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Nossa nova rainha da grama
Por José Nilton Dalcim
17 de junho de 2022 às 18:52

Quem diria, o tênis brasileiro voltou a ter uma jogadora de respeito sobre a grama, algo que não acontecia desde os sete troféus de Grand Slam de Maria Esther Bueno. É bem verdade que o piso natural do esporte beirou a extinção a partir da metade dos anos 1970 e hoje o calendário de primeira linha não tem mais do que oito torneios sobre a superfície, que se torna assim um tremendo desafio para qualquer profissional.

Beatriz Haddad Maia se achou na grama e esse sucesso tem muito a ver com a melhoria de sua movimentação, algo essencial no difícil piso. O fato de ser canhota ajuda muito e ela tem sabido explorar isso com o saque. Aliás, por várias vezes nas duas últimas semanas pudemos vê-la forçar bem mais o primeiro serviço do que o habitual, o que também será um aliado quando a quadra dura voltar.

Confiante depois dos títulos em Nottingham, Bia fez três jogos incríveis em Birmingham. Dominou seu ‘espelho’ Petra Kvitova – a bicampeã de Wimbledon que sempre procurou copiar – com grande desenvoltura. Venceu uma partida que parecia perdida contra Magdalena Frech, uma máquina de devolver bolas, e certamente a sorte ajudou quando veio a suspensão no final do terceiro set.

Quando voltou com 2/4 atrás nesta sexta-feira, se impôs do começo ao fim, mesmo quando a polonesa sacou para o jogo. Por fim, viu a experiente Camila Giorgi mostrar as garras e não se abalou. Pouco a pouco, entrou no ritmo e ganhou 12 dos últimos 14 games da italiana, que já fez quartas em Wimbledon. Assombroso.

Mais campeã no caminho
A dureza continua. Outra campeã de Wimbledon, Simona Halep será neste sábado a 18ª adversária de nível top 20 que Bia irá enfrentar na carreira. Até agora, foram cinco vitórias, duas delas nesta notável temporada, ambas sobre Maria Sakkari (3 e 5 do ranking), As outras três vieram contra Karolina Pliskova (3, em 2011); Sloane Stephens, 4 em 2019; e Samantha Stosur, 19 em 2017.

A romena de ótima agilidade, golpes firmes mas segundo saque muito atacável já cruzou o caminho da brasileira outras duas vezes. A primeira foi sobre a grama de Wimbledon, há cinco anos, e o placar foi equilibrado, 7/5 e 6/3. Já no Australian Open de cinco meses atrás, Halep marcou fáceis 6/2 e 6/0.

Com as ótimas atuações em Nottingham e Birmingham, nossa canhota de 26 anos tem agora 15 vitórias em 42 duelos diante de adversárias de nível top 50. Nesta temporada, foram 6 em 14 e Giorgi, 26ª na lista desta semana, foi a segunda de mais alta classificação.

Por falar em ranking, já é possível para Bia sonhar em aparecer como número 30 na segunda-feira. A única barreira para isso é outra romena, Sorana Cirstea, que faz a segunda semi em Birmingham contra Shuai Zhang. A brasileira garante o posto se Cirstea perder neste sábado ou se ambas forem à final, mas aí a campeã levará a melhor. Cirstea já foi 21ª.

Algo bem importante de se observar é que Bia ocupa neste momento o 29º posto no ranking feminino da temporada, com 846 pontos marcados desde janeiro. Com esse total, ela certamente terminará o ano pelo menos entre as 80, o que significa que seu lugar no Australian Open já está garantido. O tênis brasileiro agradece.

Nadal faz as malas
Outra grande notícia desta sexta-feira foi a decisão de Rafael Nadal em viajar segunda-feira para Londres, seguir firme nos treinos e disputar ao menos duas partidas de exibição no Hurlingham Club. Não é exatamente um torneio, mas sim uma porção de jogos. E a lista de participantes está nobre, com Novak Djokovic, Casper Ruud, Carlos Alcaraz e Felix Aliassime. Não se sabe ainda quem testará o campeão da Austrália e de Roland Garros, que não joga um torneio na grama há três anos.

Na entrevista que deu, Rafa conta que as dores não desapareceram, mas estão muito menores. Ele estranhou a falta de sensibilidade no pé esquerdo, porém diz estar se adaptando. O espanhol não quis garantir sua presença em Wimbledon, preferiu afirmar que ‘vai tentar jogar’ e que tudo depende da evolução do tratamento feito com pulsos de radiofrequência.

