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Nadal tira dúvidas
Por José Nilton Dalcim
15 de fevereiro de 2021 às 11:21

Com uma atuação empolgante, em que o saque funcionou e os golpes de base estiveram sempre muito agressivos, Rafael Nadal se colocou novamente na condição de fortíssimo candidato a mais uma final do Australian Open ao dominar Fabio Fognini na madrugada.

Aliviado, o espanhol afirmou pouco depois que a infiltração feita nas costas deu o resultado esperado e ele se sentiu bem mais à vontade, conseguindo enfim treinar com mais empenho. E isso se viu em quadra, onde tomou postura ofensiva o tempo todo e raramente deixou o sempre perigoso italiano à vontade.

É bem verdade que Fognini decepcionou pelas oportunidades perdidas no segundo set. Abriu 4/2 com saque, mas aí fez um festival de escolhas mal feitas. Além de perder dois serviços seguidos em que foi extremamente ansioso, ainda desperdiçou um 0-40. Aí não houve ânimo que sobrevivesse diante de um Rafa cada vez mais confiante.

A reação no início da segunda semana era tudo que o número 2 do mundo precisava. Por isso, entra com favoritismo natural para encarar a juventude e versatilidade de Stefanos Tsitsipas. O grego nem precisou ir à quadra devido ao estiramento abdominal de Matteo Berrettini, como era esperado. Nadal possui histórico amplamente positivo, de 6 a 1, todas vitórias na quadra dura. E revelou que prefere até jogar de tarde para aproveitar melhor a velocidade do piso. Segurem o Touro.

Duelo russo confirmado
Com roteiros um tanto diferentes, Daniil Medvedev e Andrey Rublev farão o aguardado duelo russo entre amigos. Enquanto Medvedev mesclou ataques e defesas oportunas diante de um empenhado Mackenzie McDonald, seu compatriota chegou a estar 3/5 atrás de Casper Ruud no segundo set antes de reagir e fazer 2 sets a 0. Aí o norueguês desistiu também com contusão abdominal.

Medvedev e Rublev ganharam a ATP Cup e estão invictos na temporada, mas o Urso ganhou todos os quatro duelos oficiais entre eles sem jamais perder set, todas na quadra sintética. Assim, é o candidato natural à semi, meta que Rublev ainda almeja num Slam. Para ratificar a condição de jogador que mais evoluiu nos últimos tempos, Rublev faz quartas pelo terceiro Slam seguido e tem uma outra passagem no US Open de 2017.

Já Medvedev marca sua maior campanha fora de Flushing Meadows, onde foi vice em 2019 e semi no ano passado. E tem uma super motivação a mais: vitória sobre Rublev o levará a assumir pela primeira vez o 3º posto do ranking, rebaixando Dominic Thiem.

Barty continua sonho australiano
Apesar da longa parada e da lesão na coxa esquerda, Ashleigh Barty continua a jogar muito bem e repete as quartas do Slam caseiro dos três últimos anos.

Passou sem sustos por Shelby Rogers, segue sem perder set e encara a tcheca Karolina Muchova, 27ª do ranking, que fez uma bela e dura partida contra  a belga Elise Mertens. A australiana venceu o único duelo anterior contra Muchova, mas ainda não poderá contar com a torcida, que continua afastada pelo menos até as semifinais de quinta-feira.

A outra vaga nas quartas será norte-americana, já que Jennifer Brady, 24ª do ranking, e Jessica Pegula, apenas 61ª, aproveitaram realmente o piso sintético mais veloz e tiraram Donna Vekic e Elina Svitolina, em dois jogos muito bem disputados.

Começam as quartas
Vale perder o sono na primeira parte das quartas de final de simples do Australian Open. Naomi Osaka joga às 22h30 com largo favoritismo sobre Su-Wei Hsieh. A japonesa nunca perdeu quartas, semi ou final de Slam nas três vezes que chegou lá.

No começo da madrugada, Grigor Dimitrov tenta espantar a ‘zebra’ Aslam Karatsev e repetir semi de 2017, além de saltar para o 11º lugar do ranking. O abusado russo vai exigir todo seu poder defensivo e o slice deve ser arma essencial para o búlgaro.

Simona Halep e Serena Williams entram às 5h para um jogo interessantíssimo, o primeiro que fazem desde que a romena atropelou Serena na final de Wimbledon de 2019. A norte-americana leva 9 a 2 no geral e terá de ser eficiente no seu estilo ofensivo já que Halep é excepcional nos contragolpes.

