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Wimbledon perde pontos, mas não importância
Por José Nilton Dalcim
20 de maio de 2022 às 19:55

As três entidades que comandam o tênis se uniram e decidiram retirar os pontos de seus respectivos torneios durante Wimbledon. A ATP já havia ventilado essa possibilidade, obteve aprovação dos jogadores e informou ao All England Club que o mais tradicional campeonato do circuito, que festeja neste ano o centenário da sede atual, não valerá para o ranking. A WTA imediatamente seguiu na mesma direção e, de forma inesperada, a ITF também avisou que as chaves juvenis e de cadeirantes serão desconsideradas.

O argumento é que precisa haver total isonomia quanto se trata de ranking e a decisão unilateral da LTA, a associação britânica, de impedir que russos e bielorrussos disputem torneios na Grã-Bretanha ofende esse princípio básico. Os preparatórios, como Queen’s e Eastbourne, não sofrerão a mesma penalização porque as entidades entendem que os tenistas possuem alternativas, como disputar Halle e Hertogenbosch. Mas no caso do Slam, essa brecha inexiste e assim houve consenso que Wimbledon não pode valer para os rankings. De qualquer forma, a LTA e todos os promotores desses eventos estarão sujeitos a restrições e multas.

Não acredito que qualquer tenista, principalmente os de ponta, desistam de competir na grama sagrada por causa do ranking. Vencer um Slam e acima de tudo ganhar Wimbledon está acima de pontos e muitas vezes até da premiação. Assim, a medida é mais retórica do que prática, embora me pareça totalmente correta e bem fundamentada. As três entidades frisam que cada torneio é independente para determinar suas normas, ainda mais os Slam que só respondem ao Comitê que eles próprios criaram, mas não podem ferir conceitos essenciais.

A retirada dos pontos sem chance de defesa prejudicará Novak Djokovic mais do que qualquer outro, já que Ashleigh Barty se aposentou e Matteo Berrettini dificilmente competirá por conta da cirurgia. Karolina Pliskova, finalista, também terá perda importante. O sérvio dificilmente manterá a ponta, a menos que repita o título de Roland Garros e vença em seguida dois preparatórios para Wimbledon, o que amenizaria a perda dos 2.000 pontos.

Swiatek segue máxima favorita
Se o masculino promete emoções e mostra chance de surpresas a partir das quartas de final, a chave feminina tem uma super favorita: a polonesa Iga Swiatek, campeã em outubro de 2020. Aos 20 anos, disputa já seu 12º Grand Slam e quarto Roland Garros, onde nunca perdeu antes das oitavas.

Não estivesse num momento tão espetacular, poderíamos até dizer que a chave de Swiatek é bem exigente, com presença das campeãs Simona Halep e Jelena Ostapenko e das top 10 Paula Badosa, Aryna Sabalenka e Karolina Pliskova.

Invicta há 28 jogos e vinda de cinco títulos seguidos, dois deles no saibro europeu, Iga pode ter um curioso reencontro de terceira rodada com Ludmila Samsonova, a adversária que mais lhe deu trabalho nas últimas semanas e tirou um set na semi de Stuttgart.

Tudo indica que Halep seja a barreira das oitavas, já que Ostapenko perdeu na estreia dos quatro WTA 1000 que jogou desde março, incluindo Madri e Roma. A romena também não fez mais que quartas em Madri, porém sua temporada no geral é mais compacta.

Badosa e Sabalenka são as candidatas naturais às quartas, mas com reservas. A espanhola vive um momento ruim e pode se enrolar com Veronika Kudermetova ou Elena Rybakina, enquanto Sabalenka melhorou na parte emocional e talvez tenha maior problema contra Daria Kasatkina já nas oitavas.

Parece difícil que Barbora Krejcikova consiga ao menos repetir a final do ano passado, já que está ausente do circuito desde fevereiro por conta do cotovelo. Não há um nome fenomenal no seu quadrante, porém Camila Osorio, Sloane Stephens, Vika Azarenka e Jil Teichmann merecem cuidado máximo. É onde ficou também Garbiñe Muguruza, que pode ser a segunda adversária de Bia Haddad, que estreia contra outra espanhola, a quali Cristina Bucsa.

