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E a surpresa virou caça
Por José Nilton Dalcim
30 de março de 2021 às 01:01

Nada como uma semana após a outra no duro circuito do tênis profissional. Grande sensação da temporada, o russo Aslan Karatsev chegou ao desfalcado Masters de Miami gerando enorme expectativa, mas foi sumariamente arrasado ainda na terceira rodada por um garoto que cresce lenta e de forma consistente. Sebastian Korda, 20 anos, que já havia virado em alto estilo em cima de Fabio Fognini, só permitiu três games ao agora 27º do ranking.

Sebastian não faz parte daquele grupo que possui um tênis muito vistoso ou golpes espetaculares, mas ele faz tudo de forma aplicada. Enquanto Karatsev errou 31 vezes, o filho de Petr Korda só perdeu três pontos quando acertou o primeiro saque. Importante observar: nascido na Flórida, em janeiro ele foi finalista de Delray Beach.

Mais acostumado aos challengers, Korda disputa apenas o oitavo ATP da carreira e o quarto da temporada. Precisa assim se adaptar a um nível muito mais elevado. Agora, por exemplo, terá de encarar um adversário totalmente diferente, especialista em trocas da base e da correria: o argentino Diego Schwartzman.

Quem passar, disputará vaga na semi contra Andrey Rublev, o principal nome dos novatos nos últimos meses, ou o nunca descartável Marin Cilic, que anda longe dos melhores dias mas ganhou dois jogos reanimadores contra Cristian Garin e Lorenzo Musetti. O russo ganhou os dois confrontos de 2019 quando ainda nem estava jogando tão bem.

No último quadrante, Stefanos Tsitsipas é o candidato natural, ainda mais depois da boa atuação contra Kei Nishikori, que exigiu muito nos dois primeiros sets e utilizou recursos bem curiosos e adequados, como voleios e deixadas, antes de se exaurir. O grego encara agora Lorenzo Sonego e pode cruzar Milos Raonic ou Hubert Hurkacz. Quem diria, o sobrevivente canadense do torneio é o agora ‘trintão’ Raonic. As duas partidas são inéditas no circuito.

O outro lado da chave
Vinha tudo razoavelmente bem com Daniil Medvedev até ele se atrapalhar sozinho na hora de liquidar a fatura contra Alexei Popyrin. Foi levado ao limite físico e virou dúvida contra um Frances Tiafoe cuja maior qualidade é justamente o incansável poder de luta. Por isso, não é totalmente improvável um duelo local contra John Isner nas quartas. Embora esteja devendo um bom resultado há algum tempo, o norte-americano tem histórico positivo contra Roberto Bautista.

A segunda vaga na semi na parte superior será obrigatoriamente da nova geração, e essa é outra boa notícia. Jannik Sinner também mostrou exaustão na dura virada diante de Karen Khachanov, mas para sua sorte Emil Ruusuvuori fez três jogos seguidos no terceiro set. Por isso, me parece que o vencedor de Taylor Fritz e Alexander Bublik tenha mais chances. O norte-americano é um tenista bem completo, ainda que falhe na parte emocional, e a lentidão do piso pode prejudicar o jogo de risco do cazaque, que venceu os dois duelos que fez contra Fritz.

Andreescu brilha
Com um punhado de jogos excelentes desde terça-feira, o WTA 1000 já viu surpresas e abandonos mas conserva suas duas principais cabeças de chave nas quartas de final, ainda que tanto Ashleigh Barty como Naomi Osaka tenham oscilado.

A líder do ranking faz seu primeiro torneio fora da Austrália em 14 meses, viajou 50 horas e mostrou dificuldade na estreia. O aguardado duelo contra Victoria Azarenka foi de incríveis altos e baixos. E agora vem um desafio talvez ainda maior, já que Aryna Sabalenka está jogando um tênis absurdamente agressivo e veloz, ainda que tenha escapado por muito pouco da estreia diante da velha e boa Tsvetana Pironkova.

Boa de briga e com notável capacidade técnica, o que lhe permite variar demais o ritmo, Maria Sakkari poderá ser um grande teste para Osaka caso se recupere da deliciosa batalha que travou contra Jessica Pegula, com direito a evitar seis match-points.

Mas quem chama a atenção mesmo é Bianca Andreescu. Mesmo depois do notável esforço de dois dias atrás, em que lutou por 2h45 contra Amanda Anisimova – o melhor jogo do torneio -, a canadense de 20 anos achou um jeito de superar de virada Garbiñe Muguruza, que vem tendo um ótimo início de temporada. Andreescu ficou cada vez mais agressiva conforme o duelo caminhou e sacou muito bem no set final. Tem chances reais de ir à semi diante de Sara Sorribes. Torço muito por ela, ainda mais depois do drama que foi sua longa parada devido à lesão no joelho.

