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Djokovic tenta domínio, Peque busca façanha
Por José Nilton Dalcim
20 de setembro de 2020 às 17:40

Na segunda-feira em que se tornará o segundo tenista com maior domínio na liderança do ranking profissional, Novak Djokovic também terá a chance de assumir pela segunda vez a liderança isolada na contabilidade de títulos de Masters 1000.

Para coroar o momento, basta derrotar um velho conhecido, o argentino Diego Schwartzman, a quem superou em todos os quatro duelos já feitos. ‘El Peque’ nunca decidiu um Masters, mas por seu lado terá a chance de um feito para lá de histórico: bater Rafael Nadal e Djokovic num mesmo torneio sobre o saibro. De quebra, chegará enfim ao top 10. Porém, depois de um esforço de 3h10 na semi, a dúvida se ainda terá pernas para tanto.

Quando começou sua grande arrancada no circuito, em 2011, Djokovic tinha apenas 5 Masters contra 18 de Nadal. Finalmente empatou a conta em Indian Wells de 2016, com a 27ª conquista, e superou pela primeira vez duas semanas depois em Miami. Chegou então a abrir 30 a 28 ao final dessa temporada.

O sérvio no entanto viveu um considerável jejum. Entre agosto de 2016 e julho de 2018, não levantou qualquer Masters e aí o espanhol conseguiu inverter, com 33 a 30. Djoko venceria Cincinnati, Xangai e Madri e empataria. Mas por pouco tempo. Roma e Canadá deram os atuais 35 de Rafa, enquanto Nole diminuiu em Paris e igualou tudo novamente no Masters de Flushing Meadows.

Para atingir sua 52ª final desse quilate, o que já é outro recorde, precisou superar um primeiro set irregular, em que o forehand falhou muito mais que o habitual. Enquanto evitou a pressão sobre seu backhand, o garoto Casper Ruud se virou e chegou a ter 5/3 e saque. Os nervos afloraram e Nole adotou cautela cirúrgica nos pontos mais delicados. Ganhou quatro games seguidos, contando com um primeiro saque afiadíssimo na hora certa. O começo do segundo set ainda foi equilibrado, com chances de quebra para os dois lados, até que enfim Ruud claramente ficou mais lento e Djokovic disparou.

Schwartzman fez um duelo incrível diante do canhoto Denis Shapovalov, que foi decidido em mínimos detalhes, O argentino dominava o primeiro set até 5/3, aí se enrolou e quase permitiu reação. O canadense fez talvez a melhor exibição de sua carreira, mesclando extrema paciência e solidez no fundo de quadra com tentativas muito felizes de definição e novamente um magistral jogo de rede.

Levou um quarto set já muito brigado e chegou bem perto da vitória, ao abrir 4/2 no terceiro set. Ainda sacou com 5/4, mas o argentino como sempre lutou à exaustão. No tiebreak, Schwartzman fez 4-2, permitiu empate mas por fim prevaleceu sua consistência. Um jogo memorável.

Halep tem 3ª chance, Pliskova busca o bi
Depois de uma passagem sofrida na quadra sintética norte-americana, Karolina Pliskova reencontrou seu tênis no saibro e ganhou o direito de tentar o bicampeonato de Roma nesta segunda-feira.

Não deve ser fácil. Simona Halep também vem embalada de boas atuações e leva vantagem de 7 a 4 nos confrontos diretos com a tcheca. O que pode pesar para a romena é o fato de ter perdido suas duas finais anteriores no Foro Itálico, ambas para Elina Svitolina.

O grande trunfo de Pliskova diante da compatriota e canhota Marketa Vondrousova consistiu na maior paciência para construir pontos, evitando arriscar muito cedo.

Foi exatamente essa postura abusiva que custou caro a Garbiñe Muguruza, que anotou 35 winners e 27 erros diante de uma Halep bem mais consistente (21 erros e 22 winners). Ainda assim, a partida teve 16 quebras de serviço no total de 29 games.

El Peque ficou gigante
Por José Nilton Dalcim
19 de setembro de 2020 às 19:16

É quase impossível não torcer para Diego Schwartzman. O baixinho argentino vive numa terra de gigantes, onde sua média de saque de 161 km/h parece uma heresia e sua envergadura cobre talvez 30% a menos de espaço. Mas isso nunca o limitou. Ainda que não tenha grandes títulos na carreira – o maior foi o do Rio Open -, consegue se destacar em todos os pisos e isso o mantém há pelo menos três temporadas entre os 20 ou 30 primeiros do ranking.

Um de seus pesadelos terminou enfim neste sábado, ao derrubar o tabu de nove derrotas contra o todo-poderoso Rafael Nadal, o digno ‘rei de Roma’. O argentino foi o tenista realmente agressivo em quadra, mostrou notável solidez até mesmo para encarar os forehands cruzados do espanhol e ousou com curtinhas e voleios. Fez um primeiro set impecável e poderia ter vencido ainda com maior facilidade. Os números mostram o quanto ele mandou nos pontos: 31 a 21 nos winners e 17 erros frente a 30, vencendo 11 das 15 tentativas junto à rede, o que inclui o match-point. Para completar, ainda se mostrou superior nas trocas mais longas (23 a 16).

