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‘O segundo melhor’ desafia Djokovic
Por José Nilton Dalcim
5 de outubro de 2020 às 19:35

Pablo Carreño garantiu logo de cara: só Rafael Nadal joga melhor que ele nas novas condições de Roland Garros. Então ele terá uma oportunidade de ouro para comprovar isso dentro de 48 horas, quando reencontrará Novak Djokovic, o segundo maior postulante ao título.

O duelo também nos remete obrigatoriamente ao US Open de um mês atrás, onde duas coisas inesperadas aconteceram: Carreño iria sacar para vencer o primeiro set quando Djokovic foi desclassificado ao atingir uma juíza de linha com uma bola inapropriadamente arremessada ao fundo de quadra.

Claro que “sacar para ganhar o primeiro set” é pouca coisa numa melhor de cinco sets e quando se têm dois jogadores de currículos tão distintos. Mas não deixa de ser relevante que o espanhol dominava o sérvio num piso que tem sido o autêntico domínio do número 1.

Nos jogos desta segunda-feira, Nole encarou seu primeiro real teste e experimentou um pouco de tudo, incluindo alguns games tensos e serviço quebrado. Optou por um jogo morno no primeiro set, sem forçar as trocas, e encheu o pesado adversário de curtinhas. Até mesmo Djokovic reconheceu depois que exagerou na dose e talvez por isso seja mais econômico na próxima rodada. Khachanov, diga-se, não jogou mal e até me surpreendeu com sua capacidade defensiva.

O espanhol por sua vez fez um pouco de tudo diante da surpresa Daniel Altmaier, que teve o segundo set na mão e portanto a oportunidade de dar outro panorama à partida. Faltou aquele sangue frio e aí perdeu nove games consecutivos. Se Nole treinou drop shots, Carreño se exercitou na rede, com 38 subidas e 26 pontos. Será o padrão para quarta-feira?

Olha aí a nova geração
Outra boa notícia para este Roland Garros que anda pecando pela falta de emoções é o duelo de nova geração entre Stefanos Tsitsipas e Andrey Rublev, que repetem a recente final de Hamburgo, vencida pela russo. Ele também lidera por 3 a 2 no geral e eu o acho mais jogador no saibro do que o grego.

Rublev fez o grande jogo do dia contra Marton Fucsovics, repleto de alternâncias táticas e reviravoltas. O húngaro teve incríveis chances o tempo todo. Ganhou o primeiro set, liderou o segundo – quando sacou para 2 a 0 – e também o terceiro, e por fim teve três set-points para levar ao quinto.

Tsitsipas não foi mal, mas o duelo contra Grigor Dimitrov teve intensos altos e baixos. O búlgaro totalizou 53 erros em três sets, desperdiçou um tiebreak do segundo set com o saque na mão e sempre me parece carecer de postura ofensiva. Ganhou aquele que foi mais atrevido.

Kvitova e Kenin perto do duelo
Ainda sem perder set na campanha, Petra Kvitova não escondeu a emoção ao atingir as quartas de Roland Garros. Foi sempre superior à chinesa Shaui Zheng, sem jamais abrir mão de seu estilo – tomou a iniciativa, fez 23 winners e 29 erros -, algo louvável num piso sabidamente lento.

Agora, enfrenta a ‘trintona’ Laura Siegemund, 66ª do ranking, que nunca foi tão longe num Slam. A alemã gosta do saibro e tem no currículo um notável título em Stuttgart, há três anos, quando fez filinha de top 10, superando Kuznetsova, Pliskova e Halep.

Por fim, Sofia Kenin levou um susto mas calou a pequena torcida francesa, ao virar com sobras em cima de Fiona Ferro. Fato curioso, os técnicos das meninas assistiram à partida lado a lado em animado bate papo. A campeã do Australian Open aguarda Ons Jabeur ou Danielle Collins, que tiveram jogo adiado pela chuva.

500 vezes Soares
Dupla alegria para o mineiro Bruno Soares: ao atingir a vitória de número 500 na especialidade, ele avançou para sua terceira semifinal de Roland Garros, cada uma delas com um parceiro diferente. Desta vez, está com o canhoto Mate Pavic.

Se superarem os perigosíssimos colombianos Juan Sebastian Cabal e Robert Farah, o brasileiro se candidatará a um terceiro diferente troféu de Slam, já que tem conquistas na Austrália e nos EUA. Só Maria Esther Bueno tem um cardápio tão vasto , em simples ou em duplas.

Além de Bruno, o ex-parceiro Marcelo Melo também já atingiu tal expressiva marca de vitórias em torneios de primeira linha. ‘Girafa’ está um pouco à frente, com 532.

