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Cheiro de medalha
Por José Nilton Dalcim
28 de julho de 2021 às 13:37

O primeiro pódio do tênis brasileiro nos Jogos Olímpicos está nas mãos de duas meninas que resolveram sacrificar muita coisa pelo sonho de fazer carreira profissional. Luísa Stefani, de 23 anos, e Laura Pigossi, de 26, continuam caminhada espinhosa e inesperada em Tóquio e já garantiram ao menos o direito de lutar diretamente por medalha, algo que até hoje apenas Fernando Meligeni conseguiu, em Atlanta-96.

A família de Stefani largou tudo no Brasil e foi para os EUA quando ela tinha 15 anos. arriscando alto pelas chances da menina talentosa. Em Saddlebrook, Luísa precisou adaptar seu estilo às quadras duras, melhorou o jogo de rede e deu os primeiros passos profissionais ainda juvenil. De repente, os resultados nas duplas começaram a vir, trancou a universidade e chega hoje a 23ª do mundo, vivenciando transformações velozes de metas e expectativa.

Laura também foi uma juvenil promissora e por muito tempo tentou arrancar a carreira nos pequenos torneios futures que aconteciam pelo país. Ganhou quatro ITFs entre 2012 e 2016. Decidiu-se então por uma mudança radical. Há cinco anos, mudou toda a equipe de trabalho e foi treinar em Barcelona, onde passou a morar sozinha. Ajustou a parte técnica e tática e precisou de paciência para coletar frutos. Sempre foi duplista de mão cheia, somando hoje 38 títulos, o maior deles de US$ 60 mil. Em fevereiro do ano passado, chegou a ser 125 do ranking e ficou perto de enfim entrar num Grand Slam.

A vitória sobre as norte-americanas Bethanie Mattek-Sands e Jessica Pegula foi outra vez difícil. Perderam um primeiro set muito instável no saque, se soltaram ao obter o 3/1 no segundo set e seguraram a cabeça quando as americanas roubaram mais um serviço e apertaram. O match-tiebreak foi muito nervoso. Mattek-Sands pediu atendimento pouco antes e as brasileiras aproveitaram para fazer 3-0 e jamais estiveram atrás do placar. Coube de novo à devolução agressiva de Pigossi iniciar o ponto final.

As duas terão agora duas chances de chegar à medalha. Se vencer as suíças Belinda Bencic e Viktorija Golubic, ficam candidatas ao ouro e a uma façanha sem precedentes. Vale lembrar que Bencic abre a quinta-feira com duro jogo de simples contra Elena Rybakina. Em caso de derrota, ainda terá luta nada desprezível pelo bronze diante de quem perder entre Krejcikova/Siniakova e Kudermetova/Vesnina. São todas mais experientes no circuito que as brasileiras, mas o nome desta campanha é mesmo ‘desafio’. #Ouremos!

Pouco depois, Stefani voltou à quadra para a dupla mista ao lado de Marcelo Melo e não tiveram boa atuação. O mineiro principalmente errou muito em momentos decisivos, perdendo saque com duas duplas faltas no primeiro set. Novak Djokovic foi aplicadíssimo nas devoluções e ajudou muito Nina Stojanovic, que não cedeu um único break-point. Ao final, Melo reclamou de atitudes do sérvio, como dar smash em cima tanto dele como de Luísa, além de exagerar nos gritos de comemoração. Nole se recusou a comentar as críticas.

