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Enlouquecedor Kyrgios
Por José Nilton Dalcim
2 de julho de 2022 às 19:38

Ele não é apenas maluco, no bom e no mau sentidos. Também enlouquece o juiz, a torcida e principalmente o adversário. Nick Kyrgios jogou um grande tênis neste sábado para voltar às oitavas de final de Wimbledon após cinco anos ao travar um duelo intenso de nervos à flor da pele com o não menos esquentadinho Stefanos Tsitsipas.

O australiano venceu a guerra emocional em que começou por baixo, enfurecido com marcação errada do juiz antes de perder o tiebreak do primeiro set. Mesmo falando demais, conseguiu o empate logo depois de ser penalizado por palavra obscena e daí em diante foi Stef quem não se controlou mais. Jogou bola perigosamente na arquibancada – Nick queria de qualquer jeito a desclassificação, algo bem pouco ético – e deu boladas no adversário.

Se Nick queria desestabilizar o grego, o objetivo foi cumprido. Durante os dois primeiros sets, Tsitsipas estava muito bem na parte tática, defendendo-se com qualidade e fazendo o adversário jogar. Ele só recuperou a cabeça no quarto set, quando então sacou muito e perdeu chances preciosas de esticar o duelo. O australiano sempre achou um saque bombástico para se salvar e fechou o tiebreak final com duas jogadas de pura genialidade.

Os ânimos voltaram a esquentar na sala de entrevistas, com frases de efeito de lado a lado. Kyrgios diz que ele é amado nos vestiários ao contrário do grego, Tsitsipas se queixou de ‘bullying’ e reconheceu que quis mesmo acertar o cada vez mais desafeto.

Kyrgios é franco favorito para derrubar Brandon Nakashima e chegar nas quartas pela terceira vez no torneio, onde poderá reencontrar o amigo Alex de Minaur que é bem menos tenista na grama. Vislumbra-se assim o reencontro com Rafa Nadal. Mas enlouquecer o espanhol será tarefa muito mais difícil.

Jogo a jogo
Nadal impecável
– As chances de Lorenzo Sonego já não eram lá das mais altas, porém encarar um adversário tão disposto e preciso foi demais para ele. Safou-se de levar uma tremenda surra. Nadal fez tudo muito bem, exceção ainda ao serviço, porém foi interessante e promissor vê-lo jogar bem mais perto da linha, com forehand agressivo e esbanjando sua enorme capacidade junto à rede. Também houve uma polêmica, quando ele reclamou ao juiz e depois ao próprio italiano do fato de Sonego estar gritando muito depois de golpear a bola. Ficou uma situação constrangedora e mais tarde o espanhol reconheceu seu erro. Deu outro show. Enfrenta agora o holandês Botic van de Zandschulp, que suou diante do velho Richard Gasquet.

Fritz aproveita chance – Outro que pode reencontrar Nadal é o norte-americano Taylor Fritz, que venceu o espanhol para ganhar Indian Wells em março. A chave tem sido uma maravilha para ele, ainda que eu recomende olhos abertos com Jason Kubler, que já mostrou que sabe jogar na grama e foi muito bem diante de Jack Sock. Aliás, a Austrália não tinha três nas oitavas de Wimbledon desde 2002.

Cornet, mais uma vez – A francesa Alizé Cornet é o tipo de adversária que qualquer favorita quer evitar nas primeiras rodadas e ela provou novamente seu incrível poder competitivo ao superar uma irreconhecível Iga Swiatek, que viu o fim de sua série de 37 vitórias que vinha desde fevereiro. Cornet venceu assim uma líder do ranking pela quarta vez em sete tentativas e já soma 11 vitórias sobre top 5, lista que inclui Serena Williams em Wimbledon de oito anos atrás. Enfrenta Alja Tomljanovic e quem vencer terá Elena Rybakina ou Petra Martic. A australiana Tomljanovic, que aliás namora Matteo Berrettini, tirou Barbora Krejcikova e é uma excelente aposta.

Halep x Badosa – O duelo de campeãs não vai acontecer porque a espanhola Paula Badosa jogou com muita cabeça e aproveitou a pressa de Petra Kvitova. Ganhou o direito de enfrentar SImona Halep, campeã de 2019 que caminha sem alarde. Outra novidade nesse setor foi a virada com sobras de Amanda Anisimova sobre Coco Gauff, jogo cheio de pancadas e mínimas variações. As duas deixam muito a desejar nos voleios. Sua adversária é Harmony Tan, que só perdeu nove game depois de tirar Serena lá na estreia.

Sonho brasileiro continua – Bruno Soares teve até torcida particular na boa vitória que ele e o dono da casa Jamie Murray tiveram na segunda rodada. Mineiro está preocupado com o acúmulo de jogos. Neste domingo volta para as mistas. Marcelo Melo caiu e Rafael Matos vai mesmo encarar os cabeças 1 Rajeev Ram/Joe Salisbury.

