Arquivo da tag: Ken Rosewall

Tênis profissional poderia ter começado 10 anos antes
Por José Nilton Dalcim
22 de julho de 2020 às 21:05

A contratação dos principais tenistas ao longo da década de 1950 por promotores, especialmente os norte-americanos, incomodou cada vez mais o All England Club, o criador de Wimbledon, que temia a perda de interesse do público. Em 1959, veio a primeira tentativa britânica de determinar o fim do amadorismo do tênis – algo que o golfe havia obtido 30 anos antes -, ao solicitar à Federação Internacional que permitisse livre inscrição nos torneios. A proposta foi a plenário e saiu derrotada por meros cinco votos.

A situação só piorava. Rod Laver, a grande estrela de 1962, assinou contrato para disputar o circuito norte-americano ainda aos 24 anos e causou um novo choque. Mais grave ainda, os promotores profissionais pouco a pouco abandonavam o formato de duelos individuais para organizar campeonatos, que evoluíram para circuito. Wimbledon mais uma vez tentou persuadir a Federação em 1964, mas não foi ouvido.

Como único recurso, os Grand Slam aceitaram pagar um cachê não-oficial para os principais tenistas que jogassem seus campeonatos, tentando assim conter a evasão, numa atitude que era conhecida como “falso amadorismo”. Na realidade, os melhores jogadores já tinham até contrato com marcas de raquete e de roupa, em outra evidência de que os tempos tinham de mudar.

A gota d’água viria em 1967, quando dois novos circuitos poderosos se formaram nos Estados Unidos: a National Tennis League, organizada pelo conceituado George MacCall, e o World Championship Tennis (WCT), criado por Dave Dixon e depois adotado pelo milionário Lamar Hunt. Entre os dois grupos de contratados, estava praticamente a nata do tênis da época.

O All England Club tomou então atitudes radicais. Em agosto de 1967, convidou oito profissionais para uma exibição em plena Quadra Central, sob o patrocínio da BBC e o pretexto de realizar a primeira transmissão colorida do tênis na TV. O sucesso foi a deixa final. Em dezembro, numa tumultuada reunião em Londres, os dirigentes da Liga Britânica anunciaram que iriam abolir a partir de 1968 a distinção entre “amador” e “profissional” mesmo ameaçados de expulsão pela Federação Internacional.

“Precisamos agir por nossa conta para tornar o jogo honesto”, afirmou o então presidente da LTA Derek Penman, referindo-se ao fato de que havia clara diferença entre os tenistas que recebiam cachê ilegal e os verdadeiros amadores de então. “Temos sido governados há muito tempo por um conjunto de regras amadoras que não são mais aceitáveis”.

Primeiros momentos
Wimbledon no entanto não se tornaria o primeiro Slam profissional da história. Em março de 1968, uma reunião de emergência em Paris, a Federação Internacional colocou em votação e levou goleada de 295 dos 300 votos a favor do fim do amadorismo. Anunciou então um calendário com 12 torneios abertos a profissionais. O primeiro deles aconteceu na quadra sintética de Bournemouth, em abril, vencido por Ken Rosewall e Virginia Wade. E logo em seguida, Roland Garros tirou a primazia de Wimbledon e se tornou o primeiro Slam da nova era.

Nada no entanto foi tão simples. Roland Garros aconteceu no meio dos protestos estudantis pelas ruas e com Paris praticamente sitiada, e ainda sofreu boicote severo.  Se o título masculino ficou para o grande nome do momento, Ken Rosewall, o feminino foi uma certa surpresa, já que a amadora Nancy Richey derrotou a profissional Ann Jones. Na hora de receber o prêmio de US$ 1 mil, Richey declinou em favor da australiana porque ainda tinha receio do que poderia vir e quis permanecer amadora.

Duas semanas depois, Wimbledon enfim recebeu Laver de volta. O genial australiano havia conquistado o torneio em 1962 e não retornado mais devido ao banimento obrigatório dos profissionais. O retorno foi glorioso, com título e apenas nove games perdidos diante de Tony Roche na final, com direito ao prêmio de 2 mil libras do total de 26.150 do torneio. Billie Jean King recebeu 750 libras.

