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‘Melhores do Ano’ surpreende
Por José Nilton Dalcim
15 de dezembro de 2015 às 19:43

Sempre me divirto muito com a pesquisa ‘Melhores do Ano’, que criei há 15 anos. TenisBrasil abre a votação para internautas e faz uma apuração à parte com um grupo de especialistas, que mescla treinadores, jornalistas e empresários do ramo, todos intimamente ligados ao dia a dia do tênis internacional. Há divergências curiosas, o que mostra a diferença da visão do fã e espectador dos que enxergam o esporte um pouco mais dos bastidores.

A primeira grande surpresa desta votação veio logo na pergunta geralmente mais importante: o fato do ano. Parecia barbada que fosse votada a conquista dos três Grand Slam por parte de Novak Djokovic, mas nem mesmo entre os internautas foi assim. O sérvio venceu, com 40,2% dos votos. Na pesquisa entre os convidados, deu o título inesperado de Flavia Pennetta no US Open. com 34,2%. Não menos curioso: a façanha da Grã-Bretanha na Copa Davis ficou em segundo lugar nas duas listas.

Um item que me chamou a atenção foi o “maior feito de Djokovic” em 2015. Nas duas apurações, venceu “disputar 15 finais consecutivas”, com 38% dos internautas e 47% dos especialistas. Bem distante, ficou “ganhar três Slam e ser vice em outro”, o que para mim era de longe a resposta mais óbvia. Vivendo e aprendendo.

Aguardei muito para saber qual teria sido “o jogo mais marcante do ano”, até porque propositadamente evitei o termo “melhor partida”. Então deu a notável final de Roland Garros, com margem folgada para aquele que eu considerei o efetivamente melhor do ano, o duelo entre Fognini e Nadal no US Open.

A derrota de Serena Williams para Roberta Vinci ficou bem marcada em todos. Venceu como jogo marcante do ano por margem enorme (60% e 71%) e também fato surpreendente da temporada e jogo de maior ‘zebra’. Achei que a conquista de Stan Wawrinka em Paris fosse prevalecer pelo menos entre os internautas, mas levou uma lavada de 34% a 21%.

Outra unamidade foi a bola fora de Nick Kyrgios, flagrada em Cincinnati, que foi eleito maior burburinho com incríveis 66% dos internautas e 84% dos especialistas, assim como as vaias que o australiano recebeu nos jogos seguintes virou o “fiasco”. Votações expressivas receberam Garbine Muguruza para quem mais evoluiu na temporada e Alexander Zverev, de longe a revelação.

Na série de previsões, a maioria acha que Djokovic ganhará Roland Garros e Nadal voltará a lutar pelos grandes títulos em 2016, mas o número 1 continuará com o sérvio ( votos acima dos 80% nas duas listas). O item “Federer, Murray e Nadal irão ameaçar mais Djokovic” levou apenas 9,6% dos votos do público e 2,6% do painel selecionado. Que descrédito!

Vale ainda ressaltar a diferença de expectativa sobre quem pode ser um top 10 inédito em 2016. Os internautas foram de David Goffin, com Borna Coric e Dominic Thiem vindo atrás. Já os especialistas optaram por Coric bem à frente de Kyrgios e Thiem. Quem tem maior chance de ganhar seu primeiro Slam é disparado Garbine Muguruza. Ínfimas votações foram para David Ferrer e Tomas Berdych.

A ala dedicada ao tênis brasileiro teve é claro poucas divergências. O número 1 de Marcelo Melo e a derrota de Feijão na Copa Davis foram os mais votados com enorme margem, assim como Orlando Luz como melhor aposta da nova geração. Sobre quem poderá chegar enfim ao top 100, Bia Haddad tem quase metade dos votos, mas Guilheme Clezar foi muito lembrado entre o público e André Ghem, pelo painel especial.

Por fim, perguntamos o que você faria se tivesse US$ 5 milhões para investir no tênis brasileiro. O público elegeu “construir 250 quadras públicas”, com 41%, mas os especialistas preferiram jogar “na formação de base do tênis brasileiro”, com 48,6%. Respostas perfeitas. Eu jogaria metade da grana em cada lugar. E isso não é tanto dinheiro assim. Nem para o homem mais rico do Brasil, aliás um ótimo ex-jogador de Copa Davis, nem se comparado ao triste inventário nosso de cada dia da ‘Lava Jato’.

Quem quiser ver os resultados completo dos ‘Melhores do Ano’, clique aqui

Três heróis e algumas esperanças
Por José Nilton Dalcim
3 de dezembro de 2015 às 18:36

O tênis brasileiro não pode se queixar da temporada 2015. Ainda que tenha visto o calendário nacional de torneios profissionais encolher drasticamente – e pior ainda o circuito juvenil continua curto -, lá no topo do ranking quebrou barreiras. Pela primeira vez, desde 1999, terminamos uma temporada com dois top 50. Após 27 anos, temos um homem e uma mulher simultaneamente entre os 50 mais bem classificados. E tudo coroado pela histórica campanha de Marcelo Melo que nos deu o inédito Grand Slam de duplas masculinas. Depois, virou o segundo brasileiro na história a atingir a ponta do ranking, o que nos deixa na incrível posição de ser um dos raros sete países a ter feito um número 1 tanto em simples como em duplas na ATP.

