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Murray vai por cima
Por José Nilton Dalcim
30 de junho de 2021 às 20:25

Andy Murray não poderia terminar sua heroica batalha de outra forma: dono do melhor lob que já vi no circuito, realizou dois seguidos em cima do grandalhão Oscar Otte, um jogador que surpreendeu pela disposição ofensiva apesar de suas evidentes limitações, e assim o escocês manteve sua sina de jamais perder antes da terceira rodada desde a estreia em 2005.

Murray, claro, está ainda longe do que pode realmente fazer numa quadra de grama, mas ele sabe achar atalhos e tira toda a energia possível da enlouquecedora torcida. São evidentes seus altos e baixos, a falta de pernas ou de confiança para meter mais a cara na rede, e aí o excessivo padrão defensivo acaba aflorando. De qualquer forma, há uma chance bem considerável de passar por Denis Shapovalov, canhoto com histórico pobre no piso, desde que consiga se recuperar fisicamente.

No começo do dia, Novak Djokovic deu mais um show. Foi tão superior que até parecia que Kevin Anderson não era um especialista na grama, com vice em Wimbledon. O sérvio tem exibido nestes dois jogos as qualidades mais especiais de quem se aventura na superfície: um saque devastador e devoluções milimétricas. Se mantiver o padrão, será praticamente impossível ganhar dele. Enfrenta agora Denis Kudla, que é um batalhador de bolas retas, e deve depois reencontrar Gael Monfils. O ‘freguês’ francês só beliscou oitavas em Wimbledon uma vez.

No outro quadrante, Andrey Rublev me causou espanto pelo tamanho do domínio sobre Lloyd Harris e é favorito natural contra Fabio Fognini e depois diante de quem passar entre Diego Schwartzman e Marton Fucsovics.

Já o setor de Murray tem ainda outra esperança local, Daniel Evans, que passou bem na estreia por Feli López e hoje ganhou com autoridade de Dusan Lajovic. Mas não será fácil cruzar com Sebastian Korda. Não ficaria surpreso aliás se acontecesse um duelo todo norte-americano, já que Frances Tiafoe fez outra ótima exibição diante de Vasek Pospisil e pode muito bem prevalecer em cima do pouco confiável Karen Khachanov.

Kyrgios lidera queda de cabeças
Nada menos que 27 jogos desta quarta-feira ainda foram válidos pela primeira rodada e entre eles alguns resultados relevantes. O destaque é claro foi Nick Kyrgios. Após cinco meses sem competir e apenas dois torneios disputados desde março do ano passado, fez um jogo de alto nível e tirou o embalado canhoto Ugo Humbert num emocionante quinto set, por 9/7. É um excepcional jogador sobre grama, com capacidade de alternar velocidades e efeitos, além do saque fulminante e enorme habilidade na rede. Tem chance real de passar por Gianluca Mager e dar trabalho a Felix Aliassime, que fez um jogo redondo e não deu qualquer chance a Thiago Monteiro.

Também caíram Pablo Carreño, Casper Ruud e John Isner entre os cabeças de chave. Semifinalista de 2017 e quartas em 2019, Sam Querrey nem de longe pode ser chamado de surpresa e venceu bem os três sets contra Carreño,. É perigoso. Com ‘apenas’ 1,70m e um tênis totalmente de contragolpe, o canhoto Yoshihito Nishioka fez 3 aces contra os 36 do gigante Isner, de 2,08m, e só ganhou 18% dos pontos como devolvedor, porém o japonês aproveitou dois de quatro break-points e ainda levou um tiebreak.

Notável a vitória em sets diretos de Kei Nishikori, ótima recuperação da esperança local Cameron Norrie e nova frustração para Jo-Wilfrid Tsonga, que também parece muito perto do adeus.E Matteo Berrettini está muito a fim de jogo. Todos os vencedores, mesmo os que fizeram cinco sets, têm de voltar à quadra nesta quinta-feira.

Campeãs de Slam dão adeus
Duas jovens e uma veterana vencedoras de Grand Slam já deram adeus ao torneio, mas foram surpresas pequenas em se tratando de grama.

Sofia Kenin caiu cedo pelo quarto Slam consecutivo diante da também americana Madison Brengle, repetindo a segunda rodada de Melbourne. Venus Williams também se foi, mas Ons Jabeur atravessa bom momento e varia muito bem seus golpes. Por fim Bianca Andreescu nem passou da estreia, com 34 erros e um placar arrasador imposto por Alizé Cornet.

Aryna Sabalenka, Iga Swiatek, Karolina Pliskova e Garbiñe Muguruza já estão na terceira rodada. A cabeça 2 precisou de virada e de paciência com a torcida, a polonesa foi muito firme e Muguruza já ganhou em Wimbledon e pode achar o caminho de sua recuperação.

