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São Thiago
Por José Nilton Dalcim
1 de março de 2020 às 22:34

Woody Allen foi extremamente feliz, como sempre, quando usou o tênis para parodiar a vida em seu ‘Match Point’. Para quem não se recorda, a imagem da bola tocando na fita, indecisa em qual lado vai cair, e isso modificaria totalmente os rumos do personagem.

Thiago Wild teve seu ‘Match Point’. No lance que poderia determinar a eliminação na estreia – e a quarta derrota seguida – do Rio Open em dois sets para outro jovem espanhol, o forehand disparado tocou na fita e caiu do lado do adversário.

Seu destino mudou totalmente a partir daí. Redescobriu forças, virou a partida com arrojo, levantou a torcida e sobreviveu a um duelo fisica e mentalmente exaustivo. Três dias depois, quase eliminou o então 32º do mundo Borna Coric, outro espetáculo de raça e competência.

Esse conjunto de atuações empolgantes lhe garantiu o convite para Santiago e aí… Passou por especialistas no saibro, como os argentinos Facundo Bagnis, Juan Ignacio Londero e Renzo Olivo, além de ganhar um set duríssimo antes do abandono da estrela da casa Cristian Garin, 18º do mundo e campeão de dois ATPs seguidos. Salvou aliás seis set-points com algazarra do público e tudo o mais.

Se alguém ainda duvidava de que seu tênis é de primeira grandeza, a decisão deste domingo diante de Casper Ruud colocou à prova todas suas qualidades. O forehand todo mundo já conhece e admira, mas vieram também 17 aces, deixadinhas preciosas, voleios firmes, contragolpes mortais e acima de tudo cabeça fria.

O jogo todo foi enroscado, games duros, muitos break-points, pressão constante. Ruud é dois anos mais velho, ganhou Buenos Aires há duas semanas e navega entre os top 70 desde maio, chegando à final deste domingo com 51 vitórias e quase 100 jogos de nível ATP. É uma diferença considerável.

Como reagiria Wild ao ver o norueguês ganhar o segundo set com quebra no finalzinho? Da melhor forma possível. Não mudou a determinação de atacar antes, mexer bem as pernas para achar o forehand agressivo e concentrar-se muito no próprio serviço. Abriu logo 2/0 e só perdeu dois pontos com o saque a partir daí, ou seja, não abriu qualquer fresta para o adversário se animar outra vez.

Sem qualquer demérito a grandes batalhadores como Rogerinho Silva, Thiago Monteiro ou João Menezes, o que anima ao ver Wild jogar nesse nível é seu poder de fogo. Ele tem um golpe que faz diferença e não tem medo de usá-lo. O saque progrediu muito e fica cada vez mais importante. Nos muitos break-points que favoreceram Ruud, cansou de empurrá-lo para o lado e forçar a devolução cruzada para que fizesse bom uso do forehand.

Agora 113º do mundo, a pergunta óbvia é o quão longe ele poderá ir a curto e médio prazos. Resposta ainda difícil porque agora todo mundo no circuito sabe do que é capaz. Irão procurar antídotos. E por aqui haverá muita expectativa e a inevitável cobrança. Sucesso no Brasil sempre será uma faca de dois gumes.

A boa notícia reside na versatilidade do paranaense, que gosta muito do piso duro e tem aptidões para tanto. Até maio, encara apenas 36 pontos a defender e há uma chance nada desprezível de ainda conquistar vaga direta em Roland Garros – o prazo vai até o começo de abril – e quem sabe  nas Olimpíadas.

Por fim, é imprescindível destacar o papel de seu treinador, João Zwetsch, alguém que já dirigiu tenistas com potencial técnico indiscutível, mas com problemas de controle emocional. E ainda assim os levou a seus melhores dias, casos de Flávio Saretta e Thomaz Bellucci. Além de possuir uma excelente visão do jogo, Zwetsch prega a serenidade e valoriza o diálogo. Sabe extrair o melhor e esse parece exatamente o caso de Wild.