Eu diria que Maria Sakkari e Ons Jabeur são concorrentes mais sérias no lado inferior, onde estão Belinda Bencic, Angelique Kerber, Emma Raducanu e quem passar entre Naomi Osaka e Amanda Anisimova.

E mais

  • A Argentina colocou 11 representantes na chave de simples masculina e tem mais três na de duplas, com total recorde de 14 homens em Roland Garros. Mas não terá nomes no feminino, já que Nadia Podoroska, semi de 2020, continua afastada por contusão.
  • O tênis francês, que não vê campeão desde Yannick Noah em 1983, deu outro passo para trás e não terá cabeça de chave no masculino pela primeira vez desde 1980, já que Gael Monfils se machucou. O mais bem classificado é o canhoto Ugo Humbert, 46º e em péssima fase.
  • Feliciano López, recordista com 21 Roland Garros consecutivos, caiu no quali e encerrará sequência de 79 Slam seguidos. Fica ainda adiada a tentativa de igualar os 81 Slam disputados até agora por Roger Federer.
  • Atrações da primeira rodada são Shapovalov-Rune, Tsitsipas-Musetti, Jabeur-Linette, Fernandez-Mladenovic e Anisimova-Osaka. A segunda rodada prevê Djokovic-Molcan (hoje treinado por Vajda), Nadal-Wawrinka, Bencic-Andreescu e Osorio-Krejcikova.
  • Dominic Thiem não está confiante e aceitou convite para jogar o challenger de Perugia, na Itália, assim que Roland Garros acabar. O austríaco perdeu todos seus 6 jogos desde o retorno e tem boa chance contra Dellien.

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Maratona no Rio
Por José Nilton Dalcim
19 de fevereiro de 2022 às 10:25

Faltou alguém levar a sério a previsão do tempo e principalmente providenciar a tão decantada lona no estádio principal, mas aos trancos e barrancos o Rio Open deverá enfim definir pelo menos os semifinalistas neste sábado. que promete ser muito movimentado. A rodada começará bem mais cedo, ao meio dia. Chance de chuva só a partir das 17 horas.

Todo mundo sabe que a meteorologia nem sempre é precisa, porém era líquido e certo que as tardes cariocas seriam de muita chuva nesta primeira parte da semana. Se não era possível mudar os horários – e aí estão os acordos de TV e a venda de ingressos, que são vendidos em sessões separadas -, que ao menos estivesse em ação a lona. Aquela mesma lona que já deu tanta polêmica em outros anos, que enfim apareceu em 2017 mas que estranhamente não foi escalada para um evidente 2022 de tempo instável.

Depois de seis horas de espera, Matteo Berrettini concluiu a duríssima vitória sobre um valente Thiago Monteiro e garantiu o aguardado duelo contra Carlos Alcaraz, digna ‘final antecipada’ depois que Casper Ruud sentiu o abdômen e abandonou. Mas nenhum dos dois está jogando tudo isso e é bom tomar cuidado com o descansado Fabio Fognini.

Monteiro ficou perto de surpreender o top 10. Teve dificuldade em achar a devolução no primeiro set e, com bola curta, o forehand do italiano abre buracos em qualquer piso. Mas a partir do momento que os golpes do brasileiro ficaram mais profundos, o italiano se atrapalhou todo. Thiago não teve receio de bater firme, escapou dos match-points no tiebreak e tive a impressão que levaria o terceiro set porque era taticamente mais acertado em quadra. Aí veio a chuva, seis horas de espera, e na volta foi impossível defender o saque.

Alcaraz também está longe de ser confiável e talvez uma parte da culpa seja o clima muito úmido. Já havia feito uma estreia sofrível contra Jaume Munar e teve sorte de não jogar três sets diante do canhoto Federico Delbonis. Os dois esperaram mais de 24 horas para completar a partida, interrompida no 5/4 do primeiro set, e saíram de quadra às 2h30. É bom lembrar que Alcaraz pode ter que jogar duas vezes no sábado.

O velho Fognini chamou mais a atenção, principalmente na vitória sobre Pablo Carreño, que exigiu o máximo do físico e da cabeça. Por isso, tenho certeza de que ele gostou de não ir à quadra na sexta. Tem favoritismo óbvio contra Federico Coria e, se economizar pernas, pode repetir a final de 2015.

