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E agora, Nole?
Por José Nilton Dalcim
21 de junho de 2020 às 19:53

* Atualizado às 20h51

Seria um tremendo exagero responsabilizar Novak Djokovic por tudo o que aconteceu nas duas primeiras etapas do seu Adria Tour, evento que criou para angariar fundos, motivar o tênis nos países dos Balcãs e colocar em atividade jogadores que estão precisando de ritmo competitivo.

Mas não resta dúvida de que o circuito do tênis, que já tinha manifestado desconforto com as medidas tão relaxadas vistas tanto em Belgrado como em Zadar, irá desabar na cabeça do número 1 do ranking depois que Grigor Dimitrov testou positivo para o Covid-19.

É possível que o búlgaro não tenha se contaminado na Sérvia, muito menos na Croácia, já que estudos apontam para um ciclo amplo de 1 a 14 dias de incubação do coronavírus, com média entre 5 e 8 dias. No entanto, ele pode ter sido um perigoso agente disseminador da doença, já que participou de intensas atividades dentro e fora das quadras. (Foi noticiado em TenisBrasil que Djokovic teve contato com um jogador de basquete, seu amigo, que estava positivo mas assintomático).

Logo que se viram arquibancadas lotadas em Belgrado e quase ninguém de máscara entre o público, houve inquietação. Mas isso era admissível num país pouco afetado pela pandemia. O evento estava liberado pelas autoridades sanitárias.

O mais surpreendente esteve na atitude descontraída dos jogadores, e aí sim cabe ônus a Djokovic. Sem máscaras nem distanciamento, todos fizeram fotos junto à rede, se cumprimentaram com abraço e aperto de mão, usaram toalhas entregues pelos boleiros. Aliás, nem os garotos, nem os juízes exibiram qualquer proteção. E completou-se o momento com uma agitada festa noturna documentada em vídeos pelas redes sociais.

O script se repetiu neste fim de semana em Zadar. Importante observar que Dimitrov passou seis dias na cidade. Não apenas treinou e jogou, mas ainda disputou partidas de futebol e de basquete ao lado de Djokovic, Borna Coric, Alexander Zverev e Marin Cilic. Um desses jogos foi contra os fãs. Selfies obviamente por todos os lados.

Participou também de um encontro de perguntas no centro da cidade que reuniu muita gente e ainda integrou o Kids Day no qual estavam dezenas de crianças. Isso sem falar em hotel, jantares, vestiário… O primeiro ministro Andrej Plenkovic visitou o evento no sábado, com ações ao lado de Djokovic e Cilic.

Os organizadores cancelaram a final de Zadar minutos depois que Dimitrov publicou seu post no Instagram – uma atitude um tanto desnecessária, já que isso não iria mudar muito o que já havia acontecido – e depois soltaram comunicados, garantindo que haviam tomado todas as medidas epidemiológicas sugeridas e prometendo realizar testes em todos os envolvidos na promoção. O serviço local de saúde colocou até um fone para as pessoas que eventualmente sentirem algo ou tiverem dúvidas.

Porém, se Grigor infelizmente contaminou alguém nos últimos dias, talvez demoremos um pouco para saber devido às características desse terrível vírus. Dominic Thiem realizou exames no começo da semana na Áustria e no sábado, já em Nice. Por enquanto, tudo negativo. Mais uma vez, vale lembrar que a exibição de Patrick Mouratoglou seguiu rigidamente as recomendações: nada de público, todos de máscara, distanciamento.

A notícia desalentadora serve como um alerta ao circuito, que ensaia seu retorno dentro de 54 dias. Todo mundo está obviamente de olho nos grandes torneios norte-americanos, mas ao mesmo tempo serão reiniciados challengers e futures, torneios com estrutura, verba e visibilidade muito menores.

Não pode mais haver negligência sob o risco de o tênis ficar de vez sem calendário no que resta de 2020.

