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Três heróis e algumas esperanças
Por José Nilton Dalcim
3 de dezembro de 2015 às 18:36

O tênis brasileiro não pode se queixar da temporada 2015. Ainda que tenha visto o calendário nacional de torneios profissionais encolher drasticamente – e pior ainda o circuito juvenil continua curto -, lá no topo do ranking quebrou barreiras. Pela primeira vez, desde 1999, terminamos uma temporada com dois top 50. Após 27 anos, temos um homem e uma mulher simultaneamente entre os 50 mais bem classificados. E tudo coroado pela histórica campanha de Marcelo Melo que nos deu o inédito Grand Slam de duplas masculinas. Depois, virou o segundo brasileiro na história a atingir a ponta do ranking, o que nos deixa na incrível posição de ser um dos raros sete países a ter feito um número 1 tanto em simples como em duplas na ATP.

Mas claro que ainda precisamos de mais, porque existe uma evidente lacuna atrás de Thomaz Bellucci e Teliana Pereira. Por alguns meses, João Souza se candidatou a ser o escudeiro de Bellucci, chegou a 69º do ranking com grandes atuações, mas perdeu completamente o ritmo e a confiança. Bia Haddad mostrou logo em fevereiro, no Rio, que poderia dar a esperada arracanda ao top 100, porém foi atrapalhada novamente por seus problemas físicos. São dúvidas cristalinas para 2016, assim como Guilherme Clezar, que fez uma temporada tímida, e a nova geração, que precisa rodar muito até atingir um nível competitivo de maior escalão.

O próprio Melo brilhou quase sozinho, na primeira temporada em que Bruno Soares perdeu terreno e não evoluiu. Inegável que o salto de Girafa surpreendeu, até porque era difícil cotar a ele e Ivan Dodig para um título em Roland Garros. A partir daí, Melo ganhou enorme confiança. Não perdeu qualidade ao alterar seus parceiros, muito menos sentiu a pressão pelo feito incrível de tirar a hegemonia dos irmãos Bryan. Esse foi para mim seu grande mérito: o amadurecimento.

Por tudo isso, a expectativa para 2016 não muda. Bellucci e Teliana têm um primeiro trimestre muito propício a bons resultados, ainda mais sobre o saibro, e novos feitos numéricos. Ainda é difícil apostar que poderão fazer algo expressivo nos Slam, mas sempre restará esperança de uma chave propícia e o ápice técnico-físico quando Roland Garros vier. A dupla mineira terá testes juntos e separados. Melo tem boa chance de manter a liderança pelo menos até a metade do ano e pode muito bem se candidatar a um novo Slam. Bruno troca para o canhoto Jamie Murray e será uma incógnita, com teórica chance nos pisos duros. Aí virão as Olimpíadas e os dois estarão obrigatoriamente entre os candidatos à medalha de ouro. Pode ser o ponto alto da temporada.

A nova geração está num bom caminho. Não se deve ter pressa. São garotos bem orientados, já com considerável experiência internacional, bom apoio financeiro e qualidades. Um pode ser mais físico, o outro mais habilidoso. O fato é que teremos de esperar o tempo certo – que pode ser mais longo do que nossa ansiedade suporta – até sabermos o tamanho do futuro.

Números e feitos
– Com 30 vitórias em 60 partidas de primeira linha, Bellucci jogou mais porém ainda ficou atrás de seu desempenho de 2010, em que ganhou 34 de 59. Importante salientar que ele tem o segundo melhor retrospecto dos profissionais brasileiros em vitórias em Masters 1000 (30-44) e em tiebreaks vencidos (83-79), além de aparecer como terceiro em vitória no set decisivo (65-65).
– Teliana ruma para ser a primeira tenista nacional a atingir US$ 1 milhão em premiação oficial. Está com US$ 750 mil e faturou mais de US$ 300 mil em seu ótimo 2015.
– Melo lidera o ranking nacional de vitórias em duplas, com 336, 28 a mais que Soares e 80 a mais que André Sá. Em percentual, no entanto, Bruno está um pouco à frente: 61,3% contra 60,7%. Soares também lidera em títulos e finais: 20-20 contra 19-18.
– Rogério Silva e João Souza podem assumir a liderança de vitórias em nível challenger. Estão com 222 e 217, perto das 224 de Thiago Alves, 242 de Marcos Daniel e 250 de Ricardo Mello. Os dois no entanto têm apenas 7 títulos contra 15 de Mello.
– André Miele se tornou o primeiro e único brasileiro a superar a casa das 300 vitórias em nível future. Está com 305, perseguido de perto por Leonardo Kirche (297) e Daniel Silva (293). Danielzinho é quem mais ergueu troféus: 17 títulos em 30 finais.
– Teliana se tornou a 14ª brasileira a ter figurado entre os top 50 de simples. Seu recorde pessoal de 43º é a 11ª mais alta marca da nossa história.
– Feijão foi outro a atingir marca pessoal expressiva em 2015, tendo chegado ao 69º lugar em abril.
– O único tenista nacional a quebrar a barreira do top 100 de forma inédita em 2015 foi a duplista Paula Gonçalves, em novembro.
– Roland Garros continua sendo o principal Slam para o Brasil em termos de variedade. Em Paris, somamos 3 títulos de simples (Guga), 2 de duplas (Maria Esther e Melo), 2 de mistas (Maria Esther e Koch) e 1 juvenil (Guga, de duplas). No entanto, faturamos mais no US Open, com 10 no total (4 simples, 4 duplas e 2 mistas).

