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Certo ou errado?
Por José Nilton Dalcim
31 de agosto de 2021 às 01:53

Andy Murray saiu extremamente irritado da quadra. Mais do que isso. Inconformado com uma série de atitudes de Stefanos Tsitsipas que teria como objetivo retardar o jogo ou tirar o adversário de ritmo, o escocês soltou os cachorros e disse algo que muita gente já anda pensando: Stef é um tremendo jogador, mas está perdendo o respeito.

As demoradas idas do grego ao vestiário no intervalo dos jogos já viraram hábito. Alexander Zverev reagiu nervosamente em Cincinnati e chegou a insinuar que Tsitsipas estaria recebendo instrução do pai-treinador por mensagem de texto. De repente, passou-se a falar que ele levaria um celular ou pager escondido no material que carregava ao sair da quadra.

Claro que é uma acusação leviana, mas o grego acaba levando a suposições exageradas devido à repetição da manobra. Murray afirmou na entrevista oficial que já havia previsto que isso iria acontecer e que tentou se preparar, mas ainda assim saiu de giro porque os oito minutos que ficou parado antes do quinto set teriam esfriado o corpo e baixado a adrenalina.

Afinal, o que diz a regra? Que Tsitsipas não fez nada de errado. O tenista tem direito a ir duas vezes ao vestiário em jogos de cinco sets – e uma em jogo de três sets – e não há tempo estipulado para isso. A falha na verdade é da regra.

Num esporte todo cronometrado como o tênis profissional se tornou, desde o bate-bola até o intervalo entre os pontos e o atendimento médico, não faz o menor sentido inexistir limite para ficar no vestiário. Evidente que cada torneio (e por vezes quadras dentro de um mesmo complexo) tem uma distância diferente, então o padrão não pode ser o momento de saída da quadra mas a chegada ao vestiário. Parece simples de resolver, já que o tenista está obrigatoriamente acompanhado de um fiscal.

Murray no entanto reclamou também do atendimento médico pedido ao final do terceiro set e de uma parada para trocar equipamento num 0-30. No primeiro caso, novamente Tsitsipas estava dentro do regulamento, mas no outro o escocês tem muita razão. Talvez até fosse mesmo uma necessidade, porém o histórico do grego nessa altura já não o ajuda mais. Quem não se lembra de suas constantes paralisações de jogo para trocar o cordão dos calçados ou as inúmeras advertências de instrução?

Diz o britânico que se discute muito essas coisas entre os jogadores e até no Conselho, mas que falta ainda mais pressão para que mudanças aconteçam. E curiosamente ele pediu até que os jornalistas insistam no assunto para forçar mais.

O mais triste – e Murray também disse isso na coletiva –  é que o grande espetáculo que os dois deram nessa primeira rodada ficou em segundo plano. Por quase cinco horas, exibiram notáveis recursos técnicos, enorme determinação, esplendor físico e controle emocional.

Sinceramente, não esperava que Murray jogasse tão bem, ainda mais pelas entrevistas desanimadoras que deu desde a chegada em Nova York. Não ficou longe de bater o número 3 do mundo, e um dos tenistas de maior físico do circuito, por 3 a 0, e fez um quinto set completamente inteiro. Foi animador.

Resumão
– O piso está mesmo muito veloz. Basta ver a quantidade de tiebreaks e terceiro/quinto sets disputados nesta segunda-feira nas duas chaves.
– Ainda assim, caíram Isner, Humbert, Cilic e Krajinovic no masculino. Fiquei mesmo surpreso com a derrota do canhoto francês para Gojowczyk.
– Quatro argentinos avançaram e Bagnis vai pegar Trunfgelliti, que fez jogo maluco contra Davidovich, que terminou com o garoto espanhol em cena dramática de cãibras.
– Alcaraz merece atenção. Já adaptou estilo para as quadras duras e tem ido muito bem à rede. Ferrero sabe das coisas.
– Transição para os voleios também foi o forte de Evans na vitória sobre Monteiro, que não jogou mal os três primeiros sets mas faltou ir mais atrás à frente atrás do slice do britânico.
– Sabalenka deu susto, Osaka demorou para engrenar, Muguruza e Kerber escaparam no tiebreak do terceiro set, Gauff precisou de virada. Foi uma primeira rodada estranha no feminino.
– Campeã no sábado, Svitolina aproveitou embalo e venceu bem. E Halep tirou Giorgi, que adora uma quadra veloz, com boa desenvoltura.

