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Renovado, Brasil cai mas empolga na Davis
Por José Nilton Dalcim
7 de março de 2020 às 11:06

Derrotas nunca são bom resultado, porém o time brasileiro que se aventurou a cruzar o Pacífico pela segunda vez em 60 dias cumpriu seu dever com louvor e, de forma um tanto inesperada, chegou a ter real chance de derrotar o time B da Austrália.

Antes que alguém relativize isso, frise-se que esse grupo ‘reserva’ ainda tinha seus dois jogadores de simples com ranking bem mais alto que os de Thiago Monteiro e Thiago Wild, sem falar na óbvia adaptação muito superior ao piso sintético coberto escolhido e à torcida a seu lado.

Caso WIld tivesse surpreendido o 43º do mundo na sexta-feira – e ficou bem perto disso, numa atuação espetacular, quando chegou a sacar para a vitória no segundo set -, e o resultado poderia ter sido totalmente diferente. É louvável tanto a disposição física como a postura tática de Wild.

Vindo do saibro de Santiago, onde fora campeão no domingo, ele teve apenas três dias para se adaptar ao penoso fuso horário e à superfície e bolas distintas. Certamente, ele e o capitão Jaime Oncins planejaram um jogo de risco diante de Millman, um adversário de enorme experiência no circuito mas pouco rodado na Davis, e o paranaense cumpriu à risca, jogando dentro da quadra o tempo todo. Comandou os pontos, fez devoluções incríveis, encurralou o australiano com o forehand tão afiado e só falhou mesmo na hora de fechar a partida. Depois obviamente as pernas e a cabeça cansaram e Millman, que é um paredão, se safou.

Monteiro fez um jogo de altos e baixos na sexta-feira, chegou a reagir bem no segundo set mas parou em Jordan Thompson, 63º do mundo e portanto 19 postos à frente do cearense. No sábado, Monteiro também encarou de frente Millman e caiu em três tiebreaks, num jogo disputadíssimo de 3h08, em que se mostrou novamente bem mais à vontade na quadra sintética, como fizera em Auckland e no Australian Open.

Faltou talvez um pouquinho mais de agressividade no segundo set e ainda mais no tiebreak, onde poderia jogar com a grande pressão que estava em cima de Millman. Não vamos esquecer que, em Melbourne, o australiano levou Roger Federer ao quinto set, o mesmo suíço a quem derrotou no US Open de 2018. Ou seja, está longe de ser um adversário qualquer no piso duro.

Por fim, magnífica atuação da dupla feita entre o experiente Marcelo Demoliner e o estreante Felipe Meligeni, que nos deu o único ponto em Adelaide. Quase três horas de intensas emoções e um tênis muito versátil das duas parcerias, que se revezaram nas chances. Vale ressaltar os 17 breaks-points que os brasileiros construíram na partida – não existe na Davis o ‘ponto decisivo’ -, dos quais aproveitaram quatro.

Enquanto Demo foi magnífico no trabalho de rede, com movimentação que várias vezes surpreendeu os australianos, Felipe mostrou personalidade com ótimos golpes da base, lobs inteligentes e frieza na hora de sacar para fechar o jogo. As últimas semanas foram de experiências gigantes e positivas para o sobrinho de Fernando Meligeni, que não duvido amadureceu muito nesse curtíssimo espaço de tempo e pode usar isso agora quando voltará aos challengers.

E como fica o Brasil agora na Davis? Teremos de esperar o sorteio da semana que vem para saber quem enfrentaremos em setembro, entre os 12 países que estão disputando o Zonal 1, tais como Ucrânia, Suíça, África do Sul, Noruega, Portugal e Romênia. O sistema é o mesmo deste fim de semana, ou seja, alternância de sedes e cinco jogos em melhor de três sets e apenas dois dias. Se a sorte ajudar, a vitória recolocará o time de Oncins – renovado e mais experiente – no quali mundial de fevereiro de 2021.

