Arquivo da tag: Kyle Edmund

Saibro renovado
Por José Nilton Dalcim
11 de maio de 2018 às 19:03

Quando parecia pouco provável que alguém ousasse ameaçar Rafael Nadal sobre o saibro europeu, eis que Dominic Thiem resolveu colocar a cabeça no lugar e, ao usar suas melhores armas, conseguiu uma verdadeira façanha em Madri. Tirou cinco games de serviço do número 1, se mostrou mais forte mentalmente do que o espanhol na hora da pressão e venceu em sets diretos. Para quem levou surra dias atrás em Monte Carlo, atingiu o típico ‘água para o vinho’.

O austríaco, todos sabemos, é um excepcional jogador sobre a terra e seu maior pecado sempre esteve na cabeça, principalmente a ansiedade. Ainda assim, o triunfo de hoje teve uma necessária composição: ele jogou num nível muito alto, com paciência e tática apurada, enquanto Rafa cometeu sucessão de erros fatais em momentos chaves, algo que não se tinha visto ainda nesta fase do saibro. Já havia mostrado certa instabilidade diante de Diego Schwartzman, porém Thiem exibe capacidade ofensiva muito superior à do argentino e colocou isso em prática.

O primeiro set foi um belo espetáculo, em que pesem os quatro instáveis últimos games. Thiem suportava bem o tiroteio em cima de seu backhand sem se mostrar desesperado. Na hora certa, tentava um forehand na paralela. Nadal por sua vez sacava com ótima variação e colocava o adversário para correr. Duelo de saibro a toda prova. O espanhol, para surpresa geral, falhou duas vezes. Permitiu a primeira quebra, teve alguma sorte para evitar a perda do set com um forehand de Thiem que saiu por milímetros, e aí na hora de virar fez um game bizarro. O austríaco experimentou até saque-voleio e enfim encerrou a invencibilidade de sets com ace.

Os dois tenistas diminuíram o ritmo no segundo set e novamente Nadal abriu a janela primeiro, cedendo o serviço para 3/1. Thiem foi heróico ao salvar 15-40, mas no serviço seguinte mostrou – pela primeira e única vez na partida – aquele velho problema da pressa exagerada em acabar com o ponto. Outra vez, Nadal não conseguiu virar o placar e daí em diante vimos um Thiem muito confiante, agora apostando num forehand diagonal magnífico, outra das poucas armadilhas que podem segurar o espanhol.

A queda inesperada de Nadal irá animar todos os semifinalistas de Madri. Thiem deveria ser favorito diante de Kevin Anderson, mas já vimos muitas vezes ele sair de giro após uma grande exibição, como se a missão já estivesse cumprida. Anderson é um jogador de força, vai se concentrar no saque e ir para cima do backhand. O austríaco pode usar muito bem o slice e as deixadinhas para desequilibrar o sul-africano.

Alexander Zverev é igualmente nome forte no saibro e felizmente reagiu bem em Madri. Fez outra boa exibição diante de John Isner, esperando a hora certa para as quebras, além de ter trabalhado incrivelmente bem com o próprio saque. A aposta lógica é que vá dominar Denis Shapovalov no saibro, assim como já fez duas vezes no piso duro e na semi de Montréal de agosto. O canadense – que venceu um jogo muito duro e intenso diante de Kyle Edmund – terá de arriscar o tempo inteiro e evitar trocas longas.

De volta ao saibro menos veloz, Nadal continua superfavorito para Roma e Paris, porém ao menos existe agora a expectativa de maior competitividade, E, que bom para o tênis, justamente por parte da nova geração.

A lista cresce
Por José Nilton Dalcim
10 de maio de 2018 às 19:40

Rafael Nadal continua a reescrever a história do tênis a cada semana que passa sobre o saibro europeu. Diego Schwartzman foi o bom adversário que se esperava e fez o que deu. Tentou bater mais na bola, correu muito para cobrir ângulos, inventou jogadas. Foi premiado por uma quebra de serviço improvável quando o espanhol já dominava totalmente a situação e aí fez bobagens quando encarou a chance de liderar o segundo set.