Aliás, a grama também é ótimo lugar para Pliskova recuperar sua temporada instável, mas estou gostando mesmo é de Sloane Stephens. Ela não saca muito, nem bate tão forte, mas é uma jogadora taticamente muito aplicada e está num setor bem interessante da chave.

O feminino também teve 23 jogos ainda de primeira rodada, que marcaram estreia difícil de Elina Svitolina, quedas de Belinda Bencic e Anett Kontaveit e vitórias de Vika Azarenka e Anastasia Pavlyuchenkova.

Sustos e preocupação
Depois das contusões sérias de Serena Williams e Adrian Mannarino, que não conseguiram seguir em seus jogos na Central, o piso escorregadio causou várias outros sustos nesta quarta-feira. Djokovic, tal qual acontecera na estreia, foi ao chão algumas vezes e não se mostrou nada feliz. Isner e Kyrgios também sofreram quedas feias, que felizmente não causaram danos maiores, e o próprio Murray perdeu o equilíbrio e imediatamente colocou a mão na problemática virilha, um sinal de alerta temeroso.

Questionado sobre o problema, o All England Club colocou a culpa no excesso de umidade da atmosfera no período em que o piso foi cultivado. “Tivemos a maior umidade em uma década e assim o teto das quadras precisou ser fechado, o que isso influenciou no assentamento”, afirmou,  jurando que a preparação das quadras foi exatamente igual a todos os outros anos. “Conforme os jogos acontecerem, a quadra ficará firme”. Será?

Incredible Lorenzo
Por José Nilton Dalcim
30 de outubro de 2020 às 18:37

Tenista que habitualmente passa despercebido em qualquer sorteio de chave, o italiano Lorenzo Sonego se tornou a maior ‘zebra’ da temporada, ao impor um placar humilhante em cima do todo poderoso número 1 do mundo. Ao ganhar apenas três games do número 42 do ranking, Novak Djokovic sofreu sua pior derrota em nível ATP em 15 anos.

Os números da partida não são menos chocantes. Corajoso e determinado, usando sua combinação predileta de saque e forehand, Sonego disparou 26 winners contra apenas sete do sérvio. E ainda errou muito menos, com 12 diante de 25. Salvou todos os seis break-points que encarou e ganhou 80% dos pontos em que acertou seu forte primeiro serviço.

Alguns aspectos merecem destaque. Conseguiu ser muito consistente até mesmo com o backhand, seu ponto fraco, e utilizou recursos interessantes e inteligentes, como deixadinhas de forehand – um golpe que costuma disparar com força – e o saque sobre o corpo, que tirou muito o ângulo do adversário. O forehand esteve notável, principalmente no chamado ‘inside-in’, aquele golpe difícil em que se foge do backhand e se arrisca na paralela. Djokovic jogou melhor como devolvedor do que com o saque, pareceu acreditar que bastaria ter paciência para tirar a confiança do italiano e no final me pareceu quase desinteressado.

Em boletim, a ATP observou que Djokovic não perdia por placar tão elástico desde que foi superado por Marat Safin no Australian Open de 2005, por 6/0, 6/2 e 6/1. Mas então o sérvio era um adolescente saído do quali e encarou justamente aquele que seria o campeão, então me parece justo dizer que foi a mais dura derrota desde que entrou na elite do tênis. E não vamos esquecer que, há três semanas, Nole também acabou atropelado por Rafael Nadal em Paris.

Mas quem é esse Sonego, com cara de garoto? Ele na verdade tem 25 anos e se diz um especialista em saibro, ainda que seu único título de ATP tenha acontecido na grama de Antalya. Três semanas atrás, fez oitavas em Roland Garros. Jamais havia vencido um top 10 – seu maior resultado foi diante de Karen Khachanov, então 12º, na lentidão de Monte Carlo – e entrou na chave de Viena de última hora. Ele perdeu no quali para Aljaz Bedene e a desistência de Diego Schwartzman lhe deu nova chance. Djokovic aliás tinha 12-0 contra lucky-losers na carreira.

Enquanto Nole vê adiado o inevitável anúncio de que terminará a temporada como número 1, Sonego enfrentará o britânico Daniel Evans neste sábado. E convenhamos que qualquer coisa pode acontecer neste fim de semana, depois que Andrey Rublev atropelou Dominic Thiem no segundo set, logo após Kevin Anderson fazer uma bela exibição e barrar o nervosinho Daniil Medvedev.