Assombroso, Djokovic desafia Nadal
Por José Nilton Dalcim
15 de maio de 2021 às 18:40

Se Rafael Nadal mereceu todos os elogios por sua resiliência nos jogos duros que teve nesta semana em Roma, Novak Djokovic mostrou um nível técnico, mental e físico de deixar qualquer super-homem de queixo caído. Foram quase cinco horas de uma intensidade raramente vista, encarando dois adversários que não economizaram energia e coração para tentar derrubá-lo. Não fosse o desgaste tão superior que sofreu neste sábado, Nole sairia como favorito para levar o título no 57º capítulo do confronto com Rafa.

A virada sobre Stefanos Tsitsipas foi considerada por Nole como seu principal jogo da temporada. Acho mais: foi a partida de melhor qualidade de 2021. Um tanto diferente da véspera, Djokovic entrou em quadra firme, consistente, agressivo, com devoluções impecáveis e muitas opções táticas. O grego no entanto parecia ter resposta para tudo. Sustentou trocas de bola de tirar o fôlego, arriscou backhands incríveis, usou tudo de seu forehand tão ofensivo.

Que bom que Stef entregou um serviço e pudemos ver um terceiro set ainda mais acirrado, cada um tentando empurrar o outro para trás, surpreender com deixada ou um voleio. Tsitsipas não cedia terreno. Fez 2/1, esteve perto de ampliar, cedeu o empate mas imediatamente quebrou de novo e sacou para a vitória. Nem chegou ao match-point porque Djoko tirou da cartola suas devoluções milimétricas. Por fim, usou novamente deixadinhas para sacar com 6/5 e avançar. É um jogo que merece ser revisto para quem aprecia um tênis realmente bem jogado.

Poucas horas depois, o número 1 voltou à quadra e parecia estar fazendo o quarto set do jogo anterior. Continuava firme, sólido, desta vez usando mais o backhand na paralela. Sonego tinha dificuldade para ganhar pontos no saque do sérvio, mas por fim passou a jogar melhor e fez um segundo set de primeira linha. Variou o máximo que pôde, arrancava força da torcida, corria por todos os cantos. E foi premiado pelo único vacilo real de Djokovic no dia, quando sacou para fechar a partida e perdeu dois match-points num momento de tensão evidente. O italiano ainda virou o tiebreak e por muito pouco não abriu o terceiro set com quebra. Só dois games depois enfim se rendeu. Vale lembrar que ele fizera três sets inteiros na manhã contra Andrey Rublev, sua terceira grande vitória do torneio.

Enquanto isso, Nadal jogou 20 games bem mais rápidos, ainda que mereça nota 10 pela forma com que encarou o super-sacador Reilly Opelka. O norte-americano disparou ousados forehands da base no começo da partida e ameaçou tirar o saque do espanhol logo no quarto game, o que seria um problema. Não conseguiu e o espanhol esperou suas chances de quebra, uma em cada set, para uma vitória em que havia pouca margem para erros.

Assim, garantiu sua 12ª final em Roma, uma a mais que Djokovic, e vai atrás do deca enquanto o sérvio quer o hexa. Ou seja, mais uma vez o torneio ficará entre os dois, como acontece desde 2005 com duas exceções. Se Djoko leva 29-27 de vantagem no geral, 16-12 em Masters, 15-12 em finais e 7-6 em finais de Masters, Nadal lidera por 18-7 no saibro, 8-4 em finais no saibro, 5-3 em Roma e 3-2 em finais em Roma. Aliás, não perdeu para o sérvio nos últimos quatro jogos sobre o saibro. A última foi justamente em Roma, há cinco anos.

No feminino, uma luta pelo título também muito interessante. A polonesa Iga Swiatek faz sua maior final desde o surpreendente troféu do ano passado e também ganhou duas vezes no sábado, primeiro uma vitória categórica sobre a bicampeã Elina Svitolina e depois o duelo de jovens contra Coco Gauff. O título no domingo valerá também a chegada ao top 10.

Mas ela terá pela frente alguém que conhece os atalhos do Foro Itálico. Karolina Pliskova  faz a terceira final seguida, tendo vencido em 2019. A tcheca se sente muito à vontade, desde o saque até investidas à rede e foi assim que tirou com justiça Petra Martic. Para melhorar a imprevisibilidade, as duas nunca se cruzaram.

Duríssimo de matar
Por José Nilton Dalcim
13 de maio de 2021 às 18:49

Favoritismo é algo só para a teoria mesmo. Quem imaginaria que Denis Shapovalov fosse capaz de dominar Rafael Nadal em pleno saibro de Roma? E, talvez o mais incrível de tudo, com paciência na construção de jogadas, aplicação tática e cabeça no lugar?