Faltou a Rafa esse poder decisivo. Tentou fazer um começo de jogo burocrático, apostando talvez que El Peque pouco a pouco caísse na armadilha. Quando viu que o adversário estava com a mão boa e com muita perna, foi obrigado a tentar decidir mais os lances e aí seu forehand o deixou na mão. A bola descalibrada na paralela é o sinal mais evidente de sua falta de confiança. Sem mais o que jogar, terá de solucionar esses problemas antes de Roland Garros começar, dentro de oito dias.

Às 14 horas deste domingo, Schwartzman tenta um novo passo para realizar outro sonho: chegar ao top 10. Ele encara mais um canhoto, Denis Shapovalov, em duelo inédito no circuito, e o próprio canadense é um candidato ao 10º lugar caso vença. Aos 21 anos e 20cm mais alto, Shapovalov é dono de enorme força física, backhand simples belíssimo mas nem sempre calibrado, jogo de rede cada vez mais vistoso. Mesmo tão jovem, já decidiu o Masters de Paris do ano passado.

Depois das quatro vitórias no US Open e de ter ficado perto da semi, adaptou-se rapidamente ao saibro e já tirou especialistas como Guido Pella e Pedro Martinez. Segurou a cabeça contra Ugo Humbert e se mostrou muito mais consistente do que Grigor Dimitrov neste sábado, mesmo com índice fraco de primeiro saque. O saibro não é sua praia, a ponto de ter vencido um único top 20 no piso e ter chegado a Roma com 12 vitórias e 12 derrotas na carreira.

E existe uma terceira surpresa nas semifinais de Roma, um ‘next gen’ bem menos badalado. Filho de ex-top 40, Casper Ruud é um genuíno jogador de saibro com seus golpes firmes da base e 1,83m ideais para o piso. A vitória deste sábado sobre Matteo Berrettini foi sua primeira sobre um top 10 em quatro tentativas e a segunda da semana em cima de um dos 20 primeiros, já que também tirou Karen Khachanov em três sets na primeira rodada. Fã confesso de Nadal e campeão de Buenos Aires em fevereiro, terá uma experiência inédita e obviamente dificílima contra Novak Djokovic.

Se servir de motivação para o garoto norueguês, o líder do ranking e tetracampeão de Roma esteve longe dos seus melhores dias diante do 97º do ranking, o canhoto alemão Dominik Koepfer. Deixou escapar vantagens confortáveis, o que o forçou a jogar o terceiro set, perdeu o controle e destruiu raquete, além de ser chamado de ‘Federer’ pelo juiz. Cometeu 38 erros, 26 deles de forehand, e ganhou apenas 45 de 75 pontos com o saque. Vencer é sempre bom, mas não dá para ficar radiante.

Quer dizer, depois da queda de Nadal, até que dá.

Feminino: imprevisível
As semifinais femininas de Roma também têm uma canhota de 21 anos motivada para barrar as concorrentes de maior nome: Marketa Vondrousova. Mas o fato é que a rodada deste domingo está completamente aberta.

A cabeça 1 Simona Halep jogou apenas 10 games antes do abandono de Yulia Putintseva e agora faz duelo de ex-números 1 contra Garbiñe Muguruza, que reagiu e virou em cima de Victoria Azarenka. A espanhola ganhou quatro dos seis duelos diante de Halep.

Muguruza e Vika fizeram um jogo de altos e baixos, marcado por 13 quebras de serviço num total de 31 break-points. Os erros também se destacaram, com 36 da vencedora e 31 da bielorrussa. Vika fez um segundo set tenebroso, com apenas cinco pontos no próprio saque, e quase levou o terceiro, virando de 1/3 para 4/3 e com break-point. Muguruza teve sangue frio e foi incrivelmente consistente na reta final.

A outra semi também é muito interessante, já que reúne a atual campeã Karolina Pliskova e a também tcheca Vondrousova, a atual vice de Roland Garros. Pliskova fez um jogo de risco, o que gerou mais winners e erros, e atropelou Elise Mertens no terceiro set. Vondrousova teve vida muito mais fácil e só perdeu três games para Elina Svitolina, abusando de curtas e lobs. Pliskova que se prepare para correr.

Thiem encara o desafio final
Por José Nilton Dalcim
8 de junho de 2019 às 20:02

Com um tênis espetacular, acentuado pelas difíceis condições de dois dias de muito vento, Dominic Thiem se deu a oportunidade de buscar pelo segundo ano consecutivo um troféu do qual parece um herdeiro natural. Não foi em 2018, talvez ainda não seja em 2019, mas Roland Garros muito dificilmente escapará de suas mãos em algum momento.

Atributos técnicos sobre o saibro não faltam a ele, e a batalha diante de Novak Djokovic na semifinal o elevou a um patamar mais alto na delicada questão emocional. Foi o tenista mais focado sob o vento perturbador de sexta-feira, conseguiu retornar no sábado com soluções diante da nova postura do número 1, não se desesperou quando a chuva interrompeu seu domínio no quinto set e ainda segurou a cabeça depois dos dois match-points perdidos. Por incrível que pareça, foi mais forte mentalmente do que Nole e por isso venceu.

