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As chances de surpreender a Alemanha de novo
Por José Nilton Dalcim
3 de março de 2022 às 21:25

A situação é um tanto semelhante à de 1992, quando também escolhemos o saibro do Rio de Janeiro em meio ao duro verão para encarar um time de largo histórico na Copa Davis e que alinhava um jogador de alto nível, então Boris Becker. O time nacional não era espetacular, mas contava com o experiente Luiz Mattar, o ascendente Jaime Oncins e a dupla confiável de Cássio Motta e Fernando Roese.

Nesta sexta e sábado, voltamos a encarar o favoritismo dos alemães com time que conta com Thiago Monteiro em boa fase e um talento como Thiago Wild para encarar o número 3 do mundo Alexander Zverev e o instável Jan-Lennard Struff. Há também algumas importantes diferenças. Em que pesem os currículos desiguais, Sascha joga muito melhor no saibro do que Becker. E não existem mais os cinco sets, que poderiam ‘fritar’ a cabeça adversária como Nico fez com Becker a ponto de o fazer desistir do dia de jogos decisivos.

Temos chance? Com certeza. Será difícil obviamente ganhar de Zverev e para isso precisaremos contar com um apuro tático excepcional e um dia não muito inspirado do alemão. Diante do excepcional sacador e sem ter devolução de grande eficiência, Wild primeiro e depois Monteiro terão como meta essencial evitar quebras porque a recuperação tenderá a ser bem difícil. Há um buraco a explorar ali no lado direito, especialmente se colocarem Zverev em movimento. E, é claro, chamar Sascha para a frente.

Mas a chave está mesmo em Monteiro ganhar do Struff no segundo jogo desta sexta-feira. Os dois se conhecem e o canhoto cearense ganhou dois dos três duelos sobre o saibro. Ex-top 30, Struff está num momento ruim. Só venceu um de seus seis jogos nesta temporada, fez uma única semifinal de ATP nos últimos oito meses mas não pode ser nem de longe menosprezado. Em Roland Garros do ano passado, como exemplo, bateu Carlos Alcaraz em sets diretos.

Se conseguirmos chegar empatados no domingo, a dupla será fundamental e aí fica a maior dúvida. O capitão Jaime Oncins ousou, substituiu Marcelo Melo por Felipe Meligeni, que vem do título em Santiago ao lado de Rafael Matos, e aí será preciso ver qual o entrosamento que será obtido com Bruno Soares, o vice do Rio Open 12 dias atrás. Por enquanto, a Alemanha escalou os especialistas Tim Puetz e Kevin Krawietz, mas não ficarei surpreso se Zverev entrar de última hora.

Torcida não ganha jogo, mas será bem legal ver o Parque Olímpico cheio para motivar da forma correta o Brasil. A vitória vale um lugar de muito prestígio – e ótima premiação – na fase de grupos da Final da Davis, em setembro, quando provavelmente os confrontos serão sobre piso sintético coberto.

Nos demais 11 classificatórios deste fim de semana, espera-se vitórias sem sustos de França sobre Equador, Espanha contra Romênia, EUA frente a Colômbia, Argentina contra os tchecos e Austrália sobre os húngaros. Emoções maiores podem pintar nos duelos Finlândia-Bélgica, Holanda-Canadá, Eslováquia-Itália e Noruega-Cazaquistão. Sem grandes estrelas, Suécia joga em casa contra o Japão e a Coreia encara a Áustria.

Luísa Stefani merece o top 10
Por José Nilton Dalcim
1 de novembro de 2021 às 20:41

O tênis brasileiro ganhou uma nova heroína. Luisa Stefani se tornou a primeira mulher e a sexta entre os jogadores nacionais a atingir um posto no top 10 do ranking profissional, ou seja, desde que ATP e WTA criaram seus sistemas matemáticos em 1973 e 1975. Na era amadora, Maria Esther Bueno foi aclamada número 1 pela Federação Internacional ao final de três temporadas.

