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Tsitsipas impõe respeito
Por José Nilton Dalcim
17 de abril de 2022 às 23:41

“Jogar contra Stefanos no saibro não é muito mais fácil do que enfrentar Rafa”.

A opinião de Alejandro Davidovich Fokina merece crédito. Muito crédito.

Desde o ano passado, Tsitsipas encorpou seu jogo sobre a terra batida, a superfície onde foi formado, e faltou muito pouco para ele ganhar Roland Garros em cima de Novak Djokovic dois meses depois de ter erguido o troféu de Monte Carlo. Aliás, na semana seguinte, ficou a um palmo de derrotar o próprio Nadal dentro de Barcelona.

Trocando em miúdos, Stef precisa cada vez mais ser respeitado sobre o saibro. Desde 2018, ele já fez finais em todos os grandes torneios sobre a superfície, à exceção de Roma, onde perdeu uma semi para Rafa e endureceu demais uma quartas contra Nole. De seus oito ATPs, metade aconteceram no saibro e este bi em Mônaco foi o terceiro troféu seguido no piso.

O próprio grego sabe que seu jogo se encaixa muito melhor no saibro hoje. Ele deu uma aula de apuro tático na semi de sábado contra Alexander Zverev, onde abusou do topspin para fazer o adversário disputar todos os pontos. Mas isso não é exatamente uma novidade. Naquela final de Barcelona do ano passado contra Nadal, usou do mesmo artifício.

Isso o torna um tenista bem perigoso, porque o deixa com muitas armas. É dono de um excepcional trabalho de pernas, enorme resistência física, sabe jogar na rede e tem um saque que não chega a ser espetacular, porém tem efetividade. Ninguém ousaria colocá-lo acima de Nadal ou Djokovic na lista de favoritos para Madri, Roma ou Paris. Porém, livre do problema no cotovelo e do apagão emocional pós-virada de Roland Garros, eu diria que ele surge no momento como maior risco aos recordistas de Grand Slam.

Primeiro fora do Big 4 a defender um título de Masters nos últimos 20 anos, acredito que ele esteja cometendo um erro ao manter presença em Barcelona, onde deve jogar na quarta-feira mas daí em diante entrar em quadra todo dia. Ainda que haja uma semana de buraco até Madri, seria talvez mais sensato mirar os grandes torneios, lembrando sempre que Roma é grudado no Masters espanhol e depois só existem sete dias até Paris.

Fokina também se dispôs a esse sacrifício, mas o argumento do espanhol é forte: ele não pode se recusar a jogar em casa. Admite no entanto estar esgotado, e não é apenas uma questão física mas acima de tudo emocional. Ele viveu um torneio extremamente intenso, com jogos duros e adrenalina no topo.

Quem acompanhou seu início de carreira deve se lembrar que Alejandro era mais ou menos o Carlos Alcaraz de hoje, tido como a esperança espanhola de renovação. Dono de um tênis de golpes pesados, jogando sempre na base da energia, o descendente de pais russos se mostrou logo temperamental demais e isso foi atrapalhou sua evolução. Perdeu muitas vezes para si mesmo, diante da incapacidade de controlar a ansiedade.

Por isso mesmo, Monte Carlo tem tudo para ser um grande marco na sua carreira, ainda que eu o veja muito mais limitado ao saibro e portanto bem diferente de Alcaraz. O certo é que a Espanha, que ainda tem a top 3 Paula Badosa, não pode mais reclamar da perspectiva que se abre para seu futuro.

As meninas brasileiras dominam
O final de semana também marcou uma excelente vitória brasileira no Zonal Americano da Copa Billie Jean King Cup, a ex-Fed Cup, ou seja o mundial por equipes femininas. Num grupo que tinha Argentina e Colômbia, desfalcadas é verdade, perdemos uma única partida em nove realizadas e no duelo decisivo contra o Chile sobraram o tênis mais agressivo de Bia Haddad Maia e de Laura Pigossi.

Uma grande campanha que coloca o Brasil no playoff de novembro. O adversário e o local serão indicados por sorteio. Se vencermos, subiremos mais um degrau e iremos ao qualificatório do Grupo Mundial em 2023. É verdade que temos apenas Bia no top 70 hoje, além é claro da ainda afastada Luísa Stefani. Mas Pigossi deu um salto de qualidade e ainda contamos com Carol Meligeni, sempre em boa atividade, em simples e em duplas.

Aliás, a marca deste grupo é essa versatilidade. Todos podem jogar qualquer coisa e em todo tipo de piso, o que ajuda muito a capitã Roberta Burzagli. E acima de tudo existe união e amizade entre elas, o que não é muito comum no circuito feminino. O caminho se mostra promissor.