O futuro?
Fez um enorme sucesso a matéria de hoje em TenisBrasil do garoto norte-americano que joga sem backhand. Mesmo nesse nível mais simples e amador, é evidente o trabalho de pernas notável que se precisa ter para um estilo tão arrojado. Mas já ouvi de treinadores bem experientes que esse pode ser o futuro do tênis. Será? Veja aqui e dê seu palpite.

A super década de Djokovic
Por José Nilton Dalcim
7 de dezembro de 2020 às 09:06

Maior colecionador de títulos, incluindo os de Grand Slam, de Finals e de Masters, e detentor dos melhores percentuais de vitórias em todos os campos, o sérvio Novak Djokovic foi de longe o rei da década que se encerra neste 2020. Não por acaso, terminou seis dessas 10 temporadas na ponta do ranking.

Com triunfos de peso em todas as superfícies, Djokovic ganhou nada menos que 87,6% de todas as partidas que disputou entre 2011 e 2020, período que marca seu auge absoluto. Seus mais diretos concorrentes ficaram consideravelmente distantes: Rafael Nadal atingiu 83,8% e Roger Federer, 83,5%. Também ergueu 63 troféus, 20 a mais do que o canhoto espanhol, e venceu 16 torneios de Grand Slam, cinco acima de Nadal. Em nível Masters, foi goleada: 31 a 17.

Vejamos os números que sacramentaram esse domínio incontestável de Nole na década que se encerra:

Títulos gerais
Novak Djokovic – 63 títulos
Rafael Nadal – 43
Roger Federer – 37
Andy Murray – 30
David Ferrer – 18
Dominic Thiem – 17
Juan Martin del Potro  – 15
Stan Wawrika e John Isner – 14
Alexander Zverev, Marin Cilic e Jo-Wilfried Tsonga – 13

Qualidade dos títulos
Djokovic – 16 GS, 4 Finals, 31 Masters, 0 Copa Davis
Nadal – 11 GS, 0 Finals, 17 Masters, 2 Davis
Federer – 4 GS, 1 Finals, 11 Masters, 1 Davis
Murray – 3 GS, 1 Finals, 8 Masters, 1 Davis, 2 ouros olímpicos
Wawrinka – 3 GS, 0 Finals, 1 Masters, 1 Davis
Cilic – 1 GS, 0 Finals, 1 Masters, 1 Davis
Thiem – 1 GS, 0 Finals, 1 Masters
Zverev – 0 GS, 1 Finals, 3 Masters
Medvedev – 0 Gs, 1 Finals, 3 Masters
Dimitrov – 0 GS, 1 Finals, 1 Masters
Tsitsipas – 0 GS, 1 Finals, 0 Masters
Delpo, Isner, Fognini, Tsonga, Ferrer, Sock. Khachanov – 1 Masters

Percentual de vitórias gerais
Djokovic – 87,64
Nadal – 83,86
Federer – 83,56
Murray – 79,42
Del Potro – 74,69
Nishikori – 70,06
Ferrer – 69,78
Raonic – 69,16
Berdych – 68,60
Wawrinka – 67,37

Percentual de vitórias em Slam
Djokovic – 90,56
Nadal – 88,04
Federer – 84,15
Murray – 83,13
Wawrinka – 76,39
Del Potro- 75,00
Berdych – 73,77
Cilic – 73,44
Raonic – 73,33
Ferrer – 73,28

Percentual de vitórias em Masters 1000
Djokovic – 86,67
Nadal – 82,52
Federer – 79,70
Murray – 72,62
Del Potro – 66,67
Zverev – 66,35
Raonic – 65,57
Berdych – 64,67
Nishikori – 63,75
Ferrer – 63,33

Thiem enfim joga como digno cabeça 2
Por José Nilton Dalcim
6 de setembro de 2020 às 00:50

Demorou, mas finalmente o austríaco Dominic Thiem voltou àquele tênis poderoso e agressivo, com golpes surpreendentes e corajosos, que o levou no começo do ano à inesperada final do Australian Open. É bem verdade que ainda perdeu um set de Marin Cilic e passou alguns apertos antes de completar a vitória, porém derrotou um genuíno adversário de piso veloz e um campeão do US Open.

Houve no geral muitos pontos favoráveis ao cabeça 2 do US Open na noite deste sábado. Usou muito bem o primeiro saque, o que automaticamente permitiu atacar a segunda bola. Exibiu um forehand angulado de grande força e precisão, mas o sinal mais claro do retorno da confiança esteve no backhand sólido. Fez uma sucessão incrível de winners com o plástico revés.