Magic Rafa
Por José Nilton Dalcim
3 de setembro de 2019 às 01:02

A nona classificação consecutiva para as quartas de final de Grand Slam não poderia vir de forma mais espetacular para Rafael Nadal. No penúltimo ponto, diante do risco de ceder um break-point e quem sabe reanimar o adversário, o canhoto espanhol deixou o estádio Arthur Ashe atônito e maravilhado, ao conseguir buscar um voleio curto e angulado de Maric Cilic. No último segundo, com a qualidade insuperável de escolher sempre os golpes mais apropriados, fez uma passada por fora do poste da rede. Precisou esperar os demorados aplausos para em seguida concluir a vitória.

Depois de Cilic fazer um belo segundo set, com muita potência no saque e na base, empatando o placar, havia o risco de o jogo ficar enroscado. Mas Nadal tratou logo de tomar conta da situação. Aproveitou cada mínima oportunidade que o croata ofereceu para colocar pressão, deixá-lo em movimento e buscar contragolpes fulminantes. Ficou fácil. Mesmo sem um índice ideal de primeiro saque – 57% contra 66% de Cilic -, foi o espanhol quem cravou mais aces (11 a 10) e ganhou mais pontos com o primeiro serviço (83% a 59%).

Nadal vai para as quartas de final com amplo favoritismo. Além de estar voando em quadra, ainda cruzará com o ‘freguês’ Diego Schwartzman, com quem costuma treinar. Portanto, um jogo sem novidades para ambos. O baixinho argentino obteve sua segunda vitória sobre um top 6 e esticou a temporada fraca de Alexander Zverev, um resultado justo porque Peque mostrou muito mais atitude em quadra. Aos 27 anos, ele repete as quartas de 2017 em Flushing Meadows e voltará pelo menos ao top 20, com chance de ficar entre os 15.

A outra sensação masculina da segunda-feira foi sem dúvida Matteo Berrettini, que aos 23 anos e três meses se torna o mais jovem dos quadrifinalistas, pouco à frente de Daniil Medvedev. Usou seus variados recursos para demolir a fortaleza Andrey Rublev, mas quase se enrolou no final do terceiro set, em mais uma de suas famosos oscilações emocionais. Primeiro italiano nas quartas do US Open em 42 anos – e vamos lembrar que Corrado Barazzutti foi semi sobre har-tru em 1977 -, Matteo é também uma das grandes surpresas da temporada. Jogava challengers até março, quando chegou ao top 100, e daí arrancou, com três finais em pisos distintos e dois títulos de ATP, um deles na grama, feito excepcional para quem é nascido sobre o saibro. Com a campanha em Nova York, irá se fixar entre os 20 do ranking e está até com chance de ir ao Finals de Londres;

Claro que agora complica, porque vem aí o acrobático e experiente Gael Monfils, que não deixou de fazer seu show neste US Open mas parece muito focado. Repetir quartas em Slam – é sua nona presença, das quais quatro em Flushing Meadows – dá um alívio a uma temporada tão complicada. O problemático tornozelo esquerdo já o tirou de oito torneios neste ano, três deles com abandono no meio da semana, e por isso sempre se fica na dúvida sobre o tamanho de sua resistência. A eventual vitória na quarta-feira no duelo inédito contra Berrettini o deixará como o sétimo tenista mais bem pontuado em 2019, abrindo portas para seu merecido retorno ao top 10.

Outra vez Bencic
Com seu tênis muito mais inteligente do que pesado, Belinda Bencic derrotou outra vez Naomi Osaka – a terceira deste ano, em condições tão diferentes como Indian Wells e Madri -, retornando enfim às quartas de um Slam. Há cinco anos, quando era prodígio, a suíça chegou lá, mas viveu um longo período de lesões, chegou a sair do top 300 e agora está perto de recuperar seu posto no top 10.

