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Sinner se reinventa e desafia máquina sérvia
Por José Nilton Dalcim
3 de julho de 2022 às 21:05

Provável grande rivalidade de futuro bem próximo, Jannik Sinner me surpreendeu na merecidíssima vitória sobre Carlos Alcaraz. Não por sua qualidade, já bem conhecida, mas por ter ousado na postura tática e ter executado o plano com acuidade ferrenha do começo ao fim. Arriscou o saque, forçou devolução, mexeu-se muito bem, deu curtinhas e foi 40 vezes à rede. Um cardápio bem mais completo do que costuma fazer.

Alcaraz jogou abaixo do seu potencial? Não há dúvida, e ele enfatizou isso mais de uma vez nas explicações oficiais, quando argumentou que o saque e a devolução estiveram abaixo do necessário e deixou escapar muitas chances. Não é a primeira vez que Carlitos desse um degrau em jogo grande. Vimos isso também em Roland Garros contra Alexander Zverev, com enredo bem parecido. Ele aliás reconheceu que entrou nervoso ao ver a imponência da Quadra Central, que como se vê continua a ser um mito também para a novíssima geração.

Com quartas de final de Grand Slam agora em três diferentes pisos – e pela segunda vez na temporada -, Sinner garante que isso é reflexo de sua evolução física, ainda que tenhamos visto nos últimos meses abandonos ou quedas abruptas, algo que me preocupa para quem tem 20 anos. E ele próprio admite sua surpresa com a campanha neste Wimbledon, já que nunca havia vencido partida sobre a grama até a estreia.

O desafio contra Novak Djokovic é obviamente enorme. O italiano vem de incrível atuação defensiva contra John Isner, o que não é fácil na grama, e agora mostrou diferentes armas para desestabilizar Alcaraz. Se conseguir juntar as duas habilidades, ou seja achar o difícil equilíbrio entre defesa e ataque a partir do saque e da devolução, a chance aumenta.

Ainda que tenha já perdido dois sets nesta campanha, Djokovic está de fprma clara à frente de todos seus concorrentes. O segredo principal é a profundidade de suas bolas, algo extremamente difícil de se safar num piso tão traiçoeiro. O tempo de reação é curto, a bola quica mais baixo do que o normal e ainda pode haver os inevitáveis desvios.

O holandês Tim Rijthoven fez o que pôde e confirmou seu potencial, mas ficou patente a dificuldade que se encontra diante das bolas tão próximas da linha que Djokovic tem sido capaz de executar, tanto de forehand como de backhand e quase sempre na devolução de segundo saque, o que cria uma pressão sufocante. Resta ao adversário torcer para que venham mais erros. Por enquanto, não aconteceu. Mesmo com esse grau de exigência, foram apenas 19 falhas do sérvio em 221 pontos disputados.

Jogo a jogo
Goffin contra Norrie e a torcida
– Jogo também espetacular envolveu David Goffin e Frances Tiafoe. O belga repetiu a vitória de Roland Garros de semanas atrás com ambos se empenhando por 4h37 numa batalha recheada de pontos espetaculares. Goffin, que sofreu no ano passado diferentes problemas físicos, repete as quartas de 2019 e fará duelo de ex-top 10 diante do canhoto Cameron Norrie, que só tinha três vitórias em Wimbledon e agora se juntou a Andy Murray como único jogadores da casa nas quartas do torneio desde 2004.

Jabeur segura cabeça – Maior favorita do seu lado da chave para ir à final, a tunisiana Ons Jabeur viveu altos e baixos, ficou contra a parede no final do primeiro set mas sempre achou boas soluções para superar a lutadora Elise Mertens. O saque foi um problema constante. Ela terá a vantagem da experiência dinate da tcheca Marie Bouzkova, de 23 anos, que tem golpes respeitáveis de base e exigirá todo cuidado.

Festa alemã – A mamãe Tatjana Maria, 34 anos, e a debutante Jule Niemeier, 22 e apenas no segundo Slam da carreira, tentarão resgatar a tradição alemã em Wimbledon, marcada por títulos inesquecíveis de Graf, Becker, Stich e Kerber. Depois de tirar Maria Sakkari, Tatjana enlouqueceu Jelena Ostapenko com seu estilo pouco usual, com backhand simples e muito slice de forehand, golpes que funcionam na grama. Salvou dois match-points e era o retrato da felicidade. Niemeier joga pertinho da linha, também usa bons slices e gosta de colocar a adversária para correr.

Fim e começo – Rafael Matos e o parceiro espanhol David Vega foram muito bem e tiraram set dos cabeças 1 antes da despedida. Bia Haddad e a polonesa Magdalena Frech não foram páreo e depois ela e Bruno Soares amargaram dura virada dos bons Peers/Dabrowski. O destaque brasileiro do domingo foi o carioca de 15 anos João Lourenço, que jogou muito solto e tirou o cabeça 13.

100 anos – A festa que marcou o centenário da mudança de sede do All England Club reuniu um painel notável de campeões e, para quem acompanha o tênis dos velhos tempos, emocionou rever tantos rostos que fizeram a história da Quadra Central, especialmente Chris Evert, Billie Jean, Rod Laver e Roger Federer, sob comando de John McEnroe. Ponto alto foi o aplauso de pé para Sue Baker, campeã de Roland Garros e semi de Wimbledon que irá se aposentar dos comentários na BBC depois de 30 anos.