Em seguida, Novak Djokovic tenta mostrar que está totalmente recuperado diante de Alexander Zverev, a quem enfrentou três semanas atrás na mesma Rod Laver e ganhou com grande dificuldade. Mais do que nunca, o alemão terá de sacar bem e deve arriscar subidas à rede para não ficar só nas trocas. O sérvio tem 5 a 2 no histórico e deve experimentar as deixadinhas com maior frequência.

E mais
– Não foi fácil, mas Soares e Murray conseguiram virar em cima de Bolelli e González e avançaram para as quartas, onde serão favoritos diante de Arevalo e Middlekoop. Faltou entrosamento para Melo e Tecau. O mineiro devolveu muito bem, mas não foi o bastante para superar Dodig/Polasek.
– Apesar do único título em 2009, o Australian Open é o segundo Slam em que Rafa tem mais quartas (13) e vitórias (69).
– Pela primeira vez na Era Aberta, existem três russos nas quartas de Melbourne. Em Slam, isso já havia acontecido no US Open-2006 e Paris-2007.
– O tênis australiano não vê títulos no seu Open desde Chris O´Neil em 1978 e Mark Edmondson, em 1976.
– Seis dos atuais top 10 estão nas quartas do Australian Open e assim nada muda por enquanto nessa faixa, ainda mais com o congelamento da defesa de pontos. Só Dimitrov ameaça tirar postos de Schwartzman e Berrettini.
– Barty está garantida na liderança quaisquer que sejam os resultados daqui em diante.

Dores? Djoko se supera, Thiem se entrega
Por José Nilton Dalcim
14 de fevereiro de 2021 às 11:39

Um bate-bola de 60 minutos algumas horas antes de entrar em quadra foi toda a preparação que Novak Djokovic se permitiu antes de encarar o ‘freguês’ Milos Raonic. Não fez uma exibição brilhante, deixou mais um set no caminho e fez caretas ao se esforçar em alguns lances antes de anotar a histórica 300ª vitória em Grand Slam e avançar pela 48ª vez na carreira às quartas de um Grand Slam.

Raonic amargou a 12ª derrota e provavelmente sua maior chance de acabar com o jejum, já que Djokovic abriu pequenas brechas e por vezes se irritou com falhas pouco costumeiras. A superioridade do sérvio no entanto é muito grande e pouco a pouco o canadense sucumbiu com seu backhand frágil, mobilidade ruim e táticas mal executadas. Como sempre, Nole apostou em sua absurda qualidade de devolver saques bombásticos e apostou na consistência, ainda que estivesse talvez a 70% de sua capacidade.

Serão agora mais 48 horas para tentar recuperação ainda mais completa porque o próximo desafio promete ser muito mais exigente. Afinal, Alexander Zverev só perdeu um set no torneio e economizou no físico, já ganhou duas vezes de Djokovic em sete duelos e semanas atrás deu muito trabalho na ATP Cup exatamente na mesma quadra. É bem verdade que o alemão ainda não pegou um adversário de grande currículo na quadra dura – Adrian Mannarino e Dusan Lajovic estavam no caminho – porém Sascha só mostrou qualidades e evolução neste começo de temporada, a começar por um novo ímpeto de arriscar muito o segundo saque.

Enquanto Nole superava suas dores, Dominic Thiem se entregou a elas. Sem revelar exatamente quais os problemas físicos, o vice do ano passado admitiu não ter conseguido se recuperar do desgaste após a batalha diante de Nick Kyrgios e não aproveitou sequer a vantagem de 3/1 que abriu nos dois primeiros sets, cedendo viradas a um esforçado Grigor Dimitrov antes de encerrar sua campanha com um vexatório ‘pneu’ no terceiro set. O búlgaro atinge assim as quartas da Austrália pela quarta vez na carreira e vê boa chance de repetir a semi de 2017.

Seu adversário é uma daquelas surpresas que o Australian Open habitualmente produz. Dono de estilo de alto risco com bolas bem retas, o russo Aslam Karatsev ‘furou’ o quali em Doha, ficou proibido de treinar na quarentena por estar num dos aviões contaminados, atropelou Diego Schwartzman e mostrou pernas e cabeça para virar em cima de Felix Aliassime após perder os dois primeiros sets.

Assim, coleciona feitos: sétimo na Era Aberta a ir às quartas no primeiro Slam que disputa, primeiro quali a ir tão longe num Slam desde 2011 e na Austrália desde 1984. Saltará de 114º para 63º. Tem chance contra Dimitrov? Com certeza, mas o búlgaro deve ser mais esperto que Aliassime e usar seu ótimo slice para baixar a bola e complicar Karatsev.

