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Meninas de ouro
Por José Nilton Dalcim
31 de julho de 2021 às 13:32

Numa das campanhas mais surpreendentes do tênis brasileiro das últimas duas décadas, Laura Pigossi e Luísa Stefani superaram até mesmo o estigma de ‘cabeça fraca’ que os jogadores nacionais são acusados de possuir e, com quatro vitórias em cinco possíveis, chegaram a uma histórica medalha de bronze em Tóquio, superior a qualquer outro desempenho da modalidade na competição esportiva mais relevante do planeta.

Informadas seis dias antes de embarcar para Tóquio sobre a vaga inesperada, nossas melhores duplistas no ranking tiveram de fazer adaptações de urgência. Viagem longa, fuso horário avassalador, pouquíssimo entrosamento anterior entre elas, estilos um tanto conflitantes. Estava tudo contra elas, incluindo uma estreia difícil contra fortes canadenses.

Das quatro vitórias em Tóquio, três foram de virada e portanto no match-tiebreak, desafios que exigem muita frieza. Também evitaram oito match-points, quatro nas quartas e mais quatro na final deste sábado, e vamos ainda lembrar que o primeiro set da única derrota, na semi para as suíças, tiveram um set-point depois de liderar por 4/0.

A disputa do bronze contra as fortes russas nesta madrugada – acabaram de ser vices em Wimbledon – exigiu o máximo de Pigossi e Stefani, tanto no aspecto técnico como no controle emocional. Foram sets duros contra duas jogadoras que pegam muito pesado da base, mas as brasileiras conseguiram segurar muitas trocas importantes e foram extremamente oportunas junto à rede, como aliás aconteceu no ponto que deu a elas o match-point, em que Luísa mostrou incrível reflexo.

Salvar-se de 5-9, com dois saques do adversário a partir do 7-9, é um feito assombroso em qualquer circunstância, mas num jogo que valia tanto para o dueto brasileiro foi a mostra de maturidade e confiança. Simplesmente não erraram, mesmo com postura ofensiva, sem jamais segurar o braço.

Então a alegria de chegar a este bronze tão improvável não é apenas uma questão de nacionalismo, porém acima de tudo de mérito e competência. Além é claro de recolocar um grande foco sobre nosso tênis feminino, que reagiu nos últimos anos a partir do empenho hercúleo de Teliana Pereira, do crescimento técnico de Bia Haddad, da ascensão meteórica de Stefani e de tantas garotas extremamente sérias e dedicadas, como Pigossi, Gabriela Cé, Carol Meligeni, Paula Gonçalves ou Rebeca Pereira.

Jamais devemos esquecer que muito disso passa pela série de pequenos torneios profissionais promovidos no país desde 2011, eventos pouco mediáticos mas que são a base primordial para que possamos ganhar cada vez mais meninas de ouro.

Bencic é campeã, Svitolina faz história
Houve muito ponto bonito, mas a final olímpica feminina foi claramente tensa. Belinda Bencic e Marketa Vondrousova viveram muitos altos e baixos, tiveram dificuldades com o serviço e para sustentar vantagens, mas a suíça mostrou outra vez excepcional preparo físico e levou a terceira medalha de ouro do tênis para seu país, repetindo Marc Rosset, em simples de Barcelona-92, e os ainda ativos Roger Federer e Stan Wawrinka.

E a missão da ex-top 10 ainda não terminou. Voltará à quadra neste domingo para tentar outro ouro, agora em duplas, o que pode torná-la a quarta profissional a obter tamanha façanha. Bencic já pode ser apontada como o maior nome do tênis olímpico suíço, acima de Federer, que também possui uma prata de simples, em Londres-2012.

O bronze foi um duelo emocionante em que Elina Svitolina obteve notável virada em cima da cazaque Elena Rybakina, depois de levar uma surra no primeiro set. Esta é a primeira medalha do tênis ucraniano nos Jogos.

