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Medvedev se prepara para um bom reinado
Por José Nilton Dalcim
24 de fevereiro de 2022 às 21:27

Foi o jogo agressivo do canhoto Jiri Vesely, um tenista de golpes poderosos mas que hoje é mero 123º do ranking, que decidiu a histórica alteração na ponta do ranking. Depois de 18 temporadas, nenhum Big 4 será número 1 na lista da próxima segunda-feira, todos superados pelo estilo pouco ortodoxo de Daniil Medvedev.

O russo completou 26 anos há 13 dias e certamente passará todo o mês de março na ponta. Mesmo que não vença rodadas em Indian Wells ou Miami – onde defende 180 pontos -, não terá como ser ultrapassado por Djokovic porque o sérvio não possui autorização para entrar nos Estados Unidos sem comprovar vacinação e, ainda por cima, perderá 45 pontos de Miami de 2019.

Na verdade, a lógica manda apostar que o russo irá aumentar gradativamente a distância para Nole até o saibro chegar. A semi de Acapulco já lhe dá margem de 150 e, em caso de novas vitórias, pode subir para 270 ou 470 antes mesmo dos Masters. E não é muito sensato imaginar que Medvedev irá perder em rodadas precoces no seu piso predileto nos 1000 norte-americanos. Um cálculo razoável me diz que ele terminará a fase das quadras duras com algo em torno de 1.000 pontos de vantagem sobre Djokovic. Na verdade, quem pode competir com ele é Alexander Zverev, desde que ganhe os dois torneios.

Vale lembrar que no momento Djokovic também não conseguiria jogar Monte Carlo, podendo no máximo entrar na semana anterior no 250 de Marrakech e na posterior em casa, Belgrado, outro 250. E se conseguir autorização para ir a Madri e Roma, os títulos ainda só o fariam subir 900 pontos (2000 menos os 1.100 que defende). E depois, como sabemos, ele é o atual campeão de Roland Garros e de Wimbledon.

Assim, é mais provável que Djokovic precise lutar para se manter no número 2 diante de ameaças reais que Zverev, Stefanos Tsitsipas e Rafael Nadal representam. Apenas como exemplos práticos, Nadal pode somar 2.640 pontos caso volte a ser o dono absoluto do saibro. Zverev também concorre a adicionar 2 mil pontos se for muito bem na terra, além daqueles eventuais 1.900 possíveis em Indian Wells e Miami.

Portanto, a boa notícia é que pode haver muito mais luta pelo número 1 e demais postos do top 5 até a metade do ano, e isso sempre é muito motivador para o circuito e público. Eu particularmente acho espetacular quando um troféu vale também um posto de relevância no ranking.

Irônico, poucas horas depois de a Rússia invadir a Ucrânia e provocar um temor de guerra aberta na Europa, Medvedev se torna o terceiro tenista russo a liderar o ranking, quase 21 anos depois do último, Marat Safin, que vingou em intervalos curtos entre novembro de 2000 e abril de 2001. Ele sucedeu Yevgeny Kafelnikov, número 1 entre maio e junho de 1999. Como se vê, reinados curtos: Safin liderou 9 semanas e Kafelnikov, 6. Há chance real de Medvedev passar rapidamente pelos dois.

Medvedev também garantiu um feito para o livro dos recordes: é o mais alto a liderar o ranking com seus 1,98m (ele também é o mais alto a ganhar Slam, façanha que divide com Juan Martin del Potro e Marin Cilic).

E mais

  • Medvedev reencontrará Nadal na semi desta sexta-feira, revivendo a recente final do Australian Open. Espanhol fez um segundo set muito instável contra Tommy Paul, mas tem 4-1 no histórico contra o russo.
  • Desempenhos muito aquém do imaginado de Thiago Wild e Matheus Pucinelli nas oitavas de final de Santiago. Juntos, não tiraram mais que seis games de Yannick Hanfmann e Miomir Kecmanovic. Mas que fique claro que os dois vencedores jogaram muito bem. Aliás, Hanfmann me parece um sério candidato a entrar de última hora no time alemão da Copa Davis que vem ao Rio.
  • Rafael Matos e Felipe Meligeni ganharam de Thiago Monteiro e Orlando Luz e estão na final no saibro chileno porque os adversários da semi desistiram. Será a chance de chegarem ao segundo troféu de nível ATP, depois da vitória notável em Córdoba de 2021.
  • Vesely tem agora 2 a 0 nos confrontos contra Djokovic, já que repetiu vitória de Monte Carlo-2016. Ele saiu do quali e disse que a tática foi acelerar todos os pontos. E gostou de seu feito: “O tênis precisava de um novo número 1”. Djokovic, que perderá sequência de 86 semanas mas detém o recorde absoluto de 361, não concordou muito e, ao ser solicitado para falar algo sobre Medvedev, limitou-se a um ‘congratulations’.
  • Ex-35 do mundo e agora com 28 anos, Vesely enfrentará Denis Shapovalov na semi. A outra vaga ficará entre Hubert Hurkacz e Andrey Rublev.
  • Jelena Ostapenko atropelou Garbiñe Muguruza e encara Anett Kontaveit, de quem perdeu semanas atrás em São Petersburgo. A outra semi terá Maria Sakkari contra Iga Swiatek, que foi muito bem diante da cabeça 1 Aryna Sabalenka.
Medvedev encanta e entristece
Por José Nilton Dalcim
12 de setembro de 2021 às 23:01

