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A nova era da grama
Por José Nilton Dalcim
15 de junho de 2019 às 11:34

Houve um tempo em que tênis sobre a quadra de grama significava dar voleios o máximo possível. O motivo é mais do que simples. Além da velocidade do jogo, a irregularidade do piso recomenda que se evite deixar a bola quicar. Os tempos modernos deixaram essa norma de lado e a final de Stuttgart deste domingo é um exemplo magnífico: Matteo Berrettini e Felix Aliassime se encaram por um título quase inimaginável com um estilo totalmente baseado no primeiro saque e nos golpes de base, em que subir à rede parece proibido.

Reais representantes daquele ‘velho tênis’ ficaram pelo caminho. Dustin Brown fez maravilhas junto à rede durante a semana, mas não aproveitou o match-point que teve para tirar Aliassime, vendo o canadense apostar no saque e nas devoluções o tempo todo. Outro alemão voleador, Jan-Lennard Struff caiu diante de Berrettini neste sábado sem que o italiano tenha tentado um único lance sem deixar a bola quicar.

Nicolas Jarry foi um dos poucos a abusar dos slices e avanços atrás do saque lá em Hertogenbosch, o que funcionou diante do também agressivo Stefanos Tsitsipas porém não foi suficiente para barrar o veterano Richard Gasquet. Também semifinalistas na grama holandesa, Adrian Mannarino e Jordan Thompson são totalmente limitados ao jogo de base. Até aqui talvez o melhor balanceamento entre saque, fundo e rede tenha sido Borna Coric, que também devolve com firmeza. Na hora do aperto, no entanto, o croata jamais saiu de trás e quase perdeu do saibrista Cristian Garin.

Os ATP 500
A próxima semana verá os grandes torneios sobre a grama e teremos a chance de ver se a tendência continua. Queen´s sempre foi considerado o principal aquecimento para Wimbledon até porque o clima e o piso estão na mesma proporção, diferente da superfície mais veloz de Halle.

O torneio britânico não terá qualquer top 5, mas nem por isso está pouco interessante. Só a primeira rodada já trará Tsitsipas x Kyle Edmund, Aliassime x Grigor Dimitrov, Juan Martin del Potro x Denis Shapovalov, Garin x Marin Cilic, Stan Wawrinka x Daniel Evans. Aliás, poderemos ter na segunda rodada duelos como Aliassime x Kyrgios ou Delpo x Feli López. Será que enfim o saque-voleio dominará a cena?

Marcará também os retornos de Kevin Anderson, que saltou todo o saibro e precisa defender o vice em Wimbledon, e principalmente de Andy Murray, na sua tentativa de competir em duplas e sentir se a nova cirurgia de quadril e a prótese metálica ainda lhe darão esperanças de seguir com a carreira de simples. O escocês pretende jogar também em Eastbourne antes de retornar a Wimbledon, onde existem duas expectativas: confiança recuperada ou aposentadoria definitiva.

Halle terá mais top 10 do que Queen’s, mesmo tendo perdido o exausto Dominic Thiem e o machucado Kei Nishikori. O austríaco irá assim diretamente a Wimbledon sem se testar na grama, um piso em que somou uma única vitória no ano passado e que portanto é quase um bônus neste momento. Vale lembrar que ele no entanto já ganhou um ATP no piso.

Claro que as atenções estão nos dois extremos da chave. Roger Federer busca o 10º troféu, mas a final já lhe garantirá a condição de cabeça 2 em Wimbledon, permitindo que evite Novak Djokovic antes de uma possível final e quem sabe ainda veja Rafael Nadal do outro lado da chave.

Reencontra logo na estreia aquele John Millman que o surpreendeu no US Open, tem uma segunda rodada perigosa seja Benoit Paire ou Jo-Wilfried Tsonga. Quem sabe depois venha Gasquet e por fim uma repetição da final de 2018 em que perdeu para Coric, isso se Gael Monfils não se tornar o terceiro francês no seu caminho. É uma trajetória exigente.

Homem da casa, Alexander Zverev joga sob pressão. Decepcionou de novo em Stuttgart e disputa o 10º torneio consecutivo. E não deu sorte. Estreia contra o agressivo Robin Haase e em seguida há chance de enfrentar Philipp Kohlschreiber. Mas se sobreviver, pode embalar para a final. Sascha tem dois vices em Halle, em 2016 e 2017. Parou diante de Coric no ano passado.