Mas claro que ainda precisamos de mais, porque existe uma evidente lacuna atrás de Thomaz Bellucci e Teliana Pereira. Por alguns meses, João Souza se candidatou a ser o escudeiro de Bellucci, chegou a 69º do ranking com grandes atuações, mas perdeu completamente o ritmo e a confiança. Bia Haddad mostrou logo em fevereiro, no Rio, que poderia dar a esperada arracanda ao top 100, porém foi atrapalhada novamente por seus problemas físicos. São dúvidas cristalinas para 2016, assim como Guilherme Clezar, que fez uma temporada tímida, e a nova geração, que precisa rodar muito até atingir um nível competitivo de maior escalão.

O próprio Melo brilhou quase sozinho, na primeira temporada em que Bruno Soares perdeu terreno e não evoluiu. Inegável que o salto de Girafa surpreendeu, até porque era difícil cotar a ele e Ivan Dodig para um título em Roland Garros. A partir daí, Melo ganhou enorme confiança. Não perdeu qualidade ao alterar seus parceiros, muito menos sentiu a pressão pelo feito incrível de tirar a hegemonia dos irmãos Bryan. Esse foi para mim seu grande mérito: o amadurecimento.

Por tudo isso, a expectativa para 2016 não muda. Bellucci e Teliana têm um primeiro trimestre muito propício a bons resultados, ainda mais sobre o saibro, e novos feitos numéricos. Ainda é difícil apostar que poderão fazer algo expressivo nos Slam, mas sempre restará esperança de uma chave propícia e o ápice técnico-físico quando Roland Garros vier. A dupla mineira terá testes juntos e separados. Melo tem boa chance de manter a liderança pelo menos até a metade do ano e pode muito bem se candidatar a um novo Slam. Bruno troca para o canhoto Jamie Murray e será uma incógnita, com teórica chance nos pisos duros. Aí virão as Olimpíadas e os dois estarão obrigatoriamente entre os candidatos à medalha de ouro. Pode ser o ponto alto da temporada.

A nova geração está num bom caminho. Não se deve ter pressa. São garotos bem orientados, já com considerável experiência internacional, bom apoio financeiro e qualidades. Um pode ser mais físico, o outro mais habilidoso. O fato é que teremos de esperar o tempo certo – que pode ser mais longo do que nossa ansiedade suporta – até sabermos o tamanho do futuro.

Números e feitos
– Com 30 vitórias em 60 partidas de primeira linha, Bellucci jogou mais porém ainda ficou atrás de seu desempenho de 2010, em que ganhou 34 de 59. Importante salientar que ele tem o segundo melhor retrospecto dos profissionais brasileiros em vitórias em Masters 1000 (30-44) e em tiebreaks vencidos (83-79), além de aparecer como terceiro em vitória no set decisivo (65-65).
– Teliana ruma para ser a primeira tenista nacional a atingir US$ 1 milhão em premiação oficial. Está com US$ 750 mil e faturou mais de US$ 300 mil em seu ótimo 2015.
– Melo lidera o ranking nacional de vitórias em duplas, com 336, 28 a mais que Soares e 80 a mais que André Sá. Em percentual, no entanto, Bruno está um pouco à frente: 61,3% contra 60,7%. Soares também lidera em títulos e finais: 20-20 contra 19-18.
– Rogério Silva e João Souza podem assumir a liderança de vitórias em nível challenger. Estão com 222 e 217, perto das 224 de Thiago Alves, 242 de Marcos Daniel e 250 de Ricardo Mello. Os dois no entanto têm apenas 7 títulos contra 15 de Mello.
– André Miele se tornou o primeiro e único brasileiro a superar a casa das 300 vitórias em nível future. Está com 305, perseguido de perto por Leonardo Kirche (297) e Daniel Silva (293). Danielzinho é quem mais ergueu troféus: 17 títulos em 30 finais.
– Teliana se tornou a 14ª brasileira a ter figurado entre os top 50 de simples. Seu recorde pessoal de 43º é a 11ª mais alta marca da nossa história.
– Feijão foi outro a atingir marca pessoal expressiva em 2015, tendo chegado ao 69º lugar em abril.
– O único tenista nacional a quebrar a barreira do top 100 de forma inédita em 2015 foi a duplista Paula Gonçalves, em novembro.
– Roland Garros continua sendo o principal Slam para o Brasil em termos de variedade. Em Paris, somamos 3 títulos de simples (Guga), 2 de duplas (Maria Esther e Melo), 2 de mistas (Maria Esther e Koch) e 1 juvenil (Guga, de duplas). No entanto, faturamos mais no US Open, com 10 no total (4 simples, 4 duplas e 2 mistas).

