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Nem vento para Nadal
Por José Nilton Dalcim
7 de junho de 2019 às 18:56

Nunca foi tão óbvio cumprir uma profecia. Desde que voltou a jogar em alto nível em Roma, e ainda por cima com título em cima de Novak Djokovic, era evidente que Rafael Nadal recuperaria a confiança e o tênis mágico sobre o saibro para tentar o 12º título de Roland Garros. Não houve adversário, nem histórico, nem vento que pudesse impedir isso. Não se sabe contra quem ou quando, mas isso não faz diferença. Rafa é o favorito.

Conforme a previsão, o vento forte de até 40 km/h foi um ingrediente importante nos jogos desta sexta-feira. Prejudicou a qualidade das duas semifinais, obrigou os tenistas a fazer curiosas improvisações e quem usou mais topspin conseguiu esfriar a cabeça antes. Nadal jogou bem demais para estas condições radicais, Dominic Thiem abriu vantagem sobre Nole até a chuva chegar pela segunda vez e forçar um adiamento controverso para o sábado cedo.

Federer resistiu o quanto pôde, e desperdiçou chances valiosas nos dois primeiros sets que poderiam ao menos tornar o jogo bem duro. Mas falhou na hora de empatar por 3/3 a primeira série e desperdiçou 2/0 na outra. A esperada dificuldade de controlar seus golpes mais retos ou de chegar bem à rede diante do vento somou-se a uma atuação magnífica de Nadal.

O espanhol cravou 82% do primeiro saque e surpreendeu duplamente com o backhand, ora batido na paralela no pé do adversário, ora violento e cruzado. Se é fato que não fica fácil volear naquelas condições, também é extremamente difícil achar passadas e ângulos tão milimétricos. Saiu de quadra com 33 winners, oito a mais que Federer, um padrão que eu tenho ressaltado em todos os jogos de Rafa neste torneio.

A façanha de Nadal é recheada de números. Para começar, nenhum tenista em qualquer nível ATP já fez 12 finais num mesmo torneio e agora iguala Margaret Court nos Grand Slam, ela que tem 11 títulos e 1 vice na Austrália. Jamais perdeu uma semi em Paris, e na soma de todas elas só perdeu 3 sets. Está agora com 92 vitórias em 94 possíveis no torneio, tendo vencido os dois únicos jogos em que foi levado ao quinto set, e estende a incrível marca sobre o saibro em partidas de melhor de 5 sets para 117 em 119 feitas na carreira.

Em seus duelos diante de Federer, encerrou a série de cinco derrotas consecutivas e o jejum que vinha desde janeiro de 2014. Sobe para 24-15 no geral (sendo 14-2 no saibro), vai a 10-3 nos Slam (dos quais 6-0 em Roland Garros) e 4-0 em semis de Slam (as outras duas na Austrália).

E quem será seu adversário? Thiem se adaptou muito melhor ao vento com seu topspin pesado dos dois lados e viu Djokovic contrariado e falível num primeiro set bem abaixo do que vinha jogando. A chuva chegou em boa hora, o sérvio conseguiu colocar a cabeça no lugar no final do segundo set, mas o austríaco voltou a abrir vantagem com 3/1. Aí outra vez choveu e a organização decidiu por adiar de vez a partida para o sábado, ainda que já tivesse aparecido o sol em Paris e faltassem pelo menos três horas para escurecer.

Impossível prever como irão reagir cada um no retorno. O sábado promete tempo seco porém o vento de 30 kim/h continua. A organização não se antecipa e aguarda os sets finais para dizer se a final permanece no domingo ou vai para segunda-feira. Se Thiem completar a vitória até o quarto set, imagino que a decisão será no dia seguinte, mas se Djoko reagir ou levar ao quinto set – e principalmente se vencer -, a chance de adiamento é enorme.