Murray vai por cima
Por José Nilton Dalcim
30 de junho de 2021 às 20:25

Andy Murray não poderia terminar sua heroica batalha de outra forma: dono do melhor lob que já vi no circuito, realizou dois seguidos em cima do grandalhão Oscar Otte, um jogador que surpreendeu pela disposição ofensiva apesar de suas evidentes limitações, e assim o escocês manteve sua sina de jamais perder antes da terceira rodada desde a estreia em 2005.

Murray, claro, está ainda longe do que pode realmente fazer numa quadra de grama, mas ele sabe achar atalhos e tira toda a energia possível da enlouquecedora torcida. São evidentes seus altos e baixos, a falta de pernas ou de confiança para meter mais a cara na rede, e aí o excessivo padrão defensivo acaba aflorando. De qualquer forma, há uma chance bem considerável de passar por Denis Shapovalov, canhoto com histórico pobre no piso, desde que consiga se recuperar fisicamente.

No começo do dia, Novak Djokovic deu mais um show. Foi tão superior que até parecia que Kevin Anderson não era um especialista na grama, com vice em Wimbledon. O sérvio tem exibido nestes dois jogos as qualidades mais especiais de quem se aventura na superfície: um saque devastador e devoluções milimétricas. Se mantiver o padrão, será praticamente impossível ganhar dele. Enfrenta agora Denis Kudla, que é um batalhador de bolas retas, e deve depois reencontrar Gael Monfils. O ‘freguês’ francês só beliscou oitavas em Wimbledon uma vez.

No outro quadrante, Andrey Rublev me causou espanto pelo tamanho do domínio sobre Lloyd Harris e é favorito natural contra Fabio Fognini e depois diante de quem passar entre Diego Schwartzman e Marton Fucsovics.

Já o setor de Murray tem ainda outra esperança local, Daniel Evans, que passou bem na estreia por Feli López e hoje ganhou com autoridade de Dusan Lajovic. Mas não será fácil cruzar com Sebastian Korda. Não ficaria surpreso aliás se acontecesse um duelo todo norte-americano, já que Frances Tiafoe fez outra ótima exibição diante de Vasek Pospisil e pode muito bem prevalecer em cima do pouco confiável Karen Khachanov.

Kyrgios lidera queda de cabeças
Nada menos que 27 jogos desta quarta-feira ainda foram válidos pela primeira rodada e entre eles alguns resultados relevantes. O destaque é claro foi Nick Kyrgios. Após cinco meses sem competir e apenas dois torneios disputados desde março do ano passado, fez um jogo de alto nível e tirou o embalado canhoto Ugo Humbert num emocionante quinto set, por 9/7. É um excepcional jogador sobre grama, com capacidade de alternar velocidades e efeitos, além do saque fulminante e enorme habilidade na rede. Tem chance real de passar por Gianluca Mager e dar trabalho a Felix Aliassime, que fez um jogo redondo e não deu qualquer chance a Thiago Monteiro.

Também caíram Pablo Carreño, Casper Ruud e John Isner entre os cabeças de chave. Semifinalista de 2017 e quartas em 2019, Sam Querrey nem de longe pode ser chamado de surpresa e venceu bem os três sets contra Carreño,. É perigoso. Com ‘apenas’ 1,70m e um tênis totalmente de contragolpe, o canhoto Yoshihito Nishioka fez 3 aces contra os 36 do gigante Isner, de 2,08m, e só ganhou 18% dos pontos como devolvedor, porém o japonês aproveitou dois de quatro break-points e ainda levou um tiebreak.

Notável a vitória em sets diretos de Kei Nishikori, ótima recuperação da esperança local Cameron Norrie e nova frustração para Jo-Wilfrid Tsonga, que também parece muito perto do adeus.E Matteo Berrettini está muito a fim de jogo. Todos os vencedores, mesmo os que fizeram cinco sets, têm de voltar à quadra nesta quinta-feira.

Campeãs de Slam dão adeus
Duas jovens e uma veterana vencedoras de Grand Slam já deram adeus ao torneio, mas foram surpresas pequenas em se tratando de grama.

Sofia Kenin caiu cedo pelo quarto Slam consecutivo diante da também americana Madison Brengle, repetindo a segunda rodada de Melbourne. Venus Williams também se foi, mas Ons Jabeur atravessa bom momento e varia muito bem seus golpes. Por fim Bianca Andreescu nem passou da estreia, com 34 erros e um placar arrasador imposto por Alizé Cornet.

Aryna Sabalenka, Iga Swiatek, Karolina Pliskova e Garbiñe Muguruza já estão na terceira rodada. A cabeça 2 precisou de virada e de paciência com a torcida, a polonesa foi muito firme e Muguruza já ganhou em Wimbledon e pode achar o caminho de sua recuperação.