E mais
– Djokovic atropelou Davidovich para atingir a 12ª vitória olímpica e a 21ª consecutiva desde a final de Roma, em três pisos distintos. É super favorito contra Nishikori, que só ganhou 2 de 18 confrontos, o último lá em 2014.
– Medvedev passou mal, pediu atendimentos mas conseguiu vencer Fognini em três sets. Depois ficou muito bravo quando questionado sobre o problema de doping russo. E vai ter outro jogo muito duro contra Carreño, contra quem tem 3 a 1.
– Tsitsipas perdeu chances e Humbert confirmou ser um perigo a qualquer dos grandes, atropelando por 6/2 no terceiro. O duelo contra Khachanov é inédito.
– Zverev teve dois sets duros contra Basilashvili com 85% de primeiro saque em quadra. Enfrenta a surpresa Chardy com a vantagem de 4 a 1 no histórico.
– Bencic parou Pavlyuchenkova com altos e baixos e cruza com Rybakyna pela primeira vez. A cazaque atropelou Muguruza no segundo set.
– Svitolina enfim fez um jogo menos exigente, mas Vondrousova jogou apenas nove games antes de Badosa abandonar por problemas do calor e sair de cadeiras com roda. Isso enfim fez os organizadores alterarem o início da rodada para 15h locais (3h de Brasília).
– A Croácia já garantiu medalha nas duplas masculinas, já que Mektic/Pavic pega Krajicek/Sandgren e Cilic/Dodig – que tiraram Murray/Salisbury no match-tiebreak – enfrenta Daniell/Venus.
– Quartas de mistas, além de Djoko, reúne Barty, Tsitsipas e Swiatek. Dois cabeças caíram: Mladenovic/Mahut para Vesnina/Karatsev e Mattek-Sands/Ram para Siegemund/Krawietz.

Meninas lideram surpresas. Será que dá?
Por José Nilton Dalcim
27 de julho de 2021 às 14:19

O torneio olímpico de Tóquio viveu mais uma rodada de surpresas, e que surpresas! E entre elas, mais um passo dado por Luísa Stefani e Laura Pigossi rumo a uma inesperada luta por medalhas.

A vitória desta terça-feira foi ainda mais espetacular do que na estreia. Claro que Karolina Pliskova e Marketa Vondrousova não são duplistas efetivas no circuito, mas têm finais de simples de Slam no currículo e um tênis bem pesado na quadra dura. Não por acaso, Vondrousova horas antes havia eliminado nada menos do que Naomi Osaka numa exibição notável.

Stefani não estava muito firme na rede no primeiro set, mas aos poucos a parceria encaixou o jogo. A primeira quebra, logo no começo da segunda série, deu a injeção de ânimo certa e a partir daí as duas cresceram e a devolução passou a ser elemento precioso.

O match-tiebreak provou novamente que as nossas meninas estão com a cabeça no lugar, como haviam mostrado na estreia difícil contra o Canadá. Salvaram quatro match-points a partir de 7-9 e souberam aproveitar a primeira chance que apareceu.

Esta já é a maior campanha do tênis feminino brasileiro em Jogos Olímpicos – Teliana Pereira, Joana Cortez, Vanessa Menga, Andrea Vieira, Cláudia Chabalgoity e Gisele Miró venceram um jogo por edição que participaram – e o desafio será ainda maior na madrugada de quarta-feira diante das norte-americanas Bethanie Mattek-Sands, ex-número 1 do mundo, e Jessica Pegula. Se forem à semi, irão lutar por alguma medalha, algo que o tênis nacional jamais colocou no pescoço.

Djokovic mira outro recorde
Com as derrotas de mais três cabeças do seu lado superior da chave, Novak Djokovic se vê cada vez mais perto de tentar o primeiro ouro olímpico. A vitória sobre Jan-Lennard Struff teve seus momentos delicados, como o break-point evitado logo no terceiro game, e o serviço perdido no começo do segundo set, mas nem de longe houve qualquer ameaça.

Vale registrar que Djokovic já tem 11 vitórias olímpicas na carreira e pode empatar com Andy Murray na próxima rodada e mirar as 13 do recordista Roger Federer. Reencontra nesta madrugada aquele Alejandro Davidovich que só tirou três games meses atrás em Roma e se aproxima de um interessante duelo contra Kei Nishikori, a esperança final da casa em simples.

As quedas de Hubert Hurkacz, Aslan Karatsev e Lorenzo Sonego ampliam o favoritismo de Alexander Zverev rumo à semi. Nestas oitavas, enfrenta Nikoloz Basilashvili, sobre quem possui três vitórias em quatro jogos.