Federer escapa do dia das bruxas
Por José Nilton Dalcim
24 de janeiro de 2020 às 14:13

Que sexta-feira em Melbourne. Caiu a detentora do título, perdeu a megacampeã, despediu-se a vencedora de 2018, dois top 10 eliminados e por muito pouco Roger Federer não se incluiu no dia das bruxas que assolou o Australian Open. Viu o incansável John Millman com dois saques para liquidar o jogo e conseguiu ganhar seis pontos consecutivos no supertiebreak que agora define os quintos sets do torneio. Quanta emoção em 13 horas de tênis.

Federer começou mexendo mal as pernas, reagiu tarde e ainda falhou com o saque. Diminuiu a pressa em ir à rede – sabia que era bom negócio ficar atrás trocando bolas contra o paredão adversário – e, apesar de uma média perigosa de erros não forçados, chegou a fazer 2 sets a 1. Como já havia provado dois anos atrás no US Open, Millman é um tremendo competidor. Jamais se desesperou, manteve-se fidelíssimo à tática das trocas de bola sem riscos maiores na mudança  de direção, deixando a missão de atacar para o suíço.

Controlando a duras penas a contabilidade – terminou com 62 winners mas 82 erros -, o hexacampeão se viu contra a parede ao longo de todo o quinto set. Perdeu o saque no terceiro game, reagiu com ótimas devoluções e se safou de 15-40 no 3/3. Só então virou a situação e passou a pressionar novamente o australiano, que mostrou cabeça fria e confiança notáveis, mesmo quando viu Federer a dois pontos da vitória antes do supertiebreak.

Aí veio um capítulo especial nessa batalha de 4h03. Millman foi impecável até chegar a 8-4, achando as passadas corretas nas tentativas um tanto afoitas de o suíço chegar à rede. Com o saque para repetir a surpresa de Flushing Meadows, veio então a falha quase impensável: esqueceu do plano A e tentou seguidamente trocar o forehand para a paralela. Errou por centímetros e permitiu que Federer atingisse sua 100ª vitória no Australian Open e a 18ª presença nas oitavas.

Coisas essenciais a se refletir: as condições lentas são um martírio quando Federer encara tenistas de grande capacidade defensiva, e Millman fez uma belíssima exibição no geral. E é preciso dar nota 10 ao empenho desse garoto de 38 anos e meio. Que ao final das contas não precisa provar mais nada a ninguém. Seu adversário de domingo é também muito perigoso, porque Marton Fucsovics tem mostrado uma admirável capacidade de acertar a linha com golpes poderosos.

Djokovic fulminante, Stef fora
Sem perder um único ponto com o primeiro serviço nos dois primeiros sets – melhor ainda, só cedeu um também com o segundo saque -, o atual campeão Novak Djokovic não quis saber de desgaste desnecessário e atropelou outra vez o canhoto Yoshihito Nishioka. Uma atuação exuberante.

Encara agora outro jogador de base, Diego Schwartzman, mas que costumeiramente lhe dá trabalho. Apesar de ter vencido todos os três duelos, os dois feitos sobre o saibro viram o baixinho argentino arrancar sets e suor. El Peque fez uma exibição muito firme diante de Dusan Lajovic.

Se mantiver o favoritismo, Nole terá um adversário um tanto inesperado nas quartas: Milos Raonic ou Marin Cilic, que causaram surpresa. O canadense andava mal das pernas (e das costas) e de repente dominou Stefanos Tsitsipas até mesmo em trocas da base. Incrível. Já o croata tirou Roberto Bautista em cinco sets, num jogo em que voltou a sacar muito bem – 77% de pontos com o primeiro serviço, 24 aces e 8 de 10 breaks evitados.

Possíveis adversários de Federer nas quartas, Fabio Fognini e Tennys Sandgren passaram em sets diretos por Guido Pella e Sam Querrey. O italiano se recuperou fisicamente muito bem do esforço das duas primeiras rodadas e Sandgren salvou um festival de break-points num segundo set que acabou sendo crucial. Esperava mais do Querrey.

