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A era das incertezas
Por José Nilton Dalcim
18 de setembro de 2019 às 12:49

É claro que muito boato de bastidores tende a ganhar ares de notícia, assim como especulações totalmente subjetivas costumam virar fatos. Mas ainda assim valem algumas observações sobre os últimos dias de farta movimentação do tênis. Fora das quadras.

A contusão de Djokovic
Se existe um tema controverso hoje no circuito, ele certamente é a gravidade da contusão de Novak Djokovic. Há pouca informação e muita elucubração. Surgiram declarações do sérvio de que a lesão era mais grave do que se esperava, mas na verdade eram frases lá do seu abandono do US Open, ou seja, referindo-se àqueles dias e não ao pós-torneio.

A única certeza é que ele realmente optou por uma clínica na Suíça para o tratamento intensivo. E que ninguém ainda explicou claramente qual é o problema com o ombro esquerdo, a ponto de ele próprio pedir desculpas nas mídias sociais pela ‘obscuridade’ do momento. Enquanto fala-se em cirurgia e abandono da temporada, Nole declara que espera voltar em uma ou duas semanas e competir assim em Tóquio, como estava originalmente previsto.

Minha impressão é que Djoko batalha arduamente para se recuperar, e sabe que o número 1 está em jogo. Então é mais lógico que planeje mesmo ir a Tóquio, com eventual adiamento da volta para Xangai ou, num caso mais extremo, para os ATP 500 antes de Paris. Pode vir aí uma série de abandonos de último hora.

O calendário de Federer
A divulgação de um calendário apenas parcial para 2020, que se interrompe justamente em Wimbledon, foi o bastante para que muitos considerem o sinal claro de que Roger Federer prepara o anúncio da aposentadoria para seu Grand Slam predileto. A isso se somam sua dúvida em competir nas Olimpíadas de Tóquio – em que pese seu contrato com a japonesa Uniqlo – e a longa excursão pela América Latina em novembro, em clima de despedida.

Aliás, a viagem para Chile, Argentina, Colômbia e México irá prejudicar seu tradicional descanso de final de ano e preparação para 2021. Ele no entanto afirma que discutiu o assunto com o preparador Pierre Paganini e, ao invés de iniciar a pré-temporada no dia 4 de dezembro, irá fazê-lo no dia 11, o que não afetaria quase nada. Ele garante que a ATP Cup será muito importante para entrar em ritmo ideal para o Australian Open.

As prioridades de Nadal
Apenas 12 dias depois da exigente final do US Open, Rafael Nadal estará de volta à quadra para a disputa da Laver Cup, neste final de semana. A validade desse esforço é questionável, já que todo mundo sabe o desgaste que a quadra dura gera ao canhoto espanhol. Não terá sido apenas uma gentileza ao amigo Federer, que foi ao lançamento de sua academia?

Rafa no entanto preparou um calendário bem enxuto para esta reta final da temporada. Só deve retornar ao circuito oficial em Xangai, a partir do dia 6 de outubro, onde espera-se a luta direta pelo número 1 contra Djokovic. Também reagendou o casamento em Pollensa para o dia 19, portanto no sábado posterior a Xangai, o que lhe dá então alguns dias para a lua de mel antes de tentar os sonhados títulos em Paris, no dia 28, e principalmente no Finals de Londres, a partir de 12 de novembro.

O futuro da Davis
O anúncio de que todos os grandes nomes do tênis masculino se comprometeram a disputar a ATP Cup de janeiro, incluindo o Big 4, complicou ainda mais a situação da Copa Davis. A reformulada competição por equipes da Federação Internacional terá um teste de fogo. Sua fase final, agora disputada em local único numa semana, tenta de tudo e oferece premiação milionária, uma  para as equipes e outra separada só para os jogadores.

Até aqui apenas Djokovic se comprometeu a ir a Madri logo após Londres, talvez motivado muito mais a fazer parte do adeus ao amigo Janko Tipsarevic. Porém, com as dúvidas sobre seu estado físico, a presença de Nole é totalmente incerta. Há esperança que Nadal integre o time espanhol em casa, ainda que jogue pouco, e que Andy Murray se anime a competir. A salvação podem ser o forte time russo, os jovens grupos canadense e italiano e quem sabe a controvertida Austrália.

