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Brilhante, Alcaraz apimenta Roland Garros
Por José Nilton Dalcim
8 de maio de 2022 às 22:08

Não é apenas a sucessão incrível de vitórias, títulos e façanhas. Acima de tudo, está a forma com que Carlos Alcaraz roubou a cena do circuito internacional de tênis. Mal completou 19 anos, possui uma seleção de golpes que poucas vezes se viu no circuito, traz uma proposta diferenciada e vistosa de jogar, demonstra enorme capacidade emocional e possui empatia contagiante. Não é à toa que todo mundo está de boca aberta.

Levantou o título de Madri com vitória sobre quatro dos 11 melhores do ranking e derrotou sucessivamente os monstros sagrados do saibro Rafael Nadal e Novak Djokovic, os dois aliás no terceiro set. Conseguiu reencontrar concentração e força para bater o ídolo Rafa após torção no tornozelo e superou o número 1 no tiebreak final, com uma maturidade e ousadia tão evidentes que até mesmo Nole ficou impressionado.

A vitória neste domingo sobre um estafado Alexander Zverev foi até um anticlímax, porque o alemão não jogou nada. O saque ainda o salvou no começo do jogo, mas a partir do momento que o espanhol encontrou o ritmo das devoluções o resultado foi um massacre. Ganhou 24 dos últimos 34 pontos da partida. Sascha, com enorme razão, desceu a lenha na organização por ter feito sempre a última partida das rodadas, que para seu azar começaram muito além do previsto e invadiram a madrugada. Saiu da semifinal à 1h da manhã local e teve apenas 15 horas para se recuperar.

Ele próprio sabe que Alcaraz era o favorito em qualquer circunstância, mas essa falha prejudicou uma final que poderia ter sido bem divertida. É muito provável que os promotores de Madri pouco se importem com isso, já que a ascensão de Alcaraz causa um furor na Espanha. A semi contra Djokovic liderou a audiência da tv local com mais de 34% dos aparelhos sintonizados.

O volume de jogo de Alcaraz, considerando-se aí a capacidade ofensiva e a postura tão positiva, apimenta de vez a expectativa por Roland Garros, ainda mais agora que ele optou corretamente por não ir a Roma. Conforme explicou, o tornozelo ainda dói e o sensato é tratar e descansar duas semanas. Fica assim uma dúvida salutar, uma vez que Paris está muito mais para Roma do que para Madri. Terá ele capacidade de manter esse padrão em condições mais lentas e por muito mais sets?

A discussão vai dominar o tênis até o Aberto francês chegar, daqui a dois domingos. Uma coisa é certa: ninguém vai querer ficar no mesmo lado da chave que Alcaraz.

As façanhas de Carlitos

  • Ganhou todas as últimas nove finais que disputou desde outubro de 2020, o que inclui três challengers, o NextGen Finals e cinco ATPs
  • Único tenista a derrotar Nadal e Djokovic num mesmo torneio sobre o saibro
  • Mais jovem a ganhar cinco torneios de ATP desde Nadal, que tinha 18 anos em 2005
  • Mais jovem a derrotar o número 1 do mundo em 15 anos
  • Mais jovem a bater três dos top 5 num mesmo torneio, superando Djokovic em 2007
  • Aos 19 anos e 4 dias, é segundo mais jovem a ganhar dois Masters 1000, atrás de Nadal, que tinha 18 e 340 dias em 2005
  • Sete vitórias seguidas sobre adversários top 10 e oito em 10 na temporada
  • Mais jovem campeão de Miami e de Madri
  • Mais jovem campeão de ATP 500 ao vencer no Rio
  • Já ganhou mais Masters 1000 do que Wawrinka e Del Potro
  • Terceiro mais novo a ganhar um Masters 1000
  • Passa a ser número 6 do mundo, 114 postos acima do que ocupava um ano atrás
  • Assume liderança da temporada em títulos (4) e vitórias (28)
  • É o número 2 no ranking da temporada, apenas 70 pontos atrás de Nadal

Reações
Do jeito que está jogando, ele é tão favorito para Roland Garros quanto Nadal e Djokovic” (Andy Roddick)
Você é no momento o melhor tenista do mundo. É excepcional para o tênis ter este superstar, que irá ganhar muitos Slam e ser número 1” (Alexander Zverev)
Para alguém de sua idade, jogar de forma tão madura e valente é impressionante“. (Novak Djokovic)
Quando sua adrenalina sobe, ele é praticamente imparável“. (Rafael Nadal)
Neste momento, a ordem é ‘fuja do Alcatraz’ para vencer Roland Garros, mais até do que ‘vamos Rafa‘” (Yevgeny Kafelnikov)

