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Medvedev avança, mas dificuldade aumenta
Por José Nilton Dalcim
2 de junho de 2021 às 19:33

Apesar de perder o primeiro set para o mediano Tommy Paul, o russo Daniil Medvedev deve se animar com sua segunda vitória no saibro de Roland Garros. Afinal, teve de encarar a lentidão da rodada noturna, muito esforço para fazer a bola andar e ainda assim jogou de forma consistente os três sets seguintes.

Mas seus desafios no torneio ainda se mostram muito grandes. Na sexta-feira, reencontra o super-sacador Reilly Opelka, contra quem sempre teve dificuldades. Mesmo as duas vitórias foram em tiebreak de terceiro set e a derrota veio em casa, no ano passado. E não se enganem com a superfície, porque o norte-americano dobrou o saibrista Jaume Munar com 75% de pontos ganhos com o primeiro saque. No caminho do russo, também está Cristian Garin, ainda que o chileno tenha sofrido cinco sets para tirar Mackenzie McDonald, num sinal de que a quadra não está tão lenta assim.

Já o grego Stefanos Tsitsipas viveu pequenas oscilações na vitória de sets diretos sobre o espanhol Pedro Martinez e também terá pela frente um gigante dos saques, John Isner, a quem venceu três vezes seguidas na quadra dura, o que é um retrospecto bem positivo. No quadrante, está Pablo Carreño. Ele levou um susto com o tênis bem certinho do francês Enzo Couacaud antes de marcar virada exigente.

Quem se deu muito bem foi Alexander Zverev. Ganhou os dois tiebreaks contra o quali Roman Siufillin, que mostrou qualidades, e viu Roberto Bautista e Karen Khachanov darem adeus no seu setor. Encara um sempre perigoso Laslo Djere e vê Kei Nishikori, sobrevivente de 10 sets, favorito contra Henri Laaksonen, que tirou Bautista num festival de bolas forçadas (53 winners e 43 erros).

Outra considerável surpresa foi a queda de Pablo Andujar para Federico Delbonis. O espanhol chegou a ter 2 sets a 1, mas foi atropelado no final. O canhoto argentino é o próximo desafio de um Fabio Fognini em seu melhor momento da temporada. Quem passar, terá um membro da nova geração pela frente: Casper Ruud ou Alejandro Fokina.

Monteiro cai em dia americano
Não faltaram pernas nem espírito de luta para Thiago Monteiro. O número 1 nacional esteve sempre atrás do placar contra Steve Johnson e acabou eliminado após quase quatro horas. O equilíbrio foi absoluto e cada um perdeu ao menos um game de serviço em cada set.

Monteiro jogou mais afastado da linha para tentar entrar nos pontos de devolução e explorar o backhand do norte-americano, mas essa decisão o fez correr demais o tempo todo. Johnson trocou muito bem as direções, usando a conhecida proteção do lado esquerdo para bater com seu ótimo forehand. Thiago procurou o espaço aberto, ainda que nem sempre tenha conseguido a precisão desejada.

Atrás por 4/1 no terceiro set, Monteiro brigou muito e levou ao tiebreak, onde foi muito pouco eficiente. Quebrado logo de cara, viu Johnson abrir 3/1 no quarto set, quando então o cearense embalou outra notável reação e venceu cinco games seguidos. Seu azar foi desperdiçar o break-point logo na abertura do quinto set, o que poderia abalar Johnson. Os dois trocaram quebras no sexto e sétimo games e então Monteiro sacou mal e levou a quebra definitiva. Como não repetiu a terceira rodada de 2020, deve cair dois postos no ranking, mas mantém vaga em Wimbledon e esperança de chegar às Olimpíadas.

Johnson é portanto um dos quatro norte-americanos na terceira rodada. A ele, Isner e  Opelka, somou-se Marcos Giron, com uma atuação muito segura diante de Guido Pella. E ainda há Taylor Fritz em busca da vaga nesta quinta-feira.

Feminino: no braço
Com duas fortes candidatas fora do páreo já nesta segunda rodada, a parte inferior da chave viu as vitórias de tenistas que adoram a força bruta. Serena Williams, Aryna Sabalenka e Vika Azarenka fizeram a bola andar muito no saibro parisiense e prometem se embolar na luta por uma das vagas na semifinal.