E mais
– Diante do domingo histórico para o tênis brasileiro, resta falar bem pouco das excelentes conquistas de Novak Djokovic e Rafael Nadal nos ATP 500 de quadra dura. Nole até abriu um pouquinho a distância na ponta do ranking, mas haverá disputa pelo número 1 em Indian Wells, o que é sempre divertido.
– O sérvio ficou a um passo da derrota para Gael Monfils na semi, quando a vitória ficou nas mãos do francês, porém na contabilidade geral mostrou um tênis muito competitivo. O toque especial tem sido as deixadinhas inesperadas e desconcertantes.
– Rafa perdeu apenas 25 games em Acapulco, sofreu algumas falhas com o saque a favor, mas gostei de ver o uso do forehand ofensivo e a variedade de suas armas na hora do contragolpe. Ele ainda pode fazer mais com as paralelas, principalmente na hora dos jogos realmente duros.
– Para completar o grande fim de semana nacional, Marcelo Melo voltou aos títulos em Acapulco, o primeiro desde agosto, encerrando a chata sequência de vices. Sobe novamente para o top 5 do ranking e avança com Lukazs Kubot para o sexto na lista da temporada.

Brasil torce pelo Canadá para entrar na ‘nova Davis’
Por José Nilton Dalcim
14 de setembro de 2018 às 12:51

Com aparência confusa no seu lançamento, a nova Copa Davis vai ficando mais clara com a disputa neste final de semana das semifinais do Grupo Mundial e da repescagem. E a melhor das notícias: o Brasil tem grande chance de entrar na luta por vaga à elite da Davis e jogar a fase final da competição em 2019.

Explicando.

A Davis agora terá um qualificatório especial, sempre em fevereiro, que será composto por 24 países, em 12 duelos. Os vencedores ganham direito de jogar a fase final em local único (Madri ou Lille), em novembro. O quali mantém o sistema de rodízio de sede conforme histórico dos duelos entre os países.

Esse quali de 2019 será composto pelos quatro países quadrifinalistas deste ano (Bélgica, Alemanha, Itália e Cazaquistão) e os oito vencedores da repescagem deste fim de semana, em andamento. Esses 12 países serão cabeças de chave do quali.

Os outros 12 participantes serão os 6 europeus, 3 asiáticos e 3 americanos com melhor ranking na Davis após a rodada deste fim de semana. E aí que o Brasil entra com grande chance. Como Argentina enfrenta diretamente a Colômbia, um deles vai entrar direto no quali e o outro fica para o critério de ranking.

Como pode se ver no quadro abaixo, se o Canadá mantiver seu favoritismo em casa diante da Holanda, então argentinos/colombianos, chilenos e brasileiros entram pelo critério de melhor ranking nas Américas. E lembrando que o Brasil pode jogar em casa, conforme o adversário sorteado para fevereiro.

ranking
A fase final da Davis terá os quatro semifinalistas deste ano (França, Espanha, Croácia e EUA), esses 12 qualificados de fevereiro e mais dois convidados da Federação Internacional.

Zwetsch fica
Segundo o presidente da CBT, Rafael Westrupp, a ‘nova Davis’ é boa para o Brasil. “Em termos de regulamento, não mudou muito, porque temos participado nos últimos anos do grupo 1 ou da repescagem. Mas em termos financeiros, houve incremento tanto para os jogadores como para as federações nacionais”. A Davis agora dará premiação aos países conforme as vitórias obtidas e terá uma tabela separada de remuneração aos jogadores. Todo mundo sai ganhando.

Claro que a preocupação de momento é a fase ruim que os principais profissionais brasileiros atravessam, sem contarmos um único nome no top 100. O presidente da Confederação descarta mudança no comando da equipe e diz que João Zwetsch está mantido como capitão.

