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‘Urso’ surfa no saibro
Por José Nilton Dalcim
28 de maio de 2022 às 19:29

Para sua própria surpresa, Daniil Medvedev jogou tão bem, mas tão bem que deixou Miomir Kecmanovic no chinelo e colocou dúvida sobre aqueles que não o acham capaz de conquistar um grande título no saibro. Pode ter sido apenas um daqueles dias em que tudo dá certo e o russo, de forma humilde e esperta, prefere continuar fora dos holofotes.

Medvedev deslocou-se com maestria pela quadra, mesclou muito bem ataque e defesa, fez até mesmo o forehand andar muito e está de novo nas oitavas de final de Roland Garros. Para repetir a campanha de 2021, precisará superar Marin Cilic, que já fez quartas também, e por duas vezes, em 2017 e 2018.

Questionado se está mesmo muito à vontade no piso, Medvedev diz que ainda não se acha um saibrista autêntico, mas admite que não esperava ter atingido este nível porque fez apenas um jogo preparatório em Genebra, onde perdeu de Richard Gasquet. Sua felicidade é ainda maior porque sente o físico em dia e nenhuma dor após a cirurgia da hérnia.

Seu setor prevê Andrey Rublev ou Jannik Sinner em caso de chegar nas quartas. O compatriota fez seu terceiro jogo em quatro sets na semana e escapou por milagre de disputar uma perigosa quinta série porque Cristian Garin errou um voleio absurdamente fácil no finalzinho do tiebreak. O chileno foi um teste para a solidez e a cabeça de Rublev e talvez tivesse ido mais longe se colocasse versatilidade no seu estilo.

O italiano fez 3 a 0 enganosos contra Mackenzie McDonald. Com um tênis agressivo, o norte-americano teve 11 chances de ganhar o segundo set a partir de 5/3, no melhor momento técnico da partida. Tanto Sinner como Rublev foram quartas de Roland Garros em 2020 e o italiano tem favoritismo teórico por ter vencido os dois duelos no saibro entre eles.

Não menos promissor é o primeiro encontro entre Stefanos Tsitsipas e Holger Rune. Como se esperava, o atual vice fez enfim um jogo rápido e sem sustos contra Mikael Ymer, porém terá agora um garotão de golpes muito pesados, pernas velozes e saque respeitável. O dinamarquês de 19 anos, em seu terceiro Slam e primeiro Roland Garros, encarou com maturidade entrar na Chatrier para encarar a última esperança da casa e poderia ter vencido ainda com maior facilidade o habilidoso Hugo Gaston.

Casper Ruud enfim chega à quarta rodada do Slam onde mais se espera que ele construa um bom currículo. Teve tremendos altos e baixos contra Lorenzo Sonego e chegou a estar 2 sets a 1 atrás, mas sua firmeza e confiança na reta final compensaram as falhas. Terá pela frente um surpreendente Hubert Hurkacz, que não perdeu set até agora e mostrou como funciona bem seu jogo forçado também no saibro ao tirar David Goffin. Os dois nunca se enfrentaram e eu não apostaria contra o polonês.

Até Iga tem dias ruins
E por falar em tênis da Polônia, Iga Swiatek deu mais um passo rumo ao esperado bicampeonato. Pela primeira vez nesta edição de Paris, não jogou seu máximo. Dominava a montenegrina Danka Kovinic quando de repente saiu de giro, passou a errar tudo e obviamente fez com que a adversária acreditasse mais. Ainda assim, não deixou ir para o terceiro set e atinge a 31º vitória consecutiva.

Enfrenta agora a chinesa Qiunwen Zheng, que ganhou todos os nove games disputados contra Alizé Cornet e viu a tenista da casa sair de quadra vaiada pela torcida. Chateada, a francesa explicou mais tarde que estava com problemas no adutor e nem deveria ter tentado jogar.

A rodada viu a queda de mais duas favoritas, Paula Badosa e Aryna Sabalenka, a espanhola novamente com problemas físicos e a bielorrussa numa derrocada incrível diante da italiana Camila Giorgi, com apenas um game vencido nos dois sets finais.