‘Fake’ Djokovic
Por José Nilton Dalcim
12 de abril de 2022 às 18:00

Apesar de ter dois títulos no Principado, é bem verdade que o saibro lento de Monte Carlo nunca foi o melhor dos mundos para Novak Djokovic. Ainda assim, o retorno do número 1 do mundo ao circuito foi uma tremenda decepção. Errou demais, teve postura defensiva, safou-se de um placar vexatório e por fim desabou fisicamente no terceiro set, algo inimaginável em outros tempos. Foi definitivamente uma versão ‘fake’ do homem que dominou o tênis em 2021.

Não chega a ser surpresa que Djokovic tenha dificuldade em achar ritmo e jogar com confiança diante do calendário irrisório que fez até agora, limitado a três jogos em Dubai. Também existe a pressão, tanto pelo ranking que ocupa como para mostrar que sua decisão de não tomar a vacina e automaticamente se ver afastado dos grandes torneios do primeiro trimestre não o afetariam. O preço continua alto.

Alejandro Fokina sabia que era a chance de sua vida e mergulhou na partida de corpo e alma. Ousou mais, correu muito, se jogou nas bolas e poderia ter saído com uma vitória acachapante, quando sacou com vantagem de 6/3 e 4/2. O vento atrapalhava demais e foi um ingrediente a exigir foco o tempo todo, daí outro ponto de destaque na atuação do espanhol, que no ano passado fez quartas em Mônaco tendo vencido Matteo Berrettini.

Nole raramente se sentiu à vontade, mesmo vencendo a duras pernas o segundo set. Saiu de quadra com 51 erros, 25 deles de forehand, e viu o espanhol arriscar mais (37 a 27 nos winners). Chegou também a hora dos recordes negativos: foi o jogo de três sets em que Djoko mais perdeu serviços na carreira (nove vezes) e vive seu pior desempenho em ATP nos quatro primeiros meses de uma temporada desde 2005.

Djokovic reconheceu a falta de pernas no terceiro set, mas tentou se manter positivo, ao lembrar que tem sido normal nos últimos anos um começo fraco no saibro europeu. Para sua sorte, vai jogar em Belgrado na próxima semana e terá enfim a chance de emendar vitórias, reerguer um troféu e sentir alívio. Haverá então uma semana de descanso para a sequência Madri-Roma. Portanto, existe tempo de sobra para reagir. Só precisa melhorar. Em tudo.

E mais

  • Apesar da derrota, Djoko aumentará a vantagem para Medvedev no ranking de 10 para 100 pontos. A próxima chance do russo será em Madri, onde o sérvio defende 500 pontos ainda do torneio de 2019.
  • Nadal está definitivamente fora de Barcelona, adiando expectativa de retorno para Madri, que acontece dentro de duas semanas.
  • Tsitsipas começou muito bem a defesa do título e atropelou Fognini, o campeão de 2019. O italiano fez 6 winners e cometeu 34 erros numa atuação lastimável. Sairá do top 50 pela primeira vez desde 2012.
  • Outro que está num momento terrível é Benoit Paire. Ele sofreu a nona derrota consecutiva em estreias.
  • Dimitrov ao contrário superou a dificuldade do saibro lento e virou o jogo contra Lajovic depois de estar um set e uma quebra abaixo.
  • Apesar das duas derrotas no seu retorno, Wawrinka diz que não está chateado e que espera um progresso lento,
  • Alcaraz estreia às 6h desta quarta-feira contra Korda e fará sua primeira aparição em Monte Carlo. Nesse período do ano passado, ele era 133 do ranking e se dividia entre challengers e convites nos ATPs.
  • Apesar de sua extraordinária semana em Bogotá, em que saiu do quali e chegou na final de seu primeiro WTA 250, Laura Pigossi não conseguiu vaga direta para Roland Garros. O vice lhe garantiu um ótimo 126º posto e isso ao menos lhe dará chance de entrar de cabeça de chave no quali para Paris. De todos os brasileiros, apenas Bia Haddad entrou direto no Slam francês.
  • O Brasil de Pigossi, Bia, Carol, Cé e Rebeca inicia hoje a disputa do zonal americano da BJK Cup. A estreia deve ser fácil contra a Guatemala, depois vem a desfalcada Colômbia e a definição da vaga promete acontecer diante da Argentina. Os jogos são no piso duro de Salinas, no Equador.
Meninas de ouro
Por José Nilton Dalcim
31 de julho de 2021 às 13:32

Numa das campanhas mais surpreendentes do tênis brasileiro das últimas duas décadas, Laura Pigossi e Luísa Stefani superaram até mesmo o estigma de ‘cabeça fraca’ que os jogadores nacionais são acusados de possuir e, com quatro vitórias em cinco possíveis, chegaram a uma histórica medalha de bronze em Tóquio, superior a qualquer outro desempenho da modalidade na competição esportiva mais relevante do planeta.