A moleza vai acabar
Por José Nilton Dalcim
3 de outubro de 2020 às 19:27

Novak Djokovic perdeu apenas 15 games em três jogos, com direito já a dois ‘pneus’, e com essa facilidade toda chegou neste sábado à 11ª participação consecutiva nas oitavas de final de Roland Garros. Mas a moleza deve acabar. Ainda que seja o favorito natural, na segunda-feira terá pela frente Karen Khachanov, o 16º do ranking que já o derrotou com seu estilo mão de pedra.

O saibro de Paris tem propiciado a Khachanov suas campanhas mais expressivas em Grand Slam. Nunca deixou de estar na quarta rodada em quatro participações e no ano passado fez quartas. Não recua da ideia de sempre forçar o jogo. Diante de Cristian Garin, foram 34 winners e 51 erros, números ainda inferiores à rodada anterior frente a Jiri Vesely, em que fez 65 bolas vencedoras e 42 falhas.

E querem saber? Se sonha barrar o número 1, o caminho é esse mesmo. Claro que não pode dar tanto ponto de graça a um adversário mais consistente e no auge de sua confiança, porém terá de correr riscos, evitar os grandes ralis e tomar cuidado com os ângulos porque joga muito perto da linha e não tem toda essa mobilidade lateral.


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New job, @djokernole? 😂🧹 #RolandGarros #djokovic #tennis #grandslam #Paris #funny

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É bem provável que Djoko tenha outro adversário gabaritado nas quartas, caso Pablo Carreño consiga acabar com o sonho dourado do quali alemão Daniel Altmaier, que não perdeu set na semana nem mesmo diante do top 10 Matteo Berrettini. No duelo entre espanhóis que gostam bem mais da quadra dura, Carreño superou Roberto Bautista. E todo mundo deve se lembrar que Carreño iria sacar para o primeiro set no US Open quando houve o lance infeliz de Djokovic.

Segundo conta o site da ATP, Altmaier há um ano nem sabia se iria prosseguir na carreira, sofrendo de problemas crônicos no abdome e lesão no ombro. Dono de backhand de uma mão, foi para os challengers assim que a pandemia permitiu e já soma seis vitórias em Roland Garros, perdendo um único set na fase classificatória. O alemão despontou em 2017, ao chegar em quartas de ATP ainda aos 18, mas a temporada seguinte foi limitada pelos problemas físicos.

Outros dois jogos bem interessantes acontecerão no outro quadrante. Mais dois backhands simples se cruzam com Stefanos Tsitsipas e Grigor Dimitrov, dois que não completaram seus jogos deste sábado por desistência dos adversários. Um duelo de tops 20 que nunca aconteceu e isso reforça a imprevisibilidade. Já Andrey Rublev me parece favorito diante de Marton Fucsovics, ainda que o húngaro tenha vencido os dois confrontos no saibro que já fizeram, porém isso antes de 2018.

Fucsovics colocou fim à campanha de Thiago Monteiro, num jogo que teve um primeiro set muito nervoso e também decisivo. Mesmo tendo quebrado o húngaro por duas vezes seguidas no começo do jogo, o brasileiro também não sustentou seu próprio saque, que vinha tão bem nas partidas anteriores.

No fundo, ele não achou respostas adequadas às variações mais frequentes de Fucsovics, que usou até slice de forehand. Também fez boas transições à rede e dominou os dois sets seguintes com maior autoridade. Monteiro deu mais um passo à frente na sua boa temporada e tentará o último suspiro sobre o saibro europeu no ATP italiano da Sardenha no outro fim de semana.

Uma nova finalista em Roland Garros
A queda das campeãs de 2016 e 2017 neste sábado garante uma finalista inédita na parte inferior da chave feminina de Roland Garros. As únicas entre as oito principais cabeças sobreviventes são Sofia Kenin e Petra Kvitova. Mas as ‘zebras’ andam soltas e melhor não apostar.

Talvez inspirada no namorado Stan Wawrinka, a espanhola Garbiñe Muguruza fez um grande esforço para ser eliminada, e conseguiu o objetivo. Depois de perder o primeiro set para Danielle Collins, vinha com amplo domínio até 4/2 e break-point no terceiro set, sempre agressiva. Aí passou a cometer erros inacreditáveis, perdeu a confiança num passe de mágica e não ganhou mais game.

Collins, que é treinada por Nicolás Almagro e tenta reencontrar aquele tênis que a levou à semi da Austrália no ano passado, enfrenta a tunisiana Ons Jabeur. que tirou Aryna Sabalenka em jogo cheio de alternâncias. Quem passar enfrentará Kenin ou a local Fiona Ferro, que tem predicados. Kenin repete as oitavas do ano passado e Ferro, 49ª do mundo, só tinha uma vitória nas cinco presenças anteriores em Roland Garros.

