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Thiem enfim joga como digno cabeça 2
Por José Nilton Dalcim
6 de setembro de 2020 às 00:50

Demorou, mas finalmente o austríaco Dominic Thiem voltou àquele tênis poderoso e agressivo, com golpes surpreendentes e corajosos, que o levou no começo do ano à inesperada final do Australian Open. É bem verdade que ainda perdeu um set de Marin Cilic e passou alguns apertos antes de completar a vitória, porém derrotou um genuíno adversário de piso veloz e um campeão do US Open.

Houve no geral muitos pontos favoráveis ao cabeça 2 do US Open na noite deste sábado. Usou muito bem o primeiro saque, o que automaticamente permitiu atacar a segunda bola. Exibiu um forehand angulado de grande força e precisão, mas o sinal mais claro do retorno da confiança esteve no backhand sólido. Fez uma sucessão incrível de winners com o plástico revés.

Para completar,  se mexeu muito melhor do que vimos no Masters ou nas primeiras rodadas desta semana. Ainda que tenha por vezes exagerado na busca das linhas, foi ótimo vê-lo correr atrás de todas as bolas, o que criou pressão constante no adversário. Fechou os dois primeiros sets com apenas quatro erros não forçados, depois caiu de intensidade. De qualquer forma, recupera o prestígio. Um alívio.

Com a vitória de Thiem, o único dos oito sobreviventes na parte inferior da chave com 30 anos é Vasek Pospisil, que fez uma partida primorosa de cinco sets contra Roberto Bautista e, sem abrir mão do ataque, marca seu maior resultado no US Open e o segundo mais valioso em um Slam depois de cinco anos.

Todos os outros seis classificados pertencem à nova geração. Já com resultados de peso, Daniil Medvedev e Matteo Berrettini fizeram 24 ao longo da pandemia. Andrey Rublev e Frances Tiafoe têm 22; Alex de Minaur, 21; e Felix Aliassime, apenas 20 e único entre todos que debuta em oitavas de Slam.

O adversário de Thiem será justamente Aliassime, duelo inédito, e embora o austríaco seja favorito natural é de se prever um ferrenho duelo de fundo de quadra. Se o garoto canadense mantiver o padrão dos últimos dois jogos, tem chance real.

Tiafoe encara tarefa das mais árduas contra Medvedev. Ele venceu uma vez o russo, mas lá em 2015, e no recente Australian Open tirou um set. O que mais me agradou no norte-americano nesta semana foi sua tendência de avançar mais à rede.

Muito firme no saque e na base, Rublev é forte candidato às quartas e terá revanche contra Berrettini, que o venceu nas oitavas de 2019 do mesmo US Open. Oficialmente, o russo ganhou um de três duelos, mas há poucas semanas levou a melhor sobre o italiano em exibição no saibro.

Por fim, o velocíssimo e raçudo De Minaur é o antídoto perfeito contra o jogo ofensivo de Pospisil, tanto que ganhou os dois confrontos entre eles, ambos em 2018. Como o jogo deve ir para o Armstrong, onde o piso é mais lento que nas quadras externas, sua chance ainda aumenta.

Show das mamães
O complemento da terceira rodada feminina foi uma festa para as mães do tênis: Serena Williams, Victoria Azarenka e Tstavana Pironkova fizeram excelentes apresentações. E não é nada impossível que elas façam uma série de confrontos entre si para decidir a finalista da parte inferior da chave.

Serena teve um início pouco inspirado, mas depois se soltou e, com o afiado e insuperável conjunto de saque e devoluções, virou com sobras em cima de Sloane Stephens. Assim como aconteceu com Thiem, foi enfim uma apresentação digna de Serena, mas agora vem um desafio interessante: encara a mesma Maria Sakkari que a tirou do Premier da semana anterior.

Se for à frente, já vislumbrar cruzar com Pironkova nas quartas. Superando a falta de ritmo de competição mas com jogo muito sólido, a búlgara atropelou Donna Vekic e segue sem perder set. Enfrenta agora a encardida Alizé Cornet, que viu Madison Keys desistir no segundo set. Este era o único Slam onde a francesa de 30 anos e ex-11 do ranking nunca havia chegado na quarta rodada.

A excelente sequência de vitórias e atuações convincentes seguem para Azarenka, que vai enfrentar a quarta adversária com menos de 25 anos no torneio. Passou com autoridade pela boa polonesa Iga Swiatek e precisa de cuidado com Karolina Muchova, quadrifinalista de Wimbledon no ano passado e responsável pela queda de Venus Williams logo na estreia.