Caem três campeãs
A tenacidade de Qiang Wang, a volta por cima de Coco Gauff e o adeus de Caroline Wozniacki causaram alvoroço na rodada feminina. A chinesa teve muito de Millman na vitória sobre Serena Williams, e poderia ter liquidado o jogo ainda em dois sets tal sua superioridade no controle da bola diante da pressa e certo desespero de Serena, o que não é nada incomum quando ela encara grandes batalhadoras do fundo.

A juvenil Gauff fez um primeiro set notável em cima de Naomi Osaka, deixando para trás a trágica atuação do recente US Open. Além de golpes, sobra personalidade a Cori, que desta vez soube ser agressiva numa medida mais controlada.

Entre tantas emoções da sexta-feira, a despedida de Wozniacki deve ter deixado muita gente com nó na garganta. Ainda que não tinha sido uma tenista de excepcionais recursos técnicos ou de um tênis extremamente vistoso, Carol sempre foi uma das mais queridas do circuito e cansou de demonstrar excepcional qualidade competitiva e visão tática de encher os olhos.

Faltou pouco para esticar mais uma rodada, porém é preciso elogiar a atuação da tunisiana Ons Jabeur, uma das raras mulheres do circuito que exploram os ângulos mais abertos da quadra. Emocionada, Wozniacki foi erguida pelo pai, recebeu o carinho do marido e prometeu não se afastar das quadras. Ótimo, porque ela tem muito a ensinar.

Com as quedas de Serena e Osaka, teremos certamente uma semifinalista inédita nesse lado superior da chave. A de maior currículo é Wang, quartas do recente US Open. Depois vem Gauff, oitavas de Wimbledon.

Por fim, depois da estreia vacilante, Ashleigh Barty está se soltando e fez uma exibição bem melhor nesta terceira rodada, embora ainda possa brilhar mais. Alison Riske merece atenção na quadra dura, porém parece inevitável o reencontro de Barty com Petra Kvitova, que está jogando muito bem e é favorita contra Maria Sakkari. No ano passado, Barty ganhou 3 dos 5 duelos diante de Kvitova, todos no sintético e um nas quartas da Austrália.

Façanhas e recordes
Djokovic é o segundo homem na história a somar 50 presenças nas oitavas de um Slam, número ainda mais impressionante quando se vê que este é seu 60º torneio. Na Austrália, são 14, marca que Nadal pode repetir neste sábado. Federer lidera agora com 18.

Só boas notícias para Djokovic
Por José Nilton Dalcim
6 de setembro de 2018 às 01:27

Novak Djokovic confirmou seu amplo favoritismo para atingir outras marcas expressivas na sua carreira, a 11º presença nas semifinais do US Open – só perde para as 14 de Jimmy Connors – e a 33ª de um Grand Slam, a segunda maior de toda a história atrás das 43 de Roger Federer. Mas se o placar sobre a ‘zebra’ John Millman mostra 3 a 0, a dificuldade foi suportar a umidade de 79% que outra vez exauriu sua energia a um grau bem perigoso.

Há no entanto duas grandes notícias para Djokovic. A primeira é que a temperatura enfim vai despencar em Nova York, com previsão de 18 graus na noite de sexta-feira e de no máximo 20 na tarde de domingo, quando poderá estar em quadra em busca do tri. A outra é que seu próximo adversário, Kei Nishikori, amarga 13 derrotas consecutivas desde que o surpreendeu na mesma semi de US Open de quatro anos atrás.

A cena alarmante de um Djokovic capengando em quadra se repetiu na Arthur Ashe e o australiano se aproveitava disso para alongar pontos e mostrar um vigor notável, correndo atrás de deixadas e lobs. Um providencial parada após o quarto game do segundo set, solicitada por Millman que queria trocar a roupa encharcada, permitiu que o sérvio se acalmasse e fizesse a hidratação mais ampla. Daí em diante, renovado, ele voltou ao domínio dos pontos lá do primeiro set.