A USTA, por seu lado, se mostrou bem mais cautelosa com os novos tempos e, nos dois primeiros anos de Era Aberta, promoveu dois campeonatos distintos, um amador e outro profissional, para cada sexo. Arthur Ashe ganhou os dois eventos em 1968, tornando-se o primeiro homem negro a erguer um Slam, mas repetiu o gesto de Richey e recusou o prêmio de US$ 14 mil, passando-o para Tom Okker, porque queria disputar a final da Copa Davis em dezembro (a Davis demorou mais alguns anos para retirar a restrição aos profissionais).

Como amador, Ashe derrotou Bob Lutz em torneio disputado em Boston. No feminino, Margaret Court venceu o amador e Virginia Wade, o profissional. O total de premiação atingiu US$ 100 mil, o dobro de Wimbledon. No ano seguinte, Rod Laver levou o título profissional e Stan Smith, o amador, enquanto Court faturou os dois.

Disputa e boicote
A maioria dos grandes nomes estava no entanto sob contrato da NTL ou do WCT e apenas uma minoria era independente, como Lew Hoad e Luis Ayala. O NTL agenciava Rod Laver, Ken Rosewall, Andrés Gimeno, Pancho Gonzales, Fred Stolle e Roy Emerson, enquanto o WCT estava com John Newcombe, Tony Roche, Nikola Pilic, Roger Taylor, Pierre Barthès, Earl “Butch” Buchholz, Cliff Drysdale e Dennis Ralston.

Como a Federação Francesa se recusou a fazer um acordo comercial, nenhum dos nomes do WCT competiu em Roland Garros inaugural de 1968 e todos os do WCT e da NTL boicotaram Paris em 1970, ano em que a NTL também não permitiu que seus jogadores disputassem o Australian Open.

A Federação Internacional, que sempre controlou os Grand Slam, se sentiu pressionada e aí novamente surgiu a figura de Jack Kramer, o grande tenista dos anos 1940 e 50, que também havia obtido sucesso com seus eventos de exibições. O norte-americano criou o chamado circuito Grand Prix, que dava boa premiação e estabelecia um ranking que elegia os oito melhores da temporada para um campeonato especial para fechar a temporada, que chamou de Masters.

O primeiro Grand Prix aconteceu em 1970, ainda com muita divisão entre os promotores, mas conseguiu realizar 27 torneios, incluindo Roland Garros, Wimbledon e US Open, com Masters em Estocolmo. Vários tenistas começaram a assinar contrato com o novo circuito, que admitia que eles disputassem também eventos dos outros promotores se as datas não fossem competitivas.

Inegavelmente, porém, o WCT era uma grande força. Iniciou seus torneios em 1968 e em 1970 absorveu o NTL, ficando ainda mais forte. Pediu então a um painel de jornalistas para classificar os melhores 32 tenistas do mundo, a fim de convidá-los para jogar o circuito de 20 etapas de 1971, lista que incluiu Ilie Nastase, Stan Smith e Jan Kodes. Até mesmo o Australian Open foi um WCT, que instituiu também um Masters ao final das etapas.

A disputa entre Grand Prix e WCT chegava ao auge. Rosewall, Gimeno, Laver e Emerson se recusaram a jogar o US Open de 1971 (Rosewall acabou indo, mas perdeu na estreia) e como resposta o Grand Prix proibiu os tenistas do WCT de competir em Roland Garros e Wimbledon de 1972.

Estava evidente que eram necessárias medidas drásticas para que o recém-nascido tênis profissional não naufragasse em suas próprias vaidades. Os tenistas se reuniram durante o US Open de 1972 e entenderam a saída: criar um sindicato que os representasse e tirasse tamanho poder dos promotores.

Surgia então a ATP. E isso fica para o próximo post.

A Divina iniciou tênis profissional há quase um século
Por José Nilton Dalcim
20 de julho de 2020 às 21:17

Quem pensa que pagar tenistas para jogar partidas e campeonatos seja algo que surgiu em 1968, talvez se surpreenda ao saber que o tênis profissional já tem 94 anos e seu primeiro século será comemorado em 2026.

O conflito entre esporte amador e profissional é ainda mais antigo e a primeira disputa conhecida entre as duas vertentes data de 1895, quando o rúgbi se dividiu em dois: a liga amadora e a liga profissional. Isso se deu principalmente porque os trabalhadores do Norte da Inglaterra exigiam pagamento em cima do tempo que deixavam de ir às fábricas para treinar e jogar.