Veja mais estatísticas do tênis brasileiro na nossa página especial do Saiba Mais.

Man in black
Por José Nilton Dalcim
31 de agosto de 2015 às 16:21

Rafael Nadal surpreendeu de forma positiva no encerramento da rodada desta segunda-feira. Diante de um adversário respeitável, ainda que aos 18 anos, o espanhol se vestiu todo de preto, mostrou muitas armas e prevaleceu tanto na defesa como no ataque. Jogando bem perto da linha e fazendo funcionar o primeiro saque, dominou os dois primeiros sets.

Depois, Borna Coric subiu de produção e começou a acertar mais, já que era necessário correr riscos. Chegou a abusar das paralelas e deu um tom muito legal aos dois sets finais, em que os dois tenistas se empenharam a fundo e produziram um belo tênis. Rafa fechou a dura estreia contra o 33º do ranking com 72% de acerto do primeiro saque, 88% de pontos vencidos com ele, 40 winners e 31 erros. E mais: ganhou 16 das 17 subidas à rede. Ou seja, forçou bastante e capitalizou uma vitória importante. Agora, não deve ter trabalho contra o saibrista Diego Schwartzman.

Pouco antes, um vexame. A russa Vitalia Diatchenko entrou em quadra sem a menor condição de competir e, com um saque ridículo, perdeu oito games seguidos até desistir diante de Serena Williams, frustrando quem pagou ingresso. Deveria ser penalizada por isso, mas infelizmente as entidades ainda não acharam a fórmula decente de evitar que um tenista entre num torneio apenas visando embolsar o prêmio de primeira rodada.

De forma diferente, houve seis abandonos na chave masculina, a maioria por contusão ao longo da partida, algo que vitimou gente de peso como Gael Monfils e Alexandr Dolgopolov. Uma pena.

Firme demais
Vocês se lembram quando Novak Djokovic perdeu pela última vez na rodada inaugural de um Grand Slam? É, faz muito tempo. Foi no Australian Open de 2006, quando dava seus passos iniciais nos grandes torneios.

Então é bem normal que João Souza saísse de quadra derrotado. Bom que ele conseguiu arrancar seus três games, nenhum ‘pneu’, mas poderia ter sacado bem melhor. A diferença de backhand é gritante.

O atual campeão Marin Cilic suou mais do que deveria contra o saibrista Guido Pella, mas ao menos passou pela primeira pressão. Vai ser bem mais interessante se ele enfrentar Dimitrov na terceira rodada. Aliás, seu caminho em seguida poderá ter o velho David Ferrer, que demorou para engatar no seu retorno às quadras.

Milos Raonic despejou seu poderoso saque, com vários acima dos 230 por hora, e pode ter uma sucessão de canhotos espanhóis: agora Verdasco, depois López e por fim Nadal. Que dureza.

Começo quente
E o US Open deu a largada já com dois favoritos dizendo adeus. Não se pode dizer que Kei Nishikori e Ana Ivanovic tenham decepcionado, mas certamente esvaziam o rol de estrelas em Nova York. E olha que o feminino já não é dos maiores.

Havia muita dúvida sobre a competência física de Nishikori, mas seu problema foi mental. Começou enferrujado, deu espaço para Benoit Paire atacar. Depois achou o tempo da devolução e ganhou consistência. Parecia que estava na mão: 6-4 no tiebreak, saque a favor. Aí bateu ansiedade, Paire não é nada bobo. Uma única quebra no quinto set e o finalista de 2014 nem passou da estreia.

Ivanovic também não perdeu para qualquer uma. Ao contrário, há de se respeitar a regularidade e determinação de Dominika Cibulkova, ainda que se esteja na quadra dura. E agorinha a tcheca Karolina Pliskova também disse adeus, logo ela que liderou o US Open Series e concorria ao bônus de US$ 1 milhão.

Aliás, que regulamento doido e oportuno: Pliskova não fez grande coisa no Series, mas jogou três etapas e dobrou os pontos, deixando Serena Williams em segundo. Ou seja, o bônus de Serena com o eventual título agora será no máximo a metade, ou seja US$ 500 mil. Eu não reclamaria.

O masculino ainda teve vitórias muito fáceis de Grigor Dimitrov, Jo-Wilfried Tsonga e David Goffin. O canhoto Feliciano López sofreu apenas no primeiro set e vai ser o adversário, provavelmente o derradeiro, de Mardy Fish.

E no feminino, Teliana Pereira ganhou seis games da número 13 Ekaterina Makarova, o que até é honroso. A brasileira perdeu cinco dos nove games de serviço, um ponto de seu arsenal que precisaria melhorar muito para que ela sofra menos desgaste.

Mais tarde volto para outra pincelada na rodada.