Mais um fã no caminho de Federer
Por José Nilton Dalcim
28 de março de 2019 às 23:57

Kevin Anderson demorou demais para esquentar, levou uma surra durante um set e meio e assim não impediu que Roger Federer avançasse para a semifinal de Miami, a segunda seguida de nível Masters no ano. Melhor ainda: enfrentará às 20h desta sexta-feira um adversário que tem quase metade de seus 37 anos e que não esconde ser um fã.

Nunca se cruzaram oficialmente, mas Denis Shapovalov teve a honra de aquecer o ídolo para as semifinais que o suíço faria diante de Feliciano López no torneio de Toronto de 2014, quando Denis tinha 15 anos. Na noite desta quinta-feira chuvosa, ele conseguiu sua terceira virada no torneio num jogo bastante divertido e diversificado diante do também jovem Frances Tiafoe. Agora, o jogo contra Federer é para valer.

Curiosamente, de suas quatro semifinais de nível ATP da curta carreira, duas vieram em eventos de nível Masters. Primeiro aquela incrível campanha em Montréal, onde tirou até Nadal, e depois no saibro rápido de Madri. Em ambas, não tirou set de outro NextGen, Zverev. Seu poderoso adversário em Miami tem exatamente 200 semis a mais e busca a vitória de número 153.

Desde que venceu seu primeiro Grand Slam, em 2003, Federer perdeu para apenas três canhotos, além de Nadal: o austríaco Jurgen Melzer, o argentino Federico Delbonis e o espanhol Albert Ramos, que foi aliás o último, em outubro de 2015. Desde então, o suíço está invicto há 20 jogos, incluindo cinco contra Rafa. Porém, fato curioso, foi batido em dois jogos importantes nesta temporada para jovens adversários que batem o backhand de uma mão: outro fã confesso, Tsitsipas venceu na Austrália e Dominic Thiem, dias atrás em Indian Wells.

É impossível não dar a Federer todo o favoritismo, ainda mais depois de duas rodadas muito bem trabalhadas na lentidão de Miami. Tal qual fizera diante de Daniil Medvedev, foi paciente para construir pontos contra Anderson e teve novamente um número muito baixo de erros não forçados, que chegaram a 12 (havia sido oito contra o russo). Usou muito bem o slice e, apesar da quebra sofrida quando já tinha vantagem no segundo set, o saque aparece em momentos delicados. Está impecável junto à rede e com a mão certa nas deixadas.

Como Shapovalov irá jogar? Provavelmente, ao melhor estilo Nadal, usando muito spin contra o backhand do adversário quando entrar nos ralis. O canadense consegue gerar incrível potência em todos os golpes de base, tem um saque fulminante, é rápido de pernas e adora os voleios. Claro que terá de se precaver do slice venenoso e tentar chegar à rede antes do adversário. Um jogo de xadrez.

A outra semi terá o garoto Felix Auger-Aliassime diante do atual campeão John Isner. O canadense está num momento mágico, mas raramente joga bem diante de grandes sacadores. Não consegue entrar nos pontos e fica sem ritmo lá da base. Como sempre, quando se enfrenta um adversário com saque bombástico, a primeira regra é não perder o próprio saque, e isso Aliassime tem feito bem. Mas disputar tiebreaks também não é o melhor dos mundos: Isner jogou oito sets e sete tiebreaks em Miami, e ganhou todos.

A rodada feminina foi prejudicada pela chuva. O jogo em que Ashleigh Barty derrotou Anett Kontaveit teve duas longas paralisações e só foi encerrado já à noite. A australiana tem muito mais variações, muda o ritmo a toda hora, arrisca lances diferentes e isso faz seus jogos divertidos de se ver. Fará sua mais importante final neste sábado, já com lugar garantido no top 10. É bom lembrar que, quando retornou ao circuito em maio de 2016, após temporada como jogadora profissional de críquete, Barty sequer tinha ranking.

Vacilo fatal
Por José Nilton Dalcim
27 de março de 2019 às 00:01

Quando Novak Djokovic sacou para 6/1 e 2/0, mas teve uma súbita queda de intensidade que permitiu o empate a Roberto Bautista, alertei para a semelhança do que ocorrera no jogo anterior diante de Federico Delbonis. Dois jogos que caminhavam tranquilos para o número 1 do mundo. Como o espanhol é muito mais tenista do que p argentino, Nole pagou caro e restou-lhe reconheceu o óbvio: “É o tipo de partida que não deveria ter perdido”.