Sem limitações físicas, Djokovic é amplo favorito diante de Nishikori na sexta à noite. O japonês é claro tem muito mais tênis e experiência que qualquer de seus outros adversários deste US Open, mas sofre do problema de jogar num estilo bem parecido ao do sérvio com menor potência. Mas observem que sua caminhada até aqui se fez com uma postura bem mais ofensiva do que o normal. A média de winners de Nishikori é superior a 32 por partida, com recorde de 49 diante de Diego Schwartzman.

Contra Marin Cilic nesta quarta-feira, foram ‘só’ 29 em cinco sets, mas Nishikori soube dosar muito mais a pancadaria de fundo de quadra, que induziu o croata a 70 erros não forçados. E olha que Cilic chegou a ter um set e 4/2 à frente até que o adversário ajustou sua posição de devolução e passou a entrar mais nos pontos. Esse ataque a partir da devolução é um expediente a ser utilizado também diante de Djokovic. Destaque-se que Nishikori é o profissional com maior aproveitamento em set decisivos, ou seja, terceiro ou quinto sets (121-39, ou seja 76% de eficiência).

Semi quase americana
Se os homens estão vivendo maratonas sucessivas, as semifinais femininas foram de pouca emoção. Naomi Osaka cravou sua primeira semifinal de Grand Slam com uma vitória muito fácil em cima de Lesia Tsurenko, que acordou com virose, se viu obrigada a arriscar demais e cometeu incríveis 31 erros em apenas 14 games. Muito consistente, a japonesa de 20 anos falhou só 11 vezes e ainda fez mais winners (12 a 10).

Naomi mora com a família na Flórida desde os 3 anos e tem dupla nacionalidade, mas o pai haitiano – daí sua pele tão morena – optou por registrá-la na Federação Japonesa. Portanto, ela cresceu totalmente adaptada ao estilo americano de jogar tênis, o que lembra muito a história de Nishikori, que está radicado na Flórida desde os 14 anos.

Aliás, os dois viraram bons amigos em Nova York e entram para a história: jamais houve dois nipônicos ao mesmo tempo numa semi de Grand Slam. Naomi, campeã de Indian Wells em março, é a primeira de seu país a ir tão longe desde Kimiko Date, em Wimbledon de 1996.

Mais tarde, Madison Keys manteve seu histórico perfeito contra Carla Suárez, tomando sempre a iniciativa dos pontos e agredindo o máximo que pôde o serviço da espanhola. Fez 22 winners e 32 erros, mas não fugiu ao plano tático, o que é um de seus fortes.

Aos 23 anos, Keys chega em sua quarta semi, sendo duas no US Open, uma na Austrália e outra em Roland Garros. Ganhou todos os três jogos diante de Osaka e só cedeu um set. Tem de levar o favoritismo, o que gera expectativa de segunda final americana consecutiva, já que Serena Williams jogará nesta quinta-feira contra Anastasija Sevastova.

Atualizando o ranking
– Djokovic já assume o quarto posto, deixando para trás Zverev e Cilic, e pode ser terceiro se for campeão.
– Nishikori dá salto de sete posições e se garante no 12º. Só voltará ao top 10 em caso de título.
– Austrália passa a ter três top 40, com Kyrgios, Millman e De Minaur.
– Coric (18º), Khachanov (25º), Basilashvili (31º), Medvedev (35º), Millman (37º) e De Minaur (38º) terão seus melhores rankings.
– Não há qualquer top 10 nas semifinais femininas e há uma briga particular entre as quatro por posições. Osaka é provisoriamente 15ª, duas acima de Keys, que é seguida imediatamente por Sevastova e Serena.
– Todas as semifinalistas podem ser top 10 se ganhar o torneio exceto Serena, que atingirá no máximo o 11º.