Foi um jogo de surpresas do começo ao fim. Shapovalov estudou direitinho o roteiro e soube tirar proveito do saque pouco contundente do espanhol. Agressivo na medida certa, o que é pouco usual, não deixou Nadal em paz nos games de serviço e isso explica as impensáveis vantagens que teve para vencer o jogo: 4/0 no primeiro set, depois 6/3 e 3/0 com break-point ou ainda 6/3, 3/1 e 40-0. E no terceiro set, mais 3/1 e dois match-points no 6/5.

Se por um lado Shapovalov pode ser acusado de não aproveitar tantas oportunidades, de outro foi admirável a forma com que segurou o mental e nunca deixou Nadal arrancar nas reações. Isso por fim só aconteceu no tiebreak que decidiu tudo, quando voltou a ser quem conhecemos: precipitado e indeciso.

Nadal viveu intensos altos e baixos e certamente sabe que o quão perto esteve da derrota e até de um placar vexatório para seu currículo no saibro. Porém, é preciso novamente se render a sua resiliência. Pressionado o tempo todo, quase sem tempo para respirar, arrumou de novo um jeito de superar deficiências e achar antídotos. Estavam lá o backhand na paralela, a curtinha, o avanço à rede, as passadas nunca repetidas.

Poucas vezes se viu no tênis alguém tão competitivo. Se é fato que estamos diante do Nadal mais vulnerável sobre o saibro, de outro esse espanhol mais fragilizado dá sucessivas aulas de como ganhar sem jogar o seu melhor. E isso, convenhamos, também é uma arte.

Desafios para os cabeças 1 e 2
Com muita razão, Nadal reclamou de ter jogado tão cedo nesta quinta-feira e agora, depois de 3h20 de enorme esforço, terá de voltar à quadra para rever Alexander Zverev. O alemão não foi tudo aquilo contra Kei Nishikori, dando ares de esgotamento até a metade do segundo set, mas também se superou e arrumou motivação para a virada. Vale lembrar que Novak Djokovic foi o único até hoje a ganhar de Nadal duas semanas seguidas no saibro, nas finais de Madri e Roma de 2011.

Por falar em Djokovic, vitória muito tranquila e sem qualquer susto diante de Alejandro Davidovich e duelo marcado contra Stefanos Tsitsipas, o que gera expectativa de outro jogaço no Foro Itálico. O grego anda tão confiante que venceu seis pontos seguidos no tiebreak que fez diante de Matteo Berrettini. O número 1 tem favoritismo pelo histórico de 4 a 2 no geral e 2 a 0 no saibro, mas vocês se lembram que o Stef  já levou Nole a cinco sets em Roland Garros de 2020.

Já na madrugada e sem público no set final, Lorenzo Sonego foi um gerreiro na vitória de 3h24 sobre Dominic Thiem, em que nada menos 50 de seus 129 pontos na partida foram winners. O italiano impôs agressividade, mas também toques sutis e está cada vez mais firme na rede. Poderia ter vencido ainda no segundo set, mas depois viu Thiem sacar para a vitória e falhar. Sonego Irá carregar a pequena torcida diante de Andrey Rublev para tentar vingar a derrota sofrida na final de Viena do ano passado. Rublev foi superior outra vez a Roberto Bautista no saibro, como aconteceu em Monte Carlo.

Lá no começo do dia, Reilly Opelka e Federico Delbonis ganharam o direito de ser a ‘zebra’ da semifinal – jamais foram tão longe em nível Masters – e mostram que um saque potente pode ajudar muito na terra romana. Opelka superou Aslan Karatsev e o canhoto argentino superou Felix Aliassiime em roteiros muito parecidos, já que o russo sacou para ganhar o tiebreak do primeiro set e o canadense teve set-point na série inicial, fatores que poderiam ter mudado a história dos jogos.

Gauff brilha em Roma
A chave feminina viu a queda de Aryna Sabalenka para a juventude de Coco Gauff, que continua a mostrar evolução sobre a terra, tendo já batido Maria Sakkari. Agora, o desafio é ainda maior: Ashleigh Barty, em confronto inédito. Quem vencer irá cruzar com Elina Svitolina ou Iga Swiatek. A ucraniana exibiu o saque frágil de sempre, mas foi bem mais consistente do que Garbiñe Muguruza em seu retorno depois de lesão na perna. Já a atual campeã de Roland Garros precisou salvar dois match-points diante da surpreendente Barbora Krejcikova, que já havia atropelado Sofia Kenin.

O outro lado verá quartas de duas jogadoras que pegam pesado: Karolina Pliskova e Jelena Ostapenko, duas tenistas com histórico de sucesso no saibro europeu. Petra Martic acabou com a festa de Nadia Podoroska e terá pela frente as bolas retas de Jessica Pegula.

Roma poderá dar boa mexida no ranking das meninas. Svitolina precisa de mais duas vitórias para recuperar o quarto posto perdido para Sabalenka e Swiatek pode enfim chegar ao top 10 em caso de título. Gauff avança para o 32º posto e isso pode lhe dar cabeça de chave em Paris.