O outro lado da chave está bem mais interessante, com sete dos oito cabeças de pé. Daniil Medvedev tem bom teste contra Fabio Fognini e quem vencer deve pegar Pablo Carreño, um setor que vai exigir muito. Stefanos Tsitsipas anotou exibição brilhante contra Frances Tiafoe, muito agressivo e eficiente, mas tem de cruzar agora com o canhoto Ugo Humbert. Se vencer, terá Diego Schwartzman ou Karen Khachanov. Isso significa muita adaptação a estilos bem diferentes de adversários.

O adeus de Osaka
Um misto de grande noite da canhota Vondrousova com golpes descalibrados e apressados de Osaka marcaram outra enorme surpresa na chave feminina. A tcheca simplesmente não errou no primeiro set e isso talvez tenha provocado ansiedade exagerada na cabeça 2. Ela até reagiu e fez 2/0 no segundo set, porém os 18 erros e o primeiro serviço instável, ainda mais nos pontos grandes, foram barreiras insuperáveis.

Está muito difícil dar algum favoritismo até mesmo para quem vai brigar por medalha, o que será definido nesta madrugada com as quartas de final. Era de se esperar o duelo russo entre Anastasia Pavlyuchenkova e Barbosa Krejicikova, mas Belinda Bencic embalou incrível reação após tomar 1/6 e tirou a campeã de Roland Garros.

Há duas espanholas na luta, uma em cada lado da chave. Garbiñe Muguruza pega Elena Rybakina tendo feito três ótimas exibições até agora, enquanto Paula Badosa, que tirou Iga Swiatek, será a adversária de Vondrousova. Outra campanha chamativa é a da italiana Camila Giorgi, que adora um piso rápido e se torna um perigo quando o saque entra. Só perdeu 15 games e desafia Elina Svitolina, que disputou seu terceiro jogo seguido em três sets e marcou já duas viradas.

Duplas emocionantes
As duplas masculina e feminina também decidem quem vai lutar na semi por medalhas. Os favoritos Mektic/Pavic continuam de pé e podem cruzar Zverev/Struff. O lado inferior tem o bicampeão Andy Murray, que ganhou jogo duro ao lado de Joe Salisbury. Encaram agora Cilic/Dodig e se vencerem jogam contra Cabal/Farah ou Daniell/Venus.

Krejcikova/Siniakova enfrentam Barty/Sanders nestas quartas e dificilmente não estarão na final. Bencic é outra que está firme também nas duplas, ao lado de Golubic.

As mistas começam nesta quarta e obviamente o destaque é para o duelo entre Stefani e Marcelo Melo contra Djokovic. Muita gente boa entrou, como Barty, Swiatek, Rublev, Carreño, Aliassime e os gregos Sakkari/Tsitsipas. Vai ser bem duro e divertido.

Brasil olímpico sem sorte
Por José Nilton Dalcim
22 de julho de 2021 às 14:46

O sonho de enfim ganhar uma medalha olímpica, qualquer que seja, ficou um pouco mais distante para o tênis brasileiro depois do duro sorteio de chaves realizado na noite desta quarta-feira em Tóquio. E isso inclui até mesmo as duplas.

Thiago Monteiro tem chance de passar pelo instável alemão Jan-Lennard Struff – que já é um ‘trintão’ e perdeu dois de três duelos diante do canhoto cearense -, mas a possibilidade de cruzar então com o favorito Novak Djokovic é enorme. O número 1 terá o frágil Hugo Dellien na estreia.

João Menezes também vai encarar um nome de respeito sobre a quadra dura, o croata Marin Cilic, e ainda que consiga superar a barreira terá logo em seguida o vencedor de Pablo Carreño e Tennys Sandgren.