O pioneirismo na Era Aberta coube a Cássio Motta e Carlos Kirmayr, que apareceram ao mesmo tempo entre os 10 primeiros em setembro de 1983, façanha que só seria repetida por Guga Kuerten, que entrou pela primeira vez nessa nobre faixa em agosto de 1997. Depois dele, novamente os duplistas garantiram o prestígio do tênis brasileiro: Bruno Soares virou top 10 em junho de 2013 e quatro meses depois Marcelo Melo fez o mesmo.

É bem importante observarmos que a evolução de Luísa nas últimas quatro temporadas foi excepcional. Ano a ano, ela praticamente dobrava de pontos e eficiência. Chegou a 182ª no final de 2018, atingiu  o 67ª em novembro da temporada seguinte, ficou bem perto do top 30 no fim de 2021 e no atual calendário subiu progressivamente até o top 10.

Entre os trunfos, está a abdicação da carreira de simples – com a ascensão rápida nas duplas, seu calendário mirou os grandes torneios -; o trabalho com o indiano Sanjay Singh, o guru de Leander Paes, e a troca de parceria, um tanto ao acaso, já que Hayley Carter teve problema médico e Gabriela Dabrowski pintou como providencial alternativa. Claro que o fato de Stefani ter crescido no piso duro norte-americano desde a adolescência possui um peso enorme nesse sucesso, tanto na adaptação ao piso mais importante do tênis de hoje como na técnica para as duplas. Seu trabalho junto à rede é excepcional.

A chegada ao top 10 veio no momento em que Luísa se recupera da cirurgia no joelho e viu duas concorrentes perderem pontos de 2019. Isso não deve ser encarado como ressalva. Afinal, não fosse a fatalidade da torção sofrida, Stefani era séria candidata à final e até mesmo ao título do US Open, bem como poderia somar muitos pontos em Indian Wells. O mérito é incontestável.

Até onde pode chegar esta paulista de meros 24 anos é a pergunta que mais me fizeram hoje. Observemos que o circuito de duplas das meninas é muito competitivo e tem sido bem democrático, com sucessivas trocas na liderança. No momento, as quatro primeiras estão na casa dos 7 mil pontos e a distância de Luísa para a número 5, a própria Dabrowski, é de 980 pontos.

A porta está certamente aberta para saltos ainda maiores, porém ainda é preciso ver quando Luísa terá condições de voltar ao circuito – o Australian Open está descartado -, se será possível retomar a parceria com Dabrowski e qual o grau e velocidade de sua readaptação. É mais um desafio a se encarar e vencer.

Emoções em Paris
Há muita coisa importante a acontecer nesta semana no Palácio de Bercy, em Paris, único dos Masters 1000 promovido sobre teto fechado permanente. Para começar, Novak Djokovic retorna após dois meses e tenta acabar com o sonho de Daniil Medvedev fechar o ano como número 1 do ranking da temporada. O piso sempre foi bem lento, mas não impediu o título do russo no ano passado em cima de Alexander Zverev. Campeão em 2019, Nole não competiu.

A luta pelas duas vagas restantes ao ATP Finals também esquenta as rodadas iniciais. Casper Ruud e Jannik Sinner estão muito perto de jogar o prestigiado torneio pela primeira vez, mas Cameron Norrie e Hubert Hurkacz estão próximos e não podem ser descartados. A partir dos 180 pontos das quartas de final, a coisa promete ficar tensa.

Por fim, Zverev merece atenção especial porque está jogando num nível muito elevado, bem acima de Stefanos Tsitsipas, e pode definitivamente barrar Medvedev e Djokovic. Suas exibições em Viena foram notáveis, tanto em confiança como em variações táticas. É a melhor versão de Sascha que já apareceu, não resta dúvida.

Djoko amplia façanhas, Zverev assusta
Por José Nilton Dalcim
3 de setembro de 2021 às 00:51

A excepcional qualidade da devolução, que obrigou o adversário a jogar praticamente todos os pontos depois do seu serviço, foi mais do que suficiente para Novak Djokovic avançar sem desgaste à terceira rodada do US Open.

Por isso, nem mesmo a perda de um serviço no segundo set e a disputa de alguns games mais apertados fez qualquer diferença. O sérvio se mostrou outra vez muito concentrado e irá rever no sábado o ‘freguês’ Kei Nishikori, que precisou sobreviver a maratona 4 horas de cinco sets contra Mackenzie McDonald. A cena do japonês se arrastando pela quadra após suadas trocas contra Nole é bem conhecida.