É o mesmo caso de Diego Schwartzman, que chegou estafado da campanha em Buenos Aires. Deu sorte com uma estreia muito fácil, descansou na sexta e acho muito difícil que não chegue novamente à final. O campeão de 2018 tem primeiro Pablo Andujar, depois Miomir Kecmanovic ou Francisco Cerundolo. É bem verdade que o sérvio treinado por David Nalbandian tem um jogo muito certinho.

Ao Brasil, resta torcer para que Bruno Soares enfim dê um título de duplas ao tênis nacional no seu maior evento. Eu tinha desconfianças quanto à adaptação de Jamie Murray ao saibro lento, mas o escocês foi bem até agora. O problema é encarar na semi os cabeças 1 e atuais campeões Granollers/Zeballos.

E mais

  • Bia Haddad furou o quali do WTA 1000 de Doha e reencontra Amanda Anisimova, para quem perdeu no saibro de Bogotá em 2019. A norte-americana venceu um 250 em Melbourne e tirou Naomi Osaka do Australian Open. Não vai ser nada fácil.
  • Novak Djokovic enfim começará a temporada em Dubai. Pega o habilidoso Lorenzo Musetti, o que pode ser um jogo interessante. A chave tem Rublev, Aliassime e Sinner. Se Nole perder nas duas primeiras rodadas, deixará o número 1 para Medvedev.
Só Medvedev pode impedir o 21. Outra vez.
Por José Nilton Dalcim
28 de janeiro de 2022 às 12:10

Daniil Medvedev está de novo no caminho da história. Há quatro meses, impediu de forma categórica que Novak Djokovic realizasse um dos maiores feitos do tênis e ainda por cima chegasse ao 21ª troféu de Grand Slam. Agora, é o único que pode impedir Rafael Nadal de se isolar como o maior campeão de Slam. Às 5h30 de domingo, ele buscará suas façanhas particulares e abrirá as portas para o número 1. O Australian Open não poderia terminar de forma mais eletrizante.

Tal qual aconteceu em 2017, Rafa chegou pouco cotado a Melbourne, obrigado a se afastar do circuito desde julho devido ao problema crônico no pé. Para piorar, ainda contraiu covid e atrasou a preparação. Não empolgou com o título de 250 conquistado pouco antes e tudo isso o colocava atrás na lista dos favoritos. Sua capacidade de superar desafios o levou a evoluir rapidamente ao longo das rodadas, viu o temido duelo com Alexander Zverev sair do caminho e usou o máximo de sua experiência na reta final. Terá a quinta chance de repetir o título já longínquo de 2009 e se recolocar na discussão sobre quem afinal é o Goat.

Medvedev ao contrário era dado como favas contadas, ainda que suas apresentações na ATP Cup tivessem oscilado. A trajetória no entanto se mostrou mais difícil do que o imaginado quando sorteada a chave, já que Nick Kyrgios e Maxime Cressy chegaram a tirar um set e, mais tenso ainda, Felix Aliassime o encarou de frente e ainda teve match-point para acabar com a festa. Mostrou por algumas vezes estar com os nervos à flor da pele, fez papelão nesta sexta-feira ao gritar com o árbitro porém recuperou a frieza sempre na hora certa. Se ganhar domingo, será o primeiro tenista da Era Aberta a vencer seu segundo Slam imediatamente após o primeiro.

Os dois sets iniciais de Nadal na semi contra Matteo Berrettini foram assustadores, lembrando o jogo contra Denis Shapovalov. Mesmo com teto fechado, o espanhol comandou a partida diante de um italiano incrivelmente frágil. Rafa por certo o surpreendeu ao se posicionar perto da linha para encarar o poderoso saque adversário e golpeou sempre a devolução de segundo serviço com um pé já dentro da quadra. Isso encurtou o tempo de reação de Berrettini e seu backhand foi um fiasco. Mesmo na postura ofensiva, disposto claramente a encurtar pontos, Nadal cometeu apenas sete erros nesses dois sets contra 24 do perdido oponente. Massacre.