Osaka, que lesionou o joelho esquerdo em Cincinnati, reclamou que não conseguiu se mexer bem para fazer as defesas necessárias, mas elogiou Bencic e tentará dar a volta por cima na fase asiática. Ela não só perde a liderança do ranking para Ash Barty como também cairá para o terceiro lugar, atrás de Karolina Pliskova. A adversária de Bencic será a croata Donna Vekic, que evitou match-point e fez incrível virada em cima de Julia Goerges. O duelo vale primeira semi de Slam para os dois lados. Vekic venceu Belinda no saibro de Roland Garros, em junho.

À noite um duelo interessante entre Bianca Andreescu e Taylor Townsend, mas achei o clima um pouco tenso demais. A canadense joga muito tênis e entrou preparada para as tentativas de saq8e-voleio da norte-americana. Devolveu sempre baixo, muitas vezes buscou paralelas, e isso obrigou Townsend a se conter e ficar mais no fundo de quadra. Apesar da derrota, Townsend fez um belo torneio e talvez consiga dar a volta por cima numa carreira que nunca decolou. Andreescu tem um jogo difícil agora diante de Elise Mertens, que gosta dos contragolpes.

E mais
– Nadal soma agora 40 presenças em quartas de final de Slam, sendo 10 no US Open.
– Caso confirmem o favoritismo e decidem o torneio no domingo, Nadal e Federer também lutarão pela vice-liderança do ranking.
– Sete jogadoras disputam lugar no top 10 do ranking e ainda estão vivas no US Open: Bencic, Konta, Andreescu, Serena e Wang, com menor chance para Vekic e Mertens.
– Com a vitória de Bencic, são três suíços nas quartas do US Open, ao lado de Federer e Wawrinka.
– Ao contrário do masculino, que só tem dois jogadores classificados com menos de 25 anos, a chave feminina colocou cinco nas quartas.
– Serena Williams é agora a única tenista ainda de pé no US Open com títulos de Grand Slam na carteira. Todas as outras sete jamais fizeram final desse porte.

Para a história
Com as quedas de Osaka e de Novak Djokovic ainda nas oitavas de final, esta será a quarta vez na Era Profissional que nenhum dos cabeças 1 de simples chegam ao menos nas quartas do US Open. No masculino, também segue a sina de não se conseguir dois títulos consecutivos desde que Roger Federer foi penta, entre-2004-2008.

Força e jeito
Por José Nilton Dalcim
1 de setembro de 2019 às 00:58

Gael Monfils e Andrey Rublev fizeram valer o ingresso da rodada noturna do US Open. O experiente francês, que já fez semi em Nova York, realizou certamente o melhor jogo do torneio até aqui – e um dos mais empolgantes da temporada -, utilizando seu vasto arsenal de golpes e absurdo atleticismo, enquanto o russo marcou a exibição mais animadora entre os representantes da nova geração ao barrar Nick Kyrgios com artilharia pesada.

Aconteceu de tudo entre Monfils e Shapovalov, especialmente porque o canhoto canadense conseguiu dosar a contento a força de seus golpes, o que o tornou muito competitivo. Poderia ter feito 2 sets a 0 quando sacou com 5/4 e esse talvez tenha sido seu erro fatal. Monfils é um tenista espetacular, tanto pela habilidade como pelo empenho, e isso mexe com o público. Parecia ter liquidado a fatura quando abriu 4/1 com duas quebras no quarto set, mas que nada. Shapovalov lutou heroicamente, levou ao tiebreak, salvou match-point e brindou a todos com mais uma série. O francês por fim prevaleceu com quase todos os games disputados no limite. Espetáculo.

Rublev, que já havia deixado pelo caminho Stefanos Tsitsipas em estreia inspirada, foi impecável na determinação de esmurrar a bola o tempo todo, sem dar a menor atenção para o falatório do australiano. Mesmo batendo tão pesado, cometeu apenas 14 erros não forçados. Destaque ainda aos 80% de pontos feitos com o serviço e a frieza com que jogou os dois tiebreaks, especialmente o segundo em que viu Kyrgios abrir 4-0 e saque. O russo desta noite lembrou muito aquele que não deixou Roger Federer respirar em Cincinnati.