E mais

  • Ainda é tempo de destacar: com a queda de Djokovic para o terceiro lugar do ranking na segunda-feira, não há qualquer representante do Big 4 entre os dois líderes do ranking pela primeira vez desde 2003.
  • Isso também levará a um fato histórico: será a primeira vez que Wimbledon não terá os dois ponteiros do ranking desde 1974 (o sistema foi criado em agosto de 1973, portando depois do torneio daquele ano).
  • Serena Williams enfim voltará às quadras. Ganhou convite para jogar Eastbourne e Wimbledon, que foi exatamente seu último torneio. Não se sabe quais condições físicas ou técnicas da norte-americana, mas não duvidem que ela jogará na Central, que está comemorando 100 anos de mudança de sede.
  • A ATP soltou o calendário de 2023 e cumpriu a ideia de esticar para 12 dias os Masters de Madri, Roma e Xangai, subindo as chaves para 96 participantes, o que também acontecerá com Canadá e Cincinnati em 2025. A WTA ainda não se pronunciou.
  • Havia a promessa que a ATP liberaria eventos 250 na segunda semana dos Masters para não prejudicar os jogadores de ranking mais próximo do 100, mas pelo menos em 2023 isso não vai acontecer.
  • Uma boa e uma má notícia para Thiago Wild. Ele entrou no quali de Wimbledon, mas o Ministério Público o denunciou por violência doméstica e psicológica contra a ex-namorada Thayane Lima. Ele não cumpriu decisão judicial de pagar pensão e corre risco de pedido de prisão.
Dois troféus históricos e cabeça em Wimbledon
Por José Nilton Dalcim
12 de junho de 2022 às 17:54

A festa de Beatriz Haddad Maia na grama de Nottingham foi completa. Pouco depois de enfim conquistar seu primeiro título de nível WTA, ela também ganhou as duplas. Nesta segunda-feira, será 32ª do ranking de simples, 29ª de duplas e estará muito perto de entrar na lista de cabeças de chave de Wimbledon.

A canhota paulistana disputa a partir de terça-feira o WTA de Birmingham, com chance de somar mais pontos, porém já se sabe que cinco tenistas a sua frente no momento não poderão jogar o terceiro Grand Slam da temporada devido ao impedimento a russas e bielorrussas imposto pelo governo britânico.

Caso se confirme, será outro marco. O último brasileiro a figurar entre os 32 favoritos num Grand Slam foi Thomaz Bellucci, no US Open de 2015, quando entrou como o 30º principal inscrito. Entre as mulheres, Maria Esther Bueno apareceu como cabeça 5 no US Open de 1968, seu último Slam em condições físicas de competir pelo título.

Mais façanhas
O tênis feminino brasileiro não ganhava um torneio de primeiro nível sobre a grama desde Estherzinha, em agosto de 1968, quando conquistou Manchester, em cima nada menos de Margaret Court. No masculino, Thomaz Koch faturou também Manchester em 1972, segundo nova revisão de torneios feita pela ATP para os anos iniciais do profissionalismo.

Na Era Profissional, nenhuma brasileira havia ganhado simples e duplas num mesmo torneio de primeira linha. Entre os homens, Guga Kuerten foi o mais recente e fez isso duas vezes, em Santiago de 2000 e Acapulco de 2001.

Bia se torna a quarta brasileira a ganhar um WTA. Aos 26 anos e 13 dias, é a segunda mais nova a fazê-lo. A gaúcha Niege Dias foi campeã pela primeira vez aos 21 anos, em 1987, e Teliana, aos 26 e nove meses. Maria Esther tinha 29 anos em 1968, temporada que inaugurou a Era Profissional em abril, quatro meses antes de ganhar Manchester

Ao chegar ao 32º posto do ranking, Bia fica logo atrás do 29º de Estherzinha e do 31º de Niege. Mesmo entre os homens, é um feito especial no tênis brasileiro. Apenas Guga (1), Bellucci (21), Thomaz Koch (24), Fernando Meligeni (25), Luiz Mattar (29) e Marcos Hocevar (30) foram além.

Nervos no lugar
A final deste domingo viu altos e baixos dos dois lados. Bia fez um excelente primeiro set, em que sacou bem, aproveitou as chances de definir pontos e principalmentw foi agressiva nas devoluções. Nas trocas, sabia que o forehand era o ponto frágil da norte-americana. Mas Riske parou de arriscar tanto no segundo set, tentou ficar sólida e viu a brasileira cair de intensidade.

O começo do set final foi tenso; Riske quebrou antes e fez 2/1, mas a canhota reagiu imediatamente, o que se mostraria essencial. Nos games finais de saque, usou muito bem o saque sobre o corpo e manteve a bola profunda, o que custou alguns erros e discussões com a arbitragem.