Só então Berrettini conseguiu fazer aquilo que foi sua marca no torneio: sair do aperto com o primeiro serviço. Encarou games longos, achou enfim um ritmo lá da base e até foi firme à rede. Isso forçou Nadal a recuar cada vez mais e de repente lá estava ele atrás do ‘Melbourne’, sinal de que precisava agora de muito mais tempo para se defender e contraatacar, embora isso custasse abrir ângulos. O italiano esteve bem perto de esticar o quarto set, mas cometeu erros absurdos com o forehand, tanto num 15-30 decisivo como logo em seguida na perda final do serviço, em que mandou três direitas no meio da rede. Aí é pedir demais frente um adversário com a categoria do espanhol.

O reencontro entre Medvedev e Stefanos Tsitsipas foi talvez o jogo de melhor qualidade técnica do torneio, especialmente o primeiro set. Os dois se encararam em batalha de tirar o fôlego e o grego mostrava uma leitura magnífica, com backhand muito consistente, transições à rede atrás das bolas anguladas, saque preciso e devoluções agressivas. Exigiu o máximo do russo e sua única falha foi também a mais crucial: desperdiçar o 4-1 no tiebreak. Mas ele não se perturbou, seguiu na mesma balada para faturar o segundo set e levar Medvedev à loucura.

Após discussão muito ríspida com o árbitro Jaume Campistol ao ser quebrado e outra frase muito irônica no intervalo, sempre se referindo às instruções do pai Apostolos, Medvedev quase se perdeu no começo do terceiro set, o que poderia ser desastroso. Segurou a cabeça, evitou dois break-points com coragem e daí em diante perdeu um único ponto com o serviço. Ao permitir a quebra no game final do set, Tsitsipas enfim se rendeu e parecia não ter mais pernas para manter o ritmo ofensivo alucinante, chegando geralmente um passo atrasado. Só acertou dois voleios. Coincidência ou não, a partir do terceiro set a comissão de arbitragem colocou a grega Eva Asderaki pertinho de Apostolos.

Como todos devem se lembrar muito bem, Nadal e Medvedev farão a segunda final de Slam entre si, remetendo à emocionante decisão do US Open de 2019, em que o espanhol abriu 2 sets a 0 e depois levou um grande susto. Pouco antes, haviam lutado pelo título do Masters canadense, então com vitória super fácil de Rafa. Ainda no final de 2019, o espanhol venceu na fase classificatória do Finals com 7/6 no terceiro set. Um ano depois. enfim Medvedev venceu no mesmo Finals e de virada.

Claro que o russo evoluiu muito desde então, principalmente na forma de encarar os grandes nomes do circuito. Rafa sabe que terá de mudar radicalmente de estratégia e fazer o adversário correr sempre para a direita, já que o forehand defensivo é o golpe menos eficiente do russo. Os dois devolvem muito atrás da linha, sempre com objetivo de entrar em todos os pontos. Tecnicamente, Nadal tem mais recursos, isso não se discute, porém um duelo muito longo tende a ajudar o número 2 do ranking. Quem sabe, seja sua ideia principal.

E mais

  • Barty tenta às 5h30 deste sábado um feito de peso no circuito: ganhar um Slam em três pisos diferentes, algo que gente do gabarito de Monica Seles, Justine Henin, Venus Williams, Kim Clijsters e Arantxa Sanchez não conseguiram.
  • Primeira tenista da casa numa final em 42 anos e na luta para dar um título feminino que a Austrália não vê desde 1978, pode haver um considerável peso sobre a líder do ranking.
  • Collins faz primeira final de Slam aos 28 anos, já se garantiu no top 10 e venceu Barty no duelo mais recente, há um ano, em Adelaide, depois de sofrer três derrotas.
  • Os estilos são diferentes. Collins joga mais reto e busca pontos curtos, o que exigirá enorme precisão contra Barty, que se defende muito bem com slices e tem sacado com grande qualidade. O título também vale pouco mais de US$ 2 milhões.
  • Logo depois, às 7h30, a Austrália verá final caseira nas duplas masculinas, com parcerias surpreendentes. Kyrgios/Kokkinakis derrubaram os cabeças 1, 3, 6 e 15, enquanto Ebden/Purcell tiraram os 2, 4, 10 e 13.
  • Mladenovic e Dodig ganharam as mistas. A francesa tem agora oito Slam, sendo três nas mistas, e o croata chega ao sexto troféu, sendo quatro nas mistas.