Espetáculo em dose dupla
Por José Nilton Dalcim
7 de maio de 2022 às 21:08

Carlos Alcaraz não para de fazer história. Num daqueles jogos memoráveis, tanto em emoção como em qualidade técnica, barrou o número 1 Novak Djokovic diante de uma deslumbrada torcida e poderá erguer seu segundo troféu de nível Masters 1000 em dois meses, tornando-se o único na temporada com quatro títulos e 28 vitórias. Dois dias depois de completar 19 anos, já é o sexto do ranking, 114 posições à frente do que figurava 365 dias atrás.

Alcaraz alcança novos feitos notáveis. É o primeiro a derrotar Djokovic e Rafael Nadal num mesmo torneio sobre o saibro – vale lembrar que Rafa perdeu apenas sua 44ª partida no piso em toda sua incrível carreira – e agora figura entre um dos únicos cinco a ter vencido os dois em rodadas consecutivas. Desses quatro, apenas Roger Federer ainda está teoricamente em atividade. Os outros foram Nikolay Davydenko, Andy Roddick e David Nalbandian.

É difícil definir o apertadíssimo duelo contra Djokovic em poucas palavras. Alcaraz saiu na frente com postura ofensiva, mas Djokovic passou a devolver bem e com profundidade, levou o tiebreak e teve chance de quebrar no final do segundo set. No entanto, o espanhol sempre jogou com confiança e ousadia nos pontos importantes, elevando a qualidade do saque ao longo dos sets e abusando de deixadinhas milimétricas. Nole foi muito sólido e ágil nas trocas, mas não achava um antídoto para o saque alto no backhand e isso fez diferença importante. O terceiro set sempre esteve mais para Alcaraz, ainda que por margem estreita.

Os sucessivos desafios para o garotão espanhol não param. Depois dessa cruzada incrível, ele terá pela frente na final deste domingo um adversário que o venceu por duas vezes: o alemão Alexander Zverev venceu com placares tranquilos os jogos feitos em Acapulco e Viena no ano passado.

Sascha evoluiu ao longo da semana e mostrou neste sábado um tênis realmente competitivo diante de Stefanos Tsitsipas, a quem nunca havia vencido sobre o saibro em três tentativas anteriores. Sacou muito nos dois sets que venceu, talvez fruto da ousada exigência de Sergi Bruguera, que levou o pupilo à 1 hora da madrugada à quadra depois das falhas bizarras contra Felix Aliassime apenas para recuperar o melhor ritmo do segundo serviço.

Esse aliás parece ser um elemento crucial para chegar ao tricampeonato de Madri neste domingo, além é claro de estar muito menos desgastado. Será um curioso duelo tático, já que Zverev deve forçar o backhand do espanhol, enquanto Alcaraz tentará fazer o alemão bater o forehand em movimento. Quem sair mandando no ponto, deve ter importante vantagem.

Não se pode esquecer do necessário elogio a Djokovic, que enfim elevou o nível e mostrou o padrão que se espera dele. Mostrou-se concentrado – irritante os aplausos após cada erro de primeiro saque – e agressivo da base, sacou muito bem em horas importantes, moveu-se com a necessária agilidade e aguentou sem sustos o esforço de 3h38.

Como bem salientou o sérvio, a maior dificuldade foi com a devolução do saque alto, mas há muito mérito de Alcaraz em explorar a altitude de Madri, que faz a bola quicar bastante. Nole ainda tem Roma para recuperar totalmente a confiança e o ritmo ideais com vistas a Roland Garros. O que mostrou hoje é motivo para grande otimismo.

Jabeur enfim chega lá
A final feminina por sua vez deixou a desejar na parte técnica, mas coroou finalmente o tênis competente e vistoso de Ons Jabeur com um grande troféu. A tunisiana teve poucos momentos realmente brilhantes numa final muito nervosa e chegou a levar ‘pneu’ da norte-americana Jessica Pegula.