Final imprevisível entre as meninas
O vento acordou cedo e também atrapalhou muito as semifinais femininas, disputadas simultaneamente nos estádios secundários. A vitória de Ashleigh Barty foi uma das mais notórias gangorras da temporada. A australiana teve set-point para 6/0, mas foi perder no tiebreak. Aí Amanda Anisimova fez 3/0 sem ceder um ponto sequer e caiu por 3/6. No terceiro, a adolescente abriu 2/1 com saque, Barty virou para 5/2 e precisou de seis match-points para enfim disputar a primeira final de Slam da carreira, aos 23 anos.

Se Anisimova lembra fisicamente Monica Seles, será Marketa Vondrousova quem tentará repetir a iugoslava, que foi a última (e apenas segunda) canhota a vencer a fase profissional de Roland Garros, em 1992. A tcheca de 19 anos mostrou maturidade num jogo em que a experiente Johanna Konta liderou por algumas vezes, incluindo 5/3 e três set-points, depois 5/4 e saque.

A final tende a ser nervosa, ainda mais se com a expectativa de vento forte, o que torna tudo um pouco mais lotérico. Vondrousova tem o saibro como piso predileto, se mexe muito bem e também gosta de variar. No entanto, perdeu os dois duelos feitos contra Barty. A australiana, aliás, concorre a assumir a vice-liderança do ranking em caso de título.

Boa notícia, a final feminina passará ao vivo na Band aberta também.

Grandes semifinais, mas dois amplos favoritos
Por José Nilton Dalcim
6 de junho de 2019 às 18:18

Roland Garros viverá uma sexta-feira para lá de especial. Pela primeira vez em oito anos, terá todos os quatro principais cabeças na semifinal masculina, reunindo nada menos do que 52 títulos de Grand Slam e os três melhores jogadores da história.

Mais divertido ainda, Novak Djokovic e Rafael Nadal têm enorme chance de se manter ainda mais vivos na perseguição ao recorde de 20 troféus de Roger Federer. O sérvio pode ir a 16, o espanhol mira o 18º. E o suíço, é claro, colocaria uma pá de cal nesse sonho se cometesse a façanha de ganhar o Aberto francês uma década depois.

O austríaco Dominic Thiem é o ‘patinho feio’ nessa briga de gigantes, já que só tem uma final de Slam até hoje. A seu favor, está a juventude: aos 25 anos, possui sete a menos que seu adversário desta sexta-feira e 12 atrás do mais idoso. Mas a questão física não parece ser o item mais relevante.

Djokovic e Thiem superaram com rapidez seus jogos adiados da quarta-feira e entrarão para o duelo direto em pé de igualdade. Impossível não dar o favoritismo ao sérvio, que lidera o histórico por 6 a 2. A rigor, as derrotas para o austríaco aconteceram numa momento de baixa em sua carreira, em Paris de 2017 e em Monte Carlo do ano passado. Desde então, se cruzaram apenas no saibro veloz de Madri há coisa de um mês, onde Djoko venceu por um placar bem apertado e diversos sustos.

O sérvio precisa antes de tudo evitar o começo ruim que viveu nesta quinta-feira diante de Alexander Zverev. Foi quebrado num game tenebroso, o seu pior até aqui no torneio, e só mesmo a fragilidade emocional do alemão evitou a perda do primeiro set. Até então, Sascha se mostrava aplicado e muito focado. De repente, virou um top 100 e levou uma surra. Vale observar que Thiem teve uma atuação notável diante de Karen Khachanov, saindo de quadra com apenas 11 erros. Portanto, me parece importante Djoko se impor desde o início e não deixar o austríaco animado, porque o poder de fogo dele é inegável e proporcional à confiança que for adquirindo.