Serena encontrou resistência na canhota romena Mihaela Buzarnescu antes de fazer um grande terceiro set. Enfrenta a também agressiva Danielle Collins e pode ter adiante Elena Rybakina ou Elena Vesnina. Não é uma caminhada ruim. As bielorrussas Sabalenka e Vika estão em rota de colisão caso superem Anastasia Pavlyuchenkova e Madison Keys na próxima rodada. Azarenka ainda não está totalmente à vontade na terra e Sabalenka por vezes parece ansiosa demais, a ponto de cometer 20 erros no primeiro set.

O outro quadrante só vê duas cabeças entre as oito classificadas, que poderão duelar entre si nas oitavas: a finalista de 2019 Marketa Vondrousova e a especialista espanhola Paula Badosa. Elas precisam precisam antes superar Polona Hercog e Ana Bogdan. Se uma delas sobreviver, será certamente a favorita contra um grupo que tem Daria Kasatkina, Sorana Cirstea, Tamara Zidansek e Katerina Siniakova. O destaque entre elas foi Kasatkina, que não tomou conhecimento da cabeça 10 Belinda Bencic.

Big 3 no feriado
Fato inédito para uma primeira semana de Grand Slam, todo o Big 3 estará em quadra nesta quinta-feira. Embora o jogo de Novak Djokovic esteja marcado para as 9h30 na Suzanne Lenglen, é bem possível que coincida com o de Roger Federer, que entra às 11h na Chatrier, porque existem uma partida feminina e outra masculina antes do sérvio. Rafa Nadal encara a lentidão da rodada noturna.
– Gasquet já venceu Nadal.. em 1999, como juvenil. Depois, amargou 16 frustrações. Nos sete duelos na terra, ganhou 2 sets, o último deles em 2005.
– Saibro é a praia de Cuevas, um dos jogadores mais espetaculares do circuito, mas que aos 35 anos desabou para o 92º posto do ranking. Maior vitória foi sobre Wawrinka em Monte Carlo de 2017.
– Roland Garros era o único Slam onde Federer e Cilic ainda não tinham se cruzado. Os dois já fizeram final em Wimbledon e Austrália e semi nos EUA, que marcou única vitória do croata em 10 tentativas.
– Sete italianos chegaram na segunda rodada, a maior quantidade desde 1955. O recorde em terceira fase em Slam é de Paris no ano passado: 5.
– Schwartzman tem um desafio, já que perdeu 4 de 5 duelos contra Bedene, quatro deles no saibro. Cecchinato tem 3-2 sobre De Minaur e atropelou na edição de 2020.
– Barty reconhece que a contusão no quadril preocupa e encara uma animada Linette, que jamais venceu uma top 10 mas deu sufoco em Halep em 2019
– Kenin, Svitolina e Swiatek enfrentam adversárias inéditas e só devem perder set se jogarem mal.
– Gauff e Wang repetem a final de Parma de cinco dias atrás onde a jovem americana venceu fácil a ex-12 do ranking.
– Duelo do dia envolve Stephens e Pliskova, em que americana lidera por 3-1 e 1-0 no saibro. Stephens fez final em 2018 e Pliskova, semi em 2017.
– Pavic e Mektic saíram da chave de duplas e ao que tudo indica foi por covid-19.

Em ritmo de treino
Por José Nilton Dalcim
1 de junho de 2021 às 18:59

Rafael Nadal suou um pouco mais que Novak Djokovic, porém os dois nomes mais cotados para o título de Roland Garros tiveram estreia quase protocolar nesta terça-feira. Daqui a dois dias, terão novamente amplo favoritismo diante de adversários também veteranos. Rafa reencontra um de seus maiores ‘fregueses’, Richard Gasquet, contra quem tem 16 a 0, enquanto Djoko faz duelo inédito contra o acrobático Pablo Cuevas.

O megacampeão fez dois sets muito tranquilos diante de Alexei Popyrin, que até conseguiu ser competitivo em trocas longas e abusou do saque, porém o espanhol falhou num game de serviço e por muito pouco não perdeu o terceiro set. Na verdade, Popyrin foi muito incompetente. No primeiro set-point, fez dupla falta. No outro, errou smash. A decisão acabou num tiebreak que ratificou então a enorme diferença entre os dois.