Sem medalhas e com vexame
E Novak Djokovic deixa Tóquio sem qualquer medalha no pescoço. Fez uma exibição de altos e baixos contra o espanhol Pablo Carreño, que se mostrou bem sólido o tempo todo e foi claramente superior no terceiro set. Emocionadíssimo, jogou-se ao chão para comemorar ao mesmo tempo a primeira efetiva vitória em cima do número 1 do mundo.

Nole alegou dor no ombro e sequer entrou em quadra para tentar o bronze nas mistas. Talvez, a frustração tenha sido o problema maior e isso ele deixou claro com duas explosões raivosas no terceiro set, a primeira arremessando a raquete na arquibancada e a outra, destruindo a raquete no poste da rede. Em ambas as situações, colocou-se outra vez no risco iminente de desclassificação. Será que a dura lição do US Open, justamente contra Carreño, não foi ainda o bastante?

De qualquer forma, Nole terá tempo suficiente para esfriar a cabeça e se preparar adequadamente para Cincinnati e US Open. Se o sonhado Golden Slam se esvaiu, fechar o Slam é apenas um degrau a menos na tabela das mais extraordinárias realizações que um tenista pode pretender na carreira. E a oportunidade continua muito aberta.

O ouro escapou. Duas vezes.
Por José Nilton Dalcim
30 de julho de 2021 às 14:04

A campanha tranquila e descontraída que Novak Djokovic vinha realizando no torneio olímpico de repente foi por terra. Perdeu em poucas horas as duas chances de ao menos lutar por uma ainda inédita medalha de ouro, e terá de se contentar neste sábado em concorrer por dois bronzes, que podem se somar ao de Pequim-2008. Está longe de ser sua grande meta, mas não é tão ruim assim.

O castelo do número 1 ruiu de forma um tanto estranha. Atropelou Alexander Zverev num primeiro set em que funcionaram muito bem o saque a a devolução e tudo parecia caminhar para a lógica final quando obteve quebra no quinto game, o que levou o alemão a levar advertência por jogar bola longe. Mas tudo mudou num passe de mágica. Sascha é verdade jogou bem pela primeira vez no saque do sérvio e aí embalou uma sequência de lances espetaculares, precisão milimétrica, cabeça fria e ótima movimentação que lhe deram incríveis oito games seguidos.

O semblante do sérvio deixava claro seu desconforto e me pareceu que ele sofria na parte física, aquele alto fator de umidade que costuma minar suas forças. Talvez isso tenha forçado as mudanças táticas, acelerando pontos com tentativas mais frequentes de ir à rede ou dar curtas. Seu problema é que Zverev já estava cheio de confiança, com saque afiado para sair de apertos e golpes muito pesados de contragolpe. Venceu 10 dos últimos 11 games. Foi absoluto na reta final da partida.

Para quem acha que título olímpico não vale grande coisa, basta ver a increduilidade que Zverev demonstrava diante do feito e da oportunidade. Não segurou as lágrimas e ganhou abraço apertado de Nole, que soube engolir a amargura com altivez. Retornou à quadra pouco depois e sua parceria com Nina Stojanovic deixou escapar diversas outras chances, caindo diante dos russos Aslan Karatsev e Elena Vesnina. Mais duro ainda, a quebra final foi em cima do sérvio, sem ganhar um único ponto.

O ouro será decidido domingo contra Karen Khachanov, que não poderá ver sua bandeira nem ouvir o hino de seu país. Ainda assim, está perto de repetir o feito de Yevgeny Kafelnikov de 21 anos atrás, em Sydney. Segurou muito bem a pancadaria de fundo de quadra contra o espanhol Pablo Carreño, que não se achou como na véspera diante de Daniil Medvedev.