Destaque para a vitória de Madison Keys sobre Elena Rybakina em que a americana marcou notáveis 44 winners. Aliás, são cinco norte-americanas nas oitavas, com chance ainda que remota de Keys enfrentar Pegula numa semi. Do outro lado da chave, estão Coco Gauff, Amanda Anisimova e Sloane Stephens.

Mais uma grande virada na vida de Bia
Por José Nilton Dalcim
27 de janeiro de 2022 às 12:18

Recomeço e sucesso parecem ser palavras decisivas na carreira de Bia Haddad Maia. Como ela bem lembrou, há exatamente um ano salvava match-point num quali de ITF de US$ 25 mil. Tanto esforço depois, ela está numa raríssima final de Grand Slam, algo que apenas três brasileiras obtiveram na história, e pode entrar na seleta lista de 11 tenistas nacionais, e apenas cinco adultos, que já ergueram um troféu desse gigantesco porte.

Bia outra vez empurrou a parceria com a cazaque Anna Dalinina, para quem perdeu uma final de Copa Gerdau juvenil e lembrou de última hora para jogar a seu lado em Sydney e Melbourne, já que a argentina Nadia Podoroska se contundiu. A cazaque, conta Bia, estava na Tunísia e houve pouco tempo para treinar. Ainda assim, ganharam Sydney e embalaram. Venceram nas duas campanhas as japonesas Shuko Aoyama e Ena Shibahara, que são top 10 do ranking. Nesta noite, venceram o primeiro set e sacaram para o jogo, mas mantiveram cabeça após perder a chance inicial e dominaram também o 3º set.

A chance de se tornar a primeira brasileira a ganhar um Slam desde Maria Esther, no US Open de 1968, passa por uma missão quase impossível, já que do outro lado da quadra, à 1h de domingo, estarão as experientes e super entrosadas Barbora Krejcikova e Katerina Siniakova, donas de dois Roland Garros, um Wimbledon, da recente medalha olímpica e da ponta do ranking. Não daria para ser mais difícil. Fato curioso levantado por Felipe Priante de TenisBrasil: na final juvenil de Paris de 2013, Bia perdeu justamente para elas.

Não importa o resultado. A temporada 2022 começa de forma extremamente animadora para Bia, que está jogando um tênis de grande qualidade. Já se garante como 41ª no ranking de duplas – pior apenas que o top 10 de Luísa Stefani em toda Era Aberta – e isso permitirá jogar e faturar também nessa especialidade nos torneios de maior gabarito. Quem tem visto os jogos, percebe uma Bia muito vibrante em quadra mas bem madura e serena nas comemorações. “Não me surpreende o que está acontecendo, eu confio muito no meu tênis”. Nós todos também.

Barty tenta a glória contra surpresa Collins
A número 1 do mundo Ashleigh Barty está a um passo de seu terceiro diferente troféu de Grand Slam e de acabar com o longo jejum de títulos locais no Australian Open, que vem desde 1978. Se mantiver o favoritismo, terá erguido Slam em todas as superfícies possíveis, o que condiz com sua versatilidade.

Demoliu a terceira norte-americana seguida, desta vez cedendo quatro games a Madison Keys. Seu jogo mais exigente da campanha foi o 6/4 e 6/3 sobre Amanda Anisimova, nas oitavas, quando também perdeu seu único game de serviço até aqui. O máximo que Keys conseguiu foram dois break-points, um em cada set.

Na final das 5h30 deste sábado, talvez o maior adversário de Barty sejam seus nervos diante do feito histórico e da pressão pessoal. Seus jogos têm dado a maior audiência da tevê no país nos últimos 10 dias.

Claro que não pode menosprezar a força bruta de Danielle Collins, ainda que ela chegue a sua primeira final de Grand Slam aos 28 anos e como 30ª do ranking, dando um passo a mais em relação à campanha no Australian Open de 2019. Barty tem 3 a 1 no histórico contra Collins, mas perdeu justamente o mais recente, num dos WTA de Melbourne de 2021.

A vitória impiedosa sobre a polonesa Iga Swiatek foi a sétima de Collins sobre uma top 10 na carreira. Tem apenas dois títulos de WTA menos expressivos na carreira e passará a figurar entre as 10 melhores do ranking na próxima semana.