Com o segundo dos sete passos que precisa para o grande feito, Djokovic também se isola ainda mais dos concorrentes. Agora, é o único a somar ao menos 77 vitórias em cada Slam, que se somam às 79 em Wimbledon, 81 em Paris e 82 em Melbourne.

Nishikori de qualquer forma aumenta sua marca de 27 vitórias em 34 partidas que foram ao quinto set, a maior entre os jogadores em atividade.

É inegável que Alexander Zverev também viveu uma quinta-feira inspiradíssima e atropelou de forma impiedosa o canhoto Albert Ramos, com estatísticas notáveis: 81% de primeiro saque em quadra, com sucesso em 40 de 43 desses pontos, nenhum break-point cedido e 27 a 10 nos winners. Atuação assustadora.

Para ir às oitavas, terá de passar por um surpreendente Jack Sock, o ex-top 10 que hoje é 184º após muitas contusões e perda total de confiança. É a primeira vez que ganha dois jogos seguidos de Slam desde o Australian Open de 2017, período rm que virou grande duplista com quatro troféus de Slam. A vitória sobre Alexander Bublik em cinco sets foi empolgante. E olha que o cazaque disparou 40 aces contra 9.

Pliskova escapa
Mais uma grande noite para o tênis feminino na Arthur Ashe. Karolina Pliskova e Amanda Anisimova fizeram um duelo milimétrico, com golpes espetaculares de lado a lado, nervos no topo, coragem e precisão em momentos de extrema pressão.

Pliskova disparou 24 aces, Anisimova fez 44 winners no total e a decisão no tiebreak viu match-points para os dois lados. A vice-campeã de Wimbledon deste ano e do US Open de 2016 avança para encarar Ajla Tomljanovic certa de que há ainda muitos desafios pela frente nesta dura chave.

Ashleigh Barty desta vez não me agradou. A jovem Clara Tauson é de nível claramente inferior, mas a número 1 não se soltou. Agora reencontra pela quinta vez neste ano a local Shelby Rogers, tendo vencido todas.

Já a campeã olímpica Belinda Bencic fez jogo tranquilo, mas agora começam suas provações: Jessica Pegula e depois Iga Swiatek ou Anett Kontaveit. A polonesa levou um bom susto diante de Fiona Ferro.

Bianca Andreescu sofreu bem menos nesta segunda rodada e é super favorita diante de Greet Minnen, mas depois terá Petra Kvitova ou Maria Sakkari. Ou seja, tudo pode acontecer.

E mais
– Karatsev salvou dois match-points contra Thompson e enfrenta a sensação local Brooksby, que virou contra Fritz, foi duas vezes ao vestiário e gastou um total de 20 minutos por lá. E fez um lance incrível. Quem vencer, deve ser o adversário de Djokovic nas oitavas.
– Aos 37 anos, Seppi perdeu feio o primeiro set e depois se agigantou contra Hurkacz. Boa chance de dar duelo italiano nas oitavas contra Berrettini. O cabeça 6 não pôde vacilar contra Moutet.
– Monfils contra Sinner deve ser melhor duelo da parte de cima da chave nesta terceira rodada. O francês deu show e ganhou até a torcida, mesmo enfrentando Johnson. O italiano quase se enrolou contra o promissor Svajda, americano de 18 anos e 716º do ranking mas de personalidade e bons golpes.
– Setor mais enrolado terá Opelka-Basilashvili e Shapovalov-Harris.
– Dia muito positivo para os duplistas brasileiros, com vitórias de Stefani, Soares, Demoliner e Monteiro. Só mesmo Melo caiu, e duas vezes, incluindo as mistas com a Luísa. E o dia foi de zebras, com quedas de Mektic/Pavic e Krejcikova/Siniakova.
– Estrela em Wimbledon onde fez oitavas, Raducanu ‘furou’ o quali em Nova York e já ganhou duas na chave.
– Kerber venceu jogo atrasado da parte inferior da chave e marcou duelo de campeãs diante de Stephens para esta sexta-feira.