E mais
– Rublev ganhou 17 de seus últimos 18 jogos em quatro torneios. Sacou muito contra Thiem: 11 aces e só perdeu quatro pontos quando usou o primeiro serviço.
– Antes de atingir quartas no Rio Open deste ano, Sonego vinha de 10 derrotas consecutivas. Já se garantiu como 35º.
– Aos 34 e apenas 111º do mundo, Anderson fez segunda cirurgia no joelho direito em fevereiro e joga com ranking protegido. Ele foi campeão de Viena, há dois anos.
– Roberto Bautista não se recuperou e desistiu de Paris, deixando a briga pelo Finals. Matteo Berrettini confirmou que joga, mas terá de ir ao menos à semi para ter chance.
– Zverev também jogará Paris. A saber como estará sua cabeça com a chegada do filho e com acusações de agressão de duas ex-namoradas.

E se…
Por José Nilton Dalcim
12 de setembro de 2019 às 21:05

Achei curiosa a sugestão do internauta mineiro João Ferreira, que observou quantos troféus de Grand Slam escaparam por entre os dedos de Roger Federer ao longo de sua carreira. E me questionou como estaria a contabilidade de conquistas hoje caso o suíço tivesse confirmado aqueles momentos de domínio.

Sem dúvida, foram várias chances de ouro. Mas não é menos verdade que Rafael Nadal também poderia estar numa situação mais privilegiada se não falhasse em momentos cruciais dos Slam.

Como um exercício do famoso “E se…”, resolvi então listar os troféus que provavelmente fugiram de cada um deles, principalmente pela situação do jogo ou do campeonato. Vejamos.

As duras derrotas de Federer
Entre os títulos que não deveria ter perdido, Roger certamente lamenta o do US Open de 2009, quando poderia ter batido o então jovem Juan Martin del Potro até em sets diretos. Ainda liderou por 2 sets a 1, perdendo o quarto no tiebreak. Muita chance. Pior ainda foi o de Wimbledon deste ano, com os fatídicos dois match-points desperdiçados contra Novak Djokovic.

Não fica muito atrás a derrota na final de 2008 em Wimbledon para Nadal no 9/7 do quinto set, embora o espanhol tenha feito 2 sets a 0 e perdido dois tiebreaks em seguida. Em dia de chuva, o jogo terminou quase sem luz.

Talvez muitos ainda considerem chance perdida a decisão de Wimbledon de 2014 para Djokovic, em que o suíço venceu o primeiro set e cometeu um erro incrível no quinto. Ou a final do AusOpen de 2009 diante do próprio Nadal, principalmente porque o espanhol vinha de uma semi muito desgastante e ainda levou mostrou mais físico, batendo Federer no quinto set.

Eu ainda penso que o suíço provavelmente teria levado o AusOpen de 2005 caso não perdesse as inúmeras vantagens contra Marat Safin na semi.

Portanto, Federer certamente poderia ter pelo menos mais três Slam em sua conta.

Os desperdícios de Nadal
Quando avaliamos os Slam onde faltou mais sorte a Nadal, certamente o Australian Open sobra. Acredito que ele perdeu duas finais muito importantes ali: a maratona de 6 horas de 2012 para Djokovic e muito mais ainda o quinto set diante de Federer em 2017, quando teve vantagem de 3/1 e levou a virada.

Aliás, esse vice de 2017 hoje parece ainda mais relevante quando pensamos na contabilidade dos Slam. Federer ganhava então o 18º e deixava Nadal com 14. A inversão do resultado, portanto, teria deixado a briga em 17 a 15 e o espanhol potencialmente teria empatado com o suíço meses depois, já que levou Roland Garros e US Open daquela temporada.

Vejo como não menos árdua a derrota de Rafa na semi de Wimbledon de 2018 para Djoko, já que dificilmente o canhoto perderia do esgotadíssimo Kevin Anderson na decisão.

Vale por fim ressaltar que ele não conseguiu terminar partidas em quatro torneios de Slam, com destaque para a semi do US Open do ano passado, quartas no AusOpen de 2010 e de 2018 e o abandono sem entrar em quadra em Roland Garros de 2016.

Dessa forma, Nadal também poderia somar mais três Slam e hoje estar com 22.

‘Fedal’ dos recordes
Na esteira dessa competição extraordinária pela soberania nos Slam, Federer e Nadal poderão sacramentar dois recordes praticamente seguidos de público no tênis.

A exibição de 7 de fevereiro de 2020 na Cidade do Cabo deverá atingir mais de 50 mil espectadores, deixando muito para trás a marca de 35.681 para a exibição entre Serena Williams e Kim Clijsters, que aconteceu em Bruxelas, em 2010. Nada menos que 48 mil ingressos para o evento na África do Sul foram à venda na semana passada pela Internet e se esgotaram em minutos.

Agora, o Real Madrid quer organizar um outro ‘Fedal’ provavelmente também na próxima temporada. E o jogo aconteceria no estádio Santiago Bernabéu, que tem capacidade para mais de 80 mil pessoas.