Há dois sentimentos antagônicos nesta final de placar inesperado num dos melhores Grand Slam da útlima década. De um lado, é impossível não sentir tristeza pela chance perdida por Novak Djokovic e se comover com suas lágrimas. De outro, há uma satisfação em ver Daniil Medvedev mostrar um tênis tão eficiente e uma cabeça tão boa para erguer um troféu que parecia inevitável, mais cedo ou mais tarde.

Claro que as duas coisas se fundem quando se avalia o que aconteceu neste domingo na Arthur Ashe. O russo entrou com uma tática muito bem definida  e executada, aliás um tanto surpreendente, ao forçar o segundo saque o tempo todo e optar por não dar peso nas trocas de bola. Mas isso funcionou também porque Djokovic sentiu demais o peso da história sobre seus ombros e não conseguiu administrar a parte emocional, o que sempre foi seu forte. Absolutamente justificável, diga-se. O tamanho da dupla façanha – fechar o Slam e chegar ao recorde do 21º troféu – somava toneladas. E isso ficou evidente na expressão sofrida antes mesmo do fim da partida.

Ainda nessa mistura obrigatória de situações, Medvedev teve uma campanha límpida ao longo das duas semanas, auxiliado por adversários pouco categorizados. Dos cabeças, enfrentou apenas Daniel Evans e Felix Aliassime e o único set perdido foi numa distração diante do quali holandês Botic van de Zandschulp. No caminho, nomes como Richard Gasquet e Pablo Andujar. Não é demérito, porque o russo fez o seu papel de forma louvável e repetiu Ivan Lendl e Rafael Nadal como únicos a vencer o US Open com um set perdido em 34 anos.

Djoko, por seu lado, raramente jogou seu melhor. Entrou sempre tenso em quadra, a ponto de perder o set inicial quatro vezes seguidas. O saque afiado, algumas devoluções preciosas e preparo físico impecável foram lhe dando as vitórias. Sua atuação mais vistosa foi na semifinal contra Alexander Zverev, ainda assim levado ao quinto set. A insistência em não comentar sobre a oportunidade histórica de repetir Rod Laver talvez não tenha sido a melhor escolha e me parece que isso se refletiu na hora ‘h’.

Para piorar, Medvedev entrou em quadra muito sóbrio e teve uma atuação brilhante, mesclando ataque e defesa, ousadia e paciência, controle emocional nos poucos momentos de aperto. Enfim se assustou no momento de concluir o título, o que também é plenamente aceitável. Afinal, chegou a sacar sob vaias. Com sua conquista, se tornou o nono diferente campeão do US Open nos últimos 14 anos e o quinto a ganhar em Nova York seu primeiro Slam, como fizeram Del Potro, Murray, Cilic e Thiem. Também relevante é o fato de que se mantém como o único dos 82 adversários de Nole como número 1 do ranking a ter um histórico positivo, agora de 4 a 2.

É o terceiro russo a ser campeão de um Slam. Yevgeny Kafelnikov e Marat Safin têm dois troféus, mas apenas Safin tem uma final a mais que Medvedev. A Rússia não via um campeão de Slam entre os homens desde o mesmo Safin, em 2005.

Não há dúvida que Djokovic jogou a mais importante de suas 1.176 partidas e que sofreu talvez a mais dura das 198 derrotas. O 21º troféu no entanto pode ter sido apenas adiado e tem grande chance de vir talvez já em Melbourne, daqui a quatro meses, já que sempre será um favorito natural por lá. Mas a oportunidade de ‘fechar’ o Grand Slam será muito difícil de acontecer de novo para ele ou para qualquer outro jogador do circuito atual.

De qualquer forma, não há nada que o diminua. Ganhar os três primeiros Slam de uma temporada tem sido algo reservado para muito poucos. Além dele e de Laver, em 62 e 69, apenas Lew Hoad (1958), Don Budhe (1938) e Jack Crawford (1933) fizeram isso. E só Laver e Budge completaram a façanha nos EUA. o sérvio ainda tem o importante diferencial de ter feito isso em três pisos distintos, o que não existia antes de 1978.