É errado tirar os créditos de Bautista, que ganhou confiança pouco a pouco e afinal foi o tenista que mais procurou definir pontos e a buscar alternativas táticas. Aquela passividade de Djokovic voltou a ter lampejos, e talvez tenha sido a responsável pelo outro ‘ponto importante’ que deixou escapar. Com 5/5, break-point, só fez trocar bolas até o espanhol dar um slice no meio da quadra e ele errar um forehand bobo na rede.  “Perdi chances demais”, constatou Nole, que viu o adversário salvar oito de 10 break-points nos dois últimos sets.

Apareceram diferentes explicações. Uma dor nas costas, que havia se manifestado no aquecimento da manhã e encurtado o treino de Djokovic, seria o motivo principal. Sem dúvida, explica o baixo rendimento do primeiro serviço e, pior ainda, dos pontos vencidos com ele (Bautista terminou com 47% de eficiência como devolvedor). Também ventilou-se outra vez os problemas extra-quadra, que assim como em Indian Wells estariam afetando sua concentração. Na entrevista oficial, não se falou disso.

Alguns números entram como curiosidade. Djokovic ganhou a sequência Indian Wells-Miami por quatro vezes na carreira (2011 e depois três seguidas entre 2014 e 2016), mas nos dois últimos anos sequer atingiu as quartas nos dois Masters, o que o levou a dizer nesta noite que talvez tenha de mudar sua preparação. Desde julho do ano passado, na sua reação espetacular, Djokovic disputou 42 partidas em que venceu o primeiro set e as duas únicas viradas que levou foram… de Bautista.

Djokovic segue para o saibro europeu, um piso onde se diz muito à vontade. “Cresci sobre a terra, me sinto muito bem nela”. Confirmou presença em Monte Carlo, que terá chave forte com Rafa Nadal, Sascha Zverev e Dominic Thiem.

Bautista chega a 14 vitórias em 17 jogos na temporada e disputará as quartas de Miami pela primeira vez justamente contra o atual campeão, John Isner. O espanhol perdeu dois de três duelos, embora o mais recente seja de janeiro de 2016 e portanto bem distante do grande momento que vive. Isner não perdeu set nesta edição: cinco dos seis foram ao tiebreak.

A outra partida de quartas de final confirmada terá dois nomes fortes da nova geração: Borna Coric e Felix Auger-Aliassime, promessa de um jogo bem interessante. O croata vem trabalhando muito para deixar seu tênis mais agressivo. Mexeu no saque, que ganhou velocidade, e treinou muito voleio. Vive um 2019 instável mais por conta do físico. Soube controlar a cabeça diante dos malabarismos de Nick Kyrgios, que voltou a ser penalizado por quebrar raquete e falar palavrão para um torcedor, culpando depois o árbitro. Está na hora de a ATP tomar uma atitude.

Aliassime tem importantes semelhanças ao estilo de Kyrgios, o que de certa forma ajuda Coric a não ter de pensar em mudanças táticas. O garoto canadense aposta muito no primeiro saque, gosta de atacar logo na segunda bola, aproveita qualquer chance de ir à rede. E faz tudo muito bem. Notável outra vez sua maturidade diante de Nikoloz Basilashvili, um top 20 de jogo de base sólido. Por sua experiência de já ter até decidido Xangai no ano passado, Coric leva o favoritismo, mas qualquer um que passe para a semi representará com dignidade a NextGen.

Do outro lado da chave, Roger Federer teve seu jogo contra Daniil Medvedev adiado por conta da chuva e assim Kevin Anderson terá de esperar até o final da tarde de quarta-feira para conhecer seu adversário. Campeão na Índia, o sul-africano foi mal em Melbourne e parou para cuidar do cotovelo.

A outra partida de quartas verá outro confronto da nova geração. Frances Tiafoe tirou David Goffin e irá enfrentar Denis Shapovalov, que fez um duelo incrível contra Stefanos Tsitsipas que terminou na madrugada. Segundo a ATP, é o primeiro Masters desde Madri em 2009 a ter quatro jogadores com menos de 23 anos nas quartas de final. Naquela ocasião, os jovens eram Djokovic, Nadal, Murray e Del Potro.