de golpes muito pesados e que precisam ganhar versatilidade. Rublev me agrada especialmente. São casos bem diferentes do incansável De Minaur, um lutador a quem carece iniciativa. O tênis no entanto já fez muitos guerreiros heróis. Por fim, Taylor Fritz é esperança real do tênis americano, porque não depende exclusivamente do saque e se vira muito bem na base, o que é a síntese do jogo moderno.

Não deixemos de observar Jannik Sinner, a sensação italiana de 18 anos que navega entre a consistência e a ousadia. Neste ano, ganhou futures e challengers, fez semi de ATP e entrou no US Open. Se ganhar massa muscular, será um perigo, ainda mais com a prestigiada orientação do genial Riccardo Piatti.

E mais
– Dos 15 novos campeões que surgiram nesta temporada,  oito têm no máximo 23 anos: De Minaur (19), Opelka (21), Djere (23), Garin (22), Fritz (21), Jarry (23), Hurkacz (22) e Shapovalov (20).
– Este é o maior número de campeões inéditos numa só temporada, superando os 13 de 2018 e 2004. Importante ressaltar que em 2012 houve apenas um.
– Dos 67 títulos em jogo, apenas 13 ficaram com o Big 3, embora se incluam aí os quatro Slam e cinco Masters. Foram 40 campeões diferentes, a lista mais diversificada desde os 41 de 2001.
– Seis novos tenistas chegaram pela primeira vez ao top 10 e quatro deles são da Next Gen: Tsitsipas, Medvedev, Berrettini e Khachanov. Os outros foram Bautista e Fognini.
– Desde que Nadal chegou à vice-liderança do ranking, em julho de 2005, nenhum outro tenista ocupou o número 2 que não fosse o Big 4.

Federer se vinga, Nadal agradece
Por José Nilton Dalcim
14 de novembro de 2019 às 21:33

Claro que nada no mundo do tênis se compara a um título em Wimbledon, mas Roger Federer deve ter experimentado um certo sabor de vingança ao tirar Novak Djokovic das semifinais de Londres e, consequentemente, determinar a permanência de Rafael Nadal como número 1 do ranking até o final da temporada. O melhor de tudo para o suíço esteve na sua atuação quase impecável, agressiva na medida certa, com muita aplicação na devolução de saque e paciência para explorar a instabilidade evidente do sérvio.

Era de se prever desgaste emocional e físico para Djoko depois da dura batalha de dois dias atrás diante de Dominic Thiem, e o volume de jogo mostrado por Federer desde o início complicou tudo. Jamais teve vida fácil, ficou pressionado o tempo inteiro e precisou de muita concentração para achar um jeito de sair de games apertados.

A única grande chance de reação veio no quarto game do segundo set, quando aprofundou devoluções e chegou ao break-point. Federer no entanto havia ganhado confiança e fez um ponto magnífico tirando o máximo de seu forehand. Para piorar, o sérvio perdeu o serviço imediatamente seguinte e teve de engolir a frustração de ver Federer reagir muito bem até em suas melhores devoluções ofensivas.

É possível analisar o jogo da perspectivas das falhas e da passividade de Djokovic, mas também é fundamental destacar a marca incrível de cinco erros não forçados de Federer, principalmente porque ele forçou o jogo o tempo todo. Mexeu-se muito bem, cobriu a tentativa de ataque a seu forehand e aplicou-se às devoluções, com 85% de saques retornados. O placar também se explica pelo saque afiado e variado: 38 pontos em 49 tentativas, 73% de primeiro serviço em quadra e 81% desses lances vencidos. De seus 23 winners, 12 foram aces, um deles de segundo saque.

Da mesma forma que Federer cresceu a cada partida feita na arena O2, Djokovic perdeu rendimento. Embora não saiba ainda se vai enfrentar Stefanos Tsitsipas ou Rafael Nadal na primeira semi de sábado, é de se imaginar que o suíço agora esteja no ápice de sua confiança. Amenizou o pesadelo de Wimbledon, pôs fim ao jejum de cinco derrotas para Nole que vinha desde 2015 e atinge a semi do Finals pela 16ª vez em 17 participações, o que é um assombro. Pode continuar com o sonho de atingir o heptacampeonato, agora como favorito.

A temporada ainda não acabou para Djokovic. Se mantiver o prometido, ele integrará o time da Sérvia na fase final da Copa Davis em Madri, já na próxima semana. Ele no entanto demonstrou algum desconforto com o cotovelo direito quando tentou alcançar uma bola difícil no começo do segundo set. Isso não pareceu comprometer seu físico no restante da partida, mas sempre fica a preocupação.

Na outra partida de simples desta quinta-feira, Dominic Thiem não se esforçou, o que é até compreensível, e Matteo Berrettini se mostrou firme no saque e no fundo, obtendo winners até de backhand. Foi premiado com a vitória e o feito histórico: tornou-se o primeiro italiano a ganhar uma partida no Finals em 49 anos. O austríaco também aguarda adversário, que será o segundo colocado da outra chave. Suas opções são bem maiores: Tsitsipas, Alexander Zverev ou Daniil Medvedev.

Nadal festeja e tenta vaga
Aliviado porque a briga pelo número 1 acabou, Rafa tenta seu segundo milagre em Londres. O primeiro foi ganhar de Medvedev na quarta-feira e o outro será não apenas superar Tsitsipas no primeiro jogo desta sexta-feira, às 11h, mas também contar com vitória do russo sobre Zverev no duelo das 17h. É a única combinação possível e, por ironia, se conseguir tudo isso terminará em primeiro do grupo e garantirá o reencontro com Federer no sábado.

Único tenista que pode terminar invicto a fase de grupos, Tsitsipas foi muito superior a Medvedev e Zverev nos jogos da semana. Este já será o sexto duelo diante de Nadal – e o quarto da temporada -, tendo vencido apenas no saibro de Madri. Nas quatro derrotas, o espanhol foi muito superior, como no placar esmagador de Melbourne, em janeiro. Para sonhar com a semi, Nadal terá antes de tudo de evitar as bolas pouco profundas que tanto caracterizaram suas atuações em Londres porque o grego não pensa duas vezes para atacar.

Zverev no entanto está mais perto de repetir a semi do ano passado. O atual campeão ganhou quatro dos cinco confrontos diante de Medvedev, embora tenha perdido feio em Xangai semanas atrás. O russo ainda não venceu em seu primeiro Finals, vem de amarga derrota para Nadal e precisa ganhar de Sascha em dois sets, e isso se Tsitsipas também vencer.

Vale por fim ressaltar que Nadal iguala Federer, Djokovic e Jimmy Connors ao terminar pela quinta vez uma temporada como número 1. Todos continuam atrás dos seis de Pete Sampras, que foram consecutivos. O espanhol marca dois feitos: o mais velho a encerrar na ponta, aos 33 anos, e o único a perder e retomar o posto por quatro vezes (2008, 2010, 2013, 2017 e 2019).

Melo e Kubot viram e garantem semi
Como emoção tem sido a tônica deste Finals, a vaga de Marcelo Melo e Lukasz Kubot na semi veio de virada. A luta era direta contra Rajeev Ram e Joe Salisbury, perderam o tiebreak mas conseguiram reagir e jogaram muito na reta final da partida. Kubot fez devoluções espetaculares e desconcertantes.

Brasileiro que mais disputou o Finals, com sete participações, Melo já esteve nas decisões de 2014, com Ivan Dodig, e 2017, com Kubot. Ainda não sabem o adversário, mas a chance maior é de pegarem os franceses Nicolas Mahut e Pierrer Herbert.

Aleluia! O SporTV promete transmitir ao vivo.