Jogar na mão pesada com Khachanov não é exatamente a melhor aposta, ainda mais se o russo estiver confiante, e faltou ao espanhol mexer mais a bola e variar o ritmo. De qualquer forma, Khachanov parece mesmo ter reencontrado a tranquilidade para jogar um tênis competitivo, o que vem desde Wimbledon, e um eventual ouro pode lhe dar uma injeção de ânimo ainda mais profunda.

Conquista muito bem calculada
Depois de colecionar três medalhas de bronze no tênis olímpico, a Croácia entrou em quadra para a final de duplas masculinas com a certeza de que enfim colocaria um ouro no pescoço. E não foi fácil para Nikola Mektic e Mate Pavic confirmarem o favoritismo em cima de Marin Cilic e Ivan Dodig.

A conquista coroa o desafio a que Pavic e Mektic se impuseram já no final do ano passado, quando Pavic avisou Bruno Soares de que desfaria a parceria para 2021, já que a meta era buscar total integração com Mektic para tentar o título olímpico. E deu muito certo.

Aliás, os dois estão brilhantes no circuito regular também. Esta foi a nona conquista da temporada em 11 finais, incluindo Wimbledon semanas atrás, que veio depois do susto da covid que os tirou na última hora de Roland Garros.

O bronze inédito para a Nova Zelândia foi muito comemorado por Marcus Daniell e Michael Venus, ao vencer Austin Krajicek e Tennys Sandgren.

Pódio feminino
As meninas vão à quadra neste sábado para decidir o pódio de simples e há muita história a se buscar em todos os lados. Belinda Bencic tenta ser a primeira tenista suíça a ganhar ouro e a quarta profissional a vencer tanto simples como duplas num só evento, repetindo Massu e as irmãs Williams. Até hoje, Marc Rosset e a dupla Federer/Wawrinka foram únicos a chegar ao ouro pelo país.

Marketa Vondrousosa por sua vez pode ser a primeira tcheca campeã desde a volta do tênis aos Jogos, em 1988 (a República Tcheca passou a competir de forma independente em Atlanta-1996). A canhota tirou Naomi Osaka e venceu único duelo direto com Bencic, meses atrás em Miami.

A luta pelo bronze também é importante, já que nem a Ucrânia de Elina Svitolina, nem o Cazaquistão de Elena Rybakina ganharam medalhas no tênis olímpico até hoje.

A madrugada também terá Luísa Stefani e Laura Pigossi lutando pela medalha inédita do tênis brasileiro. O desafio contra as fortes russas Veronika Kudermetova e Elena Vesnina vale bronze e está programado para as 3 horas, mesmo horário do bronze de Djokovic.

A disputa do ouro das duplas femininas acontece no domingo, junto com a final de mistas. Vesnina e Karatsev fazem duelo todo russo contra Anastasia Pavlyuchenkova e Andrey Rublev. O bronze das mistas ficará entre Djoko/Stojanovic e Ashleigh Barty/John Peers.

Medalhas em jogo
Por José Nilton Dalcim
29 de julho de 2021 às 14:27

O torneio olímpico masculino e de duplas mistas já sabe quem terá direito a brigar pelo pódio, enquanto as duplas conheceram os candidatos finais à medalha de ouro numa intensa quinta-feira no Ariake Park. A partir desta sexta-feira, começam as decisões da 9ª edição em que o tênis profissional passou a competir nas Olimpíadas.

A torcida brasileira terá de aguardar até sábado para ver se Luisa Stefani e Laura Pigossi se tornarão as inéditas medalhistas do tênis nacional. A disputa do bronze será contra Veronika Kudermetova e Elena Vesnina. 16ª e 56ª do ranking de duplas respectivamente.

A semi diante de Belinda Bencic e Viktorija Golubic poderia ter sido diferente se as nossas meninas tivessem aproveitado o set-point, que escapou num smash falho de Stefani. E não apenas pela vantagem numérica em si, mas pelo fato de as suíças terem ficado muito confiantes a partir daí e ganharam 9 dos 12 games seguintes.