Collins tem golpes retos e agressivos, com um dos melhores backhands do circuito. Ficou no universitário norte-americano até 2017, ganhou rapidamente destaque na WTA e ainda superou cirurgia no ovário no ano passado.

Sua campanha neste Australian Open teve viradas duríssimas diante de Clara Tauson e Elise Mertens e depois atuações mais firmes frente a Alizé Cornet e Swiatek. Sabe que, para ter chances, terá de encurtar pontos e deixar Barty na defensiva. Difícil, mas nunca inviável.

E mais

  • Nadal busca a sexta final em Melbourne diante de Berrettini, às 0h30 desta sexta-feira. No único duelo entre eles, venceu no US Open de 2019.
  • O italiano tenta repetir a campanha de Wimbledon. Se conseguir, irá superar o próprio Nadal no ranking e entrar para o top 5.
  • Segundo Moyá, Rafa perdeu quatro quilos de água na maratona contra Shapovalov. A previsão em Melbourne é de 30 graus e chuva na hora do jogo, o que pode exigir fechamento do teto.
  • Nadal tem 82% de pontos após acertar o primeiro saque no torneio contra 78% de Berrettini.
  • Medvedev e Tsitsipas estão longe de ser bons amigos. O russo tem 6 a 2 no histórico, com vitória do grego no mais recente, no saibro de Paris. No piso duro, o placar é de 5 a 1. Na semi de 2021, Medvedev passou em sets diretos.
  • Ambos tiveram campanha exigente. O grego começou inseguro, ganhou de Fritz com grande esforço mas jogou fez melhor exibição do ano contra Sinner na rodada anterior.
  • Medvedev ganhou apenas seu terceiro jogo de cinco sets em 10 já feitos e evitou match-point contra Aliassime, o que marcou sua 50ª vitória de Slam.
  • Aliassime mostrou que a chance contra Medvedev está numa postura bem ofensiva e que boa parte da construção dos pontos passa por bolas anguladas. Isso é claro exige confiança.
  • Kyrgios também pode ganhar seu primeiro Slam, ao lado do amigo Kokkinakis. Os dois fazem campanha notável e enfrentam no sábado os compatriotas e surpresas Ebden e Purcell.


Como um número 1
Por José Nilton Dalcim
26 de janeiro de 2022 às 12:22

Daniil Medvedev conseguiu uma vitória para lá de heroica. Sem mostrar seu melhor tênis, sufocado por um determinado e eficiente Felix Aliassime, o russo escapou da eliminação que parecia inevitável, suportou a pressão da torcida e admitiu ter sido favorecido pelo fechamento do teto justamente durante o tiebreak decisivo do terceiro set. Ainda assim, teve de encarar um match-point e evitou sucessivos breaks na última série. Esse Urso é duro de matar.

Aliassime merece todos os elogios, porque fez exatamente o que tinha de fazer. Foi agressivo o tempo todo, o que obviamente lhe custou muitos erros não forçados – principalmente no quinto set onde o cansaço era evidente -, mas lhe deu a oportunidade de estar na semifinal. Sacou bem e com inteligência, fez ótimas transições à rede com incríveis 41 pontos de 48 tentativas e usou o forehand na paralela como meio de desestabilizar Medvedev. Lutou com todas as forças e recursos numa maratona de 4h42.

Medvedev pareceu ter sido pego de surpresa com a tática adotada pelo canadense no começo da partida, já que recebia bolas muito anguladas na direita e deixava o outro lado descoberto. E falhou feio na hora da pressão, com duplas faltas comprometedoras. A coisa piorou no segundo set, porque Aliassime se mantinha muito confiante a ponto de perder apenas quatro pontos com o serviço.

O russo evitou quebra que seria desastrosa no começo do terceiro set e só conseguiu abafar o ritmo do jovem adversário quando o teto fechou no terceiro ponto do tiebreak. Com o piso um pouco mais veloz, o saque de Medvedev cresceu e foi exatamente um ace que o salvou da derrota no 10º game do quarto set. Imediatamente, Felix jogou seu pior game até então e o russo enfim empatou apesar de se mostrar apressado e ansioso.