Mas a diferença de força, movimentação e qualidade técnica eram grandes demais para o pequeno e valente argentino. Como incomodar Nadal com segundo saque a 130 km/h? O espanhol fez talvez seu jogo mais irregular desde que pisou no saibro, lá na Copa Davis, e ainda assim nada de ser ameaçado sequer de perder set.

Nesta sexta-feira, reencontrará Dominic Thiem, curiosamente o último homem a vencê-lo na terra há praticamente um ano, mas que levou uma surra humilhante dias atrás em Monte Carlo. Se a maior velocidade de Madri pode ajudar o pesado primeiro saque de Thiem, ao mesmo tempo lhe dará menor tempo de preparar o backhand, seu calcanhar de Aquiles. Rafa sabe exatamente o que fazer.

Nadal e os recordes no saibro
– 10 títulos em Roland Garros
– 5 títulos seguidos em Roland Garros
– 11 títulos em Monte Carlo
– 11 títulos em Barcelona
–  7 títulos em Roma
–  4 títulos em Madri
– 403 vitórias
– 55 títulos
– 23 títulos de Masters
– 81 vitórias seguidas
– 50 sets consecutivos
– 46 vitórias seguidas em Monte Carlo

As quartas
Kyle Edmund e Dusan Lajovic certamente são as grandes surpresas nas quartas de final de Madri. O britânico, depois de superar Djokovic, mostrou muita confiança em cima de um instável David Goffin. Garantido no top 20, fará duelo da nova geração contra o canhoto Denis Shapovalov, que dominou Milos Raonic. Jogaço à vista entre dois tenistas que batem sem dó.

Lajovic, tal qual Shapovalov, usa backhand simples e mostrou versatilidade na vitória inesperada em cima de Juan Martin del Potro. É bem verdade que o argentino vacilou feio e deixou escapar 4-0 no tiebreak decisivo. O sérvio tem outro gigante pela frente, Kevin Anderson. O sul-africano chega às quartas de um Masters pela 11ª vez, a primeira no saibro, e nunca fez sequer uma semi.

Alexander Zverev se mostra bem mais à vontade num saibro veloz e fez dois bons jogos em Madri. Revive a decisão de Miami de poucas semanas atrás contra John Isner. Seria interessante se Zverev fizesse semi contra Edmund ou Shapovalov, garantindo juventude na decisão de domingo. Mas Isner não pode ser desprezado.

As semis
Também existe novidade, e das boas, nas semifinais do Premiére. Caroline Garcia enfrentará Kiki Bertens, que é de longe a grande sensação da semana, já que tirou sucessivamente Anastasija Sevastova, Carol Wozniacki e Maria Sharapova. A holandesa de 1,82m e 26 anos têm se mantido na faixa das top 20 há 12 meses e foi semi de Roland Garros em 2016. Neste ano, já ganhou Charleston.

A outra vaga na final é um duelo de força entre as tchecas Karolina Pliskova e Petra Kvitova, A canhota ganhou Madri em 2015 e faz sua melhor sequência sobre o saibro em anos. É mais tenista do que Pliskova, ao menos no papel.

Vale tudo
Por José Nilton Dalcim
25 de janeiro de 2018 às 12:23

A primeira e talvez maior história deste Australian Open será escrita às 6h30 de sábado. A final feminina envolverá duas tenistas com apenas um ano de diferença, que estarão na maior luta de suas carreiras: erguer enfim um troféu de Grand Slam após várias frustrações e cobranças. Simona Halep ou Caroline Wozniacki? Uma irá realizar um sonho, a outra permanecerá no pesadelo. Bem menos importante, o jogo também vale a liderança do ranking.

Guerreira nata diante de suas limitações de força, Halep fez um duelo épico contra Angelique Kerber nesta madrugada. Abriu 5/0 e depois chegou a ter 6/3 e 3/1 com a paciência de esperar a canhota alemã ditar o ritmo do jogo, para o bem ou para o mal. A campeã de 2016 enfim se achou e levou a um épico terceiro set, onde aconteceu de tudo. Halep teve 5/3 e saque, perdeu dois match-points no game seguinte e levou virada para 6/5 e desta vez dois match-points para Kerber. Mas incrivelmente achou forças para reagir e vencer por 9/7. Esforço memorável das duas.