Ainda houve uma chance brasileira com dois break-points perdidos logo no terceiro game. Mas sejamos justos. Bencic jogou num nível muito alto, tanto técnico como tático, compensando deficiências evidentes na parceira. As paulistas tiveram ótimos momentos e alguns erros cruciais, o que não apaga a excepcional campanha feita até aqui. Bronze é ainda uma tremenda motivação.

Cada vez mais perto
Novak Djokovic continua favoritíssimo e desfilou em quadra diante de um Kei Nishikori incrivelmente frágil, sem energia para disputar um segundo set decente. A diferença física e de intensidade entre os dois parecia sugerir um duelo entre um adolescente e um ‘cinquentão’.

Agora, terá pela frente o único sobrevivente que, a meu ver, tem alguma chance de lhe dar trabalho. Alexander Zverev, afinal, já ganhou 2 dos 8 duelos diante do sérvio, ainda que tenha perdido todos os cinco desde a notável vitória na decisão do Finals de 2018.  O alemão continua sacando muito, e isso será essencial para ficar competitivo contra o número 1.

O segundo candidato ao ouro sairá do duelo entre Pablo Carreño e Karen Khachanov, um resultado um tanto inesperado para quem olhou a chave lá no começo. O espanhol foi muito sólido na base e explorou com inteligência as paralelas no forehand de Danill Medvedev, que reagiu no segundo set e teve 4/2 antes de jogar lances muito mal escolhidos. Destruiu raivosamente a raquete.

O outro russo fez campanha sem holofotes, mas tirou Diego Schwartzman e Ugo Humbert em três sets. Khachanov andou desanimado, caiu lá para o 29º mas em Wimbledon parece ter se reencontrado. Será o sexto duelo entre ele e Carreño no circuito, com vantagem apertada do espanhol por 3 a 2 no geral e de 2 a 1 do russo na quadra dura.

Bencic em dose dupla
Dona de saque pouco efetivo para o tamanho de seu jogo, Bencic é uma surpresa nesta final olímpica e vem mostrando cabeça e perna para suportar pressão. Tirou Barbora Krejicikova, Anastasia Pavlyuchenkova e agora Elena Rybakina, todas em três sets. Mostrou muita maturidade e confiança nas séries decisivas. Se tivesse trabalhado melhor o serviço nos últimos anos, a suíça seria certamente uma jogadora mais perigosa.

O ouro será decidido contra a canhota Marketa Vondrousova, que venceu o único duelo entre elas. A tcheca  só perdeu um set lá na estreia diante de Elise Mertens e depois teve atuações primorosas diante de Naomi Osaka e Elina Svitolina. Consegue equilibrar muito bem defesa e ataque. Fato curioso é que precisou usar ‘ranking protegido’ para ser a quarta do time de seu país.

Mais duplas
– A Croácia enfim terá sua medalha de ouro. E prata também. Nikola Mektic e Mate Pavic são favoritos diante de Marin Cilic e Ivan Dodig. O país somava três bronzes olímpicos, dois dele com Ivanisevic.
– Krejcikova e Katerina Siniakova serão as adversárias de Bencic e Golubic. Das quatro vitórias em Tóquio, três foram no match-tiebreak.
– Djokovic também está na luta pela medalha de mistas, ao lado de Stojanovic. Atropelaram Siegemund/Krawietz e enfrentam Vesnina/Karatsev. Os únicos cabeças de pé são Pavlyuchenkova/Rublev, adversários de Barty/Peers.
– EUA são o país que mais ganharam ouro (21) no tênis olímpico, seguido da Grã-Bretanha (17, mas recordista no geral, com 43). A Rússia tem 3 de ouro, Espanha e Suíça somam 2, tchecos e australianos apenas 1.
– Se o Brasil levar bronze, será o 34º diferente país a ir ao pódio olímpico desde 1896.