Arquivo da tag: Martina Navratilova

Maria tem merecido lugar na história
Por José Nilton Dalcim
26 de fevereiro de 2020 às 21:03

A beleza estonteante, o saque devastador, os golpes agressivos quase sem efeito, acompanhados por um grunhido de 100 decibéis e um ritual todo próprio de concentração após cada ponto. Ainda que tenha sido uma figura por vezes polêmica, Maria Sharapova pendura a raquete sem jogo de despedida nem o glamour tão própria de si, mas com inegável lugar no livro de história.

Ainda que o anúncio da aposentadoria tenha sido inesperado, o fato é que seu último momento de lucidez estava já distante, no Australian Open do ano passado, quando caiu nas oitavas e teve até chance de ganhar de Ashleigh Barty.  Daí em diante ganhou apenas três jogos, com eliminação precoce em Wimbledon e no US Open. Deixou o top 30 em maio, a faixa das 50 em junho e não aparecia sequer entre as 100 em setembro.

Alento derradeiro, ganhou lugar em Brisbane e Melbourne no mês passado, sem sucesso. Apenas 373ª do ranking, nenhum progresso técnico evidente e confiança no fundo do poço, seria um tanto humilhante ter outra vez de tocar a carreira na base dos convites, como aconteceu na tumultuada volta após o caso de doping.

No entanto não se deve diminuir a importância de Maria na história do tênis profissional, e aí é preciso reforçar que a russa fez muito pelo esporte dentro e fora das quadras. Na verdade, o papel de musa nunca deixou que seu empenho esportivo diminuísse, transformando Sharapova num raríssimo caso em que a beleza se misturou ao sucesso, daí o peso de ouro que alcançou na balança dos negócios.

Todo mundo sabe que o atleta de gabarito ganha muito mais dinheiro com publicidade, mas Sharapova elevou isso à décima potência. Sex-simbol, abraçou também a carreira de empresária e se deu muito bem em tudo. A respeitada Forbes destaca em artigo de hoje que Maria figurou como atleta feminina mais bem paga do mundo por 11 anos seguidos, o que lhe rendeu a fortuna atual estimada em US$ 325 milhões. Ela só perde para Serena Williams (US$ 350 milhões) e, convenhamos, não dá para comparar os feitos no tênis de uma e de outra.

A trajetória de vida também deixa lições. A arriscada viagem da Rússia para tentar um lugar na Nick Bollettieri, com apenas um punhado de dólares no bolso do exigente e corajoso pai, depois que Martina Navratilova a viu numa clínica e garantiu que teria futuro no circuito. Valeu a pena. Aos 14 anos, já estreava no calendário profissional e, aos 17, desbancou Serena para conquistar Wimbledon. Tinha então apenas patrocínio de roupa e raquete. Um segundo depois, capitaneada pela IMG, assinava cinco grandes contratos, que lhe renderiam ao final daquela temporada insana seus primeiros US$ 18 milhões.

Sucesso de público e de mídia, chegava a cobrar US$ 500 mil por uma única partida de exibição. Antes da suspensão por uso de meldonium, embolsava US$ 30 mi por ano. Sharapova nunca aceitou a punição e recomendo um documentário na Netflix sobre sua versão dos fatos. Como não era medicamento proibido, ela teria consumido a droga desde 2001 devido a histórico de diabetes na família. Há pros e contras. O meldonium foi reconhecido pelas autoridades como um poderoso instrumento de fortalecimento físico, daí sua proibição. Tardia, é verdade. A ciência está eternamente correndo atrás do doping, e esse parece mais um caso, principalmente depois do escândalo do esporte russo.

O fato é que Sharapova nunca mais foi a mesma depois da volta, ainda que tenha recuperado todo seu poder de marketing. Tecnicamente, não foi mais a mesma, tendo conquistado apenas mais um título, o 36º da carreira, no pequeno Tianjin. Com exceções de uma presença em quartas de Roland Garros, ficou em segundo plano em todos os Grand Slam. Também é preciso lembrar de seus vários problemas físicos, especialmente com o ombro direito, que a levou à cirurgia e incontáveis duplas faltas.

Multicampeã, talvez Sharapova tenha cometido uma façanha maior do que o título tão precoce de Wimbledon ao conquistar duas vezes o saibro de Paris com seu tênis ousado de bolas retas. Isso a tornou também uma das 10 mulheres a ter vencido todos os Slam ao longo da carreira. Liderou o ranking por cinco vezes distintas, ainda que o total tenha sido de apenas 21 semanas.

Aos 32 anos – diz adeus antes de Serena, que caminha para os 39 -, os próximos episódios de Sharapova podem ser a cidadania norte-americana, que jamais pediu por respeito à família, e enfim ter filhos, um sonho revelado várias vezes. Seu namorado atual é o empresário britânico Alexander Gilkes, que sucede o cantor Adam Levine, o jogador de basquete Sasha Vujacic e o tenista Grigor Dimitrov.