A romena prometeu que não iria se render depois da terrível derrota na final de Roland Garros, em que deixou escapar 3/0 no segundo set e 3/1 no terceiro set diante de Jelena Ostapenko. Sua primeira chance, também em Paris de 2014, foi menor diante de Maria Sharapova.

Wozniacki mostrou alguma tensão na semi diante da pouco experiente Elise Mertens e são justamente os nervos que geralmente dificultam as coisas para a vice do US Open de 2009 e 2014, que chegou a cair para 74º do ranking em agosto de 2016 e agora está com o pé na porta para reassumir a ponta.

Talvez, Halep mereça um pouquinho mais. Torceu o tornozelo ainda na estreia, quando salvou três match-points, e sobreviveu a maratona de 3h45 diante de Lauren Davis, sem falar no duelo tão duro contra Kerber que exigiu o máximo de poder mental. Wozniacki também fez mágica ao sair de 1/5 no terceiro set contra Jana Fett. Sem dúvida, o título e o número 1 estarão em boas mãos.

Final e número 3
Marin Cilic por sua vez confirmou com relativa facilidade sua terceira diferente final de Grand Slam e a segunda nos últimos três eventos disputados. É um currículo muito respeitável. O campeão do US Open de 2014 e finalista de Wimbledon no ano passado será também o número 3 do ranking na segunda-feira, seu recorde pessoal.

Kyle Edmund só deu trabalho por um set. Ele até começou bem a partida e teve dois break-points, mas rapidamente passou a mostrar um backhand frágil e acabou indo ao vestiário para atendimento médico ao final do set. Sua movimentação era ainda pior do que o normal e deu sinal de abandono, mas uma discussão com o árbitro lhe carregou de tanto ânimo que acabou fazendo um segundo set consistente ainda que jamais ameaçasse para valer o saque do croata.

A estatística mostra que Cilic nem precisou fazer seu melhor. Disparou 11 aces, mas acertou apenas 56% do primeiro saque. Lá do fundo, foram 20 winners e 29 erros não forçados, o que está longe de ser um fenômeno. O importante é ter economizado energia e se mostrar fisicamente inteiro, bem diferente da frustrante final de Wimbledon. Certamente torcerá agora para dar Hyeon Chung na outra semifinal, já que perdeu 8 de 9 para Federer e ganhou todas as três frente o sul-coreano.

A sexta-feira
– Federer já perdeu quatro jogos de Slam para tenistas de ranking inferior ao 58º atual de Chung, mas desde 2004 só aconteceu uma vez (Stakhovsky em Wimbledon-2013).
– A última vez que um Australian Open não teve qualquer representante do Big 4 foi com Safin-Hewitt de 2005.
– A diferença de idade de 14 anos e 284 dias é a quarta maior entre semifinalistas de Slam na Era Profissional.
– Federer pode se tornar o tenista com mais finais na Austrália (7) e o terceiro mais velho desde 1972. E aumentar seu total de Slam para 30.
– Das 13 vezes que Federer perdeu uma semi de Slam, sete aconteceram em Melbourne (Djokovic por três vezes, Nadal em duas, Murray e Safin).
– Suíço tenta atingir sua sexta final de Slam sem perder sets. Ele ganhou dois Slam invicto: AusOpen-2007 e Wimbledon-2017).
– Chung tenta se tornar terceiro asiático na final de um Slam, repetindo Na Li (dois títulos) e Kei Nishikori.
– Coreano pode ser primeiro jogador a debutar numa final profissional diretamente num Slam desde Tsonga em 2008. Hyung-Taik Lee é único coreano finalista de ATP até hoje.
– Este é apenas seu oitavo torneio de Slam. Se atingir a final, repete o feito de Sampras no US Open de 1990
– Chung venceu três top 20 neste início de temporada: Isner em Auckland, Zverev e Djokovic em Melbourne. Ele já garantiu o 29º posto, chegará a 21º se derrotar Federer e ao top 10 se for campeão.
– O tênis brasileiro pode sonhar com uma final de duplas mistas no Australian Open, mas com um de cada lado. Bruno Soares reativou a parceria com Ekaterina Makarova e tem favoritismo para decidir o título. Marcelo Demoliner se juntou a Maria Jose Martinez. Ambos disputam semi na manhã desta sexta-feira. Vale a torcida.