Djokovic deixou escapar a maior façanha do tênis profissional, porém nos lembrou que afinal um Goat ainda é um ser humano que duvida, falha e chora.

Renovação forçada
Por José Nilton Dalcim
19 de março de 2021 às 19:49

Nem dá para fingir surpresa. A desistência de Novak Djokovic de Miami, anunciada há pouco pelo número 1 do mundo, era simplesmente lógica. Depois de um esforço hercúleo para completar a campanha vitoriosa no Australian Open, o sérvio tinha mesmo de se tratar. Viajar aos Estados Unidos para um único torneio e depois voltar para a Europa e ter apenas cinco dias de preparação para o saibro de Monte Carlo soaria completamente absurdo.

Nole seguiu os passos de Rafael Nadal, que também saiu contundido de Melbourne, e em menor grau os de Roger Federer, ainda se recuperando da dupla cirurgia no joelho, mas o sérvio será certamente o desfalque maior em Miami. Afinal, ele e Andre Agassi são os únicos com seis títulos no Masters, onde possui a marca de 44 vitórias em 51 jogos. Vale lembrar que Djoko ainda não perdeu jogos em 2021, tendo vencido todos na ATP Cup e no Australian Open.

A consequência imediata e histórica é que Miami se torna o primeiro Masters 1000 desde Paris de 2004 a não ter qualquer um dos Big 3 em quadra. Nessa longa trajetória, passaram-se 138 torneios de tal quilate. Isso é tão distante na memória que a ATP recorreu a um vídeo para lembrar que Marat Safin levou o título em cima de Radek Stepanek. Também será o primeiro Masters de Miami sem um dos Big 3 desde 1998.

Essa renovação forçada abre o leque para que surja um novo campeão de Masters, o que também tem sido algo raro. Desde o início de 2009, apenas 17 tenistas fora do Big 4 conseguiram erguer um troféu. Sinal dos tempos, isso ficou um pouco mais normal a partir de 2018, com títulos de Juan Martin del Potro, John Isner, Alexander Zverev, Karen Khachanov, Dominic Thiem, Fabio Fognini e Danill Medvedev.

Até o final desta sexta-feira, a ordem dos oito primeiros cabeças de chave em Miami relaciona Medvedev, Stefanos Tsitsipas,Zverev, Andrey Rublev, Diego Schwartzman, Matteo Berrettini, Roberto Bautista e Denis Shapovalov. Observem que apenas dois deles já ganharam Masters e seis podem ser considerados da nova geração.

A outra pergunta que se faz necessária é o motivo de tantos abandonos. Da lista original de inscritos, nada menos que 30 já desistiram e poucos deles por contusão declarada. O corte original era o 77º, mas hoje já está no 114º. O próximo aliás a garantir vaga direta é a sensação de Acapulco, o garoto Lorenzo Musetti.

A explicação mais lógica parece estar no misto da grande baixa de premiação – 60% menor do que a de 2019, última edição realizada -, da saída pelo segundo ano consecutivo de Indian Wells e a sempre arriscada viagem diante de um quadro ainda preocupante da pandemia internacional. Sem falar que a temporada de saibro agora ficou quase grudada, uma vez que Monte Carlo começa apenas seis dias depois da final de Miami.

Na longa lista de abandonos, além de quatro dos top 6 figuram Gael Monfils, Pablo Carreño, Stan Wawrinka, Borna Coric, Filip Krajinovic, Richard Gasquet, Nick Kyrgios, Alejandro Davidovich, Kyle Edmund, Jo-Wilfried Tsonga, Gilles Simon, Pablo Cuevas, Lucas Pouille, Egor Gerasimov, Marco Cecchinato e Roberto Carballes. Fácil notar que muitos desses nomes estavam normalmente no circuito há uma ou duas semanas.

A boa notícia para o tênis brasileiro é que Felipe Meligeni conseguiu vaga em seu primeiro qualificatório de nível Masters e juntou-se a Thiago Wild e João Menezes. O próprio Wild está a seis vagas da chave principal, algo que não parece agora tão impossível Thiago Monteiro é nosso único nome garantido em simples. O torneio será aberto na quarta-feira.

É crucial observar que tal debandada não acontece na chave feminina. Ao contrário, até mesmo a número 1 Ashleigh Barty saiu de seu auto-isolamento e garantiu presença. Das atuais top 50, só não jogarão Karolina Muchova, Donna Vekic e Barbora Strycova, o que garante um grupo extremamente forte.

As oito principais cabeças serão Barty, Naomi Osaka, Simona Halep, Sofia Kenin, Elina Svitolina, Karolina Pliskova, Serena Williams e Aryna Sabalenka.

  • No domingo, volto para a análise das incríveis surpresas deste começo de temporada