Aliás, a grama também é ótimo lugar para Pliskova recuperar sua temporada instável, mas estou gostando mesmo é de Sloane Stephens. Ela não saca muito, nem bate tão forte, mas é uma jogadora taticamente muito aplicada e está num setor bem interessante da chave.

O feminino também teve 23 jogos ainda de primeira rodada, que marcaram estreia difícil de Elina Svitolina, quedas de Belinda Bencic e Anett Kontaveit e vitórias de Vika Azarenka e Anastasia Pavlyuchenkova.

Sustos e preocupação
Depois das contusões sérias de Serena Williams e Adrian Mannarino, que não conseguiram seguir em seus jogos na Central, o piso escorregadio causou várias outros sustos nesta quarta-feira. Djokovic, tal qual acontecera na estreia, foi ao chão algumas vezes e não se mostrou nada feliz. Isner e Kyrgios também sofreram quedas feias, que felizmente não causaram danos maiores, e o próprio Murray perdeu o equilíbrio e imediatamente colocou a mão na problemática virilha, um sinal de alerta temeroso.

Questionado sobre o problema, o All England Club colocou a culpa no excesso de umidade da atmosfera no período em que o piso foi cultivado. “Tivemos a maior umidade em uma década e assim o teto das quadras precisou ser fechado, o que isso influenciou no assentamento”, afirmou,  jurando que a preparação das quadras foi exatamente igual a todos os outros anos. “Conforme os jogos acontecerem, a quadra ficará firme”. Será?

Tsitsipas passa por outro teste
Por José Nilton Dalcim
4 de junho de 2021 às 20:35

Para chegar a um título tão difícil como Roland Garros, é preciso um pouco de tudo. Sacar bem, devolver com qualidade, consistência nas trocas, aproveitar as oportunidades para ser agressivo e variar o ritmo e efeitos das bolas. Até aqui, o grego Stefanos Tsitsipas atingiu tal repertório com autoridade, ratificando o que faz desde abril.

John Isner é sem dúvida um veterano que não se mexe tão bem, sofre desgaste em jogos mais longos e precisa muito do primeiro saque. Mas não é fácil encará-lo nem mesmo no saibro. O grego, que vinha de três vitórias seguidas sobre o gigantão, perdeu o primeiro set e encarou risco de quebra no segundo, porém soube readaptar-se ao longo da batalha e isso lhe valeu uma vitória de peso.

É exatamente isso o que se espera de um grande jogador: a capacidade de encontrar soluções no meio da trincheira sem choramingar. Vale observar que o grego ganhou os últimos quatro tiebreaks contra Isner, o que já é digno de medalha.

Mas não há tempo a perder, porque agora vem um adversário bem mais feito ao saibro, com proposta diferente atrás de bolas retas e uma base sólida, que sabe manter o adversário em movimento. Pablo Carreño já fez duas quartas em Paris, a última no ano passado, e está sempre pronto a aproveitar os buracos, a exemplo da atuação firme diante de Steve Johnson.

O melhor dia do Urso – Daniil Medvedev subiu de nível em Roland Garros. O dia mais carrancudo ajudou a tirar a velocidade do poderoso saque de Reilly Opelka o bastante para que o russo conseguisse devolver com qualidade e impor trocas. Com isso, a tarefa ficou muito simplificada e Medvedev brilhou em todos os campos, a ponto de fazer o dobro de aces do grandão norte-americano (10 a 5). Ainda conseguiu notáveis 16 break-points, dos quais cinco foram suficientes para sair sem sets perdidos e meros 16 erros não forçados.

O otimismo de Medvedev no entanto precisa ser cuidadoso, porque agora ele enfrenta um adversário de estilo radicalmente oposto e um autêntico saibrista, o chileno Cristian Garin. Os dois se cruzaram há poucas semanas em Madri e Garin levou num fácil terceiro set. A atuação do chileno contra Marcos Giron exemplifica que Garin sofre com seus altos e baixos e ainda carece de certa estabilidade emocional na hora do aperto. Vai ser um duelo dos melhores.

Reencontro – Alexander Zverev enfrentará Kei Nishikori pela terceira vez nesta fase do saibro europeu e o jogo ganhou ares de equilíbrio ainda maior depois que o japonês disputou apenas 12 games e ganhou tempo de descanso mais do que bem vindo. Sascha venceu facilmente no saibro veloz de Madri, mas precisou de grande esforço em Roma nas últimas semanas. A vitória sobre o sérvio Laslo Djere deve ter elevado sua confiança, ainda mais depois que salvou um segundo set que parecia perdido. Alemão leva pequeno favoritismo, mas terá de sacar talvez até melhor do que hoje, quando acertou 71% e venceu 72% desses pontos, com 4 aces e 4 duplas faltas..