O mais interessante é que Monfils e Rublev têm grande chance de se cruzar nas quartas de final. O francês leva favoritismo natural contra Pablo Andujar, que alcança seu melhor resultado de Grand Slam aos 33 anos, ajudado por uma chave muito propícia. Rublev encara o italiano Matteo Berrettini, que tem um tênis variado e ofensivo, mas deixa o emocional interferir muitas vezes.

O sábado teve ainda a confortável vitória de Rafael Nadal sobre o sul-coreano Hyeon Chung, numa partida em que o espanhol foi muito sólido no saque e nas trocas de bola, aproveitando os espaços abertos para contragolpes magistrais. Reencontrará o croata Marin Cilic, estilo completamente oposto ao de Chung. Sacador que prefere a base, mas perdeu 6 dos 8 duelos contra o espanhol. Cilic não chegou bem ao US Open e teve certa dose de sorte ao ver John Isner jogar fora um tiebreak que parecia na mão e lhe daria 2 sets a 1.

O show de Osaka
Embora tenha feito algumas jogadas espetaculares, estava evidente o clima de tensão em cima de Naomi Osaka no duelo diante da menina Coco Gauff, maciçamente apoiada pela torcida. O jogo teve um festival de break-points e quebras, mas deu a lógica e a número 1 perdeu apenas três games.

Osaka imediatamente se sensibilizou ao perceber que Coco caía em lágrimas e teve atitudes magníficas. Trocou palavras carinhosas e pediu para que a adversária participasse da entrevista em quadra, reforçando elogios e o discurso de incentivo. A japonesa quase não segurou a própria emoção ao se referir sobre o papel importante da família de Gauff.

Não vamos esquecer que Naomi é por si também uma tenista muito jovem, de 21 anos, e que sempre se revelou tímida. Aliás, fará outro duelo entre jogadoras de tenra idade, desta vez diante da suíça Belinda Bencic, que já foi prodígio e figurou no top 10. De estilo distinto, Bencic não presa pela potência mas pela aplicação tática e golpes muito bem escolhidos. Promete.

E mais
– Surpresa no US Open: Alexander Zverev não precisou de cinco sets para tirar Aljaz Bedene, mas três dos quatro sets foram ao tiebreak. Até gostei do empenho do alemão, que se jogou na quadra e não baixou a cabeça. A firmeza da base e a raça de Diego Schwartzman são o próximo grande desafio.
– Kiki Bertens foi a quarta top 10 a cair no lado de cima da chave. A culpa foi da experiente Julia Goerges, 30 anos e que já fez semi em Wimbledon. Sua adversária será a croata Donna Vekic.
– Nova geração feminina duela por quartas: Taylor Townsend, depois de tirar Simona Halep, embalou e terá pela frente a canadense Bianca Andreescu. Outra vez Townsend optou pelo jogo de rede: 47 pontos em 75 subidas. Andreescu também nunca havia chegado nas oitavas de um Slam, tirou Caroline Wozniacki e não para de subir de prestígio e de ranking.
– História curiosa marca a americana Kristie Ahn. Por convite, ela voltou a disputar o US Open 11 anos depois da estreia e fez jus: tirou Sveta Kuznetsova e Jelena Ostapenko. Aos 27 anos e 141ª classificada, contou ter ido para universidade e quase esquecido o tênis. Enfrentará Elise Mertens, 25ª do mundo.
– E Carla Suárez levou mesmo multa pesada pelos meros oito games de estreia: US$ 40 mil, cerca de 80% da premiação a que teve direito. Ela já avisou que vai recorrer.

Para a história
Este é o 13º Grand Slam consecutivo em que Nadal atinge pelo menos as oitavas de final. Na rodada anterior, ele não precisou entrar em quadra para enfrentar Thanasi Kokkinakis. Foi a primeira vez em toda sua carreira que se favoreceu de um w.o. em Slam.