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O ranking muda de novo: certo ou errado?
Por José Nilton Dalcim
4 de março de 2021 às 21:57

Muita gente não entendeu exatamente o que vai acontecer com o ranking a partir de agora, E com razão. Mais uma série de mudanças, regulamentos e exceções para confundir algo que já nunca foi tão simples assim de se compreender. Vamos ver se consigo resumir o que acontecerá:

– A defesa de pontos continua não existindo até a semana do Masters de Toronto, ou seja, até o ranking do dia 16 de agosto. Só então, quando começa Cincinnati e virá a seguir o US Open, haverá o desconto total e absoluto em relação aos resultados de 2020.

– Isso cobre exatamente o período que o circuito ficou parado em 2020, ou seja, entre março e agosto. Por isso, a nova regra precisou estabelecer algumas exceções.

– A primeira é com relação aos torneios não disputados em 2020, ou seja, que ainda constam do ranking dos tenistas da temporada 2019. Esses pontos irão cair conforme a data de realização, mas o tenista poderá manter 50% do valor que somou em 2019. A menos, claro, que ele dispute esse evento e consiga um resultado superior.

Vamos pegar exemplo do vice de Miami. John Isner ainda tem os 600 pontos de 2019 no seu ranking. Ele prosseguirá pelo menos com 300 desses pontos (50%) até 2022, a menos que jogue agora em 2021 e faça campanha com mais pontos (semi, final ou título).

– A outra exceção é em relação aos torneios disputados em calendário diferente em 2020, casos de Kitzbuhel, Hamburgo, Roma e Roland Garros. Para esses torneios, valerá a mesma regra dos 50%, caso não disputem ou tenham desempenho pior em 2021. Mas a queda dos pontos acontecerá sempre na data que o torneio acontecer nesta temporada, ou seja, irão cair em maio, junho ou julho e não em setembro ou outubro, quando foram realizados no ano passado. Se o tenista estiver usando os pontos de 2019 nesses torneios, o valor será eliminado.

– Isso tudo quer dizer por fim que o ranking como era antes só estará finalmente re-estabelecido em 15 de agosto de 2022.

O que acontece com o Big 3
Roger Federer novamente é o maior beneficiado. A regra fará com que ele mantenha 300 pontos pelo vice de Indian Wells-2019 e 500 do título de Miami-2019, já que o Masters da Califórnia está fora do calendário no momento e o suíço já anunciou ausência em Miami. Ele ainda poderá contar no seu ranking com os 600 pontos do vice de Wimbledon-2019 e os 250 do título de Halle, que não aconteceram no ano passado, caso Federer não jogue ou tenha desempenho inferior.

Rafael Nadal também poderá manter 360 pontos referentes ao 50% da semi de Wimbledon-2019 e 1.000 pontos por Roland Garros-2020. E Novak Djokovic tem assegurado 1.500 dos títulos de Madri e de Wimbledon, 500 de Roma e 600 de Paris. Segundo cálculos, Djokovic está com o número 1 sem riscos até 26 de abril e portanto somará no mínimo 317 semanas na ponta da lista.

Impacto olímpico
A classificação olímpica não muda. A relação dos 56 participantes diretos em Tóquio será baseada no ranking do dia 7 de junho de 2021, ou seja, imediatamente após Roland Garros. Com a pequena chance de mudanças no topo da lista, é muito provável que os top 20 de hoje ganhem sem susto o passaporte para as Olimpíadas. Isso inclui Federer.

E a WTA?
A WTA tem seguido todas as inovações propostas pela ATP no ranking durante a paralisação do circuito e na retomada. No entanto, não se pronunciou sobre este novo formato até agora.

Mais medidas
A ATP ainda anunciou duas medidas para proteger o circuito. Vai tirar dinheiro do bônus de fim de ano, que por regra é distribuído entre os 12 melhores colocados do ranking, e engrossará a premiação dos ATP 250 em 80% e dos 500 em 50%. Com a ausência de público e saída de patrocinadores, os torneios têm diminuído drasticamente as premiação oferecidas. A ATP fez questão de frisar que essa atitude contou com o respaldo do Conselho dos Jogadores, particularmente de Federer e Nadal.

Ao mesmo tempo, a ATP dará ajuda de US$ 10 mil aos promotores para minimizar as despesas extras com hospedagem e protocolos de segurança contra a covid-19.

Certo ou errado?
Acredito que a ATP agiu novamente certo. Claro que um ranking congelado e pouco movimentado se torna pouco atraente tanto para o público como para os próprios jogadores. A ascensão e queda ficaram bem limitadas desde agosto, mas tempos especiais exigem medidas de exceção e a meu ver a ATP teve bom senso ao não obrigar os tenistas a viajarem durante a pandemia, disputarem torneios muito distantes ou em locais que não se sentissem confortáveis.

O descongelamento precisa mesmo ser gradual. Tantas regras novas irão dificultar o entendimento da oscilação do ranking e provavelmente ainda haverá mudanças muito lentas de posições, a menos que algum tenista faça resultado espetacular.

E isso está aberto a todos. Daniil Medvedev, por exemplo, perdeu já duas chances de chegar ao número 2 e isso não teve nada a ver com o sistema ou a pandemia.

A maratona do novo Murray
Por José Nilton Dalcim
18 de agosto de 2016 às 01:08

A ideia foi boa. Conquistado o sempre emocional título de Wimbledon, Andy Murray tratou de descansar. Não jogou a Copa Davis, abriu mão de Montréal e veio ao Jogos do Rio para iniciar a importante preparação para a temporada norte-americana de olho numa possível grande campanha no US Open.