Espetáculo das meninas
Um jogo melhor que o outro na abertura das oitavas femininas, onde qualquer coisa poderia ter acontecido. Quanta pancadaria, precisão, espírito de luta e nervos à flor da pele nas vitórias de Simona Halep, Naomi Osaka e Serena Williams. Pena que não havia torcida para enlouquecer as arquibancadas.

Osaka começou tensa contra Garbiñe Muguruza e demorou para reagir. A espanhola jogava dentro da quadra, assumia riscos e sacou para o que seria uma justa vitória. Aí Osaka brilhou. Sobrou coragem para salvar dois match-points e ganhar os três games seguintes em que Muguruza enfim cedeu mentalmente.

Serena e Aryna Sabalenka fizeram um jogo tão apertado e com tamanha qualidade que foi uma pena ter uma única vencedora. A bielorrussa jamais economizou na força, no risco e na exposição de suas sentimentos e por isso foi uma agradável surpresa ver Serena se mover tão bem, manter a cabeça no lugar e achar soluções que pareciam difíceis diante do fogo cerrado que vinha do outro lado.

Halep conseguiu se vingar da derrota sofrida para Iga Swiatek cinco meses atrás no saibro de Paris, mas levou susto diante da consistência da jovem polonesa no primeiro set. Aí a cabeça 2 caprichou mais no saque e atropelou. Houve troca precoce de quebras no set final até que Iga fizesse um game de saque horrível e daí em diante Halep foi primorosa no trabalho dos pontos a partir de um serviço bem colocado.

A outra vaga ficou com a veterana Su-Wei Hsieh, que se valeu de uma Marketa Vondrousova limitada por contusão. Aos 35 anos, a incansável taiwanesa – que joga no estilo Santoro com duas mãos nos dois lados – é a mais velha a atingir quartas de Slam pela primeira vez. Só venceu 1 de 5 duelos contra Osaka, mas cinco desses jogos foram ao terceiro set. Não vai ser fácil.

Serena ganhou 9 dos 11 jogos diante de Halep, mas perdeu talvez o mais relevante de todos, a final de Wimbledon de 2019, quando todos esperavam o 24º troféu de Slam da norte-americana.

E mais
– O fã brasileiro terá de encarar a madrugada para ver Nadal-Fognini, programado para 1h. Espanhol tem 12-4 no confronto, mas 1-1 em Slam. Apesar de todo o talento, Fognini só fez uma quartas de Slam, em Paris-2011.
– Russos são amplos favoritos na Margaret Court para confirmar o confronto direto nas quartas. Medvedev enfim ganhou seu primeiro jogo de cinco sets na véspera (agora 1-6) e encara McDonald, que volta de contusão. Rublev pega Ruud em duelo de ex-números 1 juvenis.
– Tsitsipas-Berrettini é primeiro confronto de tops 10 desta edição. O italiano terminou jogo contra Khachanov com problema abdominal.
– Svitolina tenta segunda vitória da temporada contra Pegula e Vekic lidera por 1-0 contra Brady. Mas americanas são perigosas num piso tão veloz.
– Barty é super candidata para repetir quartas de 2019 e 2020 contra Rogers, a quem venceu há poucos dias no WTA de Melbourne. Mertens tem favoritismo contra Muchova.
– Soares e Melo também jogam por volta de 1h e buscam quartas de duplas. Stefani e Carter pararam nas oitavas num dia em que jogaram mal e Monteiro e Millman até endureceram contra Mektic/Pavic. Os líderes do ranking Cabal/Farah não passaram da estreia.

Nadal economiza para 1º teste
Por José Nilton Dalcim
13 de fevereiro de 2021 às 10:32

Mesmo sem atuações empolgantes, Rafael Nadal cumpriu a parte mais importante de sua complicada primeira semana no Australian Open. Diante das dores lombares, soube economizar ao máximo a energia diante de três adversários bem inferiores e com isso parece pronto para seu primeiro real teste neste Australian Open diante do imprevisível Fabio Fognini.

Ainda que tenha feito 3 a 0 em cima do canhoto Cameron Norrie, que mostrou um backhand reto frágil e um jogo de rede sofrível, por várias vezes foi possível perceber inconformismo do espanhol com erros bobos e escolhas mal feitas. O saque, que é efetivamente seu maior problema, manteve a média de 179 km/h e entrou 68% das vezes. São números satisfatórios, embora seja certo que precisam subir de qualidade diante de Fognini. A boa notícia é que Nadal disse ter enfim conseguido realizar o movimento tradicional de saque, já que se sentiu melhor das costas.