O nível físico e consequentemente de precisão caíram no quinto set, principalmente do lado de Aliassime, que fez então apenas 6 winners e 16 erros, perdendo agora a maioria das trocas mais longas. Ainda assim, teve seis break-points e ao menos num deles a bola estava na mão. Sofreu uma quebra boba logo no terceiro game e quase reagiu no final. Medvedev afirmaria minutos depois que se inspirou nas grandes viradas do número 1 Novak Djokovic e deixou um recado claro na lente da câmera: “Não estou cansado”. Esta foi apenas sua terceira vitória em quinto sets em 10 partidas na carreira e a segunda virada de 0-2, como aconteceu contra Marin Cilic em Wimbledon-2021.

Portanto, Stefanos Tsitsipas que se cuide. O grego deu um salto de qualidade e atropelou de forma um tanto inesperada o italiano Jannik Sinner sem ter o saque ameaçado uma única vez e, mais notável, aproveitando sem pestanejar os quatro break-points que construiu. Nem sacou tão bem, mas o fato é que a mão estava abençoada e permitiu quase o dobro de winners (30 a 16) diante de um adversário um tanto passivo. No único jogo da rodada a não chegar ao quinto set, Stef economizou energia e manteve a sina de vencer todas as cinco quartas de Slam que já disputou.

Medvedev e Tsitsipas vão assim repetir a semi do ano passado, amplamente dominada pelo russo. Stef só venceu dois dos oito duelos, porém o mais recente, nas quartas de Roland Garros. O grego busca a segunda final de Slam e o russo, a quarta. Tanto um como o outro têm histórico negativo contra Rafael Nadal (1-3 e 2-7) e vantagem sobre Matteo Berrettini (3-0 e 2-0). É fácil imaginar para quem vão torcer.

Qualquer que sejam os vencedores de sexta-feira, haverá história no Melbourne Park. Tsitsipas e Berrettini buscam seu primeiro Slam após ter feito finais inéditas em 2021; Medvedev está a dois jogos do número 1 e Rafa, a dois do 21º Slam.

Swiatek também vira
Num jogo tecnicamente fraco mas cheio de emoções e reviravoltas, a polonesa Iga Swiatek reagiu em cima da veterana Kaia Kanepi em duelo de 3 horas sob calor de 32 graus para marcar sua maior campanha de Slam numa quadra dura. Ela também havia perdido o primeiro set no jogo anterior, diante de Sorana Cirstea, e terá missão difícil na semi contra a agressiva norte-americana Danielle Collins já na manhã desta quinta-feira.

A campeã de Roland Garros cometeu 50 erros, sendo 12 duplas faltas, mas ainda foi superior às 62 falhas de Kanepi. A estoniana de 36 anos chegou a sair o segundo set com quebra. O único título no piso sintético de Swiatek veio em fevereiro do ano passado em Adelaide, mas ela jura que está se sentindo cada vez mais à vontade.

Collins fez uma partida bem mais compacta contra Alizé Cornet, arriscou o tempo todo como de hábito e mostrou o backhand tão incisivo. Aos 28 anos, faz sua segunda semi de Slam e no Australian Open. O único confronto com Swiatek foi justamente em Adelaide de 2021.

A quinta-feira também terá a outra semi, em que a número 1 do mundo Ashleigh Barty entra com amplo favoritismo diante da norte-americana Madison Keys, ainda que o histórico seja apertado, com 2 a 1. Barty tenta ser a primeira australiana na final desde Wendy Turnbull em 1980. As duas são as líderes de aces no torneio (35 de Keys e 30 de Barty), mas a australiana venceu 82% de seus games de serviço e a norte-americana, 72%.

Bia na luta pela história
Como bem destacado por Mário Sérgio Cruz em TenisBrasil, Beatriz Haddad Maia joga às 21 horas desta quarta-feira para se tornar a terceira brasileira numa final de Grand Slam, repetindo a multicampeã Maria Esther Bueno e a vice de mistas em Roland Garros de 1982, Claudia Monteiro.

As adversárias são as mesmas que Bia e Anna Danilina derrotaram há duas semanas rumo ao título de Sydney, as japonesas e cabeças 2 Shuko Aoyama e Ena Shibahara. Se vencerem, há uma grande chance de a disputa pelo título ser diante das favoritas Barbora Krejcikova e Katerina Siniakova, na madrugada de domingo.