O tênis competitivo por sua vez ganhou real projeção depois da Primeira Grande Guerra e despontaram dois nomes: Bill Tilden, o Big Bill, e Suzanne Lenglen. Os dois dominavam a cena no início da década de 1920, com conquistas de peso e portanto popularidade.

Isso chamou a atenção de Charles C. Pyle, um bem sucedido promotor de esportes nos Estados Unidos. Ao perceber o fascínio que Lenglen causava no público – elegante e atlética, acredita-se que tenha vencido 179 partidas consecutivas como amadora -, finalmente convenceu A Divina a se tornar profissional.

O empresário ofereceu a então fabulosa bolsa de US$ 50 mil para que Lenglen disputasse uma série de partidas contra Mary Browne, campeã do Nacional dos EUA (hoje US Open) entre 1912 e 1914, ao longo de quatro meses. Três anos antes, Lenglen havia recusado outra ótima proposta para se tornar profissional. A ideia de Pyle eram duelos contra Helen Wills, mas a excelente norte-americana não aceitou.

Também foram contratados quatro homens para o circuito de Pyle. O mais famoso deles era o campeão olímpico Vinnie Richards, que formou o grupo com Paul Féret, Howard Kinsey e Harvey Snodgras, já que Tilden preferiu se manter amador e só viraria pro em 1930, quando estava com caixa apertado. Com esse grupo, Pyle realizou 40 etapas do seu ‘circuito’ em grandes arenas nos EUA, Canadá e até em Cuba, com público lotando arquibancadas e pagando ingressos. A primeira noite no Madison Square Garden atingiu 13 mil espectadores.

Lenglen jogava simples e duplas mistas, ganhou 33 dos 40 jogos contra Browne – que chegou a ser incentivada com um ‘bônus’ caso tirasse ao menos quatro games da francesa em cada jogo – e a Lenglen ainda tinha direito a um percentual da bilheteria. Assim seu faturamento dobrou para US$ 100 mil.

Apesar do sucesso financeiro, Lenglen não quis continuar e pouco depois assinou contrato com o promotor Charles Cochran para jogar profissionalmente na Inglaterra. Foram apenas sete etapas, mas uma delas chegou a reunir 15 mil pagantes. Suzanne recebeu muitas críticas. Wimbledon retirou seu título de sócia, a Federação Francesa a expulsou e assim jamais disputou a fase internacional de Roland Garros. Ela se defendeu: “Fui campeã por 12 anos no tênis, muita gente ganhou fortunas com meus jogos e eu nunca levei nada”.

Lenglen se retirou das quadras em seguida, pediu perdão e tentou reverter para a condição amadora em 1932, mas a Federação Francesa bateu o pé. Escreveu vários livros, teve sua própria escola até falecer de anemia crônica, a mesma doença de seu pai, ainda aos 39 anos.

Expulsão e sucesso
O tênis profissional causou uma grande divisão no circuito. O Comitê Olímpico Internacional tirou a modalidade dos Jogos a partir de 1928 e a Federação Internacional decidiu que os Grand Slam só poderiam ser disputados por amadores.

A semente no entanto estava plantada e a partir da década de 1930 tornou-se comum que os tenistas tentassem uma carreira de destaque no tênis amador, principalmente nos Slam, e chamar a atenção dos promotores. Foi exatamente o caminho seguido por Fred Perry, que se profissionalizou após o bi em Wimbledon, em 1936.

Além dos duelos diretos, que era o formato mais comum, torneios começaram a ser disputados entre os contratados. Os mais famosos eram o US Pro (surgido em 1927), o French Pro (1930) e Wembley (1934).

Um grande salto aconteceria em 1950, quando Jack Kramer criou seu próprio circuito – ele também jogava em alto nível – e conseguiu trazer para seu lado nomes de peso como Bobby Riggs, Pancho Segura e Ken Rosewall. Primeira negra a ganhar um Slam, Althea Gibson se renderia ao tênis profissional em 1958.

É razoável dizer que o circuito de Kramer teve grande responsabilidade pelo surgimento da chamada ‘Era Aberta’, ou seja, quando finalmente o circuito regular voltou a ser permitido aos profissionais.