A ATP Cup, que valerá pontos para o ranking, pode ser a pá de cal em cima da Davis.

O retorno de Clijsters
Aos 36 anos, a belga Kim Clijsters anunciou uma segunda tentativa de retornar ao circuito profissional, ainda mais ousada do que a primeira. Kim se aposentou em 2007, então com um troféu e duas finais de Slam no currículo, para ser mãe. Retornou dois anos depois, com um sucesso inesperado, que incluiu o título do US Open, que venceria novamente em 2010. Somou mais um Slam em Melbourne da temporada seguinte e recuperou a liderança do ranking 10 meses depois, pouco antes do novo adeus, desta vez motivado também por problemas físicos.

A tentativa de 2020 é portanto quase uma loucura, já que está sem competir há oito temporadas. Ninguém ficou tanto tempo sem jogar e retornou com sucesso no alto nível, ainda mais depois dos 35. O caso mais notório foi o de Martina Navratilova, que voltou após seis anos parada, porém para competir em duplas. Além disso, o que não faltam no momento são jovens com muito físico, tênis versátil e competitivo para todos os pisos, como vimos com as conquistas de Naomi Osaka, Ash Barty e Bianca Andreescu nos Slam recentes.

Rei Midas acerta em cheio
Por José Nilton Dalcim
23 de setembro de 2018 às 21:20

Roger Federer virou mesmo o Rei Midas do tênis. Tudo em que se envolve parece ser fadado ao sucesso. A Laver Cup que o diga. O evento criado por sua empresa com ideias decisivas do suíço se provou outra vez um tremendo sucesso.

Tudo começa pela boa escolha dos participantes, um misto de qualidade e carisma. Depois, a das sedes – o United Center do Chicago Bulls foi um tiro certeiro – e por fim o formato, que trouxe o match-tiebreak como solução e recheio – 8 dos 11 duelos precisaram dele – e uma forma de pontuação que deixa tudo aberto até o finalzinho.

O ponto alto, no entanto, está mesmo no comprometimento dos tenistas, que afinal são os donos do espetáculo. Não economizaram esforço na quadra, levando muito a sério, e nem energia no apoio que fizeram ali bem pertinho, atrás do banco do técnico para divertimento do público e da TV.

Aí, além de se assistir a lances excelentes e disputas game a game, ainda é possível ver Novak Djokovic torcendo por Federer ou o suíço trocando ideias táticas com seu arqui-rival, dialongando em alemão com Sascha Zverev. Nick Kyrgios e Jack Sock comandaram a festa do outro lado, mas era possível notar Dieguito Schwartzman e Frances Tiafoe acompanhando cada lance.

A vitória da dupla Sock-John Isner foi um capítulo à parte. Os dois pareciam ter conquistado um Grand Slam depois da vitória sobre Federer e Sascha, vindo de dois match-points atrás, o público completamente envolvido, Isner saltando como criança, Sock agarrado pelos companheiros.

O complemento está em pequenos e cuidadosos detalhes. A escolha dos capitães John McEnroe e Bjorn Borg, a presença de Rod Laver na tribuna, o convite para Ana Ivanovic e Natasha Zvereva fazer o sorteio da moeda, o piso escuro único, o uso do telão acima da quadra para o ‘desafio’ e replays, câmeras mostrando a intimidade do vestiário. Sem falar num amplo setor de divertimento para o público na parte exterior, onde era permitido acompanhar o treino das estrelas. Foram 93, mil pagantes em três dias.

Quando se discute o novo formato da Davis e a ousadia da ATP em lançar seu próprio torneio por países, a Laver Cup dá um show de competência. Claro que o torneio ainda está totalmente em cima da figura de Federer, capaz de dividir a torcida norte-americana e ver seu nome cantado mesmo diante de um homem da casa dentro de Chicago.

Raro atleta que reúne o alto profissionalismo com radiante simpatia, ele trouxe os grandes rivais para seu lado – como esquecer a parceria com Rafa Nadal no ano passado  -, deixando claro que é possível ter competitividade e alegria no tênis profissional.

Por isso, ainda é difícil apostar no futuro da competição quando o suíço não estiver mais em quadra. Até lá, aproveitemos.