As 12 raquetes mais famosas do tênis
Por José Nilton Dalcim
14 de fevereiro de 2019 às 10:58

Enquanto os grandes torneios não voltam, segue minha lista das 12 raquetes que fizeram maior fama na história do tênis, com alguns detalhes históricos e técnicos.

Dunlop Maxply Fort
Uma das raquetes mais populares de todos os tempos, era feita de uma prensagem de nove diferentes tipos de madeira. Surgiu em 1931 e foi usada por diversas estrelas de ponta, como Rod Laver. Com o sucesso de John McEnroe, criou-se a versão Maxply McEnroe, que foi comercializada até 1982, quando o norte-americano adotou a Max 200G.

maxply

Wilson Jack Kramer
Rivalizou com a Maxply Fort como a mais equilibrada e procurada raquete de madeira, desde que foi lançada em 1948 com o nome do famoso jogador norte-americano que brilhou nas décadas de 40 e 50. Por 35 anos, foi considerada a raquete mais vendida do mundo.

jack

Wilson T2000
Surgida em 1967, foi a primeira raquete não construída de madeira a fazer sucesso comercial no tênis. Começou a ser usada por Billie Jean King e Clark Graebner, mas se imortalizou nas mãos de Jimmy Connors, que conquistou Wimbledon de 1974 e 1982 com ela. A cabeça de 67 polegadas quadradas aumentava a força e dava controle acima de qualquer raquete de madeira. Connors tentou mudar, mas não conseguiu e passou a comprar todos os modelos que encontrava depois que a T2000 parou de ser fabricada.

t2000

Donnay Borg Pro
Fábrica originalmente belga, surgiu em 1910 e esteve nas mãos de Margaret Court e Rod Laver na década de 1960. Mas foi graças a Bjorn Borg, com seu sucesso internacional em nível popostar, que se tornou a maior fabricante do mundo. Sueco fechou contrato anual de US$ 600 milem1979, uma fortuna para a época. Donnay patrocinou depois Agassi, mas a marca não conseguiu fazer a transição ideal para o grafite. Sobrevive como uma pequena fábrica em Portugal.

donnay

Prince Pro
Causou uma mudança radical no tênis, principalmente para os amadores, ao mudar o material para alumínio e aumentar substancialmente o tamanho da cabeça da raquete. Enquanto as de madeira eram raquetes pesadas de 65 polegadas quadradas de área, a Prince Pro se tornou mais maleável com suas 100 polegadas.  Ganhou notoriedade com a juvenil Pam Shriver e seu sucesso no US Open usando a Prince Classic.

pro

Dunlop Max 200G
Uma das primeiras raquetes de grafite do mercado, não era fácil de lidar: 12,5 onças de peso e cabeça de 85 polegadas. Mas o sucesso alcançado por Steffi Graf e John McEnroe com a Dunlop Max 200G, que usava o então revolucionário processo de injeção de fibra de carbono e nylon para diminuir o peso do aro, foi absoluto. Teve uma variação chamada Black Max.

200G

Kneissl White Star
A marca austríaca inovou ao usar túnel de vento para desenvolver um aro de kevlar e fibra de vidro, com formato triangular e cabeça mid-size, que obtinha então menor resistência ao ar. Também trazia plástico nos buracos do encordoamento e proteção na cabeça para eventual contato com o chão. Lançada em 1985, prometia aumentar a velocidade dos golpes em 10%.

whitestar

Yonex R-22
Marca japonesa tradicional no badminton, a Yonex criou um modelo de fibra de vidro e usou Billie Jean King e Martina Navratilova como propaganda ainda na década de 70. Mas explodiu mesmo com a R-22, já de grafite e com uma cabeça de raquete diferenciada que aumentou a ‘zona doce’. Sucesso absoluto nas mãos de Martina e depois com Monica Seles.

r22

Prince 100 extendida
A ideia de aumentar o tamanho do cabo da raquete e criar um modelo mais longo foi da Dunlop. Marcas importantes como Wilson e Prince adotaram a sugestão e a Prince Graphite 100 usada por Michael Chang se tornou o modelo de maior sucesso. A raquete extendida tem 28 polegadas e ainda é encontrada no mercado atual.

prince100

Wilson Pro Staff
A linha Pro Staff já existia como madeira, mas ganhou respeitabilidade em 1983 quando passou a usar grafite. A cabeça 85 foi imortalizada por Pete Sampras e a de 90, por Roger Federer, embora existissem modelos até de 110 polegadas quadradas.