Informadas seis dias antes de embarcar para Tóquio sobre a vaga inesperada, nossas melhores duplistas no ranking tiveram de fazer adaptações de urgência. Viagem longa, fuso horário avassalador, pouquíssimo entrosamento anterior entre elas, estilos um tanto conflitantes. Estava tudo contra elas, incluindo uma estreia difícil contra fortes canadenses.

Das quatro vitórias em Tóquio, três foram de virada e portanto no match-tiebreak, desafios que exigem muita frieza. Também evitaram oito match-points, quatro nas quartas e mais quatro na final deste sábado, e vamos ainda lembrar que o primeiro set da única derrota, na semi para as suíças, tiveram um set-point depois de liderar por 4/0.

A disputa do bronze contra as fortes russas nesta madrugada – acabaram de ser vices em Wimbledon – exigiu o máximo de Pigossi e Stefani, tanto no aspecto técnico como no controle emocional. Foram sets duros contra duas jogadoras que pegam muito pesado da base, mas as brasileiras conseguiram segurar muitas trocas importantes e foram extremamente oportunas junto à rede, como aliás aconteceu no ponto que deu a elas o match-point, em que Luísa mostrou incrível reflexo.

Salvar-se de 5-9, com dois saques do adversário a partir do 7-9, é um feito assombroso em qualquer circunstância, mas num jogo que valia tanto para o dueto brasileiro foi a mostra de maturidade e confiança. Simplesmente não erraram, mesmo com postura ofensiva, sem jamais segurar o braço.

Então a alegria de chegar a este bronze tão improvável não é apenas uma questão de nacionalismo, porém acima de tudo de mérito e competência. Além é claro de recolocar um grande foco sobre nosso tênis feminino, que reagiu nos últimos anos a partir do empenho hercúleo de Teliana Pereira, do crescimento técnico de Bia Haddad, da ascensão meteórica de Stefani e de tantas garotas extremamente sérias e dedicadas, como Pigossi, Gabriela Cé, Carol Meligeni, Paula Gonçalves ou Rebeca Pereira.

Jamais devemos esquecer que muito disso passa pela série de pequenos torneios profissionais promovidos no país desde 2011, eventos pouco mediáticos mas que são a base primordial para que possamos ganhar cada vez mais meninas de ouro.

Bencic é campeã, Svitolina faz história
Houve muito ponto bonito, mas a final olímpica feminina foi claramente tensa. Belinda Bencic e Marketa Vondrousova viveram muitos altos e baixos, tiveram dificuldades com o serviço e para sustentar vantagens, mas a suíça mostrou outra vez excepcional preparo físico e levou a terceira medalha de ouro do tênis para seu país, repetindo Marc Rosset, em simples de Barcelona-92, e os ainda ativos Roger Federer e Stan Wawrinka.

E a missão da ex-top 10 ainda não terminou. Voltará à quadra neste domingo para tentar outro ouro, agora em duplas, o que pode torná-la a quarta profissional a obter tamanha façanha. Bencic já pode ser apontada como o maior nome do tênis olímpico suíço, acima de Federer, que também possui uma prata de simples, em Londres-2012.

O bronze foi um duelo emocionante em que Elina Svitolina obteve notável virada em cima da cazaque Elena Rybakina, depois de levar uma surra no primeiro set. Esta é a primeira medalha do tênis ucraniano nos Jogos.

Sem medalhas e com vexame
E Novak Djokovic deixa Tóquio sem qualquer medalha no pescoço. Fez uma exibição de altos e baixos contra o espanhol Pablo Carreño, que se mostrou bem sólido o tempo todo e foi claramente superior no terceiro set. Emocionadíssimo, jogou-se ao chão para comemorar ao mesmo tempo a primeira efetiva vitória em cima do número 1 do mundo.

Nole alegou dor no ombro e sequer entrou em quadra para tentar o bronze nas mistas. Talvez, a frustração tenha sido o problema maior e isso ele deixou claro com duas explosões raivosas no terceiro set, a primeira arremessando a raquete na arquibancada e a outra, destruindo a raquete no poste da rede. Em ambas as situações, colocou-se outra vez no risco iminente de desclassificação. Será que a dura lição do US Open, justamente contra Carreño, não foi ainda o bastante?

De qualquer forma, Nole terá tempo suficiente para esfriar a cabeça e se preparar adequadamente para Cincinnati e US Open. Se o sonhado Golden Slam se esvaiu, fechar o Slam é apenas um degrau a menos na tabela das mais extraordinárias realizações que um tenista pode pretender na carreira. E a oportunidade continua muito aberta.