Ok, não esperávamos mesmo muita coisa na chave de simples. As duplas no entanto também pegaram estreias nada animadoras. Marcelo Melo, de última hora parceiro de Marcelo Demoliner devido à incrível crise de apendicite de Bruno Soares no voo para Tóquio, enfrentarão logo de cara a ‘dupla do ano’ Nikola Mektic e Mate Pavic, que ainda por cima acabaram de ganhar Wimbledon.

Já Luísa Stefani e Laura Pigossi, que entraram de última hora, terão pela frente as especialistas canadenses Gabriela Dabrowski e Sharon Fichman. Ironia do destino, Dabrowski será justamente a nova parceria de Stefani durante a lesão de Hayley Carter, repetindo a parceria que foi à final de Ostrava no ano passado.

Claro que sempre existe um lado positivo e, no caso das duplas, é o fato de que uma vitória desse porte logo de estreia irá dar a confiança necessária para um avanço significativo na chave. As mistas ainda não foram definidas e quem sabe, numa chave de 16 participantes, a oportunidade brasileira apareça.

Chaves de simples
Se existe algo a preocupar Djokovic neste começo de torneio olímpico é o clima muito úmido e quente em Tóquio. Não por acaso, ele destruiu raquete em pleno treino. O sorteio no entanto ajudou e o primeiro cabeça no caminho é Alejandro Davidovich. Então é bem provável vermos Nole lá nas quartas sem muito desgaste e aí pode ter Andrey Rublev. No entanto o cabeça 4 tem estreia perigosíssima diante da estrela local Kei Nishikori.

Alexander Zverev está no segundo quadrante e é o candidato natural à semi, mas o alemão nunca é previsível. Num piso veloz, pode se enrolar logo de cara com Yen-Hsun Lu, sofrer mais adiante contra Lorenzo Sonego e aí pegar Aslam Karatsev ou Hubert Kurkcacz nas quartas, que são dois nomes fortes na quadra dura.

O jogo inicial contra Alexander Bublik tende a ser a partida mais dura de Daniil Medvedev na primeira parte do torneio. Aí poderá encarar Pablo Carreño, Felix Aliassime ou até mesmo o bicampeão Andy Murray, adversário de estreia do garoto canadense. Acredito que Carreño seja o adversário natural, e nada fácil, se Medvedev chegar nas quartas.

Por fim, Stefanos Tsitsipas tentará colocar a cabeça em ordem, o que claramente não anda bem depois do vice em Roland Garros. E o destino resolveu atrapalhar: colocou o veteraníssimo Philipp Kohlschreiber de início e acena para o reencontro com Frances Tiafoe na sequência, o homem que varreu o grego de Wimbledon logo na estreia. A caminhada ainda poderá incluir Ugo Humbert. O outro setor está muito mais fraco, liderado por Diego Schwartzman e Karen Khachanov.

Equilibrada, a chave feminina tem olhos em Naomi Osaka, em sua primeira aparição após o polêmico abandono em Paris e com grande pressão por jogar em casa. Desde já, aguarda-se o duelo entre Osaka e Iga Swiatek lá nas quartas. O outro quadrante desse lado inferior está bem imprevisível: Elina Svitolina, Karolina Pliskova, Maria Sakkari. Jennifer Brady e a não pré-classiicada Ons Jabeur são todas boas alternativas.

A líder Ashleigh Barty carrega também dúvidas, aí em cima de seu quadril. Se estiver bem, o mais provável são ótimos duelos contra as atrações de Roland Garros, primeiro Anastasia Pavlyuchenkova e logo em seguida Barbora Krejcikova. Num piso que ajuda muito seu estilo forçado, Aryna Sabalenka se candidata à outra vaga na semi tendo como principais concorrentes Petra Kvitova e Garbiñe Muguruza.

Fique acordado
A largada do torneio olímpico será às 23h de sexta-feira, percorrendo a madrugada de sábado, e assim deve ser durante toda a competição, já que não estão previstas rodadas noturnas locais. Os organizadores também ignoraram a divisão das chaves e colocaram logo no primeiro dia tanto Djokovic como Medvedev, além de Osaka e todos os brasileiros, em simples e duplas.