prostaff85

Babolat Pure Drive
A empresa francesa, criada em 1875, se restringiu a fabricar cordas por mais de um século até entrar no mundo das raquetes em 1994. Veio com uma proposta nova de encordoamento e explodiu no mercado em 2000 ao lançar a linha Pure Drive, que teve Andy Roddick como figura para penetrar no tênis norte-americano, onde rapidamente se tornou a terceira marca mais vendida. O aro leve prometia potência.

pure_drive

Head Radical
A marca austríaca teve modelos importantes de alumínio nos anos 1960 e criou a primeira raquete com composição de titâneo em 1997, mas o sucesso maior chegou com a linha Radical. O modelo foi desenvolvido para o estilo de Andre Agassi e surgiu em 1993. Com ele, o americano ganhou sete de seus oito Grand Slam. A Radical foi o modelo mais vendido no mundo entre 1999 e 2004.

radical

 

Adeus ao saibro e recordes na mira de Federer
Por José Nilton Dalcim
26 de dezembro de 2018 às 10:28

Quando entrar em quadra para estrear no Australian Open, dentro de duas semanas, Roger Federer festejará 19 anos de sua primeira vitória de Grand Slam, obtida sobre Michael Chang em Melbourne. Ao mesmo tempo, de forma totalmente inesperada, iniciará a defesa de seu atual bicampeonato. O que se pode esperar do suíço, já na casa dos 37 anos mas ainda o terceiro melhor do mundo?

Federer tem sido econômico no seu calendário. Não passa de 18 torneios desde 2010 e radicalizou após a contusão no joelho, reduzindo para até 12. Mostra clara sua preferência por condições um pouco mais velozes, não apenas para ajustar a seu estilo mas para economizar esforço. Ainda assim, vieram incômodos nas costas e na mão. O tempo é um adversário doloroso.

Existe a expectativa sobre a eventual volta ao saibro em 2019, o que soa sem dúvida como despedida já que muito provavelmente não fará isso em 2020, quando as Olimpíadas recheiam o calendário do segundo semestre.

Com sua qualidade e experiência, jamais pode ficar de fora das listas de candidatos aos torneios de pisos velozes, dos quais se incluem Austrália e Wimbledon e quem sabe o US Open. Mas Federer precisará contar com alto percentual de primeiro saque, recuperar a confiança no backhand, forçar mais o jogo de rede e ousar mais nas devoluções, talvez o recurso que mais o deixou na mão em 2018.

Vale ressaltar que, caso não atinja pelo menos a semi em Melbourne, Roger deverá deixar o top 5.

Grand Slam
Em termos de Grand Slam, os mais prestigiados, Federer detém todas as marcas numéricas possíveis: 20 títulos, 30 finais, 43 semis, 53 quartas, 339 vitórias e 74 participações. É também o único com ao menos cinco finais em cada Slam, a vencer três deles pelo menos cinco vezes e a ter faturado cinco troféus seguidos em dois diferentes Slam.

Mas ainda há muito a enriquecer seu currículo. Quem sabe…
– Tornar-se o mais velho campeão de Slam da Era Aberta. Ken Rosewall detém a marca desde o Australian Open de 1972, aos 37 anos e 63 dias.
– Mais 7 partidas e será primeiro a atingir 400 jogos disputados.
– Com 86,26% de aproveitamento em Slam, briga com Nadal (87,3%) e Djokovic (86,29%) pelo segundo lugar.
– Pode se tornar o maior campeão do Australian Open (tem 6, empatado com Djokovic).
– Se vencer Paris, será único a ganhar ao menos duas vezes cada Slam (Nadal tenta mesmo feito na Austrália e Djokovic, em Paris)
– O nono troféu em Wimbledon igualaria a marca absoluta de Navratilova
– Novo troféu no US Open o transformará no maior campeão do torneio (tem 5, empatado com Connors e Sampras).
– Concorre com Nadal para ter mais finais num mesmo Slam (soma 11 em Wimbledon contra 11 do espanhol em Paris)
– Tenta igualar recorde de 8 finais no US Open (Lendl, Sampras e Djokovic).
– Chance de se tornar único tenista a atingir 100 vitórias num mesmo Slam (tem 94 na Austrália e 95 em Wimbledon).

Geral
Fora dos Slam, há outras façanhas, e das grandes, aguardando Federer:
– São 99 títulos em 151 finais. Persegue os 109 e 164 de Connors.
– Outra marca centenária na mira: está com 94 finais na quadra dura.
– Faltam 60 jogos para a marca de 1.500 disputados e 20 vitórias para a 1.200ª
– Qualquer final em 2019 e Federer será único tenista na Era Profissional a ter disputado títulos por 20 temporadas seguidas
– Tenta quebrar seu próprio recorde de mais velho a figurar no número 1 (36 anos e 10 meses).
– Pode ser o tenista que mais vezes terminará o ranking no top 5 (empata com Connors com 14 temporadas)…
– …E no top 10 (iguala-se a Connors e Agassi, com 16).