Mas o desgaste nas Olimpíadas foi além do esperado, um tanto por culpa do próprio escocês, que esteve perto da derrota diante de Fabio Fognini e Steve Johnson, além de sofrer demais na grande final diante de Juan Martin del Potro. A medalha de ouro, histórica, poderá assim cobrar seu preço, porque há uma perigosa maratona a sua frente.

Murray fretou um jatinho com Rafa Nadal, voou imediatamente para Cincinnati e já estreou nesta quarta-feira à noite, tendo de pedir massagem no ombro direito por diversas vezes. Se quiser chegar pelo menos à final e reiniciar a ameaça à liderança de Novak Djokovic, terá de jogar todo dia até domingo. A motivação é boa porque, em caso de título, chegará ao US Open apenas 815 pontos atrás de Nole no ranking da temporada.

Assim que acabar a missão em Cincinnati, ele voará para casa a fim de rever a família. Será bem curto, porque são apenas sete dias até encarar a busca pelo bi em Nova York, onde obviamente se espera trabalho árduo. Por sorte, será o cabeça 2 e assim pode ter uma chave boa à frente, porém todo mundo sabe que cinco sets, dia sim, dia não, exigem muito, e Murray não tem exatamente o hábito de simplificar as coisas, muitas vezes se complicando em partidas que deveriam ser triviais.

Para encerrar o vendaval de emoções, ele terá um tempo mínimo para se preparar a um novo compromisso importante, porque cinco dias depois do US Open já vem a semifinal da Copa Davis contra a Argentina, marcada para Glasgow, diante de 10 mil pessoas, onde deve reencontrar o amigo pessoal Del Potro.

É inegável que Andy vive a melhor temporada de sua carreira, ainda que tenha aberto mão de uma parte do calendário devido ao nascimento da filha. Pela primeira vez, chegou a todas as finais de Grand Slam até agora; foi incrivelmente bem no saibro, com título em Roma e vice em Paris; colocou novamente a medalha de ouro no pescoço. E ainda retomou a parceria com Ivan Lendl, de onde se espera novo crescimento técnico.

Lendo um artigo do Guardian, nota-se como Andy está mudando como pessoa e isso fatalmente se reflete no seu tênis, já tão genial. A presença no Rio pode ter sido mais um ponto importante nessa direção. Ele não passou um dia sequer no apartamento que alugou para seu time fora da Vila. Preferiu dividir o quarto com o irmão Jamie, algo que não faziam há anos, e divertiu-se demais. “Me senti parte de uma coisa muito maior que apenas o torneio de tênis”, afirmou, alegre por ter “batido papo com os mais variados atletas”.

Ele deixou o que o jornal chama de ‘sua bolha’ e foi assistir às rodadas de golfe, finais da ginástica. Conversava com todo mundo, jamais deixou sua porta fechada. Sabia o que acontecia nas mais diferentes modalidades e se interessava pelo resultado de cada britânico. Claro que ele era reconhecido em todos os lugares, mas se integrou muito bem.

Amigo e integrante do time, Leon Smith está admirado com o ‘novo Murray’. Segundo ele, o bi olímpico era uma meta pessoal enorme para Andy. “Ele já vinha jogando um grande tênis, mas Wimbledon foi o ápice. Acho que vai ficar cada vez mais difícil ganhar dele”.

O tênis no Olimpo
Por José Nilton Dalcim
6 de agosto de 2016 às 23:36

Num universo tão estelar com megacampeões olímpicos, super-recordistas mundiais e os monstros da NBA, seria natural que o tênis ficasse num segundo plano. Porém, para minha própria surpresa, não tem sido assim no Rio de Janeiro e os Jogos Olímpicos acabam por ratificar o peso da modalidade perante imprensa e público.

Na magnífica festa de abertura, tivemos nada menos que quatro tenistas carregando a bandeira de seus países, o que é sempre uma honra conferida a atletas de muita relevância nacional. Nadal, todo mundo sabe, já foi eleito várias vezes como o maior atleta espanhol, assim me surpreendeu mesmo a indicação de Murray porque afinal a Grã-Bretanha deu um grande salto de qualidade técnica em diversas modalidades nos últimos oito anos.

E o que dizer então da escolha de Guga Kuerten para ser um dos três heróis a fechar a condução da tocha olímpica – chegou a ser seriamente cogitado a acender a pira no lugar de Pelé, embora tenhamos de reconhecer que a indicação de Vanderlei Cordeiro de Lima tenha sido primorosa.

Para completar esse grande momento do tênis no Rio, tenho acompanhado o noticiário dos mais variados canais de rádio e tv brasileiros, sites e jornais, e em todos Djokovic, Murray e Serena aparecem com enorme destaque, lugares cativos de uma constelação infindável de campeões importantes. Curioso ver Galvão Bueno comentar sobre Federer e Wawrinka com a mesma naturalidade de que estivesse falando de Messi ou Cristiano Ronaldo.

Será portanto um marco extraordinário se Marcelo Melo e Bruno Soares conseguirem ir ao pódio, porque medalhas olímpicas ainda são reservadas a uma ínfima parcela de fenômenos brasileiros. O tênis tem uma oportunidade incrível pela frente.

Tudo isso no entanto não tirou meu espanto ao ver os estádios do Centro de Tênis com ocupação de 30 ou 40% nas sessões diurnas deste sábado, melhorando só mesmo no começo da programação noturna. Claro que um público de 10 mil pessoas no estádio principal, e de 5 mil no secundário, são difíceis de se alcançar no Brasil.

O que me deixa indignado é por que o site oficial de venda de ingressos do Rio 2016 insistiu nos últimos cinco dias que havia lotação completa? Onde estavam esses ingressos? Não acredito que tanta gente tenha comprado e desistido de última hora, ao ver a mal feita programação. Alguém precisa explicar isso.