Seu estilo muito mais encaixado no saibro acabou por prevalecer. Incrível que Jabeur, aos 27 anos, tenha conquistado apenas o segundo troféu da carreira porque ela certamente pode mais. Retornará ao sétimo lugar do ranking e, livre enfim do peso de um troféu de primeira linha, é de se esperar que jogue mais solta.

Alcaraz sobe mais um degrau
Por José Nilton Dalcim
6 de maio de 2022 às 19:08

Ainda que Rafael Nadal não esteja no seu melhor momento, vencê-lo sobre o saibro continua a ser uma façanha. O garoto Carlos Alcaraz, logo na terceira tentativa, abraçou sua chance. Jogou um tênis de primeiríssima linha, tomou a necessária postura ofensiva e, mesmo após um enorme susto com a torção de tornozelo, foi superior ao ídolo por considerável margem. Para coroar mais um momento mágico na sua arrancada, ainda deu uma aula de controle de ansiedade e de ousadia na sempre difícil hora de concluir uma vitória de tamanha relevância.

O primeiro set foi assustador. Alcaraz partiu para cima e fechou a parcial com uma contabilidade notável: 19 winners e apenas 10 erros. Rafa pareceu acreditar que seria possível administrar as trocas de bola, evitando o risco, mas isso foi um erro de avaliação. Mesmo colocando 74% do primeiro saque em quadra, só ganhou 43% desses pontos porque o forehand não tinha a penetração necessária. Marcou meros dois winners e errou oito bolas, sinais evidentes de sua passividade.

Tentou mudar essa postura no começou do segundo set, mas é pouco provável que teria alcançado placar tão elástico se Alcaraz não sofresse perigosa torção de pé logo de início. Ele claramente perdeu confiança e embalo, passou a apressar os pontos e chegou a tentar saque-voleio no segundo serviço num sintoma evidente de que estava perdido.

O susto passou e aí Alcaraz recuperou o domínio. Nadal vivia altos e baixos, com ótimos lances e grandes bobagens, e bastou uma quebra para que a diferença fosse determinada. Alcaraz ainda precisou sacar três vezes e suportou a pressão. Começou o game derradeiro com um saque-voleio de extrema qualidade, surpreendeu com uma curtinha pouco depois e fechou a batalha com enorme correria e poder defensivo. Marcou a décima vitória sobre um top 10, seis em oito nestes quatro meses de temporada.

Não vai dar tempo de festejar porque a próxima tarefa é nada menos que um duelo inédito contra o número 1 Novak Djokovic, com quem treinou durante a semana. Claro que Nole também não vive seu ápice e desta vez a torcida será maciça a favor do espanhol, mas Nole possui ingredientes diferenciados aos de Nadal que Alcaraz terá de lidar: saque mais incisivo, devoluções agressivas e posicionamento em cima da linha. Vamos ver como o pupilo de Juan Carlos Ferrero se adaptará a isso.

A atuação de Hubert Hurkacz foi tão ruim nesta sexta-feira que até fica difícil dizer se Djokovic subiu de nível em relação ao jogo contra Gael Monfils. O polonês se mexeu muito mal, parecia sempre atrasado e fez muito pouco com seus golpes de base, evitando um vexame maior graças ao saque. O fato é que sua irregularidade não deu grande ritmo ao sérvio, que já vinha de um dia inesperado de folga por conta do abandono de Andy Murray. De qualquer forma, estar numa semifinal de gabarito é um alívio e deve deixar Nole bem mais solto.

A outra semi não é menos interessante. O atual campeão Alexander Zverev elevou mais um pouquinho a qualidade até chegar no final do segundo set e aí deu uma incrível ‘viajada’, abusando das duplas faltas e dos erros, que reanimaram Felix Aliassime e esticou o jogo para além da meia-noite local. Contra Stefanos Tsitsipas, carregará um pequeno tabu quando se trata da terra batida, tendo perdido os três duelos para o grego. O primeiro deles foi exatamente em Madri há três anos, outro aconteceu em Roland Garros do ano passado e o mais recente veio na recente semi de Monte Carlo.

Tsitsipas venceu um jogo duro diante de Andrey Rublev. Seu ponto realmente positivo é a versatilidade que consegue no saibro, já que possui todas as variações e tem explorado bem a transição para a frente, não raramente com swing-volley. Como prometeu, mostrou paciência na parte defensiva contra o bombardeio russo. Pode decidir seu segundo Masters seguido e quem sabe repetir a final de Madri de 2019 diante de Djokovic.