Surpresas – Federico Delbonis e Alejandro Davidovich já são a boa novidade da chave masculina de 2021 e tentarão inéditas quartas de Slam. O canhoto argentino fez uma apresentação notável diante de um apressado Fabio Fognini, que terminou com 53 erros, mais do que o dobro dos 24 do adversário. Delbonis faz uma bela temporada no saibro, tendo furado qualis dos três Masters e vencido nomes como Carreño, Goffin e Aliassime.

Já o temperamental Fokina, que completa 22 anos neste sábado, vinha de 5 sets na rodada anterior e não mostrou falta de pernas e ousadia para vencer Casper Ruud, uma das sensações do saibro europeu deste ano, em mais cinco sets. Teve intensos altos e baixos. Ganhou os dois tiebreaks e foi totalmente dominado nos outros dois sets. Na reta final, os sacadores foram firmes por 10 games até que o espanhol quebrou e sacou para a vitória, num game que novamente espelha seus altos e baixos técnicos e emocionais: perdeu quatro match-points e evitou outros quatro breaks, o último deles com saque por baixo. É um garoto divertido de se ver, não resta dúvida.

Mais uma favorita se vai
É até difícil entender como uma jogadora faz um set tão brilhante, com 19 winners e confiança na estratosfera, e em seguida leva um 6/0 que a tira de Roland Garros. Um dos destaques da fase europeia de saibro, Aryna Sabalenka deixou o torneio sem qualquer top 4 nas oitavas de final e foi a quarta das oito principais cabeças a se despedir.

É bem verdade que o ‘pneu’ aplicado pela esperta Anastasia Pavlyuchenkova não foi semelhante aos que Karolina Pliskova amargou dias atrás em Roma. Os games foram bem disputados, quase todos indo até o 40-30, e Sabalenka teve uma chance de reação logo no segundo game. Mas faltou capricho e bom senso. Só nesse set decisivo, fez 17 erros contra 3 da russa. O tênis continua a ser um ‘tudo ou nada’ para Sabalenka, que enche os olhos com a forma invejosa com que acelera a bola, porém exagera pela insistência.

Não haverá então o duelo bielorrusso imaginado. Victoria Azarenka fez exibição madura e segura diante de Madison Keys e agora se vislumbra um reencontro com Serena Williams. A veterana teve dificuldades contra Danielle Collins, ainda que tenha vencido em sets diretos, e fará oitavas contra Elena Rybakina que não é mais a tenista tão brilhante de 2020, mas que só perdeu 14 games em três jogos na semana e precisa de muita atenção se atuar bem solta. Serena é agora a única top 10 no lado inferior da chave.

A luta pela outra vaga na semi manteve as cabeças Paula Badosa e Marketa Vondrousova. Se foi prazeroso ver o espírito de luta da espanhola, ao salvar até match-point, não me agradou o estilo tão quadrado da canhota tcheca, mas ela leva a experiência de quem já decidiu Paris. A vencedora será favorita diante de Sorana Cirstea ou Tamara Zidansek.

Big 3 na luta
– Se Djoko mantiver o amplo favoritismo sobre Berankis, atingirá as oitavas de Paris pelo 12º ano seguido, algo que nem Nadal conseguiu.
– Espanhol pega Norrie pela terceira vez no ano e ainda não perdeu set. Rafa tem 31-3 contra canhotos em Slam.
– Federer enquanto isso encara o canhoto Koepfer em busca da 68ª presença nas oitavas de um Slam.
– Caso Sinner, Musetti e Alcaraz vençam, será o maior número de adolescentes na quarta rodada de Paris desde 1990, então com Courier, Chang e Ivanisevic.
– Berrettini tem tudo para fazer oitavas pela primeira vez no torneio diante de Kwon, que só tem 5 vitórias no saibro em nível ATP.
– Aos 37, Kohlschreiber ficou 11 meses sem jogar por causa do quadril. Enfrenta Schwartzman.
– Swiatek perdeu os dois jogos contra Kontaveit, Kenin leva 1-2 de desvantagem contra Pegula, que já bateu cinco top 10 neste ano.
– Outro duelo todo americano envolve Brady e Gauff. A vice de 2018 Stephens é outra na luta em duelo inédito com Muchova.