Para completar,  se mexeu muito melhor do que vimos no Masters ou nas primeiras rodadas desta semana. Ainda que tenha por vezes exagerado na busca das linhas, foi ótimo vê-lo correr atrás de todas as bolas, o que criou pressão constante no adversário. Fechou os dois primeiros sets com apenas quatro erros não forçados, depois caiu de intensidade. De qualquer forma, recupera o prestígio. Um alívio.

Com a vitória de Thiem, o único dos oito sobreviventes na parte inferior da chave com 30 anos é Vasek Pospisil, que fez uma partida primorosa de cinco sets contra Roberto Bautista e, sem abrir mão do ataque, marca seu maior resultado no US Open e o segundo mais valioso em um Slam depois de cinco anos.

Todos os outros seis classificados pertencem à nova geração. Já com resultados de peso, Daniil Medvedev e Matteo Berrettini fizeram 24 ao longo da pandemia. Andrey Rublev e Frances Tiafoe têm 22; Alex de Minaur, 21; e Felix Aliassime, apenas 20 e único entre todos que debuta em oitavas de Slam.

O adversário de Thiem será justamente Aliassime, duelo inédito, e embora o austríaco seja favorito natural é de se prever um ferrenho duelo de fundo de quadra. Se o garoto canadense mantiver o padrão dos últimos dois jogos, tem chance real.

Tiafoe encara tarefa das mais árduas contra Medvedev. Ele venceu uma vez o russo, mas lá em 2015, e no recente Australian Open tirou um set. O que mais me agradou no norte-americano nesta semana foi sua tendência de avançar mais à rede.

Muito firme no saque e na base, Rublev é forte candidato às quartas e terá revanche contra Berrettini, que o venceu nas oitavas de 2019 do mesmo US Open. Oficialmente, o russo ganhou um de três duelos, mas há poucas semanas levou a melhor sobre o italiano em exibição no saibro.

Por fim, o velocíssimo e raçudo De Minaur é o antídoto perfeito contra o jogo ofensivo de Pospisil, tanto que ganhou os dois confrontos entre eles, ambos em 2018. Como o jogo deve ir para o Armstrong, onde o piso é mais lento que nas quadras externas, sua chance ainda aumenta.

Show das mamães
O complemento da terceira rodada feminina foi uma festa para as mães do tênis: Serena Williams, Victoria Azarenka e Tstavana Pironkova fizeram excelentes apresentações. E não é nada impossível que elas façam uma série de confrontos entre si para decidir a finalista da parte inferior da chave.

Serena teve um início pouco inspirado, mas depois se soltou e, com o afiado e insuperável conjunto de saque e devoluções, virou com sobras em cima de Sloane Stephens. Assim como aconteceu com Thiem, foi enfim uma apresentação digna de Serena, mas agora vem um desafio interessante: encara a mesma Maria Sakkari que a tirou do Premier da semana anterior.

Se for à frente, já vislumbrar cruzar com Pironkova nas quartas. Superando a falta de ritmo de competição mas com jogo muito sólido, a búlgara atropelou Donna Vekic e segue sem perder set. Enfrenta agora a encardida Alizé Cornet, que viu Madison Keys desistir no segundo set. Este era o único Slam onde a francesa de 30 anos e ex-11 do ranking nunca havia chegado na quarta rodada.

A excelente sequência de vitórias e atuações convincentes seguem para Azarenka, que vai enfrentar a quarta adversária com menos de 25 anos no torneio. Passou com autoridade pela boa polonesa Iga Swiatek e precisa de cuidado com Karolina Muchova, quadrifinalista de Wimbledon no ano passado e responsável pela queda de Venus Williams logo na estreia.

O caminho de Vika promete encarar outra jovem, e das mais perigosas, antes de um possível duelo de mães. Sofia Kenin fez nesta noite seu jogo mais duro do torneio e precisou equilibrar melhor o dueto ataque-defesa diante do jogo versátil de Ons Jabeur. O histórico diante de Elise Mertens é de duas vitórias, porém sempre de virada. Então não pode vacilar.

E o Brasil avança
Dois excelentes resultados para o tênis brasileiro em Flushing Meadows. Luísa Stefani e a parceira Hayley Carter tiraram as cabeças 6 num jogo apertado, com destaque para o excelente trabalho de rede da paulista.

Com isso, ela é a primeira brasileira nas quartas de um Grand Slam desde 1982, quando Patrícia Medrado e Cláudia Monteiro chegaram tão longe em Wimbledon. A última semi coube a Maria Esther Bueno, quando  ganhou as duplas de Forest Hills em 1968, aliás seu único título de Slam na Era Profissional.

Bruno Soares e o croata Mate Pavic obtiveram outro grande resultado na difícil chave que ocupam, ao tirar o dueto norte-americano liderado por Jack Sock. Agora, eles enfrentam justamente a dupla britânica que tirou Marcelo Demoliner, formada por Jamie Murray e Neal Skupski.