Num saibro lento da noite parisiense, Tennys Sandgren se esforçou ao máximo diante de condições que não combinam nada com seu jogo e Djokovic sempre achou as melhores soluções. O sérvio não perdeu serviços, mas precisou salvar seis break-points no segundo set em dois games distintos, ainda que já dominasse o placar naquela altura. O número 1 marcou 33 winners em 26 games e fez um primeiro set quase perfeito com meros 4 erros.

Enquanto isso, a nova geração tropeçou feio. Andrey Rublev ensaiou reação após perder os dois primeiros sets. No entanto, não conseguiu superar o tênis muito mais variado de Jan-Lennard Struff, que já havia lhe dado muita dor de cabeça em Roma dias atrás. Vice de Monte Carlo onde parou Nadal, o russo foi perdendo energia ao longo da temporada de saibro. No ano passado, foi quadrifinalista. Já Felix Aliassime não achou antídoto para as bolas retas do veteraníssimo Andreas Seppi, de 37 anos e hoje 98º do ranking. É bem verdade que o italiano tem histórico em Paris e chegou a ter 2 sets a 0 contra Djoko nas oitavas em 2012.

As boas notícias vieram com Diego Schwartzman e Gael Monfils. O argentino pegou o fraco Yen-Hsun Lu, fez seu papel e venceu com autoridade. O francês esteve a um ponto de ver Albert Ramos abrir 2 sets a 0, quando o espanhol jogou um slice no meio da rede. A partir daí foi engolido pela determinação de Monfils e sua ruidosa torcida. Favoritos na próxima rodada, Schwartzman pode cruzar com Aslan Karatsev na terceira fase e Monfils, com Sinner.

Mais problemas no feminino
Desta vez, nenhuma cabeça de chave caiu. Ao menos em quadra. Um dia depois de perder Naomi Osaka na confusa polêmica das entrevistas obrigatórias, Petra Kvitova anunciou ter sido vítima de um torção no pé quando. por ironia do destino, saia da coletiva de domingo, quando venceu duríssimo jogo de estreia. A canhota tcheca fez ressonância e constatou que não dava para continuar. Tanto Osaka como Kvitova estavam no lado inferior da chave.

E não foi só. Durante a exigente vitória no terceiro set diante da canhota Bernarda Pera, a campeã de 2019 Ashleigh Barty voltou a sentir lesão lombar e preocupa. Ela minimizou a contusão, porém sabe que terá de estar inteira diante de Magda Linette, vice de Estrasburgo no sábado.

A rodada teve ainda uma atuação sofrível de Elina Svitolina, boa recuperação de Karolina Pliskova depois do vexame em Roma e Coco Gauff de intensos altos e baixos. Muito legal rever Carla Suárez em quadra, recuperada do câncer linfático. Jogou bem, teve 6/3 e 5/4 com saque para vencer Sloane Stephens. Levou a virada e ganhou um abraço apertado da adversária.

Começa a segunda rodada
A parte inferior das chaves de simples abre nesta quarta-feira a segunda rodada de Roland Garros, mas poucos jogos me empolgam.
– Tsitsipas pode ter a tarefa mais dura, já que Pedro Martinez é especialista e surpreendeu Korda, ainda que seja 103º com meras 14 vitórias de ATP na carreira.
– Medvedev encara Paul, campeão juvenil do torneio em 2015 e que vem de maratona de cinco sets. Colocaram na tal rodada noturna, onde tudo é bem mais lento, o que não agrada o russo.
– Zverev reencontra Safiullin, um adversário dos tempos de juvenil. O russo progrediu pouco e hoje é 182º.
– Bautista é super favorito contra Laaksonen e Carreño, frente Couacaud.
– Jogos interessantes envolverão Khachanov e Nishikori – japonês acabou de fazer 3-2 no histórico com virada em Madri – e de Fognini frente Fucsovics, em que italiano tem 2-1 mas nunca se cruzaram no saibro.
– Sabalenka tenta ir à 3ª rodada de Paris pela primeira vez contra Sasnovich.
– Serena pega segunda romena em sequência. Buzarnescu já fez oitavas em Paris há três anos.
– Bencic e Kasatkina fazem tira-teima já que empatam por 2-2. Azarenka pega a campeã juvenil de 2018, Clara Tauson.
– Monteiro faz último jogo da quadra 12 e deve entrar por volta de 12h. Faz duelo inédito contra Steve Johnson, que basicamente só bate slice de backhand. Será preciso paciência e ficar esperto para rápida transição à rede e volear as bolas mais lentas.