Kvitova por sua vez conseguiu uma virada espetacular diante da juvenil Leylah Fernandez, que teve 5/1 e set-point. Sem abrir mão da bola forçada, a tcheca reagiu e venceu nove games seguidos. Vem agora o jogo defensivo da chinesa Shuai Zhang e, se passar, terá uma novidade pela frente: a espanhola Paula Badosa ou a alemã Laura Siegemund, que tiveram vitórias sobre favoritas. Badosa apostou na regularidade, fez 10 erros e viu Jelena Ostapenko falhar 43 vezes. Já Siegemund tem 32 anos e chega à maior campanha em Slam depois de virar em cima da croata Petra Martic.

E mais
– O garoto Hugo Gaston tenta se tornar o tenista de mais baixo ranking a cbegar nas quartas de Roland Garros. Mas o 239º colocado terá diante de si Dominic Thiem. que tenta a quinta presença seguida nas quartas.
– Façanha semelhante aguarda Sebastian Korda, 213º colocado, que não esconde ser fã do seu adversário, Rafa Nadal. O último norte-americano nas oitavas de Paris foi Agassi, em 2003.
– A tarefa também é dura para os italianos Jannik Sinner e Lorenzo Sonego. O primeiro enfrenta Alexander Zverev, o outro cruzará Diego Schwartzman, ambos duelos inéditos.
– Gaston, Korda, Sinner e Altman jogam seu primeiro Roland Garros, igualando 1994, última vez que quatro debutantes foram tão longe no torneio. O último a fazer quartas foi Nadal, em 2005.
– Nadal aliás joga sua 98ª partida em Roland Garros (96-2) e busca a 996ª vitória da carreira, das quais 441 foram no saibro e 278 em Grand Slam.
– Simona Halep é favorita para repetir vitória sobre Iga Switek do ano passado, mas Elina Svitolina perdeu três dos quatro duelos diante de Caroline Garcia. Vem muita tensão por aí. Jogos acontecem protegidos pelo teto retrátil.
– Bruno Soares e Luísa Stefani voltam à quadra para buscar quartas de final nas chaves de duplas.

Nadal lidera segunda-feira mágica no AO
Por José Nilton Dalcim
25 de janeiro de 2020 às 12:40

O primeiro Grand Slam do ano ainda está em sua quarta rodada, mas promete uma segunda-feira de exuberante qualidade na chave masculina. Para começo de conversa, confirma-se o choque direto entre Rafael Nadal e Nick Kyrgios e só isso já valeria qualquer ingresso.

O espanhol fez sua melhor partida da semana e talvez de todo o começo de temporada. Como conhece de cor  e salteado o jogo de Pablo Carreño, parceiro de Copa Davis e ATP Cup, impôs seus golpes desde o começo, sem aquela incômoda passividade dos jogos anteriores. Destaque para a força e a precisão de suas paralelas de forehand e excepcional deslocamento para contragolpes, o que deixa claro que ele avançou na confiança e não tem qualquer problema físico. Uma vitória categórica na segunda-feira valerá ouro.

O reecontro com Kyrgios atende à expectativa de todos. Haverá pressão dos dois lados. Rafa terá torcida menor, encara um atacante por excelência e um desafeto costumeiro. Kyrgios carrega o sonho australiano, mudará enfim para a Rod Laver onde evita jogar, tem um tremendo desgaste para se recuperar em 48 horas e encontrará um adversário que o venceu em 4 de 7 duelos.

Nick fez uma batalha física e mental espetacular diante do russo Karen Khachanov, que surpreendeu pela resistência nesses dois aspectos vindo de dois jogos duríssimos. O australiano assombrou por segurar tão bem a cabeça diante de sucessivas frustrações: teve 4/2 no terceiro set para uma vitória fácil, depois match-points nos dois tiebreaks seguintes e abriu 3-0 no supertiebreak. O tempo todo Khachanov foi um gigante.

Os dois dividiram jogadas notáveis e empenho absoluto ao longo da série decisiva sem qualquer break-point até que o russo conseguiu a quebra e teve dois serviços com 8-7, repetindo a história de Federer-Millman da noite anterior. Sempre imprevisível e extremamente habilidoso, o australiano arrancou duas paralelas de backhand de cair o queixo e finalizou o jogo mais longo de sua carreira: 4h26, quase 400 pontos e em que marcou 97 winners!