O caminho de Vika promete encarar outra jovem, e das mais perigosas, antes de um possível duelo de mães. Sofia Kenin fez nesta noite seu jogo mais duro do torneio e precisou equilibrar melhor o dueto ataque-defesa diante do jogo versátil de Ons Jabeur. O histórico diante de Elise Mertens é de duas vitórias, porém sempre de virada. Então não pode vacilar.

E o Brasil avança
Dois excelentes resultados para o tênis brasileiro em Flushing Meadows. Luísa Stefani e a parceira Hayley Carter tiraram as cabeças 6 num jogo apertado, com destaque para o excelente trabalho de rede da paulista.

Com isso, ela é a primeira brasileira nas quartas de um Grand Slam desde 1982, quando Patrícia Medrado e Cláudia Monteiro chegaram tão longe em Wimbledon. A última semi coube a Maria Esther Bueno, quando  ganhou as duplas de Forest Hills em 1968, aliás seu único título de Slam na Era Profissional.

Bruno Soares e o croata Mate Pavic obtiveram outro grande resultado na difícil chave que ocupam, ao tirar o dueto norte-americano liderado por Jack Sock. Agora, eles enfrentam justamente a dupla britânica que tirou Marcelo Demoliner, formada por Jamie Murray e Neal Skupski.

Djokovic e Serena buscam feitos no US Open
Por José Nilton Dalcim
30 de agosto de 2020 às 19:59

Em situações bem distintas, Novak Djokovic e Serena Williams disputam o US Open com o objetivo de fazer mais história. Mas enquanto o sérvio acaba de ganhar Cincinnati e não tem a concorrência dos outros Big 3, Serena não empolgou nos dois torneios de aquecimento e, bem pertinho dos 39 anos, tenta apagar as frustrações de 2018 e 2019.

Claro que o maior objetivo de Nole é o 18º troféu de Slam, o que o deixaria ainda mais grudado em Rafael Nadal e Roger Federer, porém há mais algumas façanhas a sua disposição. Tenta pela terceira vez ganhar os dois Slam sobre quadra dura, como fez em 2011 e 2015. Vencedor de cinco dos sete últimos Slam, pode igualar Federer como únicos a ganhar mais de um Slam por temporada por seis vezes.

Invicto há 23 jogos na temporada, aparecerá nesta segunda-feira na 284ª semana como número 1 e fatalmente igualará as 286 de Pete Sampras quando o US Open terminar, qualquer que seja sua campanha. Por fim, único representante do Big 3 em ação, tentará o 14º Slam seguido do trieto e o 57º nos últimos 68.

Serena por sua vez tem novamente um feito incrível na mira: se chegar ao 24º Slam e igualar Margaret Court – algo que lhe escapou por quatro finais -, será também a recordista do US Open, com sete troféus. Mais notável ainda, se tornará a única com hepta em três Slam diferentes, incluindo também os homens.

E ainda quebrará seu próprio recorde de mais velha campeã de Slam, atualmente de 35 anos e 125 dias, no Australian Open de 2017. Antes de tudo isso, precisará somente superar a estreia para se tornar a tenista com mais vitórias no torneio (empata no momento com as 101 de Chris Evert).

Saiba mais
A 53ª edição consecutiva do US Open correu risco devido ao coronavírus e exigiu uma série de medidas emergenciais, principalmente a ausência de público e a consequente diminuição na bolsa de premiação geral, ainda que os US$ 3 milhões a cada campeão não seja nada desprezível.

Também eliminou o qualificatório, reduziu a chave de duplas pela metade e cancelou a de mistas e os torneios juvenis. Como novidade, terá um sistema de inteligência artificial para imitar reações do público às jogadas e dar alguma vida aos estádios vazios.

Veja as curiosidades mais importantes do torneio que será aberto às 12 horas desta segunda-feira:

– Apenas três campeões de Slam compõem a chave masculina, mas todos já venceram o US Open: Djokovic (17 troféus e três em Nova York), Andy Murray (três e um) e Marin Cilic (um). No feminino, são 10 campeãs ativas, seis delas em Flushing Meadows: Serena, Venus, Clijsters, Kerber, Osaka e Stephens.

– Outros quatro homens fizeram final de Slam, sendo que Anderson e Medvedev decidiram em Nova York. Os outros são Thiem e Raonic. No feminino, Keys, Azarenka, Zvonareva e Pliskova foram vices no torneio.

– Todos os seis principais cabeças entre os homens jogaram ao menos uma semi de Slam (Tsitsipas, Zverev e Berrettini).

– Nada menos que 43 dos 128 participantes da chave masculina têm 30 anos ou mais. No feminino, são 26 ‘trintonas’.