Nadal e Federer geram enorme expectativa, mas me parece existir apenas uma chance de o suíço sonhar com a vitória: atuar de forma iluminada ou o espanhol jogar abaixo do que vem mostrando. Se estiver ventando forte como diz a previsão, a dificuldade aumentará ainda mais, já que o suíço tende a perder a precisão do saque, de seus golpes retos de ataque e da segurança nos voleios. Por isso, ele detesta vento. Para ser ao menos competitivo, Federer precisa manter Nadal na defensiva, mirar a linha e encurtar seu tempo de reação. Quando for à rede, máxima atenção às paralelas de forehand, que o espanhol voltou a executar com perfeição.

A lógica aponta para vitórias de Nadal e Djokovic, talvez até mesmo em sets diretos, contra seus adversários de backhand simples. Qualquer coisa fora disso, será surpresa. Vale lembrar que a última vez que Roland Garros viu uma final entre dois backhands de uma mão foi a de Guga Kuerten e Alex Corretja, em 2001.

Uma nova campeã de Slam
O sábado também será muito especial para a chave feminina, e aí o motivo é radicalmente diferente: todas as quatro postulantes ao título jamais fizeram sequer final de Grand Slam e há uma clara predominância da nova geração: Amanda Anisimova, de 17 anos, enfrentará Ash Barty, de 23, enquanto Marketa Vondrousova, de 19, duela com a única experiente da turma, Johanna Konta, de 28. Também em contraste com o masculino, três delas não figuram no momento sequer entre as top 25.

Porém, não vejo motivo para se achar que os jogos decisivos serão de qualidade baixa ou menos emocionantes, já que são todas tenistas que gostam de um jogo mais agressivo. Anisimova deu um verdadeiro show de ousadia e competência diante da atual campeã Simona Halep, sem tomar conhecimento do currículo adversário. A norte-americana de pais russos esteve no Brasil em 2017 para se testar no saibro, maravilhou todo mundo no juvenil e ganhou seu primeiro título profissional em Curitiba, ainda aos 15. Era evidente que ali havia um enorme potencial. Se ela e Barty dominarem os nervos, deve ser um jogo espetacular, porque a australiana tem mão de sobra, faz o que quer com a bola e pode enlouquecer Anisimova com essa variação.

Se Konta se candidata a erguer o primeiro título britânico em Paris após quatro décadas, Vondrousova tenta entrar no rol curtíssimo das canhotas que conquistaram Roland Garros. Por conta da chuva de quarta-feira, os dois jogos semifinais acontecerão simultaneamente e fora da Chatrier, e ainda por cima no primeiro horário do sábado (11h locais, 6h de Brasília). Tenta-se preservar alguma equidade para a final de sábado, mas é de se lamentar.

‘Fedal’ dispara corações 15 anos depois
Por José Nilton Dalcim
4 de junho de 2019 às 19:30

Mais um sinal evidente da incrível tenacidade técnica e física dos dois mais importantes tenistas da história, Rafael Nadal e Roger Federer voltam a se cruzar em Roland Garros depois de oito anos. O maior clássico do tênis terá seu 39º capítulo e é extasiante lembrar que o primeiro deles, em 2004, reunia o jovem líder do ranking contra um fenômeno de precocidade. Na sexta-feira, apesar das indeléveis marcas do tempo, eles ainda se mostram capazes de fazer o mundo do esporte parar e admirá-los.

Será possível Federer surpreender o ‘rei do saibro’ no seu domínio? Todos os números dizem que não. Além do placar geral amplo de 23 a 15, Rafa tem esmagadores 13 a 2 no saibro – com última derrota há 10 anos – e indiscutíveis 5 a 0 em Roland Garros, quatro dos quais impôs vices ao suíço, que sequer conseguiu levá-lo a um quinto set em Paris. Há dois pontos de esperança para Roger: a série inédita de cinco vitórias seguidas que mantém hoje e, acima de tudo, o fato de que a obrigação de ganhar é do espanhol.