O italiano atropelou Alex de Minaur, num placar um tanto inesperado, já que correr atrás da bola e se defender são especialidades do australiano. Fognini no entanto tratou de jogar perto da linha, pegar na subida e tirar o tempo do garoto, o que fez com persistência, ainda que tenha somado 42 erros nessa tática mais arriscada. Havia certa preocupação com o desgaste do longo duelo anterior diante de Salvatore Caruso, em que salvou até match-point, e Fabio admitiu que os tornozelos operados lhe causaram dor ao final dos cinco sets.

Nadal reconheceu no papo em quadra que o saldo negativo entre winners e erros (hoje foram 33 a 35) talvez seja o ponto crucial a melhorar para a segunda semana. Muitos de seus embates contra Fognini foram bem divertidos e de alta qualidade, como a épica virada do italiano no US Open-2015, a batalha no saibro de Madri-2017 ou a semi do Rio-2015. No geral, no entanto, o espanhol tem larga vantagem: 12 a 4. Os dois mais recentes aconteceram em 2019, com aquele passeio surpreendente de Fognini no saibro de Monte Carlo e a reação de Rafa no piso duro do Canadá.

Raivoso Medvedev
E de repente Daniil Medvedev saiu de giro. Ele fizera dois sets convincentes diante do bom Filip Krajonovic, mas o sérvio adotou postura mais ofensiva e aí levou ao quinto set. Antes de aplicar ‘pneu’, o russo brigou com o treinador Gilles Cervera, que se retirou e não voltou mais, além de pedir atendimento para o glúteo.

Não deve ter dificuldade contra Mackenzie McDonald, mas terá de controlar melhor os nervos no eventual reencontro com o amigo Andrey Rublev. O outro top 10 russo fez mais uma ótima exibição, permanece sem perder set e faz duelo de nova geração contra Casper Ruud, a quem superou nos dois cruzamentos anteriores.

No quadrante de Nadal, confirma-se o duelo entre Stefanos Tsitsipas e Matteo Berrettini. O grego, que levou a melhor há dois anos no mesmo Australian Open, só perdeu seis games para o fraco Mikael Ymer e se recuperou do susto da rodada anterior. O italiano somou a quarta vitória sobre o sempre instável Karen Khachanov mas foram  três tiebreaks. É um jogo sem favorito, porém acredito mais em Tsitsipas.

Barty e mais três americanas nas oitavas
Ainda que tenha entrado em quadra outra vez com a larga proteção na coxa esquerda, Ashleigh Barty usou suas variadas armas para nova boa vitória em Melbourne, onde ainda não perdeu em 2021. Tenista também de muito talento, Elina Svitolina jogou ainda melhor do que nas rodadas anteriores.

As duas terão pela frente uma armada norte-americana que não figura como cabeças. Barty pega Shelby Rogers, Svitolina encara Jessica Pegula e ainda está de pé Jennifer Brady, que só cedeu 11 games nesse piso veloz do Australian Open e será a adversária de Donna Vekic.

Mesmo depois de ter 5/0 no segundo set, Karolina Pliskova caiu diante da amiga Karolina Muchova e mostra falta enorme de confiança neste começo de temporada. Muchova encara a embalada Elise Mertens.

E mais
– Permanece a dúvida sobre a entrada em quadra de Djokovic para tentar a 12ª vitória em cima de Raonic. O líder do ranking não treinou neste sábado e foi fazer novos exames para saber o tamanho da lesão muscular do abdômen.
– Thiem reencontra Dimitrov na madrugada com placar desfavorável de 2-3 nos duelos diretos e Zverev é favorito diante do 2-0 sobre Lajovic.
– Aliassime encara a surpresa Karatsev e todo cuidado é pouco. O jogo será na Margaret Court, que os tenistas consideram a mais lenta das quadras do complexo neste ano.
– A rodada feminina nesta abertura das oitavas é excepcional. Duelos inéditos de Osaka-Muguruza e Serena-Sabalenka e o reencontro de Halep-Swiatek. O único jogo menos empolgante terá Vondrousova-Hsieh. Duríssimo falar em favoritismos. Talvez a única que me pareça com certa vantagem seja Osaka.
– Melo e Monteiro se juntaram a Soares e Stefani nas oitavas de duplas. A campanha de Thiago ao lado de Millman é notável, ainda mais depois de tirar os irmãos Skupski.
– Preocupação nos bastidores surgiu com o anúncio de Pervolarakis. O grego que jogou simples e duplas na ATP Cup testou positivo para o coronavírus assim que chegou à África do Sul vindo de Melbourne.