– Apenas 15 homens na chave de simples batem backhand com uma mão.

– Dos 32 cabeças do masculino, 14 têm menos de 25 anos, o maior número desde o US Open de 2009. O mais jovem é Aliassime (20).

– Aos 40 anos, Venus jogará o US Open pela 22ª vez. O bicampeonato foi há muito tempo: 2000-01.

– Nenhum profissional masculino venceu o US Open na Era Aberta sem perder sets. O último foi Neale Fraser, em 1960.

– Dos 64 jogos femininos de primeira rodada, 34 são inéditos.

– Os dois atuais campeões do US Open desistiram de competir: Nadal devido à pandemia e Andreescu por falta de preparo físico. Isso não acontecia no torneio desde 2003, quando Sampras se aposentou e Serena se contundiu.

E agora, Nole?
Por José Nilton Dalcim
21 de junho de 2020 às 19:53

* Atualizado às 20h51

Seria um tremendo exagero responsabilizar Novak Djokovic por tudo o que aconteceu nas duas primeiras etapas do seu Adria Tour, evento que criou para angariar fundos, motivar o tênis nos países dos Balcãs e colocar em atividade jogadores que estão precisando de ritmo competitivo.

Mas não resta dúvida de que o circuito do tênis, que já tinha manifestado desconforto com as medidas tão relaxadas vistas tanto em Belgrado como em Zadar, irá desabar na cabeça do número 1 do ranking depois que Grigor Dimitrov testou positivo para o Covid-19.

É possível que o búlgaro não tenha se contaminado na Sérvia, muito menos na Croácia, já que estudos apontam para um ciclo amplo de 1 a 14 dias de incubação do coronavírus, com média entre 5 e 8 dias. No entanto, ele pode ter sido um perigoso agente disseminador da doença, já que participou de intensas atividades dentro e fora das quadras. (Foi noticiado em TenisBrasil que Djokovic teve contato com um jogador de basquete, seu amigo, que estava positivo mas assintomático).

Logo que se viram arquibancadas lotadas em Belgrado e quase ninguém de máscara entre o público, houve inquietação. Mas isso era admissível num país pouco afetado pela pandemia. O evento estava liberado pelas autoridades sanitárias.

O mais surpreendente esteve na atitude descontraída dos jogadores, e aí sim cabe ônus a Djokovic. Sem máscaras nem distanciamento, todos fizeram fotos junto à rede, se cumprimentaram com abraço e aperto de mão, usaram toalhas entregues pelos boleiros. Aliás, nem os garotos, nem os juízes exibiram qualquer proteção. E completou-se o momento com uma agitada festa noturna documentada em vídeos pelas redes sociais.

O script se repetiu neste fim de semana em Zadar. Importante observar que Dimitrov passou seis dias na cidade. Não apenas treinou e jogou, mas ainda disputou partidas de futebol e de basquete ao lado de Djokovic, Borna Coric, Alexander Zverev e Marin Cilic. Um desses jogos foi contra os fãs. Selfies obviamente por todos os lados.

Participou também de um encontro de perguntas no centro da cidade que reuniu muita gente e ainda integrou o Kids Day no qual estavam dezenas de crianças. Isso sem falar em hotel, jantares, vestiário… O primeiro ministro Andrej Plenkovic visitou o evento no sábado, com ações ao lado de Djokovic e Cilic.

Os organizadores cancelaram a final de Zadar minutos depois que Dimitrov publicou seu post no Instagram – uma atitude um tanto desnecessária, já que isso não iria mudar muito o que já havia acontecido – e depois soltaram comunicados, garantindo que haviam tomado todas as medidas epidemiológicas sugeridas e prometendo realizar testes em todos os envolvidos na promoção. O serviço local de saúde colocou até um fone para as pessoas que eventualmente sentirem algo ou tiverem dúvidas.

Porém, se Grigor infelizmente contaminou alguém nos últimos dias, talvez demoremos um pouco para saber devido às características desse terrível vírus. Dominic Thiem realizou exames no começo da semana na Áustria e no sábado, já em Nice. Por enquanto, tudo negativo. Mais uma vez, vale lembrar que a exibição de Patrick Mouratoglou seguiu rigidamente as recomendações: nada de público, todos de máscara, distanciamento.

A notícia desalentadora serve como um alerta ao circuito, que ensaia seu retorno dentro de 54 dias. Todo mundo está obviamente de olho nos grandes torneios norte-americanos, mas ao mesmo tempo serão reiniciados challengers e futures, torneios com estrutura, verba e visibilidade muito menores.

Não pode mais haver negligência sob o risco de o tênis ficar de vez sem calendário no que resta de 2020.