Usou essa frustração de forma positiva, fez um grande sétimo game e aproveitou o terceiro break-point em seguida, quando Riske se perturbou. Com a vantagem definitiva, a brasileira manteve os nervos no lugar e ganhou três pontos seguidos a partir do 15-15.

Pouco depois, Bia e Shuai Zhang confirmaram o favoritismo e venceram dois sets equilibrados contra Monica Niculescu e Caroline Dolehide. Bia tem agora quatro títulos de duplas em nível WTA e em três pisos diferentes (Sydney neste ano e Bogotá em 2015 e 2017), além é claro do vice no Australian Open.

Próximo desafio
Nada de descanso. Bia segue diretamente para Birmingham onde terá terça-feira outro desafio dos grandes: enfrenta a também canhota Petra Kvitova, tcheca que é bicampeã do torneio mas principalmente dona de dois títulos em Wimbledon. Jogadora muito agressiva, Kvitova não anda em grande fase, tendo vencido 10 de 22 jogos na temporada, mas ainda assim é a atual 31ª do ranking.

Duplamente 40
Por José Nilton Dalcim
11 de junho de 2022 às 10:01

A classificação de Beatriz Haddad Maia para sua segunda final de nível WTA na carreira garantiu à canhota paulista de 26 anos um feito histórico na fase profissional do tênis brasileiro.

Nesta segunda-feira, ela aparecerá pelo menos no 39º posto do ranking de simples – e será 32ª em caso de título – e se transformará na única jogadora nacional a figurar simultaneamente no top 40 das listas de simples e duplas desde que os rankings foram criados na década de 1970. Entre os homens, Guga Kuerten ficou uma semana no top 40 de duplas em 1997, quando já era 11 do ranking.

Bia disputou neste sábado em Nottingham a semifinal de duplas, ao lado da chinesa Shuai Zhang e com outro resultado muito positivo subirá para o 29º posto. O título permitirá avanço de mais duas posições. Ela assim terá perto de figurar no top 30 das duas especialidades, algo que seria totalmente inédito. Ao mesmo tempo, agora é a única mulher profissional a disputar finais de simples e duplas num mesmo torneio.

Apenas outros 10 brasileiros já atingiram o top 40 em simples. As duas mulheres à frente de Bia agora são Maria Esther Bueno (29ª no curto período em que jogou o circuito profissional) e Niege Dias (31ª em novembro de 1988).

O último brasileiro a estrear no top 40 havia sido Thomaz Bellluci em novembro de 2009. Ele também foi o último tenista nacional a figurar nessa faixa, em maio de 2016.

Final na grama: primeira desde Bueno
Nesse dia cheio de história, Bia também se torna a primeira brasileira a disputar uma final de primeira linha sobre a grama na Era Profissional desde que Maria Esther Bueno foi vice em Chestnut Hill, em agosto de 1968. Uma semana antes, Estherzinha havia conquistado seu último título de simples sobre a grama, em Manchester, em cima de Margaret Court.

Esta é a segunda final de WTA 250 que a paulistana disputa em simples. Há cinco anos, perdeu o título de Seul para a então top 10 Jelena Ostapenko. A última brasileira a ganhar um WTA 250 foi Teliana Pereira, no saibro de Florianópolis, em 2015.

A curtíssima lista de jogadoras nacioais com títulos equivalentes a WTA inclui a gaúcha Niege Dias, que ganhou dois a exemplo de Teliana. A recordista é Maria Esther, com três.

À vontade na grama
Embora não tenha feito grandes alterações na sua forma de jogar, Bia mostra-se bem à vontade na grama. Os golpes de base continuam sua forma de construir todos os pontos. Em alguns momentos, tem aproveitado as devoluções curtas ou flutuantes após o primeiro saque para concluir com o forehand, mas raramente se mostra apressada a tentar definir, com avanços à rede apenas em bolas mais certas.

O ponto de destaque tem sido a devolução de saque, principalmente de backhand, qualidade aliás que já vem mostrando nos jogos de duplas. Na nova vitória sobre Maria Sakkari, na sexta-feira, Bia soube agredir em cima do segundo saque da top 5 grega e neste sábado novamente explorou ótimas paralelas diante de Tereza Martincova.

A final será contra Alison Riske. A norte-americana tem respeitável primeiro saque, bate bem mais reto e gosta de ir à rede. Aos 31 anos, é número 40 do ranking, mas já foi 18ª em 2019. De seus três títulos de WTA, um foi na grama de ‘s-Hertogenbosch. Esta é sua 13ª final da carreira, conjunto que a deixa como favorita para este domingo.