Veja mais estatísticas do tênis brasileiro na nossa página especial do Saiba Mais.

Man in black
Por José Nilton Dalcim
31 de agosto de 2015 às 16:21

Rafael Nadal surpreendeu de forma positiva no encerramento da rodada desta segunda-feira. Diante de um adversário respeitável, ainda que aos 18 anos, o espanhol se vestiu todo de preto, mostrou muitas armas e prevaleceu tanto na defesa como no ataque. Jogando bem perto da linha e fazendo funcionar o primeiro saque, dominou os dois primeiros sets.

Depois, Borna Coric subiu de produção e começou a acertar mais, já que era necessário correr riscos. Chegou a abusar das paralelas e deu um tom muito legal aos dois sets finais, em que os dois tenistas se empenharam a fundo e produziram um belo tênis. Rafa fechou a dura estreia contra o 33º do ranking com 72% de acerto do primeiro saque, 88% de pontos vencidos com ele, 40 winners e 31 erros. E mais: ganhou 16 das 17 subidas à rede. Ou seja, forçou bastante e capitalizou uma vitória importante. Agora, não deve ter trabalho contra o saibrista Diego Schwartzman.

Pouco antes, um vexame. A russa Vitalia Diatchenko entrou em quadra sem a menor condição de competir e, com um saque ridículo, perdeu oito games seguidos até desistir diante de Serena Williams, frustrando quem pagou ingresso. Deveria ser penalizada por isso, mas infelizmente as entidades ainda não acharam a fórmula decente de evitar que um tenista entre num torneio apenas visando embolsar o prêmio de primeira rodada.

De forma diferente, houve seis abandonos na chave masculina, a maioria por contusão ao longo da partida, algo que vitimou gente de peso como Gael Monfils e Alexandr Dolgopolov. Uma pena.

Firme demais
Vocês se lembram quando Novak Djokovic perdeu pela última vez na rodada inaugural de um Grand Slam? É, faz muito tempo. Foi no Australian Open de 2006, quando dava seus passos iniciais nos grandes torneios.

Então é bem normal que João Souza saísse de quadra derrotado. Bom que ele conseguiu arrancar seus três games, nenhum ‘pneu’, mas poderia ter sacado bem melhor. A diferença de backhand é gritante.

O atual campeão Marin Cilic suou mais do que deveria contra o saibrista Guido Pella, mas ao menos passou pela primeira pressão. Vai ser bem mais interessante se ele enfrentar Dimitrov na terceira rodada. Aliás, seu caminho em seguida poderá ter o velho David Ferrer, que demorou para engatar no seu retorno às quadras.

Milos Raonic despejou seu poderoso saque, com vários acima dos 230 por hora, e pode ter uma sucessão de canhotos espanhóis: agora Verdasco, depois López e por fim Nadal. Que dureza.

Começo quente
E o US Open deu a largada já com dois favoritos dizendo adeus. Não se pode dizer que Kei Nishikori e Ana Ivanovic tenham decepcionado, mas certamente esvaziam o rol de estrelas em Nova York. E olha que o feminino já não é dos maiores.

Havia muita dúvida sobre a competência física de Nishikori, mas seu problema foi mental. Começou enferrujado, deu espaço para Benoit Paire atacar. Depois achou o tempo da devolução e ganhou consistência. Parecia que estava na mão: 6-4 no tiebreak, saque a favor. Aí bateu ansiedade, Paire não é nada bobo. Uma única quebra no quinto set e o finalista de 2014 nem passou da estreia.

Ivanovic também não perdeu para qualquer uma. Ao contrário, há de se respeitar a regularidade e determinação de Dominika Cibulkova, ainda que se esteja na quadra dura. E agorinha a tcheca Karolina Pliskova também disse adeus, logo ela que liderou o US Open Series e concorria ao bônus de US$ 1 milhão.

Aliás, que regulamento doido e oportuno: Pliskova não fez grande coisa no Series, mas jogou três etapas e dobrou os pontos, deixando Serena Williams em segundo. Ou seja, o bônus de Serena com o eventual título agora será no máximo a metade, ou seja US$ 500 mil. Eu não reclamaria.