A segunda-feira no entanto terá muito mais: Daniill Medvedev e Stan Wawrinka prometem um jogo de força bruta, seja no saque ou nas trocas de fundo. O russo tem pequena vantagem no histórico – ganhou os dois confrontos, ambos em Slam e em quatro sets – e vive um momento melhor. Ambos tiveram pouco trabalho neste sábado, já que o australiano Alex Popyrin se arrastou em quadra e John Isner abandonou ainda no segundo set com problema no pé esquerdo. É um jogo em que pode acontecer qualquer coisa.

Dá para esperar lances lindos e malabarismos no reencontro entre Dominic Thiem e Gael Monfils, um duelo de histórico curioso: o austríaco tem 5 a 0 nos jogos efetivamente feitos, sendo dois no piso duro, mas houve três w.o. e em apenas um o francês levou a melhor. Considero Thiem muito favorito. Enfim jogou um tênis de primeira grandeza em Melbourne diante do garoto Taylor Fritz, ainda que tenha perdido um tiebreak, enquanto Monfils passou por Ernests Gulbis num monótono duelo de fundo de quadra e mínimas variações.

E a rodada ainda terá a NextGen com Alexander Zverev e Andrey Rublev. O alemão , acreditem, ainda não perdeu set no torneio e está invicto diante do russo, com três vitórias de 2 a 0. Rublev no entanto está a mil: não perde há 15 partidas – sendo 11 na temporada, com dois títulos. Mostrou muita frieza para virar o jogo contra David Goffin, vencendo os dois tiebreaks. Tanto Sascha como Rublev já fizeram quartas de Slam, mas é a primeira vez que vão à quarta rodada no Australian Open. Se eu tivesse de apostar, iria de Rublev mas seria muito bom um resultado de peso para reanimar Zverev.

Cabeças continuam a cair no feminino
E o torneio feminino desandou de vez. E isso não é má notícia. O complemento da terceira rodada viu mais três cabeças importantes se despedirem cedo: Karolina Pliskova, Elina Svitolina e Belinda Bencic, mas nem por isso perdeu qualidade, já que Simona Halep, Garbine Muguruza e Kiki Bertens mostraram um tênis muito competitivo. E ainda há outra garota nas oitavas, a polonesa Iga Swiatek.

Halep teve pequenos altos e baixos no segundo set, mas gostei de sua maior variação de bolas. Encara Elise Mertens, contra quem tem 2-1 nos duelos, e pegaria então Swiatek ou Anett Kontaveit nas quartas. A estoniana atropelou Bencic em 49 minutos com o dobro de pontos e só um game perdido.

Anastasia Pavlyuchenkova fez um jogo feio contra Pliskova e espera-se duelo de fundo contra Angelique Kerber, que viveu dia irregular. Bem mais promissor é Bertens e Muguruza, duas tenistas que gostam de bater na bola. A espanhola chegou a Melbourne cheia de dúvidas e pode voltar às quartas do AO depois de três anos. Apesar da ascensão em 2019, Bertens não passou da 3ª rodada nos cinco últimos Slam.

Stefani mira o top 50
Destaque também para a segunda vitória de Luisa Stefani na chave de duplas, ao lado da norte-americana, o que coloca a paulista de 22 anos muito perto do top 50 da especialidade.

A última vez que uma brasileira chegou nas quartas de um Slam em duplas foi com o dueto Patrícia Medrado-Cláudia Monteiro, em Wimbledon de 1982. A mesma Monteiro foi vice de mistas em Roland Garros desse mesmo ano, ao lado de Cássio Motta.

Mas não vai ser fácil, já que as adversárias de Stefani deste domingo serão Gabriela Dabrowski e Jelena Ostepenko, cabeças 6.

Tristeza inexplicável
A nota lamentável do sábado veio com a divulgação pela Federação Internacional do banimento definitivo de João ‘Feijão’ Souza do tênis profissional, considerado culpado de diversas infrações no arranjo de jogos tanto em nível challenger como future. Para agravar a situação, a ITF teria detectado nas suas investigações, que vêm desde abril do ano passado, que Feijão destruiu provas – não teria entregue o celular para averiguação – e incitou outros tenistas a fraudar placares, resultando também em pesada multa de US$ 200 mil.

Acompanhei toda a carreira de Feijão, desde juvenil, e ele se destacou pelo espírito de luta, jogos longos e muita entrega. Marcou o recorde de um jogo de Davis e por isso fica ainda mais maluco entender como alguém que se mata 7 horas para tentar vencer uma partida que não vale um centavo possa ter depois se envolvido com a máfia das apostas.

Vale lembrar que há poucos meses Gabriel Mattos também foi banido do esporte por motivos semelhantes. E, dizem por aí, há mais 10 brasileiros sendo investigados pela ITF.