Lógica restabelecida
Por José Nilton Dalcim
16 de maio de 2021 às 22:13

Um internauta me perguntou lá depois de Monte Carlo se o favoritismo de Rafael Nadal para Roland Garros estaria abalado pelo mau desempenho. E eu disse que, ainda que o espanhol não se saísse bem nas semanas seguintes, bastaria um título em Roma contra Novak Djokovic para recolocar ordem na casa. Rafa nem foi tão mal assim, já que ganhou logo depois Barcelona, mas o quadro pintado foi fielmente reproduzido neste domingo. E a lógica fica restabelecida.

Com evolução gradual a cada jogo em Roma, Nadal chegará a Paris como o grande candidato ao título, ameaçado acima de todos por Djokovic. Bem atrás, Dominic Thiem ainda me parece o homem mais perigoso para os dois e o nome a ser evitado no sorteio da chave. A única mudança, a meu ver, está no fato de que Stefanos Tsitsipas e Alexander Zverev pintam como adversários de respeito, tanto pelo potencial de jogo como pela experiência que somam no circuito. Diria até que Tsitsipas provou que pode incomodar tanto no aspecto físico como técnico, depois de ficar tão perto de derrotar o Big 2 nas últimas semanas em partidas longas e emocionalmente exigentes.

Como bem disse hoje na entrevista oficial, Rafa recuperou o aspecto mais importante do seu jogo, o forehand agressivo, e isso está diretamente relacionado com sua confiança. Ele não falou, mas deveria também ter ressaltado que o saque progrediu muito na final diante de Djokovic, o tirou do aperto em algumas oportunidades e não ofereceu tantas brechas à poderosa devolução sérvia como se temia. As duplas faltas sumiram – curiosamente, afetaram mais Nole – e ele se deu ao luxo de trazer pequeno elemento de surpresa ao forçar o serviço no backhand adversário.

O jogo teve todos os ingredientes, com muito empenho físico e variações inteligentes. Claro que Nadal ficou mais na defensiva, mas procurou não recuar tanto nas trocas de bola. Djokovic tentou permanecer sempre perto da linha e abusar do backhand angulado. O vento atrapalhou um pouco a iniciativa dos dois, tanto na hora do saque como no risco de se buscar as linhas. E as oportunidades se dividiram, embora no começo do terceiro set eu tenha ficado com a impressão que o sérvio estava mais perto da vitória. Talvez fosse mesmo, porém um forehand frouxo no meio da rede lhe tirou a chance de quebra no quinto game. Castigo pior, sacou contra o vento e foi quebrado de zero, com o forehand de Nadal abrindo buracos. O espanhol se agigantou, aguentou firme e fechou a partida, sabendo que não poderia vacilar um segundo sequer. Grande espetáculo.

Djokovic perdeu pela quinta vez seguida no saibro para Rafa e levará o jejum de cinco anos para Roland Garros. Mas não há qualquer motivo para pessimismo. Fez três jogos de excelente nível técnico no fim de semana, garantiu que não estava cansado da maratona do sábado e que  “jogaria mais algumas horas” se fosse possível. E deu um recado sonoro para Nadal e aos outros pretendentes ao trono: “Encontrei meu jogo no saibro”. Já estou ansioso por Paris.

Swiatek sem adversária
A final feminina foi decepcionante em termos de competitividade, já que Karolina Pliskova não jogou nada. No entanto, não tirou o brilho do tênis agressivo da polonesa Iga Swiatek. Como essa menina de 19 anos mistura bem os efeitos. Joga com topspin pesado, troca muito bem as direções e sempre tenta tomar conta dos pontos. Foi assim que assombrou o circuito com o título de Roland Garros sete meses atrás.

‘Bicicleta’ é coisa rara numa final feminina, ainda mais quando a humilhada é uma ex-número 1 do mundo em sua terceira final de Roma. Foi obviamente um dia atípico de Pliskova, que tomou atitude muito decente e prestou os elogios merecidos à campeã. Segundo a WTA, desde 2000 o duplo 6/0 só aconteceu quatro vezes em nível WTA e, em eventos de primeira grandeza do calendário, foi o mais recente desde a surra de Steffi Graf em Natasha Zvereva em Roland Garros de 1988.