A grande dúvida para o domingo é se terá pernas para aguentar a provável exigência física que encarar Nadal sempre gera. Ele ficou apenas duas horas a mais em quadra, cedendo um set nas três primeiras partidas, mas a diferença de esforço nas semifinais foi gigantesca. Enquanto Rafa gastou 2h25 nos três sets contra Roger Federer, o austríaco precisou de 4h13 diante de Djokovic e saiu da Chatrier apenas 23h antes do seu retorno para a final. Injusto? Talvez. Pode prejudicar a qualidade do jogo? Com certeza.

O histórico é favorável a Nadal, com oito vitórias em 12 duelos, dos quais apenas um não foi no saibro. Todos os triunfos de Thiem vieram na terra (Buenos Aires, Roma, Madri e a deste ano em Barcelona). Nadal ganhou as quatro em Slam, sendo três em Paris (2014, 17 e 18) sem perder set e aquela duríssima no US Open do ano passado. Fica claro então que o austríaco sabe o caminho para encurralar Nadal no fundo de quadra com seu spin pesado e angulado, o slice e as curtinhas, o saque violento. Mas a parte física e mental de duelos mais longos pesam indubitavelmente a favor da consistência superior do espanhol.

Thiem pode alcançar um feito gigantesco se conseguir o troféu superando os dois principais cabeças de chave. Isso só aconteceu oito vezes na Era Profissional. E na sequência, é ainda mais raro: sete, a mais recente de Michael Stich em Wimbledon de 1991, quando superou Stefan Edberg e Boris Becker. Em Paris, isso só aconteceu com Mats Wilander, em 1985, em cima de John McEnroe e Ivan Lendl. Thiem também concorre à condição de 150º diferente campeão de Slam da história

Descansado e confiante, Nadal defende a invencibilidade de jamais ter perdido uma final nas 11 tentativas anteriores em Roland Garros e tenta ser o único a ganhar 12 vezes o mesmo Slam. Mais ainda, um eventual 18º troféu o deixará perto do recorde de Federer, o que certamente é um tremendo incentivo adicional. Aos 33, poderá se juntar ainda ao clube dos jogadores com mais Slam como ‘trintão’, ao lado de Federer, Rod Laver e Ken Rosewall, todos com quatro.

E mais
– Caso conquiste o título, Nadal aparecerá quase 4.800 pontos atrás de Djokovic no ranking de segunda-feira. Thiem se manterá como quarto, mas pode diminuir para menos de 1.200 a distância para Federer com o título.
– Uma final repetida por dois anos em Paris só havia acontecido uma vez na Era Profissional (Nadal-Federer, por três edições, entre 2006 e 2008).
– O Big 3 atual venceu todos os nove últimos Slam, terceira maior série (a primeira teve 18 e a outra, 11). A última exceção foi Stan Wawrinka, no US Open de 2016.
– Desde que Nadal ergueu o primeiro troféu em Paris, em 2005, Wawrinka também foi o único de fora do Big 3 a vencer no saibro francês.
– Os últimos 11 troféus de Slam foram erguidos por tenistas com mais de 30 anos, o que vem desde Andy Murray em Wimbledon de 2016. A marca anterior era de 1969, com os quatro troféus de Rod Laver.

Barty dá a arrancada
A australiana Ashleigh Barty era uma aspirante ao top 10 quando começou sua temporada 2019. Fez final em Sydney e de repente deu o salto de qualidade em Miami, fazendo funcionar à perfeição sua gama tão repleta de golpes e um preparo físico mais apurado.

Brilhar no saibro, o piso que menos aprecia, não estava nos seus planos. Mas tudo se encaixou, jogo após jogo, desafios sucessivos e então a final e seu primeiro título de Grand Slam. A partida deste sábado contra Marketa Vondrousova foi, é verdade, um tanto sem graça, ainda que Barty tenha tido a oportunidade de mostrar como ataca e defende com enorme destreza.

Ela admite a surpresa da conquista, embora garanta que sempre acreditou no potencial. Agora como número 2 do mundo, dá facilmente para vislumbrar mais sucesso quando a fase de grama chegar, aí sim uma superfície em que se sente totalmente à vontade.

Barty também dá o primeiro título a seu país no saibro parisiense desde a multicampeã Margaret Court, em 1970, e de certa forma passa a integrar a comemoração dos 50 anos da conquista de Rod Laver na temporada em que ele daria em Paris o segundo passo para concluir o genuíno Grand Slam.

Título brasileiro
Quem segue este Blog há dois anos deve se lembrar que alertei para um garoto paulista de muito talento que precisava ser trabalhado para ter boas chances no circuito profissional. Matheus Pucinelli conquistou neste sábado o título de duplas juvenis de Roland Garros.

Pode parecer pouco, mas foi exatamente assim que Guga Kuerten começou a brilhar em Paris, em 1994. Lapidado no Instituto Tênis, Pucinelli deu ao tênis brasileiro um troféu de peso que andava faltando. E muito.