Tragédia anunciada
Por José Nilton Dalcim
18 de setembro de 2017 às 11:10

Desde a convocação do time, a impressão era de que a coisa não iria correr bem na repescagem da Copa Davis em Osaka. De forma um tanto incompreensível, Rogério Silva ficou de fora, mesmo sendo de longe o brasileiro de maior consistência e sucesso na temporada. Não se discute que Thomaz Bellucci jogue mais que ele, mas não se pode ignorar o momento de um atleta em um esporte individual e o de Bellucci é muito ruim, fisica e tecnicamente.

O clima só piorou depois que Bellucci pediu dispensa por motivos médicos. O capitão João Zwetsch tentou chamar Rogerinho e ele obviamente não atendeu. Primeiro porque alegou não ter sido sequer comunicado de que não iria ao Japão, algo inadmissível. Depois, porque havia feito um calendário para disputar ATPs na Rússia e Ásia. Restou convocar Guilherme Clezar, que disputava challengers no saibro, sem falar que entre abril e junho chegou a entrar até em futures. Acabou ainda dando vexame com um gesto totalmente inapropriado. Por que não se optou por João ‘Feijão’ Souza, bem mais experiente?

Ou seja, de um time coeso e com três bons jogadores para um piso sintético muito lento – alguma dúvida de que Rogerinho se daria muito bem nele? – e diante de um adversário totalmente desfigurado, sobraram cacos. Ainda assim, dava para ganhar. O número 42 Yuichi Sogita, que não era titular desde 2013, se mostrou nervoso e defensivo até mesmo contra Clezar. Monteiro desperdiçou boas oportunidades para derrotar o veterano Go Soeda e nem mesmo um quinto set adiantou. Para variar, só os duplistas mineiros justificaram. A atuação do canhoto cearense no quarto jogo foi estranha, cheia de erros, apressado, saque instável. Ainda assim teve 3/1 no primeiro e terceiro sets. Doeu.

Nem vou falar agora em Zonal Americano para 2018, porque enfrentar Chile, Equador e Venezuela é um tira-gosto sem graça. E já dá para ficar apreensivo se tivermos de sair contra Colômbia e República Dominicana. Talvez seja hora de trocarmos as peças do xadrez. Há muita gente falando nos bastidores que a troca de treinador é iminente. A eterna dúvida é saber quem ocuparia um cargo que exige experiência na quadra e um essencial bom relacionamento com tenistas e dirigentes. André Sá, que agora tenta ajudar Bellucci, surge como candidato natural. Talvez seja mesmo o momento.

Lá entre os realmente grandes, França e Bélgica confirmaram o fator casa e a escolha esperta do piso de saibro para atingir a final de novembro. Sem qualquer jogador em boa fase, os franceses preocupavam. A sorte foi pegar uma Sérvia desfalcada, apesar da boa atuação de Dusan Lajovic nas simples. Jo-Wilfried Tsonga virou herói e quem sabe as duas vitórias no fim de semana coloquem de novo sua carreira nos trilhos. Note-se que Lille usou o estádio de futebol da cidade improvisado e recebeu 18 mil espectadores.

A Bélgica também usou o saibro e 15 mil torcedores barulhentos para conter a Austrália. O quarto jogo foi um espetáculo. David Goffin fez talvez sua melhor partida do ano e segurou Nick Kyrgios, que usou os mais diversos recursos táticos para desestabilizar o adversário. Salvaram o fim de semana. Esta será a segunda vez em três anos que os belgas tentarão o título da Davis mesmo tendo Steve Darcis e Ruben Bemelmans como número 2. Vai ser difícil porque a França deve escolher um piso sintético mais veloz e coberto para o duelo de novembro.

A repescagem viu a queda da Argentina fora de casa para o Cazaquistão, mostra que Juan Martin del Potro faz toda a diferença do mundo. Mas a pequena zebra do fim de semana foi a derrota da nova geração russa diante da Hungria, ainda que no saibro. A Suíça e a Holanda conseguiram sobreviver com duas vitórias no domingo, Alemanha e Croácia tiraram o sonho de Portugal e Colômbia chegarem pela primeira vez no Grupo Mundial.