Os desafios desta terça-feira foram tão díspares como o currículo de cada um no saibro. Enquanto Nadal atropelou mais um adversário, vendo diante de si um Kei Nishikori incompetente tanto na execução tática como na força das pernas, Federer precisou administrar frustrações e correr muito atrás dos golpes pesados de Stan Wawrinka, marcando virada em quatro sets muito apertados que penderam para qualquer lado.

Mantendo o padrão ofensivo que mostrou em todos seus jogos até aqui, o canhoto espanhol anotou 29 winners e 22 erros, mas o que não se vê nas estatísticas é quantas vezes colocou o adversário nas cordas com bolas profundas e alternâncias constantes de direção. Federer por sua vez não se intimidou com a artilharia pesada do compatriota e arriscou 60 subidas à rede, muitas delas atrás do segundo serviço, algo que só alguém com sua experiência e habilidade poderia ousar no saibro lento e sob vento forte.

Teremos de aguardar três longos dias para saber se Nadal irá preferir o conforto de despejar topspin no backhand adversário, à espera das bolas curtas, ou se Federer terá confiança para ir à rede e se expor aos contragolpes mortais que tanto conhece.

Vai ser angustiante esperar.

Nova finalista
E a chave feminina continua dando suas surpresas. Johanna Konta derrubou a vice do ano passado Sloane Stephens e teremos ao menos uma finalista inédita, e totalmente inesperada, no sábado. Sua adversária de penúltima rodada é a jovem e talentosa Marketa Vondrousova, de 19 anos.

Konta jamais havia vencido uma partida em Roland Garros em quatro participações anteriores, mas está claramente embalada pela final em Roma e jogando um tênis agressivo mas inteligente. Já esteve em outras duas semis, na Austrália e Wimbledon, e tem de ser considerada favorita.

Vondrousova venceu um jogo tecnicamente muito interessante contra Petra Martic, ambas com variações bem aplicadas, e tentará um feito, já que Roland Garros só viu até hoje 10 canhotas campeãs, e apenas duas entre as profissionais (a bi Martina Navratilova e a tri Monica Seles).

Juntas e misturadas
Como faz desde 2017, Roland Garros irá cobrar ingressos separados para as duas semifinais masculinas de sexta-feira. Ou seja, quem quiser ver os dois jogos terá de gastar dobrado. O mais barato, nos aneis superiores, custam 90 euros e os mais nobres, próximos à quadra, 210 euros. Para a final masculina, os valores dobram. Clique aqui para ver a tabela completa.

Quartas de final, parte 2
– Se Djokovic avançar à semi, será a primeira vez desde o Finals de 2015 que o Big 3 estará na penúltima rodada de um mesmo torneio. Sérvio tenta sua 10ª semi em Paris, duas a menos que o recordista Nadal.
– Zverev tenta ser primeiro alemão na semi de um Slam em 10 anos. Ficou 5h20 a mais em quadra do que Nole neste torneio. O placar é de 2-2, com Sascha tendo vencido o único no saibro. Mas jamais se cruzaram em melhor de cinco sets.
– Thiem só tirou 5 games de Khachanov no duelo entre eles de Bercy-2018. Apenas dois anos mais velho que o russo, Thiem tem mais do dobro de vitórias na carreira e em Slam. E quatro vezes mais no saibro.
– Se conseguir quarta semi consecutiva em Paris, Thiem se iguala a gigantes como Borg, Lendl, Murray. Courier, Ferrero e Wilander. O líder é Djoko (6), à frente de Nadal e Federer (5).
– Com a queda de Wawrinka, o top 10 inédito está garantido a Khachanov (9º) e Fognini (10º), que ocuparão as vagas de Isner e Del Potro.
– Halep enfrentará a juvenil Anisimova pela primeira vez e obviamente a diferença de currículo é enorme, já que a 51ª do ranking de 17 anos disputa apenas o terceiro Slam.
– Imprevisível será Barty e Keys, que empatam por 1-1 nos duelos. Será a quarta americana no caminho de Barty em cinco jogos, porém Keys tem mais intimidade com o saibro do que as outras.