O masculino ainda teve vitórias muito fáceis de Grigor Dimitrov, Jo-Wilfried Tsonga e David Goffin. O canhoto Feliciano López sofreu apenas no primeiro set e vai ser o adversário, provavelmente o derradeiro, de Mardy Fish.

E no feminino, Teliana Pereira ganhou seis games da número 13 Ekaterina Makarova, o que até é honroso. A brasileira perdeu cinco dos nove games de serviço, um ponto de seu arsenal que precisaria melhorar muito para que ela sofra menos desgaste.

Mais tarde volto para outra pincelada na rodada.

Primeiro passo
Por José Nilton Dalcim
30 de agosto de 2015 às 21:18

Com expectativa de feitos históricos para três megaestrelas, o US Open dá a largada às 12h desta segunda-feira ainda na condição de mais rico torneio do calendário internacional. Primeiro grande torneio a utilizar o tiebreak e a introduzir rodada noturna separada da diurna, a aposta é de recorde de bilheteria, causado pelo frenesi natural de quem tem Serena Williams, Novak Djokovic, Roger Federer e Rafael Nadal na mesma competição.

Serena testará seus nervos após a cerimônia de abertura. O jogo contra Vitalia Diatchenko tecnicamente não é um espetáculo em si, mas será a primeira oportunidade de mostrar que o quanto está ansiosa pela oportunidade de se tornar a terceira profissional a ganhar os quatro Slam numa mesma temporada. O torneio feminino perdeu Maria Sharapova antes mesmo de a bola rolar. Pena.

A rodada masculina tem muitas atrações. Novak Djokovic enfrenta nosso João Souza no final da tarde com absoluto favoritismo. É o primeiro passo para o terceiro título de Slam na temporada, o que o deixaria ao lado de Laver e Federer como únicos na fase profissional a atingir todas finais de Slam num mesmo ano.

Nadal fecha o dia num duelo interessante contra o garoto Borna Coric, que o venceu há pouco mais de um ano em circunstâncias especiais. Ainda que Rafa não seja o mesmo de antes, difícil imaginar que ele possa perder em qualquer tipo de quadra para um adversário que não seja um atacante por excelência, o que Coric está longe de ser. Em situação normal, a meu ver, ninguém pode sonhar em vencer Nadal ou Djokovic na base da regularidade.

Logo no começo do dia, os inesperados finalistas do ano passado voltam, porém na Louis Armstrong. O atual campeão Marin Cilic tem um jogo teoricamente fácil contra Guido Pella, mas o vice Kei Nishikori precisa tomar cuidado com Benoit Paire e quem sabe nos responder a quantas andam seus problemas físicos.

Ainda haverá o retorno de David Ferrer, o adeus de Mardy Fish (e de Venus?), os bons jogo para Raonic e Tsonga. Vale lembrar que, após quase três décadas, o US Open volta a ter a primeira rodada masculina dividida entre a segunda e a terça, sem se estender por um terceiro dia, já que acabou o Super-Saturday e as semifinais assim terão de acontecer na sexta-feira da segunda semana. Enfim, o bom senso. Ainda que a ameaça do mau tempo persista e só seja resolvida com o teto retrátil de 2016.

Números
– Federer entra no US Open com 291 vitórias de nível Grand Slam, 58 a mais do que o segundo colocado Connors, com 233. Djokovic soma 200 e precisa apenas de mais três para igualar Pete Sampras no sexto posto da Era Profissional. Logo atrás, vem Nadal, com 196 e portanto na luta para se tornar o sétimo a atingir as 200.
– Os três também têm marcas expressivas no quesito ‘finais de Slam disputadas’: Federer lidera com 26, seis a mais que Nadal, que já deixou para trás Lendl (19) e Sampras (18). Djokovic divide o quinto lugar com Laver (17) e superou Borg (16).
– Mesmo que chegue ao título, Federer ainda não será o mais velho campeão de Slam da fase profissional, uma vez que Ken Rosewall ganhou um aos 37 e outro aos 36, enquanto Andrés Gimeno faturou aos 34 e 306 dias.
– Esta é a 19ª vez (e 11ª seguida) que Serena entra como cabeça 1 num Slam. Em 10 oportunidades ganhou.
– Serena já ultrapassou uma das marcas de Graf, ao atingir 280 vitórias de Slam em Wimbledon deste ano. Ainda está 19 atrás de Chris Evert e a 26 de Navratilova.
– Se ganhar este Open, Serena chegará a cinco troféus seguidos de Slam, o que Graf completou em 1989. Apenas Navratilova e Court venceram seis consecutivos.
– Serena só leva desvantagem em finais de Slam disputadas: está com 26, enquanto Chris fez 34, Navratilova chegou a 32 e Graf, a 31.