Bem organizado e rentável, as exibições de Kramer ‘roubavam’ cada vez mais os grandes tenistas e os tirava dos Slam, como foi o caso especialíssimo de Rod Laver, o campeão de todos os grandes torneios em 1962 e que foi contratado a peso de ouro para jogar partidas e torneios nos EUA. Só em seu primeiro ano de pro, Laver embolsou US$ 60 mil.

Cinco anos depois, a coisa explodiu. Mas isso fica para o próximo post.

O histórico maio de 1968 em Paris
Por José Nilton Dalcim
29 de maio de 2020 às 19:05

Aconteceu há dois dias, mas ainda é tempo de resgatar um dos momentos mais importantes, e tensos, do tênis moderno. No dia 27 de maio de 1968, Roland Garros se tornou o primeiro Grand Slam a permitir a inscrição de tenistas profissionais e duas semanas depois coroou Ken Rosewall e Nancy Richey.

Existem muitas histórias por trás desse momento histórico, e a primeira delas não é exatamente sobre o tênis.

Maio de 1968 marcou o ardente movimento estudantil pelas ruas de Paris, que começou como reivindicação e culminou com o pedido de renúncia do presidente Charles de Gaulle e novas eleições. Nove dias antes de Roland Garros começar, no auge de forte repressão policial, o país viveu uma greve geral, com 9 milhões de trabalhadores de braços cruzados e estudantes no apoio. O aeroporto fechou e os tenistas tiveram de chegar por estradas. O telefone não funcionava e havia toque de recolher nas ruas.

No campo esportivo, a abertura do circuito para todos era um desejo antigo dos britânicos. Em 1959, Wimbledon quis liberar para os profissionais, mas a Federação Internacional desautorizou por apenas cinco votos contrários. O torneio fez outra tentativa frustrada em 1964 e por fim, em 1967, a BBC patrocinou uma exibição de oito profissionais na Quadra Central, o que aliás marcou a primeira transmissão colorida feita no All England Club.

Wimbledon sentiu o risco de se esvaziar quando surgiu o milionário circuito WCT em 1967, e aí o Club cansou. Informou à ITF que iria acabar com a proibição e chamar todos os inscritos apenas de “jogadores”. Os dirigentes ameaçaram expulsar os britânicos da entidade mas, diante do maciço apoio dos tenistas, retrocedeu.

Para não ficar em segundo plano, a ITF marcou reunião para março de 1968 em Paris e aprovou um calendário experimental de 12 torneios. O primeiro deles, inaugurando a era profissional, aconteceu na grama de Bournemouth, em abril, e foi vencido por Ken Rosewall.

Como parecia inevitável segurar a mudança, a Federação Francesa se antecipou a Wimbledon e permitiu a inscrição inédita de profissionais para aquela edição de Roland Garros. Rosewall derrotou Rod Laver, enfim reautorizado a voltar aos Grand Slam, e embolsou o equivalente a US$ 3 mil. Somou seu segundo troféu no saibro de Paris, repetindo 1953. Richey foi obrigada a abrir mão de qualquer prêmio, pressionada pela USTA, que ainda não concordava com o profissionalismo.

O Brasil também na história
Esse Roland Garros de 1968 também se tornou marcante para o tênis brasileiro, com dois representantes nas quartas de final de simples: Maria Esther Bueno e Thomaz Koch.

Já com muitos problemas físicos, Estherzinha aproveitou pouco a Era Aberta. Era cabeça 8 e foi eliminada pela favorita Billie Jean King por duplo 6/4. King perdeu em seguida para Richey. Koch por sua vez foi barrado exatamente por Rosewall em quatro sets, parciais de 8/6, 6/2, 3/6 e 6/3.

Mais cinco brasileiros jogaram o primeiro Slam profissional da história. Edison Mandarino foi à terceira rodada, Fernando Gentil chegou na segunda e Carlos Lelé Fernandes caiu na estreia da chave masculina. Maria Cristina Dias e Suzana Peterson pararam na primeira rodada (Dias encarou Richey e ganhou dois games).

Em duplas, Maria Esther atuou ao lado da mesma Richey e chegou na semi, caindo diante das eventuais campeãs Fraçoise Durr/Ann Jones. A excepcional parceria entre Koch e Mandarino entrou de cabeça 7 